



O preo de ser
diferente


Mnica de Castro
 ditado por Leonel

O preo de ser
Diferente




       Este livro  dedicado
       a todos aqueles que,
        de uma forma ou de outra,
       foram alvo de algum
       tipo de preconceito.
        Porque o amor no conhece fronteiras
        nem esbarra na conveno dos limites.




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   Contra-Capa
        Quando a sociedade estabeleceu um modelo de normalidade, criou uma guerra antropolgica com a natureza humana.
        A diversidade natural  real e em torno dela age a funcionalidade da ecologia, que trabalha em favor do progresso de todos.
        Cada um de ns  nico, com um temperamento original relativo s necessidades essenciais do progresso pessoal e coletivo. Quem resolve seguir o modelo se 
ilude bloqueando a expresso de sua alma, criando insegurana, doena, desiluso e sofrimento.
        Os iludidos do mais importncia s aparncias do que  verdade, que prioriza os valores eternos do esprito.
        Servos do mundo, sofrem o mundo.
        Em razo disso, quem assume sua verdade e age de acordo com os valores da Vida, mesmo enfrentando o preconceito e pagando O PREO DE SER DIFERENTE, passa 
credibilidade, obtm respeito e se realiza.
        Porm os escravos do preconceito esto se candidatando no futuro a experimentar as mesmas experincias que criticaram, a fim de aprender a conviver com as 
diferenas.
        FRATERNIDADE  o resultado da capacidade de apreciar as diferenas.
        LUIZ GASPARETTO

















Capitulo 1

       Fazia um calor infernal quando as portas da escola publica em que Romero estudava se abriram. O menino saiu esbaforido, esfregando a testa e o pescoo para 
enxugar o suor. Caminhou alguns metros, at que chegou ao ponto de onibus e parou. Do outro lado da rua, os colegas de turma passaram e apontaram para ele. Em seguida 
pararam, e cochicharam algo no ouvido uns dos outros, soltando risadas sarcsticas.
       -  Olha l a bichinha! -  cantarolou um deles, apontando o dedo para Romero e rindo feito um demnio.
       Na mesma hora, Romero sentiu o rosto arder. Abraou a pasta e desatou a correr, sob as risadas dos outros meninos, que continuavam a apontar para ele e a 
gritar:
       -  L vai a bichona!
       -  Pega, pega o veadinho!
       -  Ai, ai, boneca...
       Romero correu tanto que nem percebeu que disparava a caminho de casa. Somente quando viu o porto de ferro do seu jardim foi que se deu conta de que havia 
chegado. Apoiou a mo no porto, tentando respirar e  lutando para no chorar. Por que no o deixavam em paz? Por que viviam acusando-o de algo que no era?
       -  Veio a p Romero? -  Era a voz de Judite que vinha chegando da faculdade. -  O que houve? Voc est plido.
       Judite era a irm querida, a nica que parecia realmente se importar com ele. Cinco anos mais velha, ingressara na faculdade de letras e era muito bela. Romero 
correu para seus braos e desatou a chorar. Era sempre assim: os meninos da rua ou da escola implicavam com ele, e era Judite quem sempre o defendia e consolava.
       -  O que lhe fizeram? - prosseguiu ela, com ar bondoso. - Foram os garotos de novo? Debocharam de voc?
       -  Ah, Judite, no sei por que fazem isso comigo. No sou nada disso que eles dizem que sou!
       -  Sei que no, querido. E voc no devia se importar.
       -  Mas eu me importo. Sabe o que papai vai dizer.
       -  Ele no vai dizer nada. Voc no precisa contar.
       -  Mas ele tem um jeito de adivinhar as coisas...
       Era verdade. O pai de Romero era inspetor na escola em que ele estudava, trabalhando em dois turnos para sustentar a famlia. Era honesto e correto, gozando 
de prestgio com o diretor. No havia nada que acontecesse na escola que ele no descobrisse.
       -  Voc acha que algum viu e vai contar a ele? - perguntou Judite.
       -  No sei...
       -  Mas o que lhe fizeram desta vez? Bateram em voc? Xingaram?
       -  E. Eu estava no ponto, esperando a conduo. Os meninos passaram e me chamaram de bichinha, de veado... S porque no tenho namorada...
       Romero fez um beicinho trmulo e agarrou-se a Judite, que acariciou e beijou seus cabelos.
       -  Vamos entrar. Se papai chegar e brigar com voc, direi que no foi culpa sua. E no foi mesmo. Que culpa tem se os garotos implicam com voc?
       -  Voc sabe que papai vive me cobrando coisas. S porque no quis ir ao tal bordel, no quer dizer que no sou homem.
       -   claro que no! Papai  um tolo. Pensa que sair por a deitando com qualquer vagabunda  sinal de masculinidade. Mas voc no precisa ir, se no quiser. 
No tem de provar nada a ningum. Nem a ele. No dia em que conhecer uma garota legal, vai ver como as coisas mudam.
       Romero silenciou-se. Achava muito difcil conhecer uma garota legal. Quer dizer, conhecer, conhecia muitas garotas legais, mas nenhuma que o fizesse mudar. 
Mudar em qu ? Ele era homem, disso no tinha dvida... Mas, ento, por que no se interessava pelas meninas? Judite dizia-lhe que ele era muito novo e ainda no 
conhecera a garota certa. Mas como seria a garota certa? Loura? Morena? Alta? Baixa? Gorda? Magra? Ele no sabia. S o que sabia era que algo dentro dele lhe dizia 
que jamais encontraria a garota certa, o que lhe causava imenso desgosto, um quase desespero. O que o pai faria se ele no namorasse ningum?
       Enquanto Romero se trocava, ouviu o bater das panelas na cozinha, e a voz da me se elevou, falando algo com Judite. Mesmo sem entender, Romero sabia que 
falavam dele. Judite, na certa, contara  me o que acontecera. A me era uma mulher muito bondosa, mas tinha medo do marido e no ousava contrari-lo. Por mais 
que tentasse proteger o filho, no se atrevia a contestar as ordens do marido, e Romero, muitas vezes, apanhava sem que a me sequer levantasse os olhos.
       Apenas Judite interferia. Ela era danada! Meiga e decidida. Educada e atrevida. Carinhosa e corajosa. Romero queria ser como Judite quando crescesse. Ah! 
Se tivesse nascido menina, nada daquilo estaria acontecendo. Ele poderia ser ele mesmo, sem ter de corresponder s expectativas do pai. Romero era medroso e arredio, 
tmido e calado, mas sabia ser generoso e sentia que seu corao era um oceano de sentimentos. Era sensvel, gostava de plantas e de animais. Adorava crianas e 
respeitava os idosos. Era um menino afvel e extremamente educado, o que o pai interpretava como sinnimo de fragilidade. "Um homem deve ser forte e destemido", 
era o que dizia. "Deve ser viril, msculo e proteger as mulheres, jamais se misturar com elas ou com suas bobagens."
       Mas Romero adorava as "bobagens femininas". Gostava de poesia, de apreciar a natureza, de escutar o canto dos pssaros. Amava ver a irm vestir-se para sair, 
passar batom, empoar o rosto, levantar o cabelo em um coque ou rabo-de-cavalo. Chorava com as fitas de cinema, emocionava-se at com novelas. Lia romances e mais 
romances, derretendo-se com os beijos e as carcias que os personagens trocavam.
       Em nada disso Romero conseguia vislumbrar problema ou defeito. Mas o pai se aborrecia e gritava com ele todas as vezes que o flagrava admirando os vestidos 
da irm ou lendo um romance gua-com-acar. Pior ainda quando Romero apanhava na rua ou chegava  casa choroso, magoado com as piadinhas que os colegas faziam. 
Ele no entendia. No fazia nada para provocar tantos gracejos. Nem desmunhecava. Mas o fato era que todos duvidavam de sua masculinidade, c o pai ficava furioso 
quando ele voltava para casa fugido, aps ter sido humilhado pelos outros garotos.
       -  Romero! Venha c!
       O garoto voltou de seu devaneio e teve um sobressalto. Silas, o pai, acabara de chegar e, pelo tom de voz, estava claro que j ficara sabendo do ocorrido. 
O garoto terminou de se trocar e foi para a sala, onde o pai caminhava de um lado para o outro.
       -  Mandou me chamar? - indagou com voz mida.
       O pai deu um salto sobre ele e agarrou-lhe a orelha, puxando-a com violncia e fazendo com que ele se sentasse no sof.
       -  Seu marics! - vociferou. - Quando vai aprender que no se deixa que brinquem com a honra de um homem?
       -  Eu no fiz nada... - murmurou Romero, j sentindo o peito estrangular, uma vontade louca de chorar.
       -  Voc, no! Mas aqueles cretinos daqueles garotos chamaram voc de bichinha novamente!
       Torceu a orelha do filho com mais fora, e Romero choramingou sentido:
       -  Ai! Por favor, pai, no tive culpa. Foram eles que me xingaram...
       -  Porque voc deixou. Devia ter reagido.
       -  O que eu poderia fazer?
       -  Sei l, ter atirado uma pedra na cabea deles, dado um murro no queixo, qualquer coisa.
       -  Eles estavam do outro lado da rua.
       -  Papai! - foi o grito de Judite, que correu at onde eles estavam. - Solte-o. No v que o est machucando?
       Embora contrariado, Silas soltou o filho, no sem antes o ofender mais uma vez:
       -  Seu mariquinhas! Voc s faz me envergonhar.
       Saiu desabalado para a cozinha, onde sua mulher,  beira do fogo, fungava com os olhos cheios d'gua.
       -  Isso  culpa sua, Nomia! - berrou ele. - Quem manda criar o menino feito uma donzela?
       -  No  verdade, Silas - contestou ela, magoada. - Romero  um menino de ouro.
       -  Ele  um marics! Os outros tm razo. Vive se escondendo, s quer saber de ficar grudado na barra da saia da irm. E voc estimula esse comportamento.
       -  Eu! ?
       -  , voc. Voc c Judite. Por isso ele nem tem namorada.
       -  Mas ele s tem treze anos!
       -  E o que  que tem isso? Na idade dele, eu j conhecia mulher.
       -  Voc est exagerando. Romero  um menino. Gosta de jogar bola e soltar pipa...
       -  Se fosse assim, eu no estaria preocupado nem me importaria com o futuro dele. Mas ele est mais para brincar de bonecas e casinha do que para soltar pipa.
       -  Voc se preocupa demais. Romero  s uma criana. Nem tem idade para se interessar por mulheres. Mais tarde, voc vai ver como ele muda.
       -  Mais tarde? Que mais tarde o qu? Vou resolver isso  agora.
       Voltou s pressas para a sala, onde Romero via televiso, agarrado a Judite. Silas desligou o aparelho e estacou em frente a eles. Dedo em riste, disparou:
       -  Escute aqui, Romero, j perdi a pacincia com voc. Hoje voc vai aprender a ser homem.
       -  O que quer dizer com isso, pai? - interveio Judite.
       -  No se meta. No  problema seu. O assunto agora  de homem para homem.
       -  Mas, pai - lamentou-se Romero -, o que o senhor vai fazer comigo ?
       -  Vou ensin-lo a ser um homem de verdade. E ai de voc se me decepcionar!
       Saiu batendo a porta. Naquele dia, Romero quase no comeu. S pensava nas palavras do pai. Embora ele no tivesse dito abertamente, Romero estava certo de 
que pretendia lev-lo ao encontro de alguma mulher. Essa idia causou-lhe pnico. O que faria diante de um corpo nu de mulher? E se ela o despisse tambm? Na certa, 
morreria de vergonha e no conseguiria fazer nada com ela, o que deixaria o pai ainda mais furioso.
       Tentou conversar com Judite, mas ela ajudava a me com as costuras. Nomia, todas as tardes, costurava para fora, e era assim que a famlia conseguia equilibrar 
o oramento domstico sem que Judite tivesse necessidade de trabalhar fora para ajudar.
       -  Mame... - comeou a jovem, enquanto pregava botes numa blusa.
       -  O que foi?
       -  Por que no faz nada?
       -  Fazer o qu?
       -  Por que no impede papai de levar Romero... voc sabe ... Nomia pousou a costura sobre os joelhos e olhou para a filha
       por cima dos culos.
       -  No h nada que eu possa fazer. Voc conhece seu pai to bem quanto eu e sabe como ele  teimoso. E, depois, talvez seja bom para Romero. Vai acabar com 
essa agonia.
       Judite fixou-a com ar pensativo e tornou com voz grave:
       -  E se Romero no gostar?
       -  Como assim, no gostar? Romero pode ser s um menino, mas  homem. Ele est assustado, mas vai acabar se acostumando.
       -  Eu no teria tanta certeza.
       -  O que est querendo dizer, Judite? Que seu irmo no gosta de mulher?
       -  No  isso. Mas Romero me parece to inseguro...
       -  Seu pai acha que j  hora de acabar com os medos e as inseguranas dele, e eu concordo.
       Concordava, nada. Judite sabia que ela estava mentindo. No fundo, morria de pena do filho, mas no tinha coragem de enfrentar o marido. E ela tambm no tinha 
como ajudar. S lhe restava esperar e torcer para que Romero se sasse bem.
       Quando o pai chegou para busc-lo, j passava das nove da noite. Naquele dia, Silas no jantou em casa, e Romero imaginou que ele deveria ter ido a algum 
prostbulo combinar tudo. Embora percebesse o nervosismo do filho, Silas no fez nenhum comentrio. Limitou-se a abrir a porta do quarto e dizer laconicamente:
       -  Venha.
       Romero obedeceu. Em silncio, ganharam a rua, caminhando em direo ao ponto de nibus. Da calada, Romero pde ver o rosto da irm pela janela, tentando 
transmitir-lhe coragem.
       -  Boa sorte - foi o que ele leu em seus lbios. Caminharam at o ponto sem trocar uma palavra. Entraram no
       nibus, que rodou alguns minutos, at que desceram em frente a seu destino. Era uma casinha toda pintada de branco, com janelas azuis e vasos de flores nos 
peitoris. Romero no conseguiu ocultar a surpresa. Esperava algo bem diferente daquilo. Mas o pai, sabendo de seus receios, escolheu uma moa j conhecida de seus 
tempos de solteiro, que trabalhava por conta prpria. Ela cobrava caro, mas valeria a pena.
       Silas bateu e esperou. Pouco depois, a porta abriu-se, e uma mulher de trinta e poucos anos, vestida numa camisola vermelha transparente, rosto excessivamente 
pintado, veio abrir.
       -  Boa noite, Domitila - cumprimentou Silas, com certa intimidade.
       Ela deu um sorriso e chegou para o lado, dando passagem para que ambos pudessem entrar.
       -  Ento,  esse o rapazinho?
       -  , sim. O menino est meio assustado,  a primeira vez... Voc sabe como .
       Ainda sorrindo, Domitila aproximou-se e foi segurando Romero pela mo, puxando-o para outro cmodo.
       -  Pode deix-lo comigo. Volte daqui a uma hora.
       -  Lembre-se - sussurrou Silas ao ouvido de Romero. - No me decepcione.
       Saiu e foi procurar um bar onde pudesse fazer hora at Domitila terminar com Romero.
       Na casa, o menino tremia. Nem sabia se a mulher era bonita ou feia, pois no ousava levantar o rosto. Estava envergonhado, com medo, inseguro. Ela se acercou 
dele e, sem dizer nada, comeou a toc-lo em suas partes ntimas. Assustado, tentou fugir, mas ela no lhe deu chance. Estava to apavorado que quase urinou nas 
calas.
       -  Que... quero... ir ao ba... banheiro... - gaguejou.
       Com o dedo, Domitila indicou-lhe onde ficava o banheiro, e ele correu para l. Quando voltou, ela continuava no mesmo lugar em que a deixara, s que, agora, 
completamente nua. Romero quis chorar, mas ela nem lhe deu tempo para isso. Aproximou-se novamente e fez nova investida, acariciando-o e beijando-o por toda parte. 
Romero queria fugir, mas no sabia para onde. E, depois, havia o pai. Se Romero o decepcionasse, nem queria pensar no que o pai faria. Era at capaz de lhe dar uma 
surra.
       Mais por medo do que por desejo, Romero conseguiu fazer o que esperavam dele. Foi tudo muito rpido. Ao sentir que ele correspondia, Domitila deitou-se na 
cama e puxou-o para cima dela, guiando-o apressadamente. Em poucos segundos, estava tudo terminado.
       -  Pronto, meu bem - falou ela com fingido carinho, empurrando-o para o lado. -J terminou. Pode sair de cima de mim.
       Na mesma hora, Romero correu para o banheiro e vomitou. Sentia-se arrasado, violado em sua intimidade, invadido em seus brios. Com o p, fechou a porta do 
banheiro e desatou a chorar, torcendo para que Domitila no fosse perguntar o que estava acontecendo. Mas ela parecia nem ligar. No fundo, julgara-o mesmo um marics, 
mas no seria ela que iria questionar aquilo. Se Silas dizia que o menino era msculo, isso era l com ele. Cumprira sua parte e esperava receber seu dinheiro.
       Quando Silas voltou, encontrou-os sentados no sof da sala: ele bebendo um refrigerante; ela, uma cerveja. Como no tinham o que conversar, permaneceram bebericando, 
sem trocar palavra.
       -  E ento? - perguntou Silas, ansioso. - Como foi? Correu tudo bem?
       -  Muito bem - respondeu Domitila, tentando parecer interessada. - O rapaz escondia o jogo.  um garanho. Tive de implorar para que parasse.
       -  No me diga! - tornou Silas, todo orgulhoso, nem percebendo o ar de espanto do filho. - Eu no lhe falei? O que ele tinha era vergonha.
       -  . Os quietinhos so os piores!
       Silas pagou Domitila e agarrou Romero pelo brao, saindo com ele em estado de quase euforia.
       -  Muito bem, meu filho - elogiou. - Sabia que voc no iria me decepcionar. Garanho, hein? Quem diria? Espere s at eu contar para o pessoal. Quero ver 
quem  que vai mexer com voc depois disso. Vo todos morrer de inveja, isso sim.
       Romero enrubesceu. Como poderia encarar algum depois daquilo, ainda mais se o pai contasse aos outros o que acontecera? O que faria para esconder a vergonha 
que sentia?
       Silas no estava preocupado com os sentimentos de Romero. Estava to feliz que nem sequer se lembrara de perguntar ao jovem se havia gostado ou como se sentira. 
A nica coisa em que pensava era que seu filho, ao contrrio do que diziam, no era nenhuma bicha.
       S que Romero, longe de compartilhar a alegria do pai, sentia-se frustrado e deprimido, desejando jamais ter de passar por aquilo novamente.
       Nos dias que se seguiram, as coisas acabaram se acalmando. Silas, satisfeito com o desempenho do filho, vivia apregoando aos quatro cantos o quo macho ele 
era. Apesar de envergonhado, Romero at que gostou. As crianas pararam de mexer com ele, e ele podia ir e vir da escola sem maiores problemas.
       Nomia tambm ficou satisfeita. O que mais queria era paz no lar. E, depois, o sucesso de Romero tirara-lhe um grande peso. Tinha medo de que ele no fosse 
capaz, o que causaria uma tempestade em casa. Mas Romero sara-se muito bem, segundo o que o marido lhe dissera, e ela estava feliz. Silas, muito discretamente, 
contara-lhe que levara o garoto a uma prostituta muito bem recomendada. Nomia, apesar da vergonha e da timidez, aquiescera com alvio.
       Apenas Judite no se convencia. Sabia, pelo olhar de Romero, que a experincia devia ter sido das piores. Conhecia o irmo muito bem para saber quando ele 
no estava feliz. Romero parecia aliviado porque se livrara da perseguio do pai, mas parecia muito pouco a vontade em sua nova posio de homem.
       No domingo, Judite convidou Romero para ir ao cinema. Estavam passando uma nova fita, Tubaro, a sensao do momento.
       -  Ser que consigo entrar? - questionou ele, interessado. - A censura  para catorze anos.
       -  Voc j tem quase isso. Aposto como ningum vai perguntar. O porteiro, ao contrrio do que Judite esperava, pediu a car-
       teirinha de estudante de Romero.
       -  No pode entrar - falou com arrogncia.
       -  Por favor, moo - pediu Judite. - Ele vai fazer catorze anos daqui a dois meses. Deixe-o entrar.
       -  Daqui a dois meses no  hoje. Hoje, ele s tem treze anos.
       -  Que diferena vai fazer ver o filme hoje ou daqui a dois meses? Ah! por favor, moo, deixe-o entrar.
       Romero pregou os olhos no cho. Tinha pavor de estar em evidncia. O porteiro encarou-o com ar carrancudo, mas acabou deixando-o passar. Como ainda era cedo, 
Judite foi com ele comprar balas e sentou-se na poltrona para esperar terminar a sesso anterior  sua. Acabou encontrando alguns amigos, e, enquanto conversavam, 
Romero ia olhando tudo que acontecia ao redor.
       Notou que, de vez em quando, algum o olhava, e prestou ateno. Era um rapaz de pouco mais de vinte anos, alto, moreno, forte. Em dado momento, os olhos 
de ambos se cruzaram, e Romero sentiu um arrepio. O rapaz pareceu-lhe bastante bonito, e o garoto surpreendeu-se ao perceber que lhe aprazia olhar para aquele tipo 
atraente. Assustou-se consigo mesmo e virou o rosto. Ele era homem, homem! Como podia sentir-se atrado por outro homem?
       A sesso ia comear, e Judite pegou sua mo.
       -  Vamos nos sentar com o pessoal - chamou, sem perceber o que se passava.
       Romero obedeceu e saiu seguindo a irm e os amigos. As pessoas entravam em fila, vagarosamente, e ele, de vez em quando, olhava para trs e percebia que o 
rapaz continuava olhando-o. Corou violentamente. O que ser que aquele moo estava pensando? Que ele era alguma bicha?
       Sentou-se ao lado da irm, e o rapaz sentou-se na fileira de trs, duas poltronas ao lado da sua, o que deixou Romero gelado. E se o homem falasse com ele? 
O que diria a irm? Olhou de soslaio para Judite, mas ela estava muito interessada na conversa com um amigo. De repente, a tela se iluminou, e comearam a passar 
alguns anncios. Veio um curta-metragem, alguns trailers e o jornal. Durante todo esse tempo, Romero olhava para o rapaz, que lhe devolvia o olhar com um sorriso 
maroto.
       Quando as luzes se apagaram por completo, anunciando o comeo do filme, Romero centrou sua ateno na tela. Durante cerca de duas horas, esqueceu-se do rapaz 
na fila de trs. S quando a sesso terminou, e eles se levantaram para sair, foi que se lembrou dele, porque o rapaz estava parado no mesmo lugar, fitando-o insistentemente. 
Sem nada perceber, Judite saiu conversando com os amigos, falando sobre o filme, praticamente se esquecendo de Romero.
       -  Por que no vamos tomar um sorvete? - sugeriu Alex, um dos amigos, bastante interessado em Judite.
       -  No sei - respondeu ela. - Preciso levar meu irmo para casa.
       -  Por que ele no vem conosco?
       -  Voc quer vir? - perguntou ela a Romero.
       O olhar de Judite quase que implorava, e Romero respondeu:
       -  No quero, no. Mas voc pode ir. Vou para casa.
       -  Ah! no, Romero! No vou deix-lo voltar sozinho.
       -  O que  que tem? No sou nenhum beb.
       -  No  isso. Mas  chato voltar s.
       -  Bobagem. Voc est com vontade de tomar sorvete com seus amigos. Eu no quero ir. Por que voc tem de perder seu programa por minha causa?
       -  Tem certeza de que quer voltar sozinho?
       -  Absoluta.
       -  No vai ficar chateado?
       -  No. Ande, v logo. Vai acabar ficando tarde.
       Judite decidiu-se. Deu um beijo na bochecha de Romero e murmurou agradecida:
       -  No vou demorar. Diga a papai que voltarei logo. Romero ficou vendo a irm afastar-se em direo  sorveteria.
       Depois que o grupo entrou, ele se virou para ir para casa e quase esbarrou no rapaz que ficara olhando para ele no cinema.
       -  Voc?! - exclamou Romero, assustado. - Est me seguindo?
       -  No - respondeu o outro, com simpatia. - Estava esperando voc.
       -  Por qu?
       -  Para que pudssemos nos conhecer. Como voc se chama?
       -  Romero. E voc?
       -  Jnior. Meus amigos me chamam assim. No gostaria de dar uma volta por a?
       -  Onde?
       -  No sei. Podemos dar um passeio na praia.
       -  Na praia? Hum..., no sei, no. Fica muito longe, e eu preciso ir para casa.
       -  Que tal uma bebida?
       -  Um refrigerante?
       -  Se voc quiser...
       -  Quantos anos voc tem, Jnior?
       -  Vinte e um. Por qu? Isso tem importncia para voc?
       -  Para mim, no. Mas meu pai pode brigar comigo. Ele no gosta que eu ande com garotos mais velhos.
       -  Seu pai no precisa saber que nos conhecemos, no  mesmo?
       Algo no tom de voz de Jnior no agradou Romero. Alem disso, a admirao que sentira pelo outro assustou-o, e ele, pensando em recuar, considerou:
       - J est ficando tarde. Preciso ir.para casa.
       -  Vou acompanh-lo.
       -  No precisa. No  longe, chego rpido.
       -  No, fao questo. Quero que sejamos amigos.
       Sem saber o que dizer, Romero deu de ombros e tomou a direo de sua casa, e Jnior seguiu com ele. No caminho, iam conversando sobre o filme, e Romero entusiasmou-se, 
falando sobre o tubaro, cheio de admirao.
       -  Nossa, foi demais! E quando o tubaro comeu o homem no final? Quase morri de medo!
       Jnior escutava as palavras de Romero e fazia observaes interessantes, tocando-o de leve no brao. Romero estava to empolgado com o filme que nem se deu 
conta de que haviam se desviado do caminho. Seguiam agora por uma ruazinha escura e quase deserta, e foi s quando Jnior parou que ele percebeu que aquele no era 
o caminho de sua casa.
       -  Onde estamos ? - indagou assustado.
       - No sei. Pensei que voc conhecesse o caminho.
       -  Acho que me distra- acrescentou, olhando para os lados. - No sei onde estou. Vamos voltar.
       Deu meia-volta, mas sentiu que a mo do outro o segurava pelo brao.
       -  Por que a pressa? - perguntou Jnior com ar malicioso.
       -  Eu... eu... preciso ir... Minha irm est me esperando...
       -  Sua irm  aquela que saiu com a turma? Pois no creio que v dar por sua falta to cedo.
       -  Mas  que j est tarde... Meu pai...
       Tentou se desvencilhar, mas Jnior era mais forte e puxou-o com violncia, tentando beij-lo na boca.
       -  O que est fazendo! ? - contestou Romero com veemncia. - Ficou louco? No sou dessas coisas, sua bicha!
       -  A quem quer enganar? Ento no vi o jeito como me olhava?
       -  Mas que jeito? Voc ficou maluco? Eu no estava nem olhando para voc.
       -  Ah! estava, sim! E era olhar de desejo. Conheo bem.
       -  No, no, est enganado. No sou desse tipo. Sou homem! At j dormi com mulher. Sou homem, ouviu? No sou veado como voc!
       -  Voc me provocou. Agora vai ter de agentar. Indiferente aos apelos e gritos de Romero, Jnior agarrou-o com fora, deitando-o no cho frio da calada. 
Sua superioridade fsica deu-lhe imensa vantagem, e ele facilmente subjugou Romero, que lutava desesperadamente para se soltar. Jnior segurou-o pelos cabelos, deitando-o 
de bruos no cho, ao mesmo tempo em que rasgava suas roupas. Romero chorava angustiado, implorando que ele no fizesse aquilo. O outro, porm, no lhe deu importncia. 
Parecia mesmo que, quanto mais Romero gritava, mais ele se enchia de desejo, e Jnior comeou a bater nele, esfregando seu rosto no cho. Ao mesmo tempo em que lhe 
dizia palavras sujas e obscenas, ia penetrando-o aos pouquinhos, at que, dominado pelo prazer, penetrou-o violentamente, fazendo com que Romero uivasse de dor. 
Quando terminou, soltou-lhe os cabelos e levantou-se calmamente. Abotoou as calas, enquanto fitava o corpo cado e ferido de Romero, que no parava de chorar, sem 
coragem de encar-lo. Ajeitou a camisa, afivelou o cinto e, quando ia saindo, falou em tom sarcstico:
       -  At que no foi mau, foi? - Romero no respondeu. - Voc gostou. Pode no querer admitir, mas voc gostou.  sempre assim. Todos gostam. No comeo, dizem 
que no, que no querem, que no so disso. Mas, depois que so comidos, no querem mais saber de outra coisa.
       Soltou uma risada nervosa e rodou nos calcanhares, saindo apressadamente. Sentindo que ele se afastava, Romero ergueu o corpo e, ajoelhado, gritou em desespero:
       - Est enganado! Seu animal nojento! Sou homem! No sou nenhum veado! Sou homem, homem!
       Arriou o corpo no cho, chorando copiosamente. Sentia o corpo todo dolorido, uma imensa humilhao assolava-o. O que diria ao pai? O que diria o pai? Embora 
dorido, conseguiu pr-se de p e comeou a caminhar na direo oposta  que Jnior tomara. Mal conseguia andar, tamanha a dor que sentia. Parecia que havia sido 
estilhaado por dentro, sentia-se despedaado. O sangue escorria de sua testa, que Jnior esfregara e batera no cho. O nariz tambm sangrava, e vrias manchas roxas 
surgiam em suas costas, nos locais em que ele o socara. Por que tanta violncia? Por que tivera de ser to cruel? J no lhe roubara a honra e a dignidade? Por que 
tivera de maltrat-lo daquela maneira?
       A passos arrastados, Romero conseguiu voltar para a rua que dava acesso  sua casa. Queria esperar a irm, mas achava que no conseguiria. Estava sentindo 
muita dor, um gosto amargo de sangue na boca. Precisava de um mdico. Ser que iria morrer? A muito custo, conseguiu chegar  casa e escancarou a porta. A me c 
o pai estavam na sala, vendo televiso, e levaram um susto quando ele entrou, todo machucado e inchado, andando de um jeito esquisito.
       Romero no conseguiu dizer nada. Entrou todo trpego e, chegando ao meio da sala, sentiu que o cho lhe faltava, a respirao parecia difcil, e tudo ficou 
escuro. Desmaiou.
       
     Captulo 2
       
       Ao sair para o planto naquela noite, Plnio estava bastante aborrecido. Era mdico do hospital municipal fazia alguns anos e trabalhava na emergncia. Reconhecia 
que estava ficando cansado de tanta violncia, mas sentia que no podia deixar aquele posto. Nascera para ajudar as pessoas e gostava do que fazia.
       J no hospital, lembrou-se da pequena discusso que tivera em casa na manh anterior, logo que chegara do hospital. Lavnia, sua mulher, estava sentada na 
cadeira de balano, tricotando uma roupinha para o filho recm-nascido, que dormia no carrinho a seu lado. Plnio beijou-a com suavidade, e ela exibiu o casaquinho, 
falando enternecida:
       -  No est uma beleza? J estou quase terminando.  para o batizado de Eric.
       - Est lindo.
       Ela sorriu embevecida e alisou o casaquinho. Retomou a agulha e continuou a tricotar, enquanto Plnio se servia de uma dose de usque.
       - J estou cansado de tanto sofrimento - comentou ele. - Todos os dias chegam adolescentes e crianas estupradas, violentadas... E os pais no fazem nada.
       Lavnia soltou o tric por uns instantes e retrucou em dvida:
       -  No sei se deveria culp-los. Talvez a dor de reviver a humilhao seja maior do que o desejo de ver o criminoso na cadeia.
       -  Voc no deixa de ter razo, e, se o motivo fosse s esse, eu conseguiria compreender. Mas muitos pais no denunciam por medo da vergonha. E no  nem 
dos filhos.  deles mesmos.
       - At que ponto denunciar resolve alguma coisa? O mal j est feito, no pode ser reparado. Vingar-se do criminoso no restitui a honra, a vergonha, a dor 
e tudo o mais.
       - Quem falou em vingana? Tambm sou contra querer se vingar. Mas a represso penal  necessria. Quem comete um crime tem de arcar com as conseqncias daquilo 
que faz. Talvez, passando uns tempos na cadeia, o sujeito consiga refletir sobre o que fez...
       -  Duvido muito - disse uma voz irnica, vinda do outro lado da sala.
       -  Rafael! - exclamou Lavnia, surpresa com a chegada intempestiva do irmo.
       - No devia estar na faculdade? - perguntou Plnio, de m vontade.
       -  Sa mais cedo. No estava com saco de assistir quela aula chata.
       -  No estava com saco? - repetiu o mdico, abismado. - O que pensa da vida, Rafael? Pago faculdade para voc sem cobrar nada em troca, mas o mnimo que espero 
 que assista s aulas.
       -  Vai jogar em minha cara agora, vai? S porque no tenho dinheiro, no precisa me humilhar.
       -  No o estou humilhando nem jogando nada em sua cara. Mas nosso trato foi esse: eu o sustento at voc terminar a faculdade, mas voc tem de ir s aulas.
       -   sempre assim, no , Plnio? S porque  o dono do dinheiro, pensa que pode mandar em mim.
       -  Voc est distorcendo as coisas. No mando em voc e no sou o dono do dinheiro. O que ganho  com o suor de meu trabalho.
       -  Ser que vocs dois podiam deixar de discutir pelo menos uma vez? - queixou-se Lavnia, debruando-se sobre o carrinho. - Vo acabar acordando o beb.
       -  Est certo, Lavnia - concordou Rafael. - Por causa de voc e de meu sobrinho, no vou dizer mais nada.
       Com um sorriso de triunfo, Rafael deu meia-volta e sumiu pela porta da varanda, indo em direo  piscina.
       -  Esse rapaz me deixa louco - desabafou Plnio. - Concordei em ficar com ele aqui, comprometi-me com seus estudos, mas ele no reconhece nada. Quanto mais 
fao, mais ele me espezinha.
       -  Rafael  uma pessoa difcil. No estou querendo justific-lo, mas ele sofreu muito com a morte de mame e papai.
       -  Eu sei. Posso imaginar. Mas isso no lhe d o direito de ser desagradvel nem mal-agradecido.
       -  Procure relevar, meu bem. Rafael ainda  um garoto. Logo, logo, isso vai passar.
       -  Ele j  um homem. Tem vinte e dois anos. J podia estar terminando a faculdade, mas vive sendo reprovado. Imagine que bom arquiteto ele no vai ser.
       -  Isso vai passar, voc vai ver. Quando ficar mais velho, ele se emenda.
       -  Voc vem me dizendo isso desde que seus pais morreram. De l para c, ele no mudou muito.
       -  Ele estava se sentindo muito sozinho. Perdeu tudo...
       -  Perdeu tudo porque sempre foi irresponsvel. Se no fosse eu, ele teria torrado seu dinheiro tambm.
       -  Eu sei, eu sei. Mas tente entender.  duro viver de favor.
       -  Ele no vive de favor. Nunca lhe disse isso. Ele  meu cunhado; s o que quero  seu bem. Mas ele parece ter raiva disso. Tem raiva porque posso ajud-lo 
e sente-se humilhado com minha ajuda, quando deveria se sentir agradecido. Mas deixe isso para l. No quero que voc se aborrea nem quero perturbar o sono de Eric.
       Plnio lembrou-se de que encerrara aquela discusso com um beijo na mulher e sorriu, procurando no pensar em Rafael. Seus pensamentos estavam agora inteiramente 
voltados para a mulher e o filhinho, quando a porta de seu consultrio se abriu e uma enfermeira bem novinha entrou apressada.
       -  Doutor Plnio - chamou. - Acaba de chegar um rapazinho bastante machucado.
       O mdico assentiu e levantou-se, seguindo direto para a sala de emergncia. Viu de relance os pais do menino no corredor, mas no lhes deu ateno. Mais tarde, 
falaria com eles.
       Algum tempo depois, sentados na sala de espera do hospital, Silas e Nomia conversavam com Plnio, que j completara os exames em Romero.
       - No pode ser, doutor- negava Silas, com ar abobado. - Isso no pode ter acontecido com meu filho.
       -  Seu Silas - rebateu o mdico -, os crimes sexuais so bem mais comuns do que se imagina.
       -  Mas com meu filho, no. Ele no pode ter sido violado...
       -  Violentado. O nome  violentado.  um crime, seu Silas, e pode levar o criminoso  cadeia. Mas  preciso que se faa a queixa.
       -  Isso  que no! - Silas levantou-se bruscamente e tornou a sentar-se. - No quero que ningum saiba o que aconteceu.
       -  Mas, se o senhor no disser nada, o criminoso vai continuar impune.
       -  Se eu o encontrar, sou capaz de mat-lo.
       -  O senhor no vai matar ningum. E ele vai fazer a outro menino o que fez a seu filho. Precisamos det-lo.
       -  No, no. No vou me submeter a essa vergonha. Meu filho, mulherzinha de um marginal! Isso  que no!
       -  Ele tem razo, Silas - interveio Nomia. - Esse monstro no pode continuar solto por a. Imagine o que no vai fazer a outros meninos como nosso Romero.
       -  Isso no me interessa. Cada um que cuide de sua cria.
       -  Silas! No pode falar assim.
       -  No quero parecer insensvel ou coisa parecida. Mas tenho de cuidar de meus interesses. E no vai ser nada agradvel expor Romero ao ridculo. Imagine 
o que meus amigos no vo dizer!
       -  E ele, seu Silas, o que vai dizer?
       -  No importa. Romero  menor de idade, e eu tenho de cuidar de seus interesses. No vai pegar nada bem se os outros souberem que ele foi... sodomizado.
       -  Ainda assim, acho que o senhor deveria conversar com ele. Talvez ele tenha outra opinio.
       -  A opinio dele no tem importncia nesse caso. Meu filho, vtima de um atentado... como  mesmo, doutor?
       -  Atentado violento ao pudor.  um crime srio.
       -  No me interessa. E, depois, no tenho dinheiro para gastar com advogado.
       -  Mas no precisa. Olhe, j estou acostumado a ver esse tipo de coisa e sei que, se o senhor no tiver como pagar, um promotor pblico assume o caso.
       -  Deus me livre! Piorou. Imagine se vou tornar pblico o que aconteceu a meu filho! Isso  que nunca!
       -  Prefere manter sigilo, ento?
       -  Prefiro. A essa altura, no vai adiantar nada. O mal j est feito, no est? S espero que Romero no fique... diferente.
       -  No diga isso nem brincando - objetou Nomia. - Nosso filho no vai ficar diferente.
       -  Como assim? - indagou o mdico, curioso. - Diferente em qu?
       -  Bem, doutor, sabe como ... O garoto  tmido, e o senhor sabe como so as lnguas ferinas. Mas o meu Romero  homem, isso . Outro dia mesmo, levei-o 
a uma... o senhor sabe... uma mulher da vida, e ela me disse que ele  um garanho.
       -  Seu Silas, isso no importa agora. Seu filho foi vtima de um ato de extrema violncia. Mesmo que ele fosse homossexual, no gostaria de ter passado por 
isso.
       -  Meu filho no  homossexual!
       -  Eu no disse que . O que quis dizer  que ningum gosta de sofrer um ato de violncia. Nem mesmo quem  homossexual.
       -  Mas meu filho no !
       -   claro que ele no  - reafirmou Nomia. - No precisa ficar repetindo isso.
       -  Sua mulher tem razo - concordou o mdico. - Esse assunto no vem ao caso agora. Temos de nos preocupar  com o bem-estar de Romero.
       -  S falei para que no pairem dvidas.
       -  No precisa se preocupar. Ningum est duvidando de nada.
       -  Melhor assim.
       -  Por que o senhor no vai para casa e pensa no assunto? Reflita, discuta com sua mulher. Talvez amanh mude de idia.
       -  No vou mudar de idia. E agora, doutor, se nos d licena, queremos ir para casa. A noite foi cansativa, e Romero e eu ainda temos muito o que conversar. 
Quero saber direitinho como foi que isso aconteceu.
       -  Lamento, mas Romero no poder ir para casa hoje. Ainda est em observao.
       -  Mas o senhor me disse que ele estava bem.
       -  E est. Mas sofreu muitos golpes e... bem, o senhor sabe...
       -  Sei, doutor, no precisa falar. - Engoliu em seco e desabafou: - Meu filho nunca mais ser o mesmo depois disso.
       -  No diga isso, Silas. - Era Nomia novamente. - Ele vai continuar o mesmo, voc vai ver. Com o tempo, vai esquecer. Arranja uma namorada bonitinha e nem 
pensa mais no assunto.
       -  Espero que voc tenha razo. Porque, se ele ficar diferente, nem sei do que sou capaz.
       Plnio assustou-se com a revolta de Silas e teve medo por Romero. No sabia como tudo se passara. Descobrira que ele fora violentado porque procedera a um 
exame detido no menino. Ele chegara desmaiado, todo machucado e, ao examin-lo, Plnio notou que havia sangue em sua cueca. Antes mesmo de constatar a violncia, 
no foi difcil deduzir o que havia acontecido.
       Mas havia em Silas algo mais do que um simples medo de que Romero ficasse falado. Pelo que Plnio podia perceber, o homem  sua frente estava apavorado com 
a idia de que o filho pudesse ser homossexual, o que no era de todo uma idia absurda. Plnio sabia que muitos meninos eram violentados por pura maldade, mas sabia 
tambm que outros atraam o agressor por algo em seus gestos, em suas maneiras, em seu jeito de olhar. Algo que demonstrasse um homossexual em potencial, ainda que 
no assumido ou inconsciente. Romero podia estar num ou noutro caso, o que, para ele, no fazia a menor diferena. No era preconceituoso e achava que toda violncia 
devia ser reprimida, no importava contra quem fosse realizada.
       S que Silas parecia no compartilhar seu jeito de pensar. Pelo visto, aquele homem estava menos preocupado com o bem-estar do filho do que com sua prpria 
imagem. Tudo em que pensava era no que os outros iriam dizer se descobrissem o que havia acontecido a Romero. Ou, o que lhe parecia pior, se descobrissem que Romero 
no fosse um homem de verdade, na concepo de Silas.
       -  V para casa - aconselhou Plnio novamente. - Descanse, e amanh conversaremos.
       Quero levar Romero comigo.
       Infelizmente, no posso permitir que o leve. Se o fizer, no poderei me responsabilizar por nada que lhe acontea.
       -  Ele tem razo, Silas - intercedeu Nomia. - Deixe que Romero fique. Estar mais bem cuidado aqui.
       Silas encarou Plnio com ar de dvida e indagou inseguro:
       -  Quando ele ter alta?
       -  Talvez amanh. Vamos ver como vai passar a noite. Se nenhum dos ferimentos inflamar, ele poder sair amanh, depois do almoo.
       Com um aceno de cabea, Silas levantou-se e permitiu-se conduzir pela mulher. No queria deixar Romero no hospital; tinha i indo de que algum ficasse sabendo 
do que acontecera. Mas o mdico lhe parecia decidido, e ele no queria assumir riscos.
       Do lado de fora do prdio, fizeram sinal para um txi e foram para casa. J era muito tarde, e eles estavam tambm preocupados com  Judite. Ela ainda no 
havia chegado quando eles saram e no subia de nada do que acontecera. Devia estar aflita em casa, esperando por notcias.
       -  Devamos ter telefonado para ela - observou Nomia.
       -  E voc acha que tive cabea para pensar em Judite? S agora me lembrei dela.
       -  O que lhe diremos? A verdade?
       -  Isso nunca! Vamos contar-lhe o que contaremos a todo mundo: que Romero foi agredido num assalto. Ningum nunca vai saber o que lhe aconteceu. Nem a irm!
       -  Mas e se ele contar? Sabe como Romero e Judite so ligados.
       -  Eu o proibirei. Se ele disser alguma coisa, mesmo que seja a Judite, dou-lhe uma surra! E voc, Nomia, trate de no dizer nada a ningum, entendeu bem?
       Nomia limitou-se a aquiescer. No fundo, no via motivo para tanto alarde, mas Silas era quem sabia. Se ele no queria que ela falasse, ela no falaria.
       Em casa, Judite quase morria de preocupao. Chegara do cinema por volta das nove e meia e no encontrara ningum. No lhe deixaram nem um bilhete, no lhe 
telefonaram. O que teria acontecido?
       Sentou-se na sala para esperar os pais. Estava quase pegando no sono quando ouviu o barulho de um automvel parando na porta. Espiou pela janela e viu os 
pais saltando do txi. Aflita, escancarou a porta e correu para o jardim, indagando quase sem flego:
       -  Pai? Me? O que aconteceu? Cad Romero?
       Nomia olhou de soslaio para Silas, que foi caminhando a passos vagarosos para os degraus que davam acesso  pequena varanda de sua casa.
       -  Seu irmo est no hospital - respondeu cauteloso. - Sofreu um acidente.
       -  Acidente? Mas como? Eu o deixei no cinema...
       -   isso mesmo, Judite. Voc o deixou no cinema. Por que no veio para casa com ele?
       O rosto de Judite tornou-se rubro, e ela sentiu algumas gotculas de suor deslizando pela testa. Com a voz embargada, respondeu receosa:
       -   que fui tomar um sorvete...
       -  Sozinha?
       -  No. Encontrei uns amigos da faculdade.
       -  Por que no levou seu irmo com voc?
       -  Ele no quis ir. Disse que queria vir para casa. Oh! papai, eu no tive culpa. No podia imaginar que ele sofreria um acidente. O que foi? Um carro? Ele 
foi atropelado?
       -  No. Seu irmo foi assaltado.
       -  Assaltado? Mas, mas...
       -  Assaltado, sim, por qu? Voc o deixou sozinho, j era tarde. Veio um malfeitor e o assaltou. E no foi s. Bateu nele tambm. Ele est todo machucado.
       -  Oh!
       Judite desatou a chorar, e a me abraou-a, tentando consol-la.
       -  No chore, minha filha. Ele foi hospitalizado, mas est passando bem. O mdico disse que amanh poder sair.
       -  Quero v-lo.
       -  Isso  impossvel - objetou o pai, veemente.
       -  Por que no me deixaram um bilhete? Eu teria ido encontr-los  no hospital.
       E quem teve cabea para isso? S pensvamos em socorrer
       seu irmo.
       -  Tem razo, papai...  que essa notcia me deixou profunda-
       mente abalada.
       -  Todos ns ficamos, minha filha - contemporizou Nomia. Mas agora no h mais nada que possamos fazer. Apenas rezar. Ele j foi atendido e medicado. Graas 
a Deus, no foi nada realmente srio.
       -  Vamos dormir - ordenou Silas. - J  tarde, e Judite tem
       aula de manh cedo.
       -  No quero ir  aula, pai - protestou a moa. - Quero ver
       Romero.
       -  Depois. Quando voc voltar da faculdade, poder v-lo. Talvez, at l, ele j esteja em casa.
       -  Ah! pai, por favor, deixe-me ir com vocs busc-lo no hospital...
       -  Nada disso. Voc vai  faculdade e pronto. No poder ajudar em nada mesmo.
       -  Como no? Romero vai se sentir mais seguro comigo a seu lado.
       -  Ele tem a mim e  sua me. E, agora, chega de discusso. J para a cama.
       Embora contrariada, Judite teve de obedecer. Sentia o peito oprimido, um remorso cruel a dominar-lhe o corao. Por que deixara Romero sozinho? Se o tivesse 
acompanhado, nada daquilo teria acontecido. Ela nem sabia direito o que tinha acontecido, nem como. O caminho do cinema at sua casa era movimentado e iluminado. 
Como algum fora assaltar Romero em meio a tantas pessoas? No adiantava ficar pensando. No dia seguinte, quando voltasse, ele mesmo lhe contaria tudo.
       Pensando nisso, Judite deitou-se na cama e apagou a luz. Custou  muito a pegar no sono, porque a imagem de Romero no lhe saa do pensamento. Como estaria 
passando o irmo? E mais: como estaria se sentindo, longe da segurana do lar?
       No dia seguinte, bem cedinho, Romero despertou sentindo o corpo todo dolorido. Tentou levantar-se, mas a dor o impediu, e ele arriou novamente na cama. Olhou 
ao redor, tentando identificar o lugar em que estava. Era um hospital, com certeza, e ele estava numa enfermaria. A um canto, uma enfermeira aplicava uma injeo 
num velhinho e, ao levantar os olhos, ela viu que ele a olhava espantado. Deu-lhe um sorriso e saiu apressada. Em seguida, voltou acompanhada por algum, que ele 
deduziu ser o mdico, c foi retomar as suas atividades.
       -  Bom dia, Romero - disse o mdico. - Sou o doutor Plnio e vim ver como est passando. Sente-se melhor?
       Romero levou as mos  cabea e tornou com voz triste:
       -  O que... o que aconteceu?
       -  No se lembra?
       Ele balanou a cabea, mas parou abruptamente, c em sua mente perpassou a sombra de uma lembrana mordaz. Baixou os olhos, envergonhado, e comeou a chorar 
baixinho.
       -  Aquele homem... - balbuciou com amargura, calando-se com um soluo.
       -  Voc no tem do que se envergonhar - tornou Plnio, notando seu constrangimento. - Voc foi vtima de um ataque, c o nico ato vergonhoso foi o de seu 
agressor.
       -  Onde est meu pai?
       -  Foi para casa ontem  noite, mas em breve voltar.
       -  Deve estar furioso.
       -  Seu pai ficou muito preocupado, assim como sua me. E no  para menos. O que fizeram com voc foi muita covardia.
       -  Eu no tive culpa...
       -   claro que no.
       De repente, Romero viu-se abrindo o corao para aquele desconhecido, como se j fossem amigos de longa data:
       -  Ele... ele me enganou... Disse que queria ser meu amigo... Eu no sabia... no podia imaginar... Se eu soubesse, no teria feito aquilo.
       Romero agora chorava convulsivamente, e Plnio condoeu-se sobremaneira. J vira muitos casos como aquele. Meninos e meninas sofrendo com a traio e a violncia, 
sentindo na carne a dor de ingressar no mundo adulto de forma to abrupta, violenta e traumatizante.
       -  Voc no fez nada - tranqilizou o mdico. - No foi culpa sua.
       -  Deixei-o acompanhar-me. Estvamos falando do filme... eu me empolguei... nem percebi para onde ele estava me levando... De repente, ele me agarrou... comeou 
a fazer coisas... Ah! doutor, foi horrvel!
       -  Posso imaginar.
       - O senhor sabe o que ele me fez?
       -  Fui eu que o examinei.
       -  Eu no queria! Mas ele me forou! Fez de mim uma mulherzinha. Mas eu no queria. Juro, doutor, eu no queria. Eu sou homem!
       Ante os soluos angustiados de Romero, Plnio afagou sua cabea e tornou com voz bondosa:
       - Tenha calma. No precisa se justificar. No estou aqui para julg-lo. S o que quero  ajudar.
       -  Mas meu pai... quando souber... vai querer me matar...
       -  Seu pai j sabe.
       -  J? E no disse nada?
       -  Ele est bastante transtornado, o que  natural num caso como este. Mas no me parece que esteja querendo mat-lo.
       -  No?
       Nesse momento, a enfermeira entrou novamente e cochichou algo ao ouvido de Plnio, afastando-se em seguida. O mdico fitou Romero com piedade e informou:
       -  Seus pais esto a fora. Acabaram de chegar.
       Silas e Nomia entraram aflitos, procurando o leito de Romero entre tantos que ali estavam. Ao avistarem o mdico ao lado de sua cama, correram para l a 
passos apressados.
       -  Bom dia, doutor - disse Silas, e Nomia balanou a cabea.
       -  Bom dia - respondeu o mdico.
       Nomia correu para junto do filho e abraou-se a ele, falando entre lgrimas:
       -  Ah! Romero, meu filho, meu menino! O que fizeram a voc?
       -  Ui! - gemeu Romero, sentindo o corpo doer sob o abrao da me.
       -  Cuidado, Dona Nomia - advertiu Plnio. - Ele ainda est muito machucado.
       -  Desculpe-me, meu filho. Mas  que estava to preocupada! Seu pai e eu ficamos muito aflitos.
       Romero fitou o pai, que o cumprimentou com certa emoo:
       -  Como est, meu filho? Melhor?
       -  Vai-se indo.
       Silas deu um sorriso amargo e virou-se para o mdico:
       -  Ento, doutor? Podemos lev-lo hoje?
       -  Creio que sim - respondeu o mdico, a contragosto. - Ele est reagindo muito bem. Creio que, depois do almoo, poder sair.
       -  Por que no agora?
       -  Por que a pressa? Ainda quero fazer mais alguns exames. Coisa de rotina, mas necessria.
       -  Entendo.
       Plnio olhou para os lados e chegou o rosto mais para perto de Silas, indagando a meia-voz:
       -  E ento? Pensou no que conversamos? Sem tirar os olhos do cho, Silas respondeu:
       -  Pensei, sim, doutor. E minha resposta continua sendo "no".
       Estava encerrado o assunto. Silas voltou-lhe as costas e aproximou-se do filho, pondo-se a apreciar os gestos de carinho da mulher. No tendo mais o que dizer 
para convenc-lo, Plnio afastou-se, falando desapontado:
       -  Bem, podem ficar com ele. Vou preparar a alta para depois do meio-dia. Depois, virei aqui terminar os exames.
       Assim que ele se foi, Silas virou-se para Romero e falou com ar grave:
       -  Nem uma palavra do que aconteceu ontem, Romero.
       -  O qu? - indignou-se o menino, pensando que no havia entendido direito.
       -  Nem uma palavra! No quero que conte isso a ningum. Nem  sua irm. Se contar, dou-lhe uma surra da qual jamais ir se esquecer.
       -  Mas... mas... o que direi?
       -  Que voc foi assaltado. Vinha caminhando distrado, e um homenzarro o assaltou. Bateu em voc para tomar-lhe o dinheiro. Nada mais. E no se fala mais 
nisso. - Mas, pai...
       - Nada de "mas". O assunto est encerrado. No quero mais ouvir falar nesse episdio. Para mim, est tudo acabado e enterrado. No quero saber como foi que 
lhe tiraram a vergonha. S espero que voc no tire tambm a minha. No diga mais nem uma palavra sobre esse... incidente. Vamos colocar uma pedra sobre tudo Uso. 
O que passou passou. Agora, bola pra frente. Esquea o que aconteceu e trate de arranjar uma namorada.
       Romero engoliu em seco. Nada de perguntas... O pai nem que-i ia saber como tudo acontecera. Simplesmente o proibia de tocar no assunto, com medo de se envergonhar. 
Mas envergonha-se de qu ? Ento no fora ele a nica vtima de tudo aquilo? O nico realmente humilhado, vilipendiado, tratado feito um traste, um co sarnento? 
Quem, seno ele, tinha algo de que se envergonhar?
       A ameaa do pai, entretanto, era por demais real e sria, e Romero no disse mais nada. Olhou para a me, em busca de apoio, mas ela grudou os olhos no cho 
e no ousava encar-lo. Por que tinha de ser to passiva e omissa?
       E Judite? Por que no estava ali tambm? Na certa, porque o pai no deixara. Pelo visto, no haviam contado nada a ela, e Judite devia estar pensando que 
ele fora mesmo assaltado. Romero queria correr e contar-lhe tudo, mas o pai o proibira de compartilhar sua dor at com a irm, e ele o temia demais para contrariar 
suas ordens. Silas era bem capaz de cumprir suas ameaas e dar-lhe uma surra inesquecvel, que hospital nenhum poderia curar.
       Os exames transcorreram calmamente. A sade de Romero, no geral, estava boa, e os ferimentos no davam mostras de infeco. Assim, logo depois do almoo, 
ele foi liberado para ir para casa. Plnio lamentou profundamente o fato de que mais um pai incompreensivo impedia que a justia fosse feita, mas no havia nada 
que ele pudesse fazer. Se fosse seu filho, saberia direitinho como agir. Procuraria a polcia e faria a queixa-crime. Jamais deixaria passar impune o agressor de 
seu filho. Mas Romero no era seu filho, e ele no tinha o direito de passar por cima da vontade daquele pai. A lei o protegia, dava ao pai o direito de optar por 
ir avante ou no com uma ao criminal. E quem era ele para ir contra a lei?
       Quando chegaram  casa, Nomia levou Romero para o quarto, para descansar. Ele ainda estava muito dodo e com dificuldades de andar, o que desgostava Silas 
imensamente, lembrando-se de que seu filho jamais seria o mesmo depois daquilo. Mesmo que ele arranjasse uma namorada e procurasse levar uma vida normal, Si' Ias 
jamais poderia esquecer que Romero fora violado naquilo que possua de mais valioso: sua masculinidade.
       Nomia deitou-o em sua cama e acomodou-o nos travesseiros. Ligou o ventilador e abriu a janela.
       -  Quer mais alguma coisa, meu filho? - indagou solcita.
       -  No, me, obrigado. Onde est Judite?
       -  Na faculdade.
       -  Ela no quis ir me buscar?
       -  Seu pai no deixou. Sabe como ele  rigoroso com as coisas de estudo.
       -  Mas eu estava no hospital!
       -  Agora voc est em casa. E Judite, logo, logo, chega por a. Ento podero conversar. Mas cuidado: lembre-se do que seu pai falou.
       -  Pode deixar - tornou acabrunhado. - No direi nada.  o que ele quer, no ? Que eu finja que nunca aconteceu nada.
       -  Seu pai s quer seu bem.
       -  Acho que ele quer  o bem dele mesmo.
       -  No diga isso. Ele ficou muito preocupado. E, se o proibiu de tocar no assunto, foi para que voc no virasse motivo de chacota na rua.
       -  Para que quem no virasse motivo de chacota? Eu ou ele?
       -  No fale assim, Romero. Seu pai pode no gostar.
       A idia de que o pai pudesse escutar aquelas palavras assustou-o, e Romero silenciou. Faria, sem maiores questionamentos, o que o pai lhe ordenara. No entanto, 
no podia fingir que no estava magoado. Sofrer um duro golpe, e o mnimo que podia esperar era a compreenso da famlia. Mas o pai se negava a escutar, a me tinha 
medo de perguntar e a irm ignorava tudo. E ele estava proibido de tocar no assunto.
       Ningum poderia imaginar como estava se sentindo. A violncia de que fora vtima deixara-lhe profundas marcas. Sentia-se triste, inseguro, culpado. Se no 
tivesse dado conversa para aquele sujeito, nada daquilo teria acontecido. Mas ele era ingnuo e inexperiente, e jamais poderia prever uma coisa assim. At porque 
aquele assunto era tabu em sua casa. O pai nunca o alertara para coisas daquele tipo. Por isso, ao deparar com aquele homem, Romero nem imaginou que ele fosse capaz 
de lhe fazer mal. Lembrava-se de que chegara a desconfiar de que ele fosse homossexual, mas nunca poderia supor que ele quisesse violent-lo. Ainda mais com tanta 
brutalidade.
       Depois que a me saiu, Romero afundou o rosto no travesseiro e desatou a chorar. Em minutos, adormeceu. Era melhor dormir do que enfrentar aquela situao, 
e ele ferrou num sono profundo e agitado. Despertou mais tarde, sentindo a presena de algum a seu lado. Era Judite, que chegara da escola e se sentara em sua cama, 
acariciando-lhe os cabelos. Quando ele abriu os olhos, ela sorriu e deu-lhe um beijo na testa.
       - Meu menino - falou com ternura -, o que foi que fizeram a voc?
       Ele no respondeu. Tentou sorrir, mas sua boca se contraiu num esgar de dor, e ele acabou chorando no colo da irm. Ela alisava seus cabelos com carinho e, 
quanto mais doce e amorosa ela era, mais rir se entregava ao pranto. Por fim, quando achou que j no possua mais lgrimas para chorar, enxugou os olhos e balbuciou:
       - Judite... Voc nem sabe o que passei...
       -  Como foi? No posso imaginar. Aquela rua  to movimentada...
       Seguindo as ordens do pai, Romero mentiu:
       -  Eu vinha distrado... Nem percebi quando o cara se aproximou por trs. Ele me pegou de jeito, me bateu e me tomou todo o dinheiro.
       -  E ningum viu? No vieram ajudar? 
       -  No havia ningum por perto.
       -  Mas que coisa! 
       -  Deixe isso para l. J passou. Quero esquecer.
       -  Sinto-me to culpada!
       -  Voc no tem culpa de nada. No podia imaginar que iam querer me assaltar.
       -  No. Eu devia t-lo acompanhado at em casa. Jamais irei me perdoar por isso.
       -  Assim voc me deixa triste. No foi culpa sua. No foi culpa de ningum.
       -  Ele o agrediu muito?
       -  No quero mais falar sobre isso...
       Romero sentiu que a voz se estrangulava na garganta, e Judite abraou-se a ele, falando cheia de arrependimento:
       -  Tem razo, Romero, perdoe-me. Sei que deve ser horrvel lembrar-se do que aconteceu. S perguntei porque fiquei curiosa e porque estou muito arrependida 
de ter deixado voc sozinho. Mas no vou perguntar mais. Agora descanse. Na hora do jantar, trarei uma bandeja para voc.
       Judite saiu. Ao v-la se afastar, Romero sentiu-se extremamente s. Ela era sua nica amiga, a nica que o compreendia. Se no podia compartilhar com ela 
sua dor, como faria para enfrent-la? E mais: como conseguiria venc-la? Romero pensou que jamais o conseguiria.
       
       
     Captulo 3
       
       Sentada na lanchonete, Judite conversava com Alex.
       Desde o dia do assalto, vinham saindo juntos. Alex era amigo de um colega de turma de Judite e j estava quase terminando a faculdade de engenharia. Aos vinte 
e dois anos, era um rapaz bonito e inteligente, disputadssimo pelas garotas.
       -  Sabe, Alex - comeou Judite, enquanto mordiscava um queijo quente -, no entendo o que aconteceu com Romero. Desde que foi assaltado, anda muito esquisito.
       -  Ele est traumatizado. Com o tempo, isso passa.
       - Tomara que voc esteja certo. Ele anda arredio, no quer conversar com ningum. Nem comigo, que sou sua maior amiga.
       -  Ele est apenas assustado.  natural. Levou uma surra do tal sujeito e deve se sentir envergonhado. Qual  o homem que gosta de apanhar?
       Judite no estava bem certa. Fazia j dois meses que tudo acontecera, e, desde ento, Romero nunca mais fora o mesmo. Mas talvez Alex tivesse razo e aquilo 
fosse passageiro. Passado o susto e o trauma, Romero voltaria ao normal. Ela suspirou e alisou a mo de Alex por cima da mesa, indagando meio sem jeito:
       -  Quando voc vai l em casa?
       -  Estive pensando. J estamos namorando h dois meses, e creio que estou apaixonado por voc. - Ela corou, e ele prosseguiu:
       Por isso, gostaria de falar com seus pais, mostrar a eles que minhas intenes so srias.
       -  Ah! Alex, que bom! Papai j estava mesmo comeando a reclamar. Disse que rapaz bem-intencionado faz logo questo de conhecer a famlia da moa.
       -  Pois . Podemos marcar para breve um encontro. Que tal um jantar em sua casa?
       -  tima idia. Mame j havia sugerido isso.
       -  E quando pode ser?
       -  Creio que sbado estaria timo.
       -  Sbado, ento. Est combinado.
       Beijaram-se longamente, e a conversa mudou de rumo. J eram quase nove horas, e Judite precisava voltar, porque o pai no gostava que permanecesse na rua 
at tarde. Alex levou-a de carro at a porta de casa e depois foi embora.
       Ao descer do veculo, Judite parou alarmada. Mesmo da rua, podia ouvir os gritos do pai ecoando pela janela aberta. Atravessou correndo o jardim e irrompeu 
porta adentro, bem a tempo de presenciar a bofetada que Silas acabara de estalar na face de Romero.
       -  Seu mariquinhas! - esbravejou. -  por isso que todo mundo vive falando de voc!
       Romero encolheu-se todo a um canto, e Judite exclamou indignada:
       -  Papai!
       O pai, a me e o irmo olharam-na ao mesmo tempo, e Romero sentiu imenso alvio ao v-la. Na mesma hora, correu a seu encontro e atirou-se em seus braos, 
choramingando em seu ombro, agarrado como se ela fosse sua me. Silas encarava-os com raiva, e Nomia abaixou a cabea, ao mesmo tempo aliviada e temerosa. Pelo 
menos Judite tinha coragem de enfrentar Silas, algo que Nomia no se atrevia a fazer, e tomaria a defesa de Romero.
       -  Mas o que est acontecendo? Posso saber? - Era Judite novamente.
       -   esse moleque! - esbravejou Silas, apontando para Romero o dedo ameaador. - Vai fazer catorze anos e se comporta feito uma mocinha. E donzela!
       -  O que ele fez?
       -  O que ele no fez! J est na hora de voltar a sair sozinho, mas ele se recusa.
       -  Sair para onde?
       -  No lhe interessa.  assunto de homem.
       Pela voz irritada do pai e pelo olhar de splica de Romero, Judite sabia que ele estava falando da tal Domitila, de quem o irmo lhe falara na primeira vez 
em que fora  sua casa. Ela sabia que a experincia havia sido ruim e que ela mentira, chamando-o de garanho s para agradar o pai. Sabia que Romero havia detestado 
a mulher, o que ela julgava compreensvel, visto a pouca idade do menino.
       -  Por que no o deixa em paz? - rebateu Judite, um tanto agressiva. - Por que no o deixa escolher quando  hora de sair?
       - J disse para no se meter nisso. Voc  uma mocinha e no entende dessas coisas.
       -  E do que voc entende, alm de si mesmo? S consegue pensar no que os outros vo dizer se o seu filho no dormir com uma rameira.
       -  Cale a boca! Isso no so modos de uma moa de famlia falar.
       -  E isso no so modos de um pai educar o filho. Filhos devem ser tratados com amor e respeito, no com violncia e agresso.
       -  Est querendo dizer que no amo meus filhos?
       -  No estou querendo dizer nada. O senhor  quem sabe.
       -  Voc  muito atrevida, menina.
       - O senhor  que  autoritrio, prepotente e dono da verdade. Por que no experimenta perguntar o que sentimos, s para variar?
       Em vez de responder, Silas aproximou-se e ergueu a mo para bater em Judite tambm, mas Nomia segurou sua mo e objetou:
       -  Pense no que vai fazer, Silas, para no se arrepender depois. Caindo em si, Silas soltou o brao ao longo do corpo. No costumava bater em Judite. Ela 
era uma menina, e ele tinha um jeito todo especial de tratar as meninas. Achava que toda mulher era um ler frgil e submisso, e levantar a mo para uma moa era, 
no mnino, um pecado mortal. Com os meninos, podiam-se usar mtodos mais agressivos. As meninas deviam ser tratadas com severidade,  mas jamais com violncia fsica.
       -  V j para seu quarto - ordenou ele.
       Sem baixar os olhos, Judite apertou Romero contra si e saiu com ele para seu quarto. No deixaria o irmo ali por nada. Pensou que o pai fosse mandar que 
o menino voltasse, mas ele no fez nada. Foi, ele tambm, para seu prprio quarto. No queria mais conversar com ningum.
       Naquela noite, Romero dormiu no quarto de Judite. Sentia-se inseguro, com medo de que o pai surgisse de repente e o espancasse. Judite ajeitou a cama para 
os dois e trancou a porta, s para se certificar de que o pai no os incomodaria. Apagou a luz e acendeu o abajurzinho da mesinha-de-cabeceira. A casa toda estava 
em silncio, e Judite puxou assunto:
       -  Papai brigou com voc por causa daquela Domitila?
       -  E, sim. Quer me obrigar a ir l novamente.
       -  E voc no quer ir?
       -  No.
       -  Por qu? No gostou dela?
       -  No - respondeu, aps breve pausa. - Ela me d nojo.
       -  Mas por qu, Romero? Ela  feia, gorda, malcheirosa?
       -  No. At que  uma mulher bonita.
       -  Ento, qual o problema?
       -  No sei, Judite. Ela  grosseira, vulgar. Faz coisas... - engoliu em seco e afundou o rosto no travesseiro.
       -  No precisa ter vergonha de mim. Sei muito bem como so essas coisas.
       -  Voc sabe?
       -  Mais ou menos. Nunca fiz, mas sei como so. Alex e eu... bem, estamos namorando.
       Romero ergueu o corpo na cama e indagou perplexo:
       -  Vocs j dormiram juntos?
       -  Bem, dormir, no dormimos. Mas eu o deixei passar as mos em meu seio.
       - Judite!
       -  No conte nada a papai. Se ele souber, me mata.
       -  Imagine se eu ia contar uma coisa dessas! Pode confiar em mim. No digo nada a ningum.
       -  Obrigada. Sabia que podia confiar em voc. Voc  meu irmozinho, e  a pessoa no mundo que eu mais amo.
       -E Alex?  diferente. Estamos namorando h pouco tempo, mas sinto que estou gostando dele tambm. E ele se declarou apaixonado.
       Quer vir aqui em casa, falar com papai.
       -   mesmo? Quando?
       No sbado. Veja s: na confuso, esqueci de contar.
       -  Nem sei se papai ouviria. Estava to bravo... Tudo por causa daquela Domitila.
       Judite abraou-o e, como que escolhendo as palavras, disse baixinho:
       -  Quero que saiba que amo voc de qualquer jeito. Seja de que jeito voc for, eu amo e amarei sempre voc.
       - O que quer dizer, Judite? Como assim, de que jeito eu for?
       -  Quero dizer, mesmo que voc seja... diferente.
       -  Diferente como? No sou diferente. Sou igual a todo mundo.
       -  Eu sei. Mas voc... voc... - ela baixou a cabea e desanimou. - Deixe para l.
       Romero deixou. No entendia bem o que Judite estava tentando lhe dizer, ou fingia que no entendia, e virou-se para o lado. No agentava mais a presso do 
pai sobre ele. Quando ele iria compreender que Romero no apreciava aquelas ordinrias com quem ele insistia que o filho devia dormir? Quando chegasse a hora, arranjaria 
uma namorada como Judite: linda, meiga, inteligente, decidida. No queria uma vagabunda qualquer. Queria uma moa decente.
       S na noite seguinte Judite conseguiu comunicar aos pais sobre o jantar no sbado. Silas at que ficou satisfeito. Pelo que a filha dissera, Alex era um rapaz 
estudioso e de boa famlia. O pai era engenheiro, e a me era professora. Seria um excelente partido para Judite, e ele at torcia para que eles se casassem logo. 
Em tempos como os que viviam, em que a garotada andava se esquecendo da nu irai e dos bons costumes, seria bom que ela se casasse com um rapaz decente e constitusse 
famlia cedo, o que significava uma preocupao a menos.
       Silas no tocou mais no assunto de prostituta com Romero. Estava satisfeito com as perspectivas de um noivado para Judite, e os problemas com o filho podiam 
esperar. Ainda assim, quase no falava com ele, o que Romero at achou bom, para poder ficar livre daquela insistncia.
       Em seu ntimo, sentia-se profundamente magoado, no s com as lembranas do que passara, que ainda no conseguira apagar, mas, e principalmente, com a indiferena 
dos pais. Mais ainda, da me. Ele no conseguia entender como a me podia ser to omissa. Como desejava que ela o defendesse, que o acariciasse, que o tomasse no 
colo e alisasse seus cabelos enquanto ele chorava, at que ele se acalmasse e pudesse dormir. Mas ela no fazia nada disso. Silas dizia  mulher que aquilo no era 
coisa para homem e que ele acabaria se transformando num mariquinhas, de to mimado. E a me foi obrigada a concordar, passando a dispensar-lhe apenas carcias discretas 
e comedidas.
       Por isso, afeioara-se cada vez mais a Judite. Esta no se importava com o que o pai dizia ou pensava e sempre tinha uma palavra amiga para Romero. Dava-lhe 
beijos, acarinhava-lhe as faces e os cabelos, deitava-se com ele na cama, e ficavam at tarde conversando, dividindo alegrias e tristezas. Mais do que amigos, eram 
cmplices. A nica coisa que Romero no ousava comentar com a irm, por medo da reao do pai, era sua experincia com Jnior.
       Pensando em Jnior, sentiu um calafrio. Ainda guardava no corpo as marcas da violncia, e seu corao se confrangia todas as vezes em que se lembrava daquele 
episdio. Romero pensou que, enquanto vivesse, jamais passaria por aquela experincia novamente. No permitiria que nenhum homem o tocasse, no acreditaria mais 
na conversa mole de malandro algum. No queria passar por tudo aquilo de novo. No queria servir de mulherzinha para nenhum veado.
       
       
       
     Captulo 4
       
       No sbado pela manh, o telefone tocava insistentemente, e Nomia veio atender. Era Alex, pedindo para falar com Judite. Ela veio correndo atender, e Alex 
foi logo dizendo:
       -  Oi, Judite, aconteceu uma coisa meio chata.
       -  O qu? No v me dizer que no poder vir.
       -  No  isso. Meus tios chegaram de Braslia hoje de manh.
       -  E da?
       -  E da que trouxeram meu primo com eles. Meus pais e meus tios marcaram de ir ao show do Juc Chaves, mas o garoto s tem
       dezessete anos e no pode ir. Sabe como  a censura...
       -  Voc est tentando me dizer que quer traz-lo ao jantar?
       -  Se voc no se importar...
       -   claro que no. Imagine se me importaria. Traga-o com Voc. Se  seu primo, vai ser da minha famlia tambm.
       -  timo. Sabia que voc ia concordar.
       Desligaram. Mais tarde, quando Alex chegou, veio trazendo o primo, um garoto alegre e extrovertido, que logo se ps  vontade na casa de Judite. Chamava-se 
Mozart, em homenagem ao clebre compositor alemo, e era, segundo Alex, excelente pianista, o que deixou a famlia de Judite deveras impressionada.
       Silas e Nomia gostaram muito de Alex. Ele era educado e de boa famlia, e daria um excelente marido para sua filha. Depois do jantar, a famlia reuniu-se 
na sala de estar para uma conversa informal, e Nomia demonstrou curiosidade a respeito de Mozart.
       -  Meu primo toca piano desde os seis anos - anunciou Alex. - Sempre teve dom para msica.
       -  mesmo? - admirou-se Nomia. - Pena que no temos um piano em casa para o escutarmos.
       -  Que tal se fssemos  casa de Dona Filomena? - sugeriu Judite. - Ela tem um piano antigo.
       Dona Filomena era a vizinha que morava do outro lado da rua. Viva idosa e solitria, adorava receber visitas em sua casa. Depois de uma breve discusso sobre 
os inconvenientes de importun-la num sbado  noite, sem aviso, todos acabaram concordando que isso poderia ser uma boa idia.
       De um canto da sala, Romero assistia a tudo em silncio. Simpatizara muito com o rapaz. Ele era alegre, inteligente, falante e divertido. Tudo que ele no 
era. Alm disso, era muito bonito. De um louro plido, olhos verde-escuros, parecia mesmo um alemo. Pensando nisso, Romero achou que seu nome fora apropriado e 
pegou-se olhando para o rapaz a todo instante.
       Assustou-se consigo mesmo. No entendia o que havia naquele jovem que lhe atraa tanto a ateno. Quanto mais Mozart falava, mais Romero se encantava. Em 
alguns instantes, chegou mesmo a rir de suas piadas engraadas e de seu jeito espontneo. Como gostaria de ser como Mozart! Achou que era essa admirao que o atraa 
para o rapaz e tranqilizou-se. No havia com que se preocupar. Mozart era um rapaz bonito e simptico, mas era apenas um menino. No era seu parente nem seu amigo, 
e aquela admirao acabaria no instante em que ele cruzasse a porta da rua, de volta para sua casa.
       Romero acompanhou os outros sem dizer nada e foi bater  porta da casa de Dona Filomena. Ela ficou muito feliz com a visita e convidou a todos para entrar. 
Seus dedos j estavam ficando duros e, h muito, ningum tocava aquele instrumento.
       -  J deve at estar desafinado - desculpou-se. Mozart sentou-se ao piano e experimentou as teclas.
       -  Ainda est bom - anunciou, correndo os dedos pelo teclado, para admirao de todos, principalmente de Romero. - Deixem-me comear com algo de meu homenageado. 
Tocarei primeiro um clssico. - Ps-se a dedilhar o piano e elucidou: - Allegro.
       Estavam todos mudos, tamanha a admirao. O rapaz era, efetivamente, um virtuose. Judite, depois de ouvi-lo encantar a todos com as mais variadas sinfonias 
de Mozart, Bach e Tchaikovski, sugeriu:
       -  Por que no toca algo mais moderno agora?
       -  Ah! no, Judite - contestou o pai. - Est to bom.
       -  Acho que os moos gostariam de ouvir algumas cantigas da moda - disse Dona Filomena.
       Se a dona da casa concordava com msica popular, no seria Silas quem iria discutir. Limitou-se a aquiescer e sorriu meio sem jeito. Com uma graa sem igual, 
Mozart comeou a tocar uma msica mais atual e, para espanto geral, limpou a garganta e soltou a voz de bartono:
       "Lindo, e eu me sinto enfeitiada 
       "I, , correndo perigo, 
       "Seu olhar... 
       " simplesmente lindo... 
       Era "Menino Bonito", de Rita Lee. Ele cantava lindamente, e o mais estranho  que olhava para Romero de soslaio, todas as vezes em que levantava os olhos 
do teclado. Romero sentiu-se enrubescer. Olhou para o pai pelo canto do olho, mas ele parecia absorvido pela msica e embalava-se na cadeira, com a me pendurada 
em seu brao. A um canto, Judite e Alex, sentados bem agarradinhos, pareciam no perceber a existncia de mais ningum no mundo, e dona Filomena havia se levantado 
para ir buscar limonada na cozinha.
       Todos estavam distrados, e ningum percebeu os olhares de Mozart para ele. Eram para ele, sim. Tinha certeza. Cada vez que lua voz rouca diminua um pouco 
mais, ele olhava para Romero, tomando o cuidado de no deixar que os outros notassem. Mozart cantava aquela msica para ele, e Romero ficou envaidecido. Ele o achara 
bonito, estava elogiando-o por intermdio da msica. Sem se dar conta, Romero comeou a fixar o outro com insistncia e, em pouco tempo, j o encarava sem constrangimento. 
Quanto mais ele olhava para Mozart, mais Mozart o fitava, at que tocou o acorde final da msica e sorriu, desviando os olhos para os demais presentes.
       Aquele sorriso foi encantador. Dona Filomena chegou com a limonada, elogiando a habilidade e o sentimento com que Mozart tocava, no que foi seguida pelos 
demais.
       -  Voc j terminou seus estudos de msica? - quis saber Silas. Romero desviou os olhos do rapaz para fitar o pai.
       -  Acabei de completar o curso bsico.
       -  Mozart j tem uma bolsa de estudos garantida para estudar em Salzburgo - informou Alex.
       -  No me diga! - espantou-se Dona Filomena.
       -  Isso  verdade? - indagou Judite.
       -  E, sim. Mas s vou em julho.
       -  Vai fazer faculdade na Europa? - tornou Silas.
       -  Vou, sim. E pretendo integrar a filarmnica de l, quando terminar.
       A conversa concentrou-se nos estudos de Mozart, at que Silas decidiu que era hora de partirem.
       - J  tarde - anunciou -, e Dona Filomena deve estar querendo dormir.
       -  Foi um prazer receb-los em minha casa - finalizou Filomena. - Venham quando quiserem.
       Despediram-se e voltaram para a casa de Silas. Alex entrou para um ltimo caf e, enquanto ele e Judite iam para a sala conversar com os pais, Mozart saiu 
para o jardim com Romero.
       -  Espero que no tenha ficado chateado por ter de tocar para ns - disse Romero, para puxar assunto.
       -  Chateado, eu? Imagine... Pois se  a coisa no mundo que mais gosto de fazer! - Olhou fundo nos olhos do outro e indagou: - E voc? Do que mais gosta?
       Romero, acanhado, deu de ombros e respondeu:
       - No sei. Acho que nada.
       -  Nada? Impossvel. Todo mundo gosta de alguma coisa.
       -  Bem, o que aprecio, meu pai no me deixa fazer.
       -  Como assim?
       -  E que gosto de coisas... que ele considera... imprprias.
       -  O qu, por exemplo? Ser que voc gosta de fumar e beber?
       -  No, no. Mas gosto de... poesias, por exemplo.
       -  E o que h de mais? Tambm gosto de poesias. Quer ver?
       Recitou um verso de Vincius de Morais e perguntou:
       -  Gostou?
       -  Ser que existe alguma coisa que voc no conhea? - tornou Romero, atnito.
       -  Muitas. Mas no que se refere s artes, acho difcil. Adoro tudo que se relaciona  arte.
       -  Srio? E seus pais no ligam?
       -  Ligar?  claro que no.
       -  Que sorte a sua. Meu pai acha muitas coisas inadequadas. Quero dizer, no  que ele no goste. Voc viu hoje como ele ficou com sua msica. Mas ele diz 
que poesias e romances aucarados so coisas para mocinhas.
       -  Ah!  isso? Seu pai  bem careta, no ?
       -  E, sim. E muito antiquado. Acha tudo feio.
       -  Ainda bem que meus pais no so assim. Eles concordam com tudo que fao. Ao menos, com quase tudo.
       -  Como assim? Voc faz coisas que os desagradam?
       -  No exatamente. Fao coisas que eles no sabem.
       -  O qu?
       Antes que Mozart pudesse responder, Alex veio do interior da casa, de mos dadas com Judite, e com Silas a seu lado.
       -  Vamos, Mozart - chamou o primo. - Est na hora de irmos tambm. J  quase meia-noite.
       Mozart levantou-se e limpou as calas. Estendeu a mo para Romero, que se levantara tambm, e esperou at que os outros passassem.
       -  Posso telefonar para voc?- indagou, acompanhando com o olhar os outros caminharem at o porto. - Podemos marcar de ir a um cinema ou algo parecido. Voc 
gostaria?
       -   claro que sim - respondeu Romero, sentindo o rosto arder.
       -  timo. Pegarei seu nmero com Alex.
       Apertaram-se as mos e separaram-se. Romero ficou onde estava, vendo o rapaz afastar-se, tentando imaginar por que algum como Mozart sairia com um cara bobo 
igual a ele. Devia haver mil garotas querendo sair com ele, mas Mozart convidara-o para ir ao cinema. Por qu? Por mais que tentasse arranjar uma desculpa, Romero 
sabia que Mozart se interessara por ele. O rapaz nada dissera, mas seus olhares foram bastante significativos. Ser que ele era homossexual? Se fosse, no seria 
muito apropriado que os vissem juntos.
       Pensando melhor, que mal poderia haver? Pelo visto, ningum sabia dessa particularidade da vida de Mozart, se  que isso era verdade. E ningum teria motivos 
para desconfiar dele. Nem seu pai. Ele e Mozart poderiam travar uma amizade sincera, e o pai ainda os estimularia, s para ver se Mozart seria capaz de arranjar 
uma namorada para ele.
       Mas era s isso que poderiam ter: uma amizade sincera. Romero no queria nada alm disso. Se o rapaz era homossexual, isso era l problema dele. Mas Romero 
no queria se envolver com aquele tipo de coisa. Ainda guardava fresquinha na memria a trgica experincia que tivera com Jnior e no pretendia que aquilo se repetisse. 
Fora horrvel! As mos grossas de Jnior em seu corpo, as pancadas que levara, a dor das entranhas dilaceradas.
       Ao se lembrar desse episdio, Romero chorou baixinho. Como algum era capaz de fazer aquilo com outra pessoa? Era medonho. Ser ultrajado daquela maneira, 
ferido, humilhado. Ele no merecia. Ficou recordando as mos de Jnior e a sensao que tivera quando ele o tocara. Fora nojento! Jnior apalpara-o e apertara-o. 
Aquilo lhe causara dor.
       Mas no fora apenas dor. Romero soltou um grito abafado de pavor ao pensar nisso. Por detrs da dor que Jnior lhe infligira, podia sentir algo diferente. 
Fora doloroso, sim, porque violento. Mas alm da dor, da violncia, havia algo que Romero no sabia definir. Ele queria se convencer de que fora vtima de um ato 
abominvel e de que jamais passaria por aquilo novamente. Mas a verdade  que, pensando em Mozart, a experincia com Jnior no lhe parecia mais assim to terrvel.
       Cada vez mais assustado consigo mesmo, Romero tinha at medo de pensar e descobrir coisas que no gostaria de ver. Mozart despertara nele sentimentos que 
antes Jnior havia despertado, sem que ele soubesse. Quanto mais constatava isso, mais se indignava e ficava repetindo para si mesmo que o que Jnior lhe fizera 
fora horrendo, porque ele o obrigara a fazer coisas que no queria. No queria? Se no queria, por que ento aceitara sua companhia? Ento no vira que ele o ficara 
olhando? Que homem olha para outro homem do jeito como ele olhara para Jnior se  verdadeiramente homem?
       Ele sabia. No fundo, sabia o que Jnior queria. E o que Jnior queria, inconscientemente, era o que ele queria tambm. Por isso lhe doa tanto. Saber que 
Jnior o maltratara por algo que ele tambm desejava, s que de outra forma. E era o mesmo que ele sentira com relao a Mozart. S que Mozart era um jovem educado 
e sensvel, ao passo que Jnior era um grosseiro. Mas, em seu ntimo, Romero sabia que o que o atrara para Jnior era o mesmo sentimento que o atraa agora para 
Mozart. No era paixo nem desejo. Nem curiosidade, nem perversidade. Era instinto. Apenas instinto. Por um motivo que Romero no sabia explicar, sentia-se atrado 
pelos rapazes, como jamais fora por garota nenhuma.
       Mas como aquilo era possvel? Talvez ele estivesse confuso. Talvez a experincia traumtica com Domitila o houvesse levado para o outro lado. Mas, se Domitila 
o traumatizara, o que deveria dizer de Jnior? Domitila no lhe batera, ao passo que Jnior o espancara at quase o deixar inconsciente. As carcias de Domitila 
o enojaram, enquanto as mos de Jnior lhe causaram imensa dor. Mas por detrs da dor...
       No queria reconhecer, teimava em no aceitar. O que sentira com Jnior fora dor, s dor. Contudo, se fora apenas dor, o que seria aquele fogo que o queimava 
por dentro todas as vezes em que se lembrava do contato da pele de Jnior sobre a sua prpria pele? Era dor, insistia, dor. Dor, dor! Ficava repetindo para si mesmo 
essa palavra, tentando com isso se fazer surdo ao apelo do prazer que lutava para emergir. Um prazer que ele no queria reconhecer ou aceitar. Um prazer proibido, 
inaceitvel, vil. Mas fora um prazer. No fosse a dor do espancamento e da humilhao, Romero teria se deliciado com Jnior, ao passo que Domitila, por mais que 
o acariciasse, jamais conseguiria lhe dar um mnimo de prazer, o mais nfimo que fosse.
       Essa descoberta o angustiou e apavorou. Se o pai soubesse de uma coisa daquelas, era bem capaz de mat-lo. Jamais entenderia. Trataria de cham-lo de veado, 
pederasta, bichona, mariquinhas e outras coisas do gnero. Dar-lhe-ia uma surra maior que a de Jnior. E, se no o matasse, ele o colocaria para fora de casa com 
uma mo na frente e outra atrs, dizendo que no tinha mais filho. Romero conhecia-o muito bem. Seu pai jamais aceitaria uma coisa daquelas. Mas quem aceitaria? 
Naquele mundo de preconceitos, ningum. Talvez Judite. Apenas ela seria capaz de compreend-lo. Apenas seu amor estava acima de todas aquelas coisas.
       
     Captulo 5
       
       Na tera-feira  tarde, o telefone tocou e Romero levantou os olhos do livro que estava lendo, apurando os ouvidos. Ouviu os passos da me aproximando-se 
pelo corredor e susteve a respirao. Em poucos segundos, a porta entreabriu-se de leve e a voz de Nomia anunciou:
       -  Telefone para voc.  Mozart, o primo de Alex.
       Tentando no demonstrar excessiva ansiedade, Romero balanou a cabea e levantou-se da escrivaninha. Sorriu para a me e atravessou o corredor, corao aos 
pulos, morrendo de medo de que a me percebesse sua euforia. Quando atendeu, esforou-se para tornar a voz o mais casual possvel:
       -  Al?
       -  Al! Romero? Sou eu, Mozart.
       -  Oi, Mozart. Tudo bem?
       -  Muito bem. Estou atrapalhando?
       -  No, claro que no.
       -  timo. Estive pensando... No gostaria de ir ao cinema hoje?
       -  Hoje? No sei. Meu pai no gosta de que eu saia nos dias de semana.
       -  Ah, que pena! Pensei que pudssemos conversar. H uma lanchonete tima aonde podamos ir depois.
       -  Eu gostaria, mas no sei se vai dar.
       -   mesmo uma pena, mas enfim... Fica para uma prxima vez, ento.
       Antes que Mozart desligasse, Romero falou apressado:
       -  Espere! No desligue ainda. Vamos fazer o seguinte: meu pai vem do trabalho l pelas seis horas. Quando ele chegar, peo a ele. Se ele deixar, ligo para 
voc de volta. Se no, deixamos para outra ocasio. Combinado?
       -  Combinado - respondeu Mozart rapidamente. Desligaram. Romero percebeu que, assim como ele, Mozart tambm estava ansioso, e ficou perguntando-se por qu. 
No fundo, ele bem que sabia. Mozart estava interessado nele e deveria pensar nele com freqncia, assim como Romero tambm pensava em Mozart. Mas o que diria o pai 
se desconfiasse daquilo? Silas jamais poderia desconfiar. No havia nem motivo. Romero falaria com ele e pediria para sair com Mozart, e talvez ele deixasse, pensando 
que seria uma tima oportunidade para que Romero se entrosasse com um rapaz educado como Mozart e, quem sabe, juntos, no poderiam arranjar namoradas?
       Efetivamente, foi o que aconteceu. Ao saber do convite de Mozart, Silas deu um sorriso maroto e considerou:
       -  Aquele Mozart  muito esperto. Nem bem chegou ao Rio e j est querendo companhia para ir  caa das meninas.
       Romero achou aquela expresso terrivelmente vulgar, mas no disse nada. Sem dvida, as meninas mereciam mais respeito, pois no eram animais para serem caados, 
mas era assim que Silas entendia a noo de masculinidade. O verdadeiro homem, para ele, o macho, como dizia, era avaliado pela quantidade de mulheres com quem dormia. 
Romero escondeu uma careta de repulsa e indagou ansioso:
       -  Quer dizer que posso ir?
       -  Pode. Mas s porque  com Mozart, que  primo do namorado de sua irm, um rapaz de bem, uma tima amizade para voc. Tenho certeza de que ele, no mnimo, 
vai ensin-lo a paquerar.
       Como Silas estava enganado! Mozart no lhe dissera nada, mas Romero sabia o que ele estava pretendendo. Pediu licena ao pai e foi telefonar. Quando Mozart 
atendeu, Romero foi logo falando, mal contendo a euforia:
       -  Tudo combinado. Meu pai concordou. Mozart, do outro lado da linha, deixou escapar um sorriso de alvio e satisfao, e finalizou:
       -  Passo em sua casa s sete e meia. Pegamos a sesso das oito e depois vamos  lanchonete. Est bom assim?
       -  Est.
       Assim que Mozart pousou o fone no gancho, Alex entrou na sala e viu o primo parado perto da mesinha do telefone. Cumprimentou-o com um sorriso e indagou curioso:
       -  Por que essa cara de felicidade? J arranjou uma namoradinha carioca?
       O outro fez um ar enigmtico e objetou:
       -  Ainda no descobri nenhuma garota interessante.
       - No?
       Alex queria perguntar com quem ele estava falando ao telefone, mas no teve coragem. Mozart, contudo, foi logo esclarecendo:
       -  No. Eu estava falando com Romero.
       -  Romero? Irmo de minha namorada?
       -  Esse mesmo. Convidei-o para ir ao cinema e depois  lanchonete.
       -  No diga! E o pai dele deixou?
       -  Deixou.
       -  Bom, fico feliz que tenha arranjado um amigo. Mas no v se animando muito. Se pensa que arranjou uma companhia para paquerar, pode esquecer. Judite diz 
que Romero  tmido e retrado. Alm disso,  mais novo do que voc. Pode acabar atrapalhando.
       -  Quantos anos ele tem?
       -  Fez catorze h poucos dias.
       -  Isso no importa - tornou Mozart, com ar alheado. - E no creio que ele v me atrapalhar. H garotas de todas as idades por a.
       -  Bom, voc  quem sabe. De qualquer forma,  melhor sair com ele do que ficar em casa. No posso ficar lhe dando ateno o tempo todo.
       -  Nem eu queria que voc ficasse de bab. J sou grandinho e posso me virar.
       -  Talvez seja at bom voc e Romero fazerem amizade. Quem sabe voc no ajuda o menino a se soltar?
       -  Farei isso - concluiu com ar sonhador.
       As sete e quinze, Mozart bateu  porta da casa de Romero. Nomia atendeu e demonstrou genuna alegria ao deparar com o rapaz.
       -  Entre, Mozart. Romero est terminando de se arrumar e j vem.
       Com um sorriso encantador, Mozart passou para o lado de dentro e sentou-se no sof da sala, onde Silas j se encontrava, fazendo palavras cruzadas.
       -  Boa noite, seu Silas - cumprimentou com jovialidade.
       -  Ah! Mozart, boa noite. Chegou cedo.
       -   que o nibus veio rpido.
       -  Esses motoristas de hoje so mesmo uns loucos. Tm mania de Fittipaldi.
       -   verdade...
       -  Quer dizer ento que vocs vo ao cinema...
       -   sim.
       -  E depois vo lanchar?
       -  Se o senhor no se incomodar que Romero chegue um pouco mais tarde...
       -  E claro que no me incomodo. Romero  homem. Eu, na idade dele, j aprontava das minhas.
       Piscou um olho para Mozart e olhou de soslaio para Nomia, como a dizer que aquele era um assunto que um marido no deveria comentar na frente da mulher. 
Mozart sorriu meio sem jeito e consultou o relgio, torcendo para que Romero aparecesse logo.
       -  Onde fica essa lanchonete?- indagou Nomia, preocupada.
       -  Fica mais ou menos perto da casa de Alex. Inauguraram outro dia.
       -  Deve haver muitas garotas bonitas por l, no  mesmo? - observou Silas, com ar de malcia.
       Felizmente, Mozart no precisou responder, porque Romero chegou em companhia de Judite. Ele estava muito bonito, de jeans, camisa plo e tnis Rainha. Mozart 
levantou-se embevecido, mas foi para Judite que dirigiu o cumprimento:
       -  Ol, Judite. Linda como sempre.
       -  Obrigada, priminho - respondeu ela, beijando-o no rosto. Mozart sorriu satisfeito e devolveu o beijo, acrescentando de bom humor:
       -  No vejo a hora de virarmos, realmente, primos.
       -  Ei, v devagar - censurou Silas em tom de brincadeira. - Judite j tem namorado. E  seu primo.
       Todos riram, inclusive Romero, que tinha medo at de falar. A mesma emoo que Mozart sentira, ele tivera tambm. S que Mozart no tinha nenhuma irm ali 
com ele para quem pudesse dirigir sua admirao.
       -  Acho que j est na hora de vocs irem - incentivou Judite. - No querem perder a hora do cinema, querem?
       Os dois rapazes despediram-se e seguiram rua abaixo, em direo ao ponto de nibus.
       -  No vamos a p? - perguntou Romero, acostumado que estava a caminhar at o local onde ficava a maior parte dos cinemas de seu bairro.
       -  Estou um pouco cansado - desculpou-se Mozart. - Se no se importar, preferia ir de nibus.
       Romero deu de ombros e no respondeu. A conduo logo chegou, e, depois que se acomodaram, Mozart retomou a palavra:
       -  Quer mesmo ir ao cinema?
       -  Como assim? No foi para isso que voc me convidou?
       -  Foi... quero dizer... foi essa a minha idia, a princpio. Mas est uma noite to bonita. E to quente!
       Aproximou-se de Romero e soprou de leve em seu rosto, causando-lhe arrepios pelo corpo todo. Romero assustou-se. Lembrou-se do que acontecera com Jnior e 
sentiu vontade de fugir. Rosto coberto de rubor, argumentou:
       -  Mas meu pai me deixou ir ao cinema.
       -  Por que no esquece seu pai?
       -  Ele pode no gostar se souber que no fomos.
       - No precisamos contar a ele.
       Aquela situao pareceu a Romero extremamente familiar. Mozart dizia mais ou menos as mesmas coisas que Jnior lhe dissera. Assustado, virou o rosto para 
a janela, sentindo que o pnico o dominava, e s ento percebeu que o nibus que haviam tomado estava chegando  zona sul. Apavorou-se. No era aquilo que haviam 
planejado. Ser que Mozart tencionava fazer a ele o mesmo que Jnior fizera? Teria armado aquela encenao toda s para atra-lo para longe e atac-lo covardemente? 
De repente, sentiu a mo de Mozart apertar de leve a sua e virou o rosto para o rapaz.
       -  Por que est fazendo isso? - perguntou Romero com voz trmula.
       -  Gostaria que fssemos amigos.
       Era demais. Mozart, efetivamente, no tinha boas intenes para com ele. Se no, no estaria repetindo quase as mesmas palavras que Jnior lhe dissera na 
noite em que o violentara. Mozart apertou ainda mais sua mo, e Romero descontrolou-se. De um salto, levantou-se do banco e deu o sinal, correndo pelo corredor at 
a porta da frente. Embora tomado de surpresa, Mozart conseguiu levantar-se c desceu atrs dele, correndo pela rua e chamando-o pelo nome:
       -  Romero! Espere! Pare a! O que aconteceu?
       Sem responder, Romero disparou em direo  praia, s parando ao sentir os tnis cheios de areia. Olhou para a frente e viu o mar escuro, calmo naquela noite 
de vero. Parou arfante, e Mozart conseguiu alcan-lo.
       -  Fique longe de mim! - berrou aos prantos, andando para trs.
       -  Romero, por favor, espere. O que foi que fiz?
       -  No se aproxime de mim, sua bicha nojenta!
       -  Mas o que  isso? Por que est me ofendendo?
       -  No  isso o que voc ? Uma bicha nojenta? O outro olhou-o com ar magoado e respondeu lacnico:
       -  No.
       -  Mentiroso! Por que me trouxe aqui, ento?
       -  Pensei que pudssemos ser amigos.
       -  Aqui? Na praia? Longe de casa? Igualzinho ao outro!
       -  Que outro?
       -  No interessa! Voc no tem nada a ver com minha vida!
       -  Oua, Romero, no sei o que aconteceu com voc, mas no  o que est pensando.
       -  No estou pensando nada! Voc  que est! Voc pensa que s porque aceitei seu convite, sou igual a voc. Mas no sou. Eu sou homem, viu?
       -  Ningum est dizendo o contrrio.
       -  Mas voc est pensando. Se no, no teria me arrastado para c.
       -  Desculpe-me se tomei o nibus sem o consultar. Mas pensei que voc tivesse visto que nibus era.
       -  Sou muito distrado para essas coisas. E voc se aproveitou para... para...
       -  Para o qu?
       -  Voc sabe. No se faa de desentendido.
       -  No, no sei. No sei nem do que voc est falando. Voc me acusa, e nem sei de qu.
       -  No sabe, no ? Vai me dizer que no ficou me olhando esquisito?
       -  Do mesmo jeito que voc ficou me olhando.
       -  Eu! ? Era s o que me faltava!
       Mozart deu um passo  frente, e Romero ameaou:
       -  Fique onde est. Se no, vou gritar at que algum aparea. No vou deixar que faa aquilo comigo. De novo, no!
       -  Aquilo o qu?
       -  Aquilo! Voc sabe!
       -  No vou fazer nada com voc.
       -   mentira! Voc  igualzinho a Jnior. Fala as mesmas coisas que ele, ficou me olhando como ele tambm ficou. Depois, me atraiu para um lugar deserto e... 
e... - Desatou a chorar convulsivamente, e Mozart tentou aproximar-se novamente, mas Romero reagiu como da outra vez: - No! No chegue perto de mim!
       Mozart estacou. Agora estava comeando a entender. Sentou-se na areia e dobrou os joelhos. Aguardou alguns instantes at que Romero se acalmasse e falou com 
voz pausada:
       -  Oua, Romero, no sei quem  esse Jnior nem o que ele fez a voc. Mas posso imaginar...
       -  Ah! Voc pode, no ? Porque faz as mesmas coisas!
       -  Est enganado. H pouco, voc me perguntou se eu era uma bicha nojenta...
       -  E voc ainda teve coragem de dizer que no.
       -  Porque no sou. Se voc quer saber se sou, bem, homossexual, sou.  isso o que sou. S isso. No sou nojento. Sou uma pessoa decente e jamais faria nada 
contra sua vontade. Nem a voc, nem a quem quer que seja.
       Romero fitou-o espantado.
       -  Voc...  homossexual? O qu? Um veado?
       -  Se voc prefere chamar assim... Eu no me importo. Mas no sou nojento. E no tenho culpa de ser o que sou.
       -  Meu pai diz que todo veado  nojento.
       -  Seu pai  um homem muito preconceituoso. No o culpo; ele  como todo mundo. Mas voc no precisa ser igual a ele. Pode ser do jeito que .
       -  Eu no sou veado...
       -  Eu no disse que . Mas, se for, timo. Para mim, pelo menos, porque gostei muito de voc. Mas, se no for, no faz mal. Vou ser seu amigo assim mesmo. 
Podemos ir ao cinema,  lanchonete, mas sem susto. No vou atacar voc. No sou nenhuma besta nem nada parecido.
       -  No vai querer... me... violentar?
       -  Violentar? Deus me livre! Detesto violncia.
       -  Ento, por que me trouxe aqui?
       -  Para ser seu amigo, j disse.
       -  Voc no quer ser s meu amigo.
       -   verdade. Posso at querer algo mais. Mas somente se voc quiser. Se no, vamos apenas ser amigos mesmo. No sou tarado. Vou respeitar voc e nunca mais 
tocarei nesse assunto nem insinuarei nada. S o que peo  que me respeite tambm.
       Agora mais calmo, Romero aproximou-se e sentou-se ao lado de Mozart. Ele parecia sincero, e seu semblante demonstrava uma serenidade que Romero no conhecia.
       - Voc gostou de mim? - perguntou Romero timidamente.
       - J disse que gostei. E pensei que voc tivesse gostado de mim tambm. Mas, se me enganei, peo que me perdoe.
       -  Voc... no se enganou... - tornou Romero, a voz cada vez mais sumida.
       Mozart sentiu imensa emoo. Teve vontade de tom-lo nos braos e beij-lo, mas no queria assust-lo. Estava na cara que Romero estava ainda muito confuso, 
nem sabia que era homossexual. Mas era. Apesar de seus dezessete anos, Mozart j era um rapaz experiente no assunto e reconhecia um homossexual  distncia, mesmo 
que o outro no se reconhecesse. Era o que acontecia com Homero. Muito novinho, no sabia ainda lidar com seus instintos, li o pai no ajudava. Pelo visto, era um 
homem preconceituoso e crtico, e condenava as pessoas antes mesmo de as conhecer, apenas com base em seu comportamento externo. Se Silas soubesse que Mozart era 
homossexual, apagaria toda a boa impresso que fizera dele, de sua educao, de sua simpatia, de sua msica, e trataria logo de tach-lo de pessoa ruim e indesejvel.
       -  Fico feliz - balbuciou Mozart, por fim. - Assim, podemos nos conhecer melhor.
       -  Olhe, Mozart, gostei muito de voc, mas no sou igual a voc. Sou diferente.
       -  Ento, por que gostou de mim?
       -  Porque voc  um cara legal.
       -  S por isso? 
       -  S.
       Mozart deu um suspiro profundo e tornou conformado:
       -  Est bem. S voc para dizer o que sentiu.
       Passaram alguns minutos em silncio e ficaram observando a espuma branca das ondas sobressaindo-se no negrume do mar. Olhando pelo canto do olho, Mozart notou 
lgrimas nos olhos de Romero, mas tinha medo de perguntar por que ele estava chorando.
       - Tenho medo... - falou Romero de repente. - Medo de mim mesmo.
       -  Por qu?
       -  Tenho medo de descobrir em mim coisas que no gostaria de descobrir.
       -  O qu, por exemplo?
       -  Voc sabe. J passou por isso.
       -  E, passei. Mas, em meu caso, as coisas foram mais fceis. Eu no tenho um pai machista nem encontrei nenhum Jnior em minha vida.
       -  Como voc sabe de Jnior? - revidou Romero em tom agressivo.
       -  Foi voc quem falou.
       -  Eu?
       -  Disse que sou igualzinho a ele.
       -  Voc no ...
       -  Que bom. No sei quem  Jnior, mas, seja quem for, quero que saiba que no sou como ele.
       Agora foi a vez de Romero suspirar, um suspiro doloroso, carregado de lembranas difceis.
       - Jnior foi o cara que... que... me... o cara que...
       Era difcil para Romero tocar no assunto, e Mozart compreendeu isso. Apertou novamente sua mo e, com voz doce, finalizou:
       -  No tem importncia. No precisa falar, se no quiser. Mozart levantou-se e puxou o outro pela mo, caminhando com ele pela praia. Mesmo sem admitir, Romero 
sabia que estava feliz. A exceo de Judite, Mozart fora a nica pessoa que o tratara bem, que realmente parecia se importar com ele. Romero sorriu intimamente e 
buscou a mo de Mozart a seu lado. Apertou-a gentilmente e sorriu. Estava realmente feliz.
       Daquele dia em diante, Mozart e Romero, sempre que podiam, ficavam juntos. Como estavam de frias, tinham bastante tempo para se divertir. Os pais de Mozart 
haviam voltado para Braslia, deixando o menino com os tios at o final da estao. Silas parecia satisfeito com aquela amizade, ainda mais porque Mozart sempre 
tocava no nome de uma ou outra garota em sua frente, levando-o a crer que estavam saindo com elas. Mas eles saam quase sempre sozinhos. Vez ou outra, Judite e Alex 
acompanhavam-nos; outras vezes, tinham de fazer passeios em famlia, mas ningum percebia nada entre eles. Para todos os efeitos, Romero e Mozart eram garotos e 
camaradas, dividindo juntos as aventuras das frias de vero.
       -  Quando voc vai embora? - perguntou Romero a Mozart, enquanto jogavam cartas na cama do primeiro..
       -  Ainda falta muito.
       -  Mas quando?
       -  No fim de fevereiro. Fico em Braslia at julho e depois parto para Salzburgo.
       -  Como ser l?
       -  Frio.
       Ambos riram, e Mozart anunciou, estirando as cartas na cama:
       -  Bati.
       Ouviram batidas na porta, e Nomia entrou com uma bandeja de sanduches e refrigerantes.
       -  Vocs vo sair hoje? - perguntou, depositando a bandeja
       perto deles.
       - No sabemos ainda, me. Por qu?
       -  Porque parece que vai chover.
       -  Chuva de vero - disse Mozart. - Passa logo.
       -  No sei, no. Parece que est armando um temporal. Efetivamente, a chuva desabou cerca de meia hora depois e
       Jurou quase quarenta minutos. Quando estiou, Silas chegou do trabalho, todo molhado, indagando pelos filhos.
       -  Judite est no quarto escutando msica - esclareceu Nomia. - E Romero est jogando cartas com Mozart.
       -  Graas a Deus! Parece que as ruas esto alagadas por a.  bom que ningum saia hoje.
       -  E Mozart?
       -  Pode dormir no quarto de Romero. Foi, ele mesmo, dar a notcia aos meninos.
       -  Acho que minha tia vai ficar preocupada - objetou Mozart, internamente saltitando de felicidade.
       -  Pode deixar que eu mesmo ligo para ela. Voc dorme aqui boje e, amanh cedo, vai para casa.
       Foi uma felicidade. Os dois ouviram msica com Judite, joga-iam Banco Imobilirio, brincaram de mmica, assistiram  televiso. Vendo os dois juntos, Judite 
punha-se a observ-los. Havia algo de estranho naqueles dois. Nem o pai, nem a me, nem Alex notaram nada. Mas ela percebia. Havia em seus gestos um qu de intimidade 
que no era comum entre amigos. Os dois viviam se tocando e se esbarrando de uma maneira fora do comum. Alm disso, havia os olhares. Eles eram cuidadosos na presena 
dos pais, mas pareciam no se importar muito com ela. E Judite percebia que a excessiva camaradagem existente entre eles ia alm de uma simples amizade.
       Mas Romero estava feliz, ela reconhecia. Fosse o que fosse que estivesse acontecendo entre eles, estava fazendo bem ao irmo. E ver a felicidade dele era 
o suficiente para Judite no questionar nem sugerir nada. H muito desconfiava de Romero, mas ele nunca lhe dissera nada. Agora, porm, tinha quase certeza. E o 
pai deveria ser cego para no notar. Logo ele, que era to machista, to preocupado com a virilidade, com sua noo distorcida do homem de verdade.
       Judite no se importava. Temia apenas as conseqncias. Se alguma coisa estivesse acontecendo entre Romero e Mozart, era muito perigoso. Se o pai descobrisse, 
ela nem queria pensar. Por isso, tinha medo. Medo da reao do pai, das pessoas em geral. Ser que Romero agentaria ser rejeitado pela famlia e pela sociedade? 
Amigos, ele no tinha, a no ser ela e, agora, Mozart. E Alex? Ser que ia aceitar? Ela nunca havia conversado sobre isso com ele, mas tinha quase certeza de que 
Alex no aceitaria uma coisa daquelas. Se  que havia mesmo alguma coisa entre Romero e Mozart.
       Depois do jantar, os trs ficaram ainda um pouco mais vendo televiso, at que Judite, bocejando, anunciou que ia dormir.
       -  Ser que Mozart no quer tomar um banho? - indagou Nomia, toda solcita.
       -  Eu gostaria, sim. Mas no trouxe nenhuma roupa.
       -  Isso no  problema- respondeu Romero. - Posso lhe emprestar um short e uma camiseta.
       -  Isso mesmo - concordou Silas. - Nomia, providencie uma toalha limpa para o menino.
       Nomia deu a toalha para Mozart e voltou para a sala. Sentou-se ao lado do marido e continuou assistindo  TV. Pouco depois, Mozart reapareceu, cabelos molhados, 
vestindo as roupas de Romero.
       -  Tambm vou tomar banho - anunciou o outro, encaminhando-se para o banheiro.
       Demorou mais que o habitual. Fazia muito calor, e a presena de Mozart desconcertava-o. Quando saiu do banheiro, a casa estava quase silenciosa,  exceo 
da televiso, que tocava baixinho a cano de um filme. Romero espiou da porta e viu que apenas o pai estava na sala, cabeceando em frente ao aparelho ligado. Sorrindo, 
deu meia-volta e foi para seu quarto.
       A me havia colocado um colchonete aos ps de sua cama, onde Mozart estava deitado, braos cruzados embaixo da cabea. Os cabelos, agora secos, esvoaavam 
toda vez que o vento do ventilador os atingia. Romero engoliu em seco e entrou.
       -  Est com sono? - perguntou a Mozart.
       -  No. Acho que hoje no conseguirei dormir
       -  Por qu? Est sentindo alguma coisa?
       Ele sorriu e no respondeu. Levantou-se do colchonete e foi sentar-se na cama, ao lado de Romero.
       -  Est fazendo muito calor hoje - observou.
       -  E, sim.
       Estavam os dois desconcertados. Ambos sentiam uma atrao irresistvel um pelo outro, mas nenhum dos dois queria tomar iniciativa. Romero, por medo e insegurana; 
Mozart, temendo assustar e chocar o amigo. Mas o corao, muitas vezes, no consegue conter o sentimento, assim como o medo no detm a paixo. Num impulso genuno, 
Mozart afastou os cabelos da testa de Romero e, num segundo, pousou-lhe delicado beijo nos lbios.
       A princpio, Romero pensou em repeli-lo. Mas aquele beijo lhe causava uma sensao to gostosa, um prazer nunca antes experimentado, uma paz reconfortante, 
que Romero se deixou beijar. No comeo, limitou-se a deixar-se beijar. Aos poucos, porm, sentindo-se confiante, passou a corresponder com ardor e, em breve, os 
dois estavam se amando.
       Tudo terminado, Mozart acariciou-o gentilmente e foi s ento que percebeu lgrimas nos olhos de Romero.
       -  Por que est chorando? - perguntou aflito. - Por acaso o magoei? Fiz algo de que no gostasse ou que o agredisse?
       -  No...  que voc  to diferente! Diferente do que eu pensava. Tudo com voc  diferente. Diferente de Jnior...
       -  L vem voc de novo com esse tal de Jnior.
       -  Sinto muito. E que no consigo me esquecer de que foi Jnior... - Calou-se envergonhado.
       -  Por que no me conta logo o que ele lhe fez?
       -  No sei se poderia.  vergonhoso.
       -  Sente vergonha do que fizemos hoje?
       -  No sei... No. Sinto medo.
       -  Melhor sentir medo do que vergonha. O medo  natural, porque voc  diferente, e ningum gosta de ser diferente. Por isso, vem o medo da rejeio. Mas, 
se voc sente vergonha, isso significa que voc no consegue se aceitar e acha que o que est fazendo no  certo. -E ?
       -  Por que no ?
       -  Porque no  natural.
       -  E o que  natural?
       -  No sei. Acho que normal  um homem transar com uma mulher.
       -  Isso pode ser o mais normal. Mas no  a nica coisa natural. Natural, para mim,  fazer tudo aquilo que o corao manda, porque o corao jamais engana 
ningum.
       Romero quedou pensativo por alguns segundos e depois acrescentou:
       -  Voc tem um jeito de pensar sobre as coisas! Como pode ser assim?
       -  Sei l. Acho que  porque eu sempre me assumi.
       -  Sempre? Contou a todo mundo?
       -  Isso  outra coisa. Para me assumir, no preciso me expor, at porque no tenho necessidade de ter a aprovao de ningum. Eu me assumi porque aceito o 
que sou e no me sinto nem culpado, nem uma aberrao. Sou apenas diferente em uma particularidade, o que no significa que seja melhor ou pior do que ningum.
       -  E seus pais? Eles sabem?
       -  Creio que desconfiam. Mas nunca me perguntaram nada.
       -  E se perguntarem?
       -  Vou dizer a verdade. E tenho certeza de que eles vo compreender. Minha me era meio hippie quando conheceu meu pai, que  um artista.
       -  Seu pai tambm  artista?
       -  Por que acha que tenho este nome? A msica  um dom de famlia.
       -  Voc tem sorte. Quisera eu ter pais iguais aos seus. Mas meu pai  superpreconceituoso, e minha me no abre a boca para dizer nada. Morre de medo de contrari-lo.
       -  E sua irm?
       - Judite  diferente.  minha amiga, e acho que tambm entenderia. Uma vez, ela veio at com uma conversa de que gosta de mim de qualquer jeito, mesmo eu 
sendo diferente.
       -  Isso  muito bom. E voc ? J teve outras experincias alm desta?
       - No... quero dizer... houve Jnior... Mas ele no conta.
       -  Por qu? 
       -  Porque ele foi... foi... violento.
       -  O que ele lhe fez?
       -  Quer mesmo saber?
       -  Se no quisesse, no estaria perguntando.
       -  Ele... ele... me... ele me... violentou...
       -  Como?
       Romero baixou os olhos e chorou de mansinho. Abriu a boca para falar e contou tudo, desde a troca de olhares no cinema at quando o pai lhe proibira de tocar 
no assunto. Mozart foi bastante compreensivo e abraou o outro com ternura, dizendo-lhe palavras reconfortantes e amistosas. Romero, mais uma vez, sentiu-se feliz. 
Feliz e seguro. Tudo que queria era algum como Mozart. E ele no queria mais se separar de Mozart. Nunca mais.
       
     Captulo 6
       
       A partir daquela noite, passou a ser costume Mozart dormir na casa de Romero, e os dois ficavam acordados at tarde, jogando cartas ou assistindo  televiso, 
at que Silas e Nomia fossem dormir. Depois, tudo em silncio, os dois se trancavam no quarto e acabavam quase sempre se amando, pegando no sono alias horas da 
madrugada.
       -  Acha certo o que estamos fazendo? - indagou Mozart, certa vez.
       -  Como assim? No v me dizer que mudou de idia e que agora acha que devemos virar heterossexuais - gracejou o outro.
       -  No me refiro a isso, mas sim ao fato de estarmos transando dentro de sua casa. Seu pai pode ser um careta, mas sempre me i ratou bem e confia em mim.
       Romero ficou pensativo. Mozart no deixava de ter razo, mas o que poderiam fazer?
       -  No temos idade bastante para entrar num motel - arriscou Romero. - Por isso, no vejo outro jeito.
       -  Ainda assim, no me sinto bem. Parece uma traio.
       -  No exagere. No temos culpa se nos amamos e no temos um lugar s para ns. Quando eu ficar maior, vou me formar e ns vamos viver juntos.
       -  Voc se esquece de que vou para Salzburgo?
       -   verdade - tornou Romero, pensativo. - Quase havia me esquecido... Mozart?
       -  Hum?
       -  O que vai ser de mim quando voc for embora?
       -  Vai arranjar outra pessoa - respondeu Mozart, hesitante.
       -  No quero outra pessoa. Quero voc. Voc no me quer?
       -   claro que quero.
       -  Ento, o que vamos fazer? Em julho, voc parte para a ustria. E eu? Como vou me arranjar por aqui sem voc?
       -  No sei, Romero, nem quero pensar nisso. Di, s de imaginar o dia em que teremos de nos separar.
       -  Voc tem mesmo de ir?
       -  Tenho.  um sonho antigo... E  muito difcil arranjar uma bolsa como a que eu arrumei.
       -  No vai sentir minha falta? 
       -  Vou.
       -  Pois, ento, no v.
       Mozart fitou Romero com angstia. Estava realmente gostando dele, e uma separao seria bastante dolorosa. Mas como abandonar o sonho de toda uma vida? Ambos 
eram ainda muito jovens, mas Mozart j definira o que queria fazer de sua vida. Amava a msica e, desde pequenino, via-se como solista de uma grande orquestra.
       -  No posso fazer isso - desabafou com angstia. -  minha vida, minha carreira que est em jogo. Mais do que isso,  um sonho. Meu sonho, aquilo por que 
me esforcei e lutei durante vrios anos. A carreira de pianista no  fcil, Romero. So necessrias vrias horas de estudo dirias para ser um bom msico.
       -  Sua carreira  assim to importante? -.
       -  Mais do que eu?
       -  Voc est sendo injusto. No d para comparar as coisas.
       -  Desculpe se estou sendo insistente. Mas eu o amo tanto...
       -  Ser mesmo? Ser que no est apenas deslumbrado com o mundo em que o introduzi?
       -  Como pode dizer uma coisa dessas? Sei bem o que sinto, e no  deslumbramento.  amor.
       -  Eu sei. No queria ofend-lo. Mas no. sei o que fazer.
       -  Por favor, Mozart, pense bem. No posso viver sem voc. E, se voc me ama, no me deixe.
       Durante alguns segundos, Mozart permaneceu de olhos fechados, segurando a vontade de chorar.
       -  Voc podia ir comigo - considerou.
       -  Eu? Como? Meu pai jamais permitiria.
       -  E se contssemos tudo a ele? Se nos explicssemos e dissssemos que estamos apaixonados? Ele teria de entender.
       -  Voc deve ter ficado maluco! Meu pai nos mataria. Ou me expulsaria de casa. De qualquer forma, eu no poderia ir. Sou menor, lembra-se? Como espera que 
eu saia do Pas sem uma autorizao?
       Cada vez mais angustiado, Mozart abraou-se a Romero e suplicou com voz chorosa:
       -  No pensemos mais nisso agora. Vamos aproveitar os momentos que ainda temos juntos. Quando chegar a hora, veremos o que fazer.
       Romero no insistiu. Apertou a mo do outro, e Mozart desceu da cama para o colchonete. Pouco depois, ambos estavam adormecidos.
       Quando acordaram, notaram o ar de contentamento de Silas, mas Romero no quis perguntar do que se tratava. O pai, porm, logo aps a sada das moas, apertou 
o brao do filho e anunciou animado:
       -  Tenho uma tima surpresa para vocs hoje.
       -  Srio? - tornou Mozart, curioso. - O que ?
       Silas chegou o corpo para a frente e olhou para os lados, certificando-se de que nem a mulher, nem a filha poderiam ouvi-lo.
       -  Falei com Domitila ontem. E adivinhem s! Ela convidou uma amiga, e ambas estaro esperando vocs hoje  noite para uma festinha particular. S os quatro.
       -  O qu?! - Romero estava horrorizado e quase se delatou, mas Mozart interveio a tempo de salvar a situao:
       -  Eu gostaria muito, seu Silas, mas no tenho dinheiro.
       -  E quem falou em dinheiro? No se preocupe,  tudo por minha conta.
       -  No sei se devo...
       -  Ora, vamos, meu rapaz, o que  isso? No faa cerimnia comigo. Domitila  uma mulher e tanto! Romero j lhe falou sobre ela, no falou?
       -  Falou.
       -  Pois ento? No se acanhe. Vamos, Romero, diga a ele o quanto voc gostou. Vamos, diga.
       O menino engoliu em seco e obedeceu balbuciante:
       -   verdade... gostei muito... Domitila ... sensacional...
       -  Viu s?
       -  Mas, seu Silas...
       -  Nada de "mas". Se voc no aceitar, vou ficar ofendido. No v me fazer uma desfeita dessas. Ou ser que voc no gosta dessas coisas? - ironizou, piscando 
um olho para Mozart.
       -  Gosto...
       - J experimentou?  claro que j. Voc j  um homem. Terminou batendo-lhe com fora nas costas. Mozart teve de se
       esforar para no ter uma crise de tosse, e Silas levantou-se, indo para a sala ler o jornal.
       -  E agora? - indagou Romero, apavorado.
       -  E agora, nada. Vamos fazer o que ele mandar.
       -  Voc ficou maluco? Da primeira vez, j foi difcil conseguir. Agora, ento, vai ser impossvel.
       -  E quem disse que precisamos conseguir?
       -  Como assim? Se no conseguirmos, meu pai vai desconfiar.
       -  Deixe comigo - finalizou Mozart, misterioso. - Agora, vou at em casa. Mais tarde, volto para irmos at a casa de... como  mesmo o nome ?
       -  Domitila.
       -  Isso, Domitila.
       Saiu apressado, deixando Romero entregue a um quase desespero. Quando chegou  casa de seus tios, Alex deu-lhe o recado de que os pais haviam ligado. Mozart 
apanhou o telefone e ligou de volta. Precisava de algum dinheiro, e o pai consentiu em lhe dar. Era s pedir ao tio, e ele enviaria o dinheiro pelo banco.
       Mais tarde, quando chegou de volta, Silas e Romero j o estavam esperando para irem juntos  casa de Domitila. Mozart estava sorridente e confiante; Romero, 
acabrunhado e receoso. Silas, por sua vez, ia falando nas maravilhas que Domitila era capaz de fazer, at que concluiu:
       -  Faz muito tempo que trouxe Romero aqui, e ele nunca se interessou em voltar. Domitila falou que ele  um garanho, sabia, Mozart?
       -  Sabia. Romero me contou.
       -  Mas um garanho muito tmido. Se eu deixasse por conta dele, aposto como nunca mais veria mulher novamente.  ou no , Romero?
       Romero estava apavorado. Jurara a si mesmo que jamais passaria por aquilo novamente. Ao avistar a casinha branca de janelas azuis, pensou que iria vomitar. 
Mas o olhar confiante de Mozart lhe deu coragem de seguir avante, sem dizer uma palavra.
       Chegaram. Silas bateu e Domitila veio atender. Recebeu-os com um sorriso cordial e frio e f-los entrar. Sentada no sof, a amiga olhava-os com ar crtico. 
Como da outra vez, Domitila tratou de despachar Silas, recomendando que s voltasse dali a duas horas. Assim que a porta se fechou, Domitila investiu contra Romero 
e a outra se acercou de Mozart, tentando beijar-lhe o pescoo.
       -  Como  seu nome? - indagou Mozart.
       -  rsula - respondeu a moa, sem muito interesse.
       -  Muito bem, rsula, o que acha de voc e Domitila ganharem uns trocados a mais?
       Essa pergunta aguou a curiosidade e a ganncia de Domitila, que soltou Romero e se aproximou dele, perguntando com avidez:
       -  Por qu? O que pretende? No v me dizer que  algum tipo de sdico, porque rsula e eu no gostamos de apanhar.
       -  E quem falou em apanhar?
       -  O que voc quer?
       - Nada.
       -  Se no quer nada, por que quer nos pagar a mais? - insistiu rsula. - O que quer que faamos?
       - Nada, j disse.
       -  Qual , garoto? - revidou Domitila, zangada. - Deixe de brincadeiras conosco. Se quer algo especial, v logo falando.
       -  Quero que vocs nos deixem em paz - disparou Mozart. - No estamos a fim de transar.
       -  O problema  de vocs. Silas nos paga pelo nosso tempo, mas vou ser obrigada a dizer a ele que vocs no quiseram.  o nosso trato, e no quero perder 
a confiana de um timo cliente.
       -  Sei disso. Mas ele no precisa saber. Basta vocs dizerem que correu tudo bem. E ficarem de boca fechada.
       Domitila estava comeando a entender. Quando transara com Romero, percebera que o garoto no se interessara muito e se esforara ao mximo para conseguir 
uma ereo. Ela bem que desconfiara, mas no tinha certeza, e tambm no lhe interessava muito. Desde que Silas lhe pagasse, estava tudo bem.
       -  Vocs por acaso so veados? - foi logo perguntando.
       -  Somos - respondeu Mozart, sem titubear. - E  por isso que estamos lhe oferecendo uma graninha a mais... Para que vocs nos deixem em paz e no digam nada.
       rsula desatou a rir, mas Domitila cortou com veemncia:
       -  Onde est o dinheiro?
       Mozart retirou as notas do bolso e exibiu-as a Domitila, que as apanhou e contou.
       -  Isso basta? - perguntou ele.
       -  Basta.
       Contou novamente as cdulas e passou metade a rsula, que as apanhou rapidamente. Em seguida, sentaram-se no sof, e Domitila ligou a vitrola.
       -  Vamos danar, pelo menos - convidou. - Assim, quando Silas chegar, no vai perceber nada.
       Romero assistia a tudo boquiaberto. Estava espantado com a astcia e a segurana de Mozart. Levantou-se aturdido e foi danar, mas, ao invs de tomar Domitila 
como par, dirigiu-se a Mozart e ps-se a danar com ele. Domitila e rsula riram e deram de ombros, indo sentar-se no sof com um copo de bebida na mo.
       -  Obrigado - sussurrou Romero ao ouvido de Mozart.
       -  No disse que escaparamos desta?
       Riram tambm e continuaram a danar, at que Silas voltou. Domitila recebeu-o novamente, e ambas fizeram muitos elogios ao desempenho de Romero e Mozart. 
Silas ficou satisfeito e recompensou-as regiamente. Escutara o que queria escutar.
       
       
     Captulo 7
       
       Faltava pouco menos de um ms para o fim das frias, e Mozart queria aproveitar ao mximo sua estada no Rio de Janeiro. Chegou cedo  casa de Romero, e logo 
pela manh foram  praia. Na volta, Mozart foi para casa, e Romero entrou para tomar banho. Iriam almoar e tinham combinado de ir ao cinema com Alex e Judite. Por 
volta das cinco horas, Alex chegou com Mozart. Depois dos usuais cumprimentos, foram todos ao cinema.
       Ao atravessar a roleta da entrada, uma tristeza perpassou o olhar de Romero, e Mozart indagou ao seu ouvido:
       -  Aconteceu alguma coisa?
       -  No. E que foi neste cinema que conheci Jnior.
       -  E da? Provavelmente, ele no est aqui hoje. E, se estiver, voc no tem com o que se preocupar. Estamos juntos.
       Era verdade. Desde o incidente com Jnior, Romero nunca mais fora ao cinema. Agora, porm, em companhia de Mozart, sentia-se seguro e confiante. Deixou de 
lado o medo e entrou decidido. Como ainda era cedo, tiveram de esperar. A sesso s comearia s seis horas, e eles ainda tinham tempo suficiente para comprar balas 
e pipocas.
       No balco de doces, Romero escolhia um chocolate quando ouviu uma voz familiar atrs de si:
       -  Ora, ora, se no  a bichinha enrustida que eu vejo por aqui. Sentiu saudade?
       Romero voltou-se assustado, e todos os seus temores se confirmaram. Era realmente Jnior quem estava ali, parado  sua frente, um sorriso debochado pendurado 
no rosto.
       -  Deixe-me em paz - falou Romero, agressivo.
       -  Ui! - debochou o outro. - A mocinha ficou valente, foi?
       -  O que quer de mim, Jnior? J no basta o que me fez?
       -  Ah! Ainda se lembra de meu nome?  claro que se lembra. Depois daquele dia, no poderia esquecer. Voc gostou, no gostou? Fale a verdade.
       Olhando por cima do ombro de Jnior, Romero avistou os outros em animada conversa, ningum se dando conta do que lhe acontecia. At que Mozart, passando os 
olhos ao redor do salo, deu de cara com seu olhar de splica e, ao ver que ele conversava com outro rapaz, imediatamente desconfiou de quem se tratava. Pediu licena 
ao primo e foi em sua direo.
       -  Romero - chamou, parando a seu lado. - Voc no vem? A sesso j est para comear.
       Mozart lanou um olhar de desafio para Jnior, que respondeu com outro, ameaador.
       -  Parece que seu namorado est com cime - ironizou Jnior. - E  para estar. Duvido que seja como eu.
       -  Tenho certeza de que no sou - respondeu Mozart firmemente. - Sou uma pessoa decente, ao passo que voc no passa de um oportunista covarde e nojento, 
que se aproveita da ingenuidade de criancinhas para conseguir o que nenhum homem de verdade ir lhe dar.
       Puxou Romero pelo brao e saiu com ele em direo a Judite e Alex, deixando Jnior vermelho e furioso.
       -  Aquele  Jnior?
       Romero limitou-se a assentir. Tinha vontade de sair correndo, mas a firmeza da mo de Mozart ao redor de seu brao deu-lhe tranqilidade. Rapidamente, chegaram 
at onde os outros estavam.
       -  Por que demorou tanto? - indagou Judite. - E cad as balas?
       -  A fila estava muito grande - apressou-se Mozart em responder. - amos perder o comeo do filme.
       Alex, lendo o programa de filmes em cartaz, nada percebeu, mas Judite, olhando para o balco de balas, no viu nenhuma fila que pudesse causar a perda do 
incio da sesso. Ainda mais porque antes havia trailers, anncios, jornal, curta-metragem e tantas outras coisas. No disse nada, porm. Avistou um rapaz parado 
perto do balco, que no conhecia, mas, a julgar pelo olhar de dio que lanava para Mozart e Romero, devia ser ele o motivo da retirada dos dois. Achou aquilo estranho, 
mas guardou silncio. No queria encher o irmo de perguntas ali, na frente de todo mundo.
       A sesso transcorreu normalmente. Quando saram, Jnior estava parado na calada, fingindo que esperava o nibus. Judite percebeu que Mozart o encarava e 
Romero se encolheu todo, cabea baixa, evitando olhar para o rapaz. Quando passaram por ele, Jnior deu dois passos adiante e esbarrou propositalmente em Mozart, 
falando em tom de sarcasmo:
       -  Desculpe-me. Fiquei distrado e no o vi. As coisas que a gente no faz sem querer...
       Passou adiante feito uma bala.
       -  Vocs conhecem esse rapaz? - quis saber Judite.
       -  No - respondeu Romero.
       -   um idiota qualquer - acrescentou Mozart.
       -  Por que tudo isso? - tornou Alex. - Foi s um esbarro.
       -  Tem razo, Alex - concordou Mozart. - Foi s um esbarro. Vamos embora.
       Partiram para a casa de Romero. Sem que percebessem, Jnior os seguira. Queria saber onde ele morava. Notou que era em uma casa com ar distinto, numa rua 
familiar, e sorriu intimamente. Aquele Romero devia ser filhinho de papai, e ele e seu namoradinho iam ver s uma coisa. Tomou nota do endereo e foi embora. Daria 
um jeito de se vingar daqueles dois.
       Como j era tarde, Mozart foi para casa com Alex. Depois que eles saram, Judite foi se trocar e, j de camisola, foi bater  porta do quarto de Romero.
       -  Est acordado? - perguntou ela, aproximando-se da cama.
       -  Estou.
       Sentou-se a seu lado e tomou sua mo. Acariciou seu rosto, alisou seus cabelos e beijou sua testa.
       -  Sou sua irm, Romero - sussurrou. - Amo voc imensamente. Sabe disso, no sabe?
       -  Sei.
       -  Acima de tudo, sou sua amiga. Voc pode confiar em mim. Romero no sabia aonde ela queria chegar, mas comeou a desconfiar daquela conversa macia.
       -  O que est querendo, Judite?
       -  No estou querendo nada. Talvez voc  quem queira desabafar.
       -  No tenho nada para desabafar.
       -  Tem certeza?
       -  Tenho.
       -  E aquele rapaz do cinema?
       -  O que tem ele ?
       -  Vai repetir que no o conhece?
       -  No o conheo.
       -  No acredito em voc. Vi o terror em seus olhos, o dio nos olhos dele e o desafio nos de Mozart. O que h? Pensa que sou alguma tonta?
       Havia tanta ternura, tanta segurana, tanto amor na voz de Judite, que Romero desatou a chorar. No agentava mais tanta presso. Vivia torturado por aquela 
lembrana, uma lembrana que o amor de Mozart conseguira diminuir, mas no exterminar. E naquele dia, ao ouvir a voz de Jnior no cinema e dar de cara com sua fisionomia 
odienta, sentiu que todo o antigo pavor retornara.
       -  Ah! Judite...
       Agarrou-se  irm e chorou ainda mais, tentando engolir os soluos.
       -  O que houve, Romero? Por que est assim?
       -  Papai vai me matar.
       -  Por qu? O que voc fez?
       -  Ele no quer que eu conte a voc.
       -  O qu? O que voc no pode me contar?
       - Judite - levantou-se e encarou-a, os olhos brilhantes -, aquele rapaz ... um marginal... ele desgraou minha vida.
       -  Como? O que ele fez?
       -  Ele... ele... me violentou...
       Judite no demonstrou surpresa. No sabia por qu, mas aquilo no a surpreendia. Esperou at que ele lhe contasse tudo e sentiu imensa revolta do pai. Aquilo 
no era jeito de tratar o prprio filho. Fingir que nada havia acontecido era muita insensibilidade.
       -  Papai se sentiu muito envergonhado...
       -  E voc, Romero, como se sentiu?
       -  Eu... eu...
       No conseguiu terminar. Agarrou-se ainda mais  irm e deu livre curso s lgrimas. Judite no fez mais perguntas. Abraou-o com ternura e afagou seus cabelos. 
Em seu ntimo, sabia como ele se sentia. Percebia isso no jeito como ele e Mozart se tratavam. Mas Homero estava angustiado. Aquelas lembranas o haviam incomodado 
sobremaneira, e ela no queria causar-lhe ainda mais transtornos com perguntas indiscretas. Sentiu que, naquele momento, o que ele mais necessitava era de amor, 
e por isso estreitou-o ainda mais. No precisava fazer perguntas nem dizer nada. Bastava que ele sentisse quanto era amado e querido.
       No dia seguinte, o telefone tocou bem cedinho, ainda no eram nem sete horas da manh. Nomia estranhou, mas foi atender.
       -  Al? - Ningum disse nada. - Al? Quem ? Al? Nomia pensou que a ligao havia cado, mas o som de uma respirao ofegante indicou-lhe que havia algum 
do outro lado da linha.
       -  Hum... - gemeu a voz.
       Assustada, Nomia desligou. Devia ser um trote, mas de muito mau gosto. No prestou mais ateno ao ocorrido e, mais tarde, com a famlia toda reunida ao 
redor da mesa do caf, o telefone tocou de novo, e a prpria Nomia foi atender.
       -Al?
       Novamente aquela respirao. Aborrecida, Nomia fez sinal para que Silas se aproximasse e, tapando o bocal com uma das mos, falou baixinho:
       -  Acho que  um trote.
       Silas apanhou o telefone e disse com voz grave:
       -  Quem est falando? O que deseja?
       A voz deu um gemido, como se estivesse tendo um orgasmo, e soltou uma gargalhada debochada. Desligou, e Silas pousou o fone no gancho.
       -  Quem era? - perguntou Judite, nervosa.
       -  Algum palhao - respondeu Silas. - No tem o que fazer. A vida pela hora da morte, e ele a, gastando dinheiro de ligao  toa, s para passar trotes.
       -  O que ele disse? - perguntou Romero, fingindo displicncia.
       -  Nada. Ficou s gemendo.
       -  Que tolice - recriminou Nomia. - Mas j  a segunda vez que ele liga hoje.
       -  ? - retrucou Silas, curioso.
       -  , sim. Ligou antes, bem cedo.
       -   voz de homem ou de mulher? - quis saber Judite.
       -  No sei bem, mas parecia de homem. Ele no disse nada. S gemeu e riu, mas parecia uma gargalhada masculina. Por qu? No v me dizer que  algum atrs 
de voc, Judite!
       -  De mim? Deus me livre! No conheo gente dessa espcie.
       -  Ai, meu Deus! - rogou Nomia. - Ser que  algum tarado de olho em nossa filha?
       -  No diga besteiras, mame! Deve ser algum idiota que no tem mais o que fazer.
       Mudaram de assunto. Cerca de meia hora depois, o telefone tocou novamente. Silas correu a atender apressado, e l estava o mesmo gemido, a mesma gargalhada.
       -  No tem mais o que fazer, no, seu cretino? - xingou. - Por que no vai arranjar uma mulher?
       Bateu o telefone, com raiva. Do outro lado da linha, Jnior tambm desligava, s gargalhadas. Fora muito fcil descobrir o telefone daquele tolinho. Bastara 
anotar o endereo e procurar na lista telefnica. Ele no sabia quem havia atendido quelas ligaes mas, pelo jeito e pela voz, deveriam ter sido a me e o pai 
de Romero. timo, pensou. Seu plano daria certo.
       -  , meu amigo - disse em voz alta. - Vamos ver quem vai rir por ltimo.
       Quando Mozart chegou, no final da tarde, encontrou Silas de cara amarrada, demonstrando-se bastante aborrecido.
       -  Aconteceu alguma coisa, seu Silas?- perguntou cauteloso.
       -  Nada que merea seu tempo, meu rapaz - respondeu de forma corts. - Algum palhao resolveu nos passar um trote. Fica ligando de meia em meia hora, como 
se ns no tivssemos mais nada para fazer.
       -  Um trote? E o que ele diz?
       -  Nada. Fica s gemendo e rindo. Ah! se eu descubro quem  o desgraado...
       -  Ainda acho que  algum de olho em Judite - considerou Nomia.
       -  Pode ser. E  mais um motivo para me aborrecer. No quero nenhum marginal dando em cima de minha filha.
       Mozart no fez nenhum comentrio. Romero chegou em seguida e chamou-o, levando-o para o quarto de Judite. Fechou a porta, e os dois foram se sentar perto 
dela.
       -  Que histria  essa de trote? - questionou Mozart.
       -  Algum est ligando aqui para casa desde cedo - esclareceu Judite. - No diz nada. Geme e d gargalhadas. O pior  que meu pai pensa que  comigo.
       -  E ?
       -  No. Romero e eu estamos desconfiados de que seja Jnior. Mozart olhou para Romero com ar de dvida, e ele tratou logo
       de explicar:
       -  Contei a Judite sobre Jnior. Ela precisava saber.
       -  Fez bem - concordou Mozart, percebendo que aquilo fora o mximo que ele contara. - Mas ser que  ele mesmo?
       -   bem possvel. Ele pode ter nos seguido ontem e descoberto nosso telefone no catlogo.
       -  O que ser que ele quer?
       -  No sei. Queria perguntar eu mesma, mas papai no deixa mais ningum atender o telefone. Est danado da vida com esse sujeito.
       -  Ser que Jnior ficou com raiva por causa de ontem, no cinema?
       -  Deve ter ficado. Romero me contou como voc lhe respondeu  altura, e ele deve estar morrendo de raiva.
       -  Isso  perigoso - refletiu Mozart.
       -  Tambm acho - concordou Judite prontamente. - Ele pode estar pensando em lhes fazer algum mal.
       -  Que tipo de mal?
       -  Dar-lhes uma surra, sei l. Uma pessoa que fez o que ele fez a Romero  capaz de muitas outras coisas.
       - Judite tem razo - aquiesceu Romero. - Ele pode estar nos armando alguma cilada.
       -  De hoje em diante - aconselhou Judite -,  melhor que nenhum dos dois saia sozinho.
       -  Isso  que no! - objetou Mozart. - No vou me curvar s ameaas de nenhum covarde marginal.
       - Nem eu... - apoiou Romero, embora sem muita convico. Mozart temia mais por Romero do que por ele. Ele sempre fora
       destemido e audacioso, ao passo que Romero era um menino tmido e medroso. E Jnior sabia disso. Como era covarde, no seria de espantar se ele procurasse 
Romero para algum tipo de vingana.
       Mas a vingana de Jnior era bem outra. Estava mais interessado em destruir a vida de Romero do que em lhe dar uma surra ou mesmo mat-lo. Ele conhecia bem 
aqueles garotos. Sentiam, desde cedo, o desejo a corro-los por dentro e ficavam aturdidos quando percebiam que esse desejo no era o que eles esperavam. Ao invs 
de se interessarem por garotas, como todos os colegas, voltavam seus olhos para os meninos e se assustavam com seus prprios pensamentos. No viam graa nas mocinhas. 
Gostavam mesmo era dos rapazes bonitos e esbeltos, embora custassem a se dar conta disso. At que chegava algum mais experiente e lhes mostrava o caminho do prazer, 
e eles passavam a no querer outra coisa.
       Com Romero, no seria diferente. Depois de ter sido violentado, Jnior apostava que ele havia se descoberto sexualmente. Da para um namorado, era apenas 
um pulo. Fosse quem fosse o garoto que estava com Romero, Jnior tinha certeza de que no era apenas um amigo. Era algo mais. Vira no jeito como o defendera, como 
segurara seu brao, como falara com ele. Aqueles dois eram amantes, tinha certeza.
       S que Romero era de famlia direita. Desde o primeiro dia, dera para perceber. E o que diriam seus pais se soubessem que o filhinho querido, depositrio 
de todos os seus sonhos e esperanas, no passava de uma bicha louca, um pederasta enrustido? Sim, porque Jnior duvidava que os pais soubessem ou desconfiassem 
de algo.
        claro que eles sabiam que o filhinho no era mais intacto, que fora violado por outro homem e que jamais seria o mesmo depois disso. Mas, at a, eles podiam 
dar a desculpa de que Romero fora atacado e violentado  fora. Contudo, se descobrissem que Romero gostara da experincia, que sentira prazer na subjugao por 
outro homem, o que iria acontecer? Seria a vergonha total, a humilhao, o escrnio e o desprezo, tanto da famlia, quanto dos amigos e da sociedade. E era isso 
que Romero merecia por incitar seu amiguinho emplumado a desdenhar de Jnior publicamente.
       Com um sorriso de escrnio nos lbios, Jnior apanhou o telefone e ligou de novo. J havia decorado o nmero. Como das outras vezes, foi o homem que atendeu, 
quem ele acreditava ser o pai de Romero, Silas, que era o nome constante na lista telefnica. Jnior gemia e soltava gritinhos de prazer, terminando com aquela gargalhada 
debochada. O homem ficava louco. Xingava e batia o telefone, mas sempre tornava a atender. Estava curioso para saber quem era.
       -  Seu porco! - esbravejou Silas, como de costume. - Por que no nos deixa em paz? Se pensa que assim vai conseguir alguma coisa com minha filha, est muito 
enganado. Mato-o antes mesmo de chegar perto dela.
       Bateu o telefone, completamente transtornado, e Jnior redobrou a gargalhada. O idiota ainda pensava que ele estava de olho em sua filha! Ela at que era 
bonitinha, mas ele no gostava de mulher. Ligou de novo, e Silas atendeu:
       -  Al!  voc, seu cretino? Por que no d uma de homem e diz alguma coisa?  porque tem medo?
       Para espanto e surpresa de Silas, a voz do outro lado, ao invs de gemer, como de costume, fez um breve silncio e respondeu, rouca e baixa:
       -  No. No tenho medo de nada.
       Num instante, Silas se recobrou do espanto e revidou:
       -  O que voc quer?  com minha filha?
       -  No - foi a resposta lacnica.
       -  O que quer, ento?
       -  Romero.
       Desligou rapidamente, sem dar a Silas tempo de responder. Silas tambm desligou e esperou para ver se o telefone ia tocar novamente, mas ele permaneceu mudo. 
Ficou desconfiado. O que aquele homem, gemendo e urrando como se estivesse tendo relaes sexuais, podia querer com seu filho? Se fosse com Judite, ele ficaria furioso, 
mas conseguiria entender. Judite era uma moa muito bonita, e no seria de espantar que tivesse despertado o interesse de algum tarado ou manaco. Mas com Romero...
       Balanou a cabea, a fim de afastar aquela desconfiana, e foi at o quarto do filho. Ele sara com Mozart e ainda no havia voltado. Nervoso, Silas voltou 
para a sala. Sentou-se no sof e ligou a televiso, tentando prestar ateno ao programa. Durante o resto da tarde, permaneceu sentado junto ao telefone,  espera 
de que o homem ligasse novamente. Mas Jnior, para aguar-lhe a curiosidade, no telefonou mais o resto do dia.
       Somente na tarde seguinte foi que ele tornou a ligar. Silas atendeu ansioso, e Jnior foi logo dizendo:
       -  O senhor  o pai de Romero?
       -  Sou. Por qu? O que quer com meu filho?
       -  O senhor sabe - riu debochado.
       -  No sei, no. No vejo o que um sujeito sujo como voc possa querer com um rapaz direito como meu filho.
       -  Direito? - gargalhou. - S no v quem no quer.
       -  Por qu? O que est querendo dizer?
       -  Pergunte a ele. Ou a seu amiguinho...
       Desligou novamente. Silas no gostou nada do jeito como ele pronunciara aquele seu amiguinho. Parecia que estava tentando lhe dizer alguma coisa. Mas o qu? 
Seria possvel que Romero e Mozart. .. ? Abanou a cabea, dizendo a si mesmo que no, e ficou imaginando que motivos poderia ter aquele homem para ligar para sua 
casa e fazer insinuaes sobre o filho.
       De repente, uma idia lhe ocorreu. Seria possvel que aquele homem fosse o mesmo que violentara Romero? Sim, era bem possvel. Na certa, descobrira onde ele 
morava e estava pensando em atac-lo novamente, s para vici-lo e alici-lo para seu bando de pederastas. Sim, s podia ser isso! A essa certeza, soltou um suspiro 
de alvio. Romero no era culpado se aquele homossexual tarado resolvera persegui-lo. S que no conseguiria nada. Romero no gostava daquelas coisas, saa-se muito 
bem com Domitila. De nada adiantaria tentar vici-lo naquela vida... Ou ser que adiantaria?
       Jnior no ligou mais naquele dia. Agora agia de forma diferente. Se antes no dava descanso, causando a impacincia de Silas, agora fazia suspense, aguando-lhe 
a curiosidade e levando-o a esperar e a desejar que ligasse. Queria saber mais.
       Quando Romero voltou da rua, em companhia de Mozart, Silas, gentilmente, pediu a este que fosse embora.
       - No me leve a mal, Mozart - justificou -, mas  um assunto de famlia. Amanh vocs se encontram de novo. Estou at pensando em lev-los a Domitila novamente.
       Mozart nem ligou para esse anncio. Estava mais preocupado com o teor daquela conversa. Contudo, no tinha como ficar. Silas pedira-lhe que sasse, e ele 
obedeceu. Depois que ele se foi, Romero sentou-se ao lado do pai, todo trmulo,  espera do pior.
       -  Filho - comeou pausadamente -, sei que eu mesmo lhe pedi para nunca mais tocar nesse assunto, mas como  o nome do rapaz que o atacou?
       Romero quase caiu da cadeira. Podia esperar qualquer coisa do pai, menos que ele perguntasse sobre Jnior. Recomps-se rapidamente e respondeu inseguro:
       - Jnior.
       -  S Jnior?
       -   s o que sei.
       -  Voc acha possvel que Jnior esteja nos passando esses trotes?
       -  Por qu?
       -  Acha ou no acha?
       -  Bem... - titubeou o jovem, a voz trmula. - Acho... Silas sacudiu a cabea e continuou:
       -  Voc o tem visto?
       -  No...
       A resposta foi to hesitante que Silas no acreditou.
       -  Tem certeza? Vamos, filho, pode falar.
       Romero jamais ouvira o pai falar com tanta serenidade, de forma quase carinhosa, e acabou confessando:
       -  Vi-o uma vez... no cinema.
       -  Falou com ele? 
       -  Ele falou comigo. 
       -  O que ele disse?
       -  Nada. Perguntou como eu estava.
       -  S isso?
       -  S isso.
       -  E Mozart?
       -  O que tem ele?
       -  Mozart conhece Jnior?
       -  No.
       - Jnior no o viu no cinema? -Viu.
       -  Ento eles se conhecem.
       -  No. Mozart s o viu de relance.
       -  Entendo.
       -  Por que est fazendo essas perguntas, pai? O que Mozart tem a ver com isso?
       Silas olhou bem dentro de seus olhos e respondeu:
       -  Porque o rapaz que tem telefonado disse que est interessado em voc.
       -  Em mim? Como assim?
       -  Disse que quer voc. Que voc no  um rapaz direito. E ainda sugeriu que eu perguntasse a Mozart.
       -  Perguntasse o qu?
       -  Se voc  um rapaz direito. Romero remexeu-se, inquieto.
       -  Voc , Romero?  um rapaz direito?
       Ele engoliu em seco e respondeu com a maior convico possvel:
       -  Sou.
       - Tem certeza?
       -  Tenho.
       Ele tinha. Era um rapaz direito. No da forma como o pai pensava, mas da forma como tinha de ser. S agora compreendia os parmetros que Mozart traava para 
delinear o carter das pessoas. O fato de ser homossexual no o transformava em bandido ou marginal. Era um rapaz direito, sim, e precisava afirmar isso com bastante 
convico. Pena que no tinha coragem de expor aqueles pensamentos diante do pai. Para Silas, a concepo de rapaz direito era bem diferente da sua e da de Mozart. 
Para ele, um rapaz direito era aquele que no se metia em pouca-vergonha, ou seja, que no se deitava com outro homem.
       -  Est certo, Romero. Pode ir agora.
       O menino foi saindo, e Silas acrescentou:
       -  No quero que saia mais hoje.
       Romero nem discutiu. No estava em condies. Jnior fizera insinuaes gravssimas a seu respeito que puseram o pai em dvida. Jnior devia saber. Romero 
tinha certeza de que Jnior sabia que ele era homossexual. Experiente, deveria ter desconfiado de Mozart tambm. Pois no fora Mozart mesmo quem lhe dissera que 
era fcil reconhecer um homossexual apenas pelo jeito de olhar? Jnior reconhecera. E agora estava tentando destruir sua vida, insinuando ao pai que ele era homossexual 
tambm.
       O que poderia fazer? Ele era homossexual mesmo, reconhecia-se como tal, assumia sua preferncia pelos homens. No podia negar isso a si mesmo. Todavia, diante 
do pai, era imperioso que fingisse. Jamais confirmaria as insinuaes de Jnior. Por mais que o pai lhe perguntasse, diria que Jnior era um pederasta mentiroso 
e s estava dizendo aquilo para denegrir sua imagem. Convenceu-se: precisava mentir.
       
       
     Captulo 8
       
       
       A primeira coisa que Judite percebeu quando entrou em casa foi o pai andando de um lado para o outro na sala, rodeando o telefone, sobressaltando-se cada 
vez que ouvia um barulhinho qualquer.
       -  Pai! - exclamou espantada. - O que houve? Por que est rodando pela sala feito uma barata tonta?
       Antes que Silas pudesse responder, Nomia entrou no aposento com um copo de suco na mo e estendeu-o para o marido.
       -  Seu pai agora est obcecado com aquele homem - respondeu contrariada. - Vive  espera de que ele ligue.
       -  Que homem?
       -  O tal dos trotes. -Ah!
       -  Ele no perde por esperar - rugiu Silas, colrico.
       - J parou para pensar que ele deve estar se divertindo  sua custa? - tornou Judite, cansada daquela histria.
       -  Divertindo-se? Pois vamos ver quem vai rir por ltimo.
       -  Talvez, se o senhor o ignorar, ele pare de telefonar.
       - Judite tem razo - concordou Nomia. - Talvez ele s ligue porque voc lhe d muita ateno, e  isso o que ele quer.
       -  Ele falou mal de Romero... - deixou escapar.
       -  Falou? - era Nomia. - Como assim? O que ele disse? J arrependido, Silas tentou voltar atrs:
       -  Nada. Ele  um idiota, isso sim.
       Silas no queria que ningum mais soubesse das insinuaes de Jnior, nem a mulher nem a filha. Por isso, murmurou uma desculpa qualquer e saiu em direo 
ao banheiro. Nomia foi cuidar de seus afazeres, mas Judite ficou preocupada. Agora que sabia o que havia acontecido entre Jnior e Romero, bem podia imaginar o 
que ele andava falando do irmo. J ia saindo para seu quarto quando o telefone tocou. Mais que depressa, Judite correu a atender, antes que o pai, ainda no banheiro, 
pudesse chegar  sala.
       Ao ouvir uma voz feminina, Jnior no disse nada. Apenas deu seus gemidos e riu baixinho.
       - Escute aqui, seu cretino - rosnou Judite, entre dentes -, no adianta tentar denegrir a imagem de meu irmo. Ele no  um pederasta covarde como voc, que 
nem tem coragem de mostrar a cara. Vive se escondendo atrs de um fio de telefone.
       Furioso, Jnior desligou. Quem era aquela que se intrometia assim em sua vida/ Seu assunto no era com ela, era com o pai de Romero. Seria aquela voz a de 
sua me ou de sua irm? Parecia jovem demais para ser da me, logo s podia ser da tal irmzinha.
       Cada vez mais, Jnior abria seu corao para o dio, sem perceber que densas sombras se aproximavam dele, envolvendo-o num abrao sinistro, transmitindo-lhe 
vibraes de dio e revolta. Jnior nem sabia por que se sentia daquele jeito. No era l nenhum santinho e sabia bem o que havia feito a Romero. Apesar de tudo, 
nunca havia forado nenhum rapaz a ter relaes com ele. No daquela forma. Podia ter insistido algumas vezes, at usado uma forcinha. Mas jamais havia machucado 
nem humilhado algum como fizera com Romero. Por que Romero?
       Ele no sabia a resposta. Tudo que sabia era que, quando viu Romero pela primeira vez, sentiu uma estranha inquietao no peito, como se fosse imperioso para 
sua vida que se aproximasse dele. Por isso seguira-o com os olhos durante toda a sesso de cinema. Por isso tambm o acompanhara, j premeditando o que iria fazer. 
Precisava desesperadamente transar com ele, e fora exatamente o que fizera.
       Ainda se lembrava do prazer que sentira ao v-lo subjugado e humilhado, chorando e implorando que o soltasse. Uma parte dele at queria solt-lo, mas outra 
lhe dizia que era bem-feito e que ele at estava gostando. Se, por um lado, sua conscincia alertava-o para a impropriedade de sua conduta, por outro, as sombras 
que o acompanhavam lhe toldavam o raciocnio, estimulando seus instintos, cada vez mais, para a violncia.
       Romero tinha muitos inimigos. Alguns, encarnados como Jnior, no compreendiam bem a origem daquele sentimento, atribuindo seu dio s circunstncias a que 
haviam chegado. Os desencarnados, por sua vez, sabedores dos comprometimentos de Romero, se aproveitavam do dio de Jnior para atingi-lo, o que tambm s era possvel 
graas aos medos e s culpas do rapaz. Mesmo sem saber, Romero vivia atormentado por forte sentimento de culpa e, desconhecendo a razo desse sentimento, atribua-o 
ao fato de ser homossexual e de estar fazendo algo que talvez no fosse certo.
       Fosse como fosse, o fato era que o medo e a culpa haviam colocado Romero em sintonia com Jnior, e o dio aproximara este dos espritos inferiores.
       Quando Silas chegou  sala, correndo e ainda abotoando as calas, Judite j havia desligado o telefone. Ele estacou esbaforido e perguntou ansioso:
       -  Quem era?
       -  No era quem o senhor esperava, papai. Era para mim. Judite virou-lhe as costas e saiu a passos rpidos. No queria que
       o pai soubesse que ela desafiara o homem.
       Aquilo j estava virando uma obsesso. Ningum conseguia convencer Silas a deixar de lado aquela histria. Ele vivia obcecado, no mais pela chateao e o 
desaforo, mas pelas insinuaes que Jnior fizera sobre Romero.
       Somente no dia seguinte Jnior ligou novamente, e, dessa vez, foi Silas quem atendeu.
       -  Ol - cumprimentou Jnior irnico. - Pensei que houvesse me abandonado.
       -  J sei quem  voc - fremiu Silas. -  o veado nojento que fez aquilo a meu filho.
       Jnior soltou uma gargalhada e respondeu naturalmente:
       -  Seu filho gostou muito daquilo.
       -   mentira! Romero  um homem de verdade!
       -  Se  assim, por que voc est to preocupado?
       -  No estou preocupado. S no quero que voc ultraje a imagem de meu filho.
       -  A imagem de seu filho  a de uma mocinha vibrando de prazer ao ser penetrada pela primeira vez.
       Aquilo foi muito forte. Trmulo de dio, Silas atirou o telefone longe, sem, contudo, deslig-lo. Do outro lado da linha, Jnior percebeu o que acontecera 
e permaneceu firme. Tinha certeza de que ele tornaria a pegar o fone. E foi o que aconteceu. No demorou nem um minuto, e a voz de Silas fez-se ouvir novamente.
       -  O que voc quer para nos deixar em paz? Dinheiro? No tenho dinheiro, mas posso tentar arranjar alguma coisa.
       Nova gargalhada se fez ouvir. O homem estava ficando desesperado, e Jnior exultava. Estava alcanando seu objetivo.
       -  Dinheiro no me interessa.
       -  O que quer, ento?
       -  Romero, j disse.
       -  Romero no est interessado em voc - rebateu, com voz sofrida. - Ele no  desse tipo.
       -  Acho que o senhor est enganado.
       -  Oua, rapaz... Jnior.  esse o nome, no ? - O outro no respondeu. - S porque voc fez mal a meu filho, no quer dizer que ele tenha se viciado nisso... 
- Silas tinha at medo de falar. - Por isso, vou lhe dar um conselho: deixe-nos em paz, ou serei obrigado a chamar a polcia. Voc j est passando dos limites.
       Jnior fez alguns segundos de silncio, o que deixou Silas ainda mais nervoso. Quando falou, foi com voz calma e civilizada:
       -  Agora quem vai me ouvir  o senhor. Seu filho  to veado quanto eu.
       -  No...
       -  Deixe-me terminar, por favor. Romero est enganando-o. Faz o senhor pensar que ele  homem, se  que isso  possvel. Tambm, tem pai que  cego... Mas 
isso no vem ao caso. O fato  que Romero est de caso com aquela outra bichinha... no sei seu nome.
       Ele estava se referindo a Mozart. Silas queria rebater aquela infmia, xing-lo, amea-lo. Mas ficou paralisado. Por mais que no quisesse reconhecer, algo 
dentro dele lhe dizia que Jnior estava falando a verdade. Tentando segurar as lgrimas, Silas desligou. Esperou alguns minutos, mas Jnior no ligou novamente. 
Seria verdade o que dissera? Seriam, Mozart e seu filho, amantes?
       Naquele dia, quando Romero chegou com Mozart, Silas olhou-os desconfiado, mas no disse nada. Os dois estavam alegres, como sempre. Sentaram-se para ver um 
pouco de televiso, e Mozart foi embora mais tarde. Na noite seguinte, Romero e Mozart saram, dizendo que iam ao cinema. Assim que eles saram, Silas levantou-se 
e saiu atrs deles. Tinha de se certificar. Precisava descobrir.
       Os dois tomaram um nibus para o centro da cidade, e Silas fez sinal para um txi. Ia gastar uma nota, mas no fazia mal. Se aqueles dois estivessem fazendo 
alguma coisa errada, era hoje que iria descobrir. Na Cinelndia, saltaram, e Silas saltou mais atrs. Era um cinema, e estava passando um filme pornogrfico. Silas 
teria achado graa, no fosse o filme sobre casais de homossexuais. Olhando o cartaz, sentiu nojo e teve nsias de vmito. Olhou a censura: 18 anos. Como haviam 
deixado seu filho entrar?
       Silas foi at a bilheteria e comprou um bilhete. Entrou no cinema, constrangido com os olhares dos homens sobre ele. Alguns cochichavam, outros chegaram a 
piscar o olho para ele. Teve vontade de gritar com eles e agredi-los, mas sentiu medo. Era melhor no os provocar.
       Sentindo-se pouco  vontade, entrou na sala de projeo e procurou com o olhar, tentando ver no escuro. A sesso h havia comeado, e um lanterninha veio 
oferecer ajuda.
       -  Est sozinho? - perguntou com voz mole. - Quer um lugar mais  frente ou mais atrs?
       -  Pode deixar que me arranjo sozinho - respondeu de m vontade.
       O lanterninha deu de ombros e afastou-se, e Silas sentou-se na ltima fileira. O cinema estava praticamente vazio, apenas alguns casais de homossexuais aqui 
e ali. De vez em quando, o filme na tela projetava uma claridade plida no cinema, e Silas podia ver um pouco melhor. Alguns se beijavam descaradamente. Outros pareciam 
assistir ao filme, mas o movimento de seus braos dava sinais de que se acariciavam mutuamente. Silas sentia-se cada vez mais enojado. Ainda se recusava a acreditar 
que seu filho se prestasse quilo.
       De repente, nova luminosidade invadiu a tela, e Silas avistou Romero e Mozart mais  frente. Eles estavam de costas, beijando-se e acariciando-se. Na mesma 
hora, Silas levantou-se. No conseguia pensar em nada. A revolta foi tomando conta dele, e ele se mostrou cego  razo. Se no estivesse vendo com seus prprios 
olhos, no acreditaria que era seu filho quem estava ali, esfregando-se em outro homem. Era nojento, revoltante!
       Mais que depressa, aproximou-se, chegando pelo lado de Mozart. Sem que os dois percebessem, agarrou o rapaz pelo colarinho e comeou a sacudi-lo, gritando 
descontrolado:
       -  Seu veado nojento! Sem-vergonha! Ento recebo-o em minha casa, e  assim que me paga?
       Levou algum tempo at que Romero entendesse que era seu pai quem estava ali. Como os descobrira? Ser que os seguira?
       -  Pai... - falou aturdido. - Como... o que... o que est fazendo aqui?
       -  De voc, cuido depois! - esbravejou.
       Aproveitando-se de sua distrao, Mozart conseguiu empurr-lo para o lado e levantou-se, ao mesmo tempo em que os segurana? do cinema se aproximavam.
       -  Vamos parar com isso a - disse um grandalho. - No quero saber de briga de veados!
       -  No sou veado! - berrou Silas, ofendido. - Onde est o gerente desta espelunca? Exijo falar com o responsvel daqui!
       -  Vamos andando, dondoca- continuou o outro, em tom de deboche. - Resolva seu ciuminho l fora.
       Silas estava cada vez mais indignado e ofendido. Como aquele brutamontes se atrevia a confundi-lo com aqueles homossexuais nojentos? O homem segurou-o pelo 
brao e comeou a pux-lo para longe de Mozart e Romero, que, aturdidos, no conseguiam dizer nada. Na mesma hora, Silas ps-se a berrar:
       -  Solte-me, animal! Ou chamo a polcia!
       A palavra polcia deu excelente resultado. O segurana soltou-o espantado, porque no era comum falar em polcia naquele lugar.
       O que costumavam fazer era correr da polcia, e no procur-la. As outras pessoas j os olhavam carrancudas, e algum reclamou:
       -  Ser que d para fazer silncio a?
       -  Chi! - acrescentou mais algum. Veio o gerente.
       -  O que est acontecendo aqui? - perguntou baixinho.
       -  Exijo respeito! - esperneou Silas. - Seus corruptores de menores! Vou process-los por admitir a entrada de menores neste antro!
       -  Menores!? - indignou-se. - Que menores?
       - Meu filho!
       Silas apontou para o lugar em que Romero e Mozart estiveram sentados, mas as poltronas estavam vazias. Os dois haviam se aproveitado da confuso para fugir. 
Saram sorrateiramente e ganharam I rua, sem que Silas ou o gerente notassem.
       -  Onde est seu filho? - tornou o homem, aliviado, percebendo que o garoto havia desaparecido. - No estou vendo ningum.
       -  Ali... - balbuciou Silas, olhando ao redor, confuso. - Eles estavam ali... mas fugiram.. .ele e aquele garoto... tenho certeza...
       -  O senhor deve ter se enganado - continuou o gerente, agora mais confiante.
       -  No me enganei, no! Ento acha que no conheo meu filho? Ele s tem catorze anos.
       -  Pode provar que era seu filho?
       Silas encarou-o com desgosto e respondeu desanimado:
       -  No. Mas era, eu juro. Tenho certeza.
       Deixou cair os braos ao longo do corpo e foi se afastando em lgrimas. Sentia-se to envergonhado que, se pudesse, cavaria um buraco ali mesmo e enterraria 
a cabea para sempre. No tinha mais
       o que dizer. O homem estava certo. Como ele iria provar que seu
       filho estivera ali? E, depois, ser que valeria a pena processar aquele homem? No estaria assumindo publicamente o que, at ento, lutara para esconder? 
No, decididamente, no era aquilo que ele desejava. Surpreendera Mozart e Romero aos beijos e abraos naquele cinema, e nada no mundo poderia apagar aquela cena 
de sua mente. Entender-se-ia com os dois sem a necessidade de expor a pouca-vergonha do filho.
       Logo que ganharam a rua, Mozart e Romero correram feito loucos, s parando aps se certificarem de que Silas no os estava seguindo. Pararam ofegantes num 
ponto de nibus e tomaram uma conduo para Copacabana. Queriam estar o mais longe possvel de casa.
       -  Acha que ele nos seguiu? - perguntou Romero, olhando pela janela do nibus.
       -  Acho que no. Ele estava distrado, tentando se livrar do segurana. S agora deve ter dado pela nossa falta.
       -  O que faremos? - perguntou Romero com angstia, os olhos rasos d'gua.
       -  Acha que pode voltar para casa?
       -  Ficou louco? Meu pai vai me matar.
       -  Vamos para a casa de meus tios. De l, ligaremos para meus pais.
       -  E se seus tios nos expulsarem? Na certa, vo ficar sabendo de tudo. Ser o primeiro lugar onde meu pai ir nos procurar.
       -  Voc tem alguma idia melhor? - Romero meneou a cabea. - Ento,  isso mesmo o que faremos.
       Desceram do nibus no primeiro ponto e atravessaram a rua, tomando outro coletivo para a casa de Alex. Quando chegaram, j era tarde, e os tios pareciam de 
nada saber. Estavam vendo televiso e apenas sorriram quando eles entraram. Alex havia sado com Judite, e os dois seguiram direto para o quarto que Mozart dividia 
com o primo.
       -  E agora? - indagou Romero.
       -  Pelo visto, seu pai no veio aqui.
       -  Mas ainda pode vir.
       -  Pode...
       Mal teve tempo de terminar, e logo ouviram a campainha da frente soar com estridncia. Ambos prenderam a respirao e aguardaram. De repente, uma voz elevou-se, 
nervosa e agitada, e eles reconheceram a voz de Silas.
       -  Ele j chegou - anunciou Mozart.
       Do quarto, no podiam distinguir com clareza as palavras de Silas. Mas, pelo tom de sua voz, sabiam que ele estava contando tudo que acontecera. No demorou 
muito, e o tio veio cham-los.
       -  Mozart - falou com desgosto. - O pai de Romero est a. Disse que os surpreendeu num cinema suspeito, aos beijos e abraos. No sei o que pensar...
       -  Tio Clvis - respondeu Mozart, em tom de desculpa -, perdoe-me...
       -  Quer dizer que ele est certo?
       Mozart apenas baixou e sacudiu a cabea. No conseguia dizer nada. Estava envergonhado, no por estar aos beijos e abraos com Romero, como o tio dizia. Mas 
porque fora apanhado como um gatuno surpreendido com a mo na bolsa de alguma senhora. E ele tinha certeza de que no cometera crime nenhum. Mas como dizer isso 
ao tio? Pior: como se explicar ao pai de Romero?
       -  Acho melhor voc ir com ele, Romero - continuou Clvis. - E vou telefonar a seus pais, Mozart. No sei como lidar com isso e no posso mais ficar com voc 
aqui.
       -  Por favor, seu Clvis - implorou Romero -, deixe-me ficar aqui. Meu pai vai me matar.
       - No vai, no. Ele est aborrecido, e com razo. Mas no vai matar voc.
       -  Vai, sim, tenho certeza.
       -  Sinto muito, Romero, mas no posso contrariar seu pai. E, depois, vocs traram nossa confiana. A minha e a dele. Venha, ele o espera.
       Derrotado, Romero levantou-se, seguido por Mozart.
       -  Voc, no - disse para o sobrinho. - Voc fica aqui. No quero complicar ainda mais as coisas.
       Mozart no ousou contest-lo. Estava na casa dele e, embora no achasse que o houvesse trado, devia-lhe respeito e no podia enfrent-lo. Romero saiu sozinho. 
Chegou  sala, onde o pai havia ficado, em companhia da tia de Mozart. O olhar de Silas era de dio. Se no estivesse diante de outras pessoas, teria arrancado o 
menino dali a tapas. Contudo, conseguiu controlar-se. Puxou o filho pelo brao e despediu-se. Silas fez sinal para um txi, e os dois entraram, seguindo em silncio 
at em casa. Pelo canto do olho, Romero podia ver a cara de dio do pai. Ele mordia os lbios e fechava as mos, controlando o mpeto de acertar um soco no queixo 
do filho.
       Saltaram na porta de casa, e Nomia correu a seu encontro. Silas havia sado sem dizer nada, deixando-a deveras preocupada.
       -  Graas a Deus! - exclamou ela. - O que houve? Por que saiu sem me dizer nada, Silas?
       Silas no respondeu. Foi empurrando o filho pela nuca para dentro de casa e fechou a porta com estrondo. Sem dizer nada, acertou em seu queixo o murro que 
havia horas vinha segurando.
       -  Sem-vergonha! - rugiu.
       -  Silas! - protestou Nomia. - O que  isso? Por acaso enlouqueceu?
       -  Pergunte a seu filho! Pergunte a ele o que ele fez para me levar ao extremo da loucura!
       O olhar interrogativo de Nomia causou imenso transtorno em Romero, sentado no sof, segurando o queixo dolorido e a boca que sangrava.
       -  Responda  sua me! Vamos, canalha, responda  sua me!
       Como Romero nada dissesse, Silas partiu para cima dele novamente e acertou-lhe novo soco, dessa vez no olho, que logo foi se tornando roxo.
       -  Meu Deus, Silas, pare com isso! - gritou Nomia, tentando segurar o brao do marido. - Ele  seu filho.
       -  Ele no  mais meu filho! No tenho filho veado!
       -  No o estou reconhecendo, Silas. Isso l  linguagem para usar dentro de casa? Ainda mais diante de sua mulher e de seu filho.
       -  Pois no estou falando nenhuma mentira. Romero  um veadinho, pederasta, bichona!
       -  Silas!
       -   isso mesmo! Ele e aquele marics do Mozart.
       -  No diga isso.
       -  Peguei-os hoje, sabe onde, Nomia? Num cinema, na Cinelndia, desses s para veados. Passavam um filme pornogrfico, e sabe de qu? De homens, Nomia, 
de homens! Fazendo as coisas mais repulsivas com outros homens!
       Nomia recuou aterrada, cobrindo a boca com a mo.
       -  No... No  verdade! - contestou, atnita. - Meu filho, no.
       -  Eu bem devia ter desconfiado. Sempre agarradinho com Mozart, saindo juntos, dormindo juntos. Como fui estpido! Ainda cedi minha casa para essa pouca-vergonha! 
Vocs faziam essa nojeira bem debaixo de meu nariz!
       Um barulho de carro do lado de fora f-los perceber que Judite estava chegando, e Silas calou-se. No queria envolver a filha naquilo. Ela abriu a porta vagarosamente 
e virou-se para dar um ltimo adeus a Alex. Quando entrou em casa, estacou abismada.
       - Nossa! - indignou-se, olhando para os pais, sem perceber Romero num canto. - O que deu em vocs? Esto com umas caras...
       -  V para seu quarto - ordenou Silas. - E s saia quando eu mandar.
       -  Por qu? O que foi que eu fiz?
       -  Faa como estou mandando, menina! Se no quiser apanhar tambm.
       S ento Judite se deu conta de que Romero estava presente, chorando, com o rosto todo machucado. Pronto! Foi o suficiente para desobedecer s ordens do pai. 
Largou a bolsa sobre a poltrona e correu para ele.
       -  Romero! - assustou-se. - O que houve, meu Deus? Quem fez isso com voc? Foi Jnior?
       Ela nem se lembrou de que o pai no queria que ela soubesse do episdio com Jnior, o que deixou Silas ainda mais irado. Romero desobedecera-lhe e contara 
a ela o que lhe acontecera. Cada vez mais irritado, puxou Judite pelo brao e empurrou-a para o corredor.
       -  Para o quarto, j disse - tornou a mandar.
       Ela no obedeceu. Desvencilhou-se dele e agarrou-se a Romero, respondendo em tom de desafio:
       -  No vou. Meu irmo est ferido. Quero ficar com ele. Silas perdeu de vez as estribeiras. J no pensava em mais
       nada. A nica coisa que conseguia sentir era a raiva a crescer dentro do peito. Sem raciocinar direito, partiu para cima de Judite e puxou-a pelos cabelos, 
ignorando os gritos de protesto e angstia de Nomia.
       -  Voc vai para o quarto agora! - esbravejou, dando-lhe um rapa no rosto.
       Aquela cena foi demais, at para Romero. Pela primeira vez em sua vida, conseguiu reagir. Que o pai descontasse nele, podia entender. Mas bater em Judite 
era uma injustia, e ele no iria permitir. De um salto, agarrou o brao do pai e torceu-o para trs, gritando entre lgrimas e soluos:
       -  Deixe-a em paz, seu monstro! Covarde! Solte-a! Aturdido, Silas largou-a e virou-se para ele. Romero sempre fora
       um menino franzino, e o pai descarregou sobre ele toda a fria de seu dio. Nem Judite, nem Nomia conseguiram impedi-lo. Espancou o filho quase at a morte, 
s parando quando percebeu que ele estava imvel no cho.
       -  Cachorro! - berrou. - No o quero mais em minha casa, debaixo de meu teto, comendo de minha comida! Isto aqui  lugar de gente direita! Levante-se e ponha-se 
daqui para fora!
       Romero mal conseguia se mexer. O rosto inchado, no enxergava direito. O corpo todo dodo, parecia que havia quebrado alguma coisa. Ainda assim, conseguiu 
se levantar, auxiliado por Nomia e Judite.
       -  Deixem-no - ordenou o pai, totalmente irado. - No quero que ningum o ajude.
       Na mesma hora, Nomia soltou-o, chorando desconsolada. Mas Judite no obedeceu. Encarou o pai com olhar frio e disparou:
       -  Se quiser me impedir, vai ter de me espancar tambm. Silas conteve o mpeto de esbofete-la novamente. Ela era
       mulher, e no ficava bem bater em mulheres, principalmente numa filha. Furioso, correu para a porta e escancarou-a. Apontou o dedo para fora e bradou a plenos 
pulmes:
       -  Muito bem. Leve-o daqui. No quero esse pederasta em minha casa.
       Judite ainda no sabia qual fora o motivo daquele briga horrenda, mas podia imaginar. S que aquela no era a hora de perguntar nada. Sustentando-o em seus 
braos, apanhou a bolsa e saiu com ele para a rua. Foi caminhando at uma transversal, onde havia um orelho. Amparando Romero, quase desmaiado, tirou uma ficha 
da carteira e telefonou para Alex, pedindo que fosse busc-los.
       Alex havia acabado de entrar em casa quando o telefone tocou. Estranhou ver a famlia reunida na sala, Mozart com os olhos   j inchados de tanto chorar, mas 
nem teve tempo de perguntar o que estava acontecendo. A voz de Judite ao telefone era grave, e ele foi s pressas a seu encontro. Parou o carro ao lado do orelho 
onde ela disse que estaria e saltou, abrindo a porta para Romero.
       -  O que houve? - perguntou, sem de nada desconfiar.
       -  Vamos para o hospital - pediu ela, sem responder  sua pergunta.
       Judite sentou-se com Romero no banco de trs e pousou a cabea dele sobre seu ombro, afagando-lhe os cabelos. Ele comeou a chorar, envergonhado e dolorido, 
sentindo os olhares de Alex pelo espelho retrovisor. No conseguia dizer nada, apenas chorar.
       No hospital, Romero ainda teve de esperar algum tempo antes de ser atendido. Havia muitas emergncias naquele dia e, com poucos mdicos, a prioridade era 
para aqueles que apresentassem perigo de vida. Romero, apesar de seu estado, no corria risco de vida e teve de esperar sua vez. Era dia de planto de Plnio, o 
mesmo que o atendera no dia em que fora violentado. Ele no se lembrava do rapaz, porque eram muitas as pessoas que atendia ali, mas tratou-o com o cuidado de sempre.
       Examinou-o minuciosamente. Deu-lhe alguns pontos no rosto e apalpou seu corpo, em busca de alguma fratura. Felizmente, estava tudo inteiro. As costelas doam-lhe, 
mas no havia quebrado nenhuma. Depois de medicado, Plnio colocou-o em observao e foi ao encontro de Judite, que havia acabado de preencher uma ficha no balco 
de atendimento.
       -  Boa noite - disse ele. - Foram vocs que trouxeram o rapazinho?
       -  Fomos, doutor. Sou a irm dele, Judite. Como ele est?
       -  Bem. Levou uma surra danada, mas vai ficar bom. Ela suspirou aliviada e deixou escapar um desabafo:
       -  Graas a Deus.
       -  Pode me contar o que aconteceu?
       Judite no queria dizer que o pai havia espancado o irmo, com medo de que ele fosse preso. Por isso, ao dar seu nome na recepo, dissera que Romero fora 
assaltado e que apanhara do ladro. E foi exatamente isso que ela repetiu ao mdico.
       Plnio sabia que aquilo no era verdade, mas no era direito insistir. Limitou-se a balanar a cabea e concluiu:
       - Ele vai passar umas duas noites aqui. Depois, pode lev-lo.
       Sorriu com simpatia e foi para dentro atender outros clientes. Judite e Alex, no tendo mais o que fazer, saram tambm, e s o que ela pde dizer-lhe foi 
que o pai batera em Romero. O motivo, no conhecia. Embora ela at pudesse imaginar, tinha medo de compartilhar suas suspeitas com o namorado. Como todo mundo, Alex 
era preconceituoso com essas coisas de homossexualismo, e Judite no queria se desentender com ele e tambm no queria que ele se desentendesse com Romero.
       
     Captulo 9
       
       Ainda assustada, Judite entrou em casa. Despedira-se de Alex da porta e entrou, pensando no que o pai estaria fazendo. Estranhamente, a casa estava toda s 
escuras. Ela entrou na ponta dos ps e foi espiar o quarto dos pais. Nenhum dos dois estava dormindo, embora fingissem estar. Com cuidado, Judite encostou a porta 
e dirigiu-se a seu quarto. Despiu-se e foi tomar um banho. Quando voltou, a me estava sentada em sua cama, olhos inchados de tanto chorar.
       -  Como est seu irmo? - foi logo perguntando, aflita.
       -  Como a senhora queria que ele estivesse, depois daquela surra?
       -  O que o mdico disse? Ele vai ficar bom?
       -  Vai. O doutor disse que no  nada grave. Mas Romero vai passar duas noites no hospital.
       Nomia juntou as mos sobre a boca e cerrou os olhos, e Judite sabia que ela estava rezando.
       -  E papai? - indagou, assim que a me abriu os olhos.
       -  Est dormindo, eu acho.
       -  Por que no impediu, me? Por que deixou que papai fizesse aquilo com Romero ?
       -  O que eu poderia fazer? Seu pai me proibiu...
       -  E a senhora obedece, no ? A tudo que papai fala, a senhora diz amm.  sempre assim. Ser que, ao menos uma vez na vida, no podia ter reagido?
       -  No me acuse, Judite. Estou sofrendo muito.
       -  No tanto quanto Romero. Imagine s o que ele deve estar passando naquele hospital.
       -  A culpa no  minha. Seu pai  o chefe da famlia.
       -  Ah! E por isso ele pode fazer o que quiser, no ? At nos matar, se for de sua vontade.
       -  No diga isso. Seu pai  um homem bom.
       -  Nota-se.
       -  Ele ficou transtornado. Romero tirou-o do srio.
       -  Por qu? O que foi que ele fez de to terrvel para provocar essa fria de papai?
       -  Ele no lhe contou?
       -  Ele no estava em condies de me contar nada. Nomia soltou doloroso suspiro e ciciou:
       -  Seu pai no vai gostar...
       -  Ser que a senhora no pode esquecer papai um momento? Estamos falando de seu filho!
       -  Silas no quer que eu conte nada. Principalmente a voc.
       -  Mame! Deixe de ser medrosa e submissa. O que papai vai fazer contra a senhora? Bater-lhe tambm?
       -  Deus me livre, que seu pai no  homem disso!
       -  Ele s bate nos filhos, no  mesmo?
       -  Voc est sendo injusta, Judite. Seu pai nunca bateu em vocs.
       -  O que foi que ele fez com Romero, ento?
       -  Com Romero foi diferente.
       -  Por qu?
       -  Porque ele... bem... ele provocou...
       -  Como? O que foi que ele fez?
       -  Ele... ele...
       -  Ele o qu, mame? Pelo amor de Deus, fale logo de uma vez!
       Nomia no conseguiu mais segurar aquilo. Comeou a chorar e contou tudinho a Judite, do mesmo jeito que Silas lhe havia contado. Judite sentiu imensa angstia. 
No que se surpreendesse. No fundo, j esperava por aquilo. Surpreendia-se com o preconceito e a incompreenso do pai. Mais ainda, com a passividade da me.
       -  E agora, me, o que vamos fazer?
       -  Vou rezar para que seu pai o aceite de volta. Talvez possa mos lev-lo a um psiquiatra ou algo parecido. Romero est doente.
       -  A nica doena de Romero  a surra que levou.
       -  Mas, minha filha, nenhum homem, em s conscincia, faz o que ele fez com outro homem.
       -  A senhora no sabe de nada mesmo, no , mame? Romero  homossexual...
       - No diga isso!  feio.
       -  Feio  o preconceito. Ele  homossexual mesmo, e da? O que podemos fazer? Foi a escolha dele, no foi?
       -  Seu pai jamais vai aceitar uma coisa dessas.
       -  Mas a senhora devia aceitar.  mulher,  me. Devia ser mais sensvel.
       -  Romero  meu filho, e eu seria capaz de aceit-lo de volta, seja ele como for. Mas seu pai j disse que no quer.
       -  E a senhora vai aceitar isso?
       -  O que posso fazer, Judite? Brigar com ele?
       -  Imponha sua vontade.
       -  Silas  o homem.  o chefe desta famlia.  ele quem paga as contas, quem pe comida dentro de casa.
       -  E a senhora,  o qu? Sua empregada? Que eu saiba, a senhora trabalha tanto quanto ou mais que ele, cuidando de ns e da casa. Isso, sem falar em suas 
costuras, que contribuem em muito com o sustento da famlia.
       -  Mas no  direito, Judite. No posso contrariar meu marido.
       -  Pois, ento, convena-o. Convena-o a reconsiderar e aceitar Romero de volta.
       -  Ainda que eu conseguisse isso, de que adiantaria? Seu pai nunca mais seria o mesmo com ele. Viveramos num inferno.
       -  Mame, acho que a senhora ainda no entendeu a situao. Romero s tem catorze anos, no trabalha, no tem para onde ir. O que espera que ele faa da vida?
       -  No sei, Judite, no sei! Por isso, peo a Deus que o ajude.
       -  Deus, s, no vai bastar! Precisamos dar uma forcinha.
       -  No blasfeme, minha filha. Deus pode mais que tudo.
       -  No digo o contrrio. Mas acho que Deus no quer, ele mesmo, resolver nossos problemas. Se fosse assim, tudo seria muito fcil. O que ele quer  que faamos 
nossas escolhas e tomemos as atitudes certas.
       -  Como saber o que  certo ou errado?
       -  Seguindo o corao.
       -  No, Judite, sinto muito. Meu corao de me est apertado com o futuro que vislumbro para Romero. Ele  meu filho, e ningum mais do que eu sofre por 
ele. Mas ele tambm h de assumir seus erros.
       -  Mas que erros?
       -  Voc no disse que ele  homossexual? Tem de assumir essa escolha tambm.
       -  Que  uma escolha, concordo com a senhora. Mas no vejo onde est o erro em seguir seus instintos. Romero no est fazendo mal a ningum.
       -  S a ele mesmo.
       -  No concordo. Se ele est feliz, onde est o mal?
       -  Ele no pode estar feliz na situao em que se encontra.
       -  Tem razo. Ningum pode ficar feliz numa cama de hospital, todo arrebentado.
       -  Foi ele quem causou essa situao.
       -  Ah! quer dizer que a culpa  dele, por ter apanhado?
       -  Se no fosse homossexual, seu pai no teria lhe dado essa surra.
       -  Isso no  justificativa. Ser homossexual no  crime nem pecado.
       -  Mas  feio,  imoral.
       -  Em sua concepo, porque na minha no  nada demais.  apenas uma opo, um caminho como outro qualquer.
       -  Voc tem idias muito estranhas para uma mocinha de sua idade.  bom que seu pai no a oua falar assim.
       -  Nomia! - era a voz de Silas, chamando do outro quarto. - Venha dormir. J  tarde!
       Judite encarou a me com desapontamento. No adiantava nada discutir com ela. Nomia no se atrevia a contrariar o marido, ainda que isso significasse a perda 
dos filhos.
       -  V, mame, v dormir. No deixe papai esperando. Ele pode se aborrecer e coloc-la de castigo.
       Apesar de perceber a ironia nas palavras da filha, Nomia no respondeu e voltou para seu quarto. Deitou-se ao lado de Silas, que no disse nada. Ele sabia 
que ela estivera conversando com Judite, vira quando se levantara. Deixara que ela fosse apenas para que ficasse mais calma. Podia compreender sua angstia de me, 
embora no permitisse que ela o contrariasse. Permitira que Judite lhe desse notcias de Romero e esperava que ela parasse de se preocupar com ele. Daquele dia em 
diante, no tinham mais filho. Apenas uma filha.
       No dia seguinte, logo cedo, Judite telefonou para Alex.
       -  Al? Alex? Tudo bem? Ser que voc pode me levar ao hospital agora de manh? Quero ver como Romero est passando.
       -  Certo - respondeu Alex, sem muito nimo. - Passo a dentro de meia hora.
       Alex tambm j sabia o que havia acontecido. Seus pais lhe contaram tudo. Embora no achasse certo bater em Romero, concordava que ele e Mozart haviam agido 
errado. Alex era totalmente contra qualquer espcie de homossexualismo, ainda mais em sua famlia.
       No carro, ele e Judite iam conversando.
       -  Creio que voc j sabe o que houve, no sabe? - perguntou ela.
       -  Sei, sim. Meu pai me contou.
       -  E Mozart? Como est?
       -  Est bem, aparentemente. Seus pais chegam hoje de Braslia para lev-lo.
       -  Vocs o mandaram embora?
       -  No exatamente. Mas voc h de convir que no foi nada agradvel para papai saber que o sobrinho estava metido nessa sem-vergonhice.
       -  Por que fala desse jeito? Eles no estavam fazendo nada de mau.
       -  Como no? Enfiados num cineminha poeira, s para ficarem de esfregao... Como no  sem-vergonhice?
       -  O que voc queria que eles fizessem? Que namorassem em praa pblica? Ou na praia?
       -  No acredito que voc os esteja defendendo!
       -  Estou, sim. Tudo bem que o lugar em que foram vistos no era l muito bem freqentado. Pode ser sujo, nojento, de baixo nvel, mas foi a isso que eles 
tiveram de se sujeitar para fugir do preconceito. Eles queriam estar juntos, e o nico lugar em que podiam fazer isso com liberdade, infelizmente, era num cinema 
suspeito, como aquele. Mas no vejo nada demais no que eles fizeram. Eles so garotos saudveis, bonitos, inteligentes...
       -  E deveriam estar atrs das meninas. Onde j se viu, dois homens se beijando na boca? E muito me admira voc, Judite, concordar com uma esquisitice dessas.
       -  Lamento se no penso como voc, Alex. Mas no vou mudar de opinio s porque voc quer.
       Chegaram ao hospital e calaram-se. Ali, naquele momento, Judite teve a certeza de que ela e Alex no iriam muito longe com aquele namoro. Ele deixara bem 
claro seu pensamento, e ela no concordava com nada do que ele dissera. Tampouco iria se sujeitar  sua vontade s para no o perder. No era como sua me e no 
queria se tornar submissa a nenhum homem, por mais que o amasse.
       No hospital, foram informados de que Romero melhorara. Era um rapaz forte e estava se recuperando bem.
       -  Podemos v-lo? - perguntou Judite.
       -  Podem. Esto no horrio de visitas.
       Romero, de olhos fechados, no percebeu quando eles se aproximaram. Sentiu que o tocavam de leve no ombro e abriu os olhos, encontrando o olhar doce e compreensivo 
da irm.
       - Judite... - balbuciou, j comeando a chorar.
       -  No precisa falar, Romero - tornou ela, afagando-lhe os cabelos. - S quero saber como voc est.
       -  Bem... Foi o que me disseram.
       S ento percebeu Alex parado mais atrs.
       -  Ol, Alex - cumprimentou. - Tudo bem?
       -  Tudo bem, e voc?
       Romero fez um gesto com as mos, indicando que ia mais ou menos. Sentiu-se envergonhado com a presena do namorado da irm. Imaginava se, quela altura, todos 
j no estariam sabendo por que o pai agira daquela forma.
       -  Papai lhe contou o que aconteceu?
       -  Mame contou.
       -  Sinto muito, Judite. No queria magoar voc.
       -  Magoar-me? Voc no me magoou, Romero. No tenho nada com sua vida. Amo-o e respeito-o pelo que voc , no pelas escolhas que faz.
       Nesse ponto, Alex pediu licena e saiu. No queria tomar parte naquela conversa infame.
       -  Alex no pensa como voc, no ? - afirmou Romero.
       -  No ligue para ele.
       -  No quero causar-lhe problemas, Judite. Se for para brigar com Alex, no precisa mais vir me visitar. No precisa nem falar comigo, se no quiser. Vou 
entender.
       -  Nem pensar! Voc  meu irmo, e por nada neste mundo eu o abandonaria. Ou Alex me aceita desse jeito, ou pode procurar outra namorada.
       -  Voc no gosta dele?
       -  Gosto. Mas no posso conviver com um homem que no sabe respeitar seus semelhantes.
       -  Voc  muito especial, Judite - falou ele, emocionado. - Deveria ter lhe contado h mais tempo.
       -  No pense mais nisso agora. No tem importncia.
       - Jnior conseguiu sua vingana, afinal.
       -  Acha que foi ele que contou?
       -  E quem mais haveria de ser? Foi depois que ele comeou a ligar que papai descobriu.
       -  Tem razo. Mas que sujeitinho -toa!
       -  Sabe se ele ligou de novo?
       -  No sei. Nem perguntei.
       -  Espero que agora ele nos deixe em paz.
       - No pense mais nisso. Ele agora no poder mais lhe fazer mal. A hora da visita terminou, e Judite teve de ir embora. Ficou de
       voltar mais tarde, na hora em que o mdico estivesse, para saber quando Romero teria alta. E, quando tivesse, o que iria fazer? Para
       onde iria?
       Do lado de fora, Alex aguardava-a impaciente. Ao v-la, franziu o cenho e foi saindo apressado. J dentro do carro, perguntou de m vontade:
       -  Por que demorou tanto?
       -  Estava conversando com ele. Romero est muito abalado. E estou preocupada com seu futuro.
       -  Isso no  problema seu.
       -   claro que . Romero  meu irmo.
       -  Mas no h nada que voc possa fazer por ele. Seu pai ex' pulsou-o de casa, e voc no tem como ajud-lo.
       -   isso que me angustia. O que vai ser de meu irmo?
       -  Pare de se preocupar. Aposto como ele vai saber se virar direitinho.
       -  Como assim? O que quer dizer?
       -  Ora, Judite, ele j se iniciou nessa vida. Na rua, est cheio de pederastas velhos e cheios da grana atrs de um garotinho. No vai ser difcil para ele.
       Judite sentiu o sangue ferver e rebateu indignada:
       -  O que est dizendo, Alex? Meu irmo no  nenhum marginal.
       -  Desculpe-me, Judite - tornou acabrunhado, j arrependido do que dissera. - No foi isso que quis dizer.
       -  Mas foi o que insinuou. Voc  igualzinho a todo mundo. S porque existem pessoas que agem de forma diferente, critica e vai logo julgando. Por acaso se 
acha melhor do que os outros?
       - No. Mas, pelo menos, no saio por a transando com homens.
       -  Quanto preconceito! Voc devia se envergonhar de ser to preconceituoso.
       -  No  preconceito, no. Se algum quer ser pederasta, no tenho nada com isso. Desde que no seja da minha famlia.
       -  Ah! Ento o problema  com seu primo.
       -  Com meu primo e com meu futuro cunhado. Mozart no  problema, porque os pais esto vindo busc-lo, e ele vai partir logo para a ustria. Mas Romero vai 
ser meu cunhado. No quero que meus amigos digam que o tio de meus filhos  pederasta.
       -  Isso  um disparate! E o que voc espera que eu faa?
       -  O que qualquer pessoa decente faria numa situao dessas. Afastar-se dele.
       -  Voc ficou maluco? Romero  meu irmo.  um menino! Meu pai o colocou para fora de casa. Como posso abandona-lo?
       -  No digo abandonar. Mas tambm no precisa ficar amiguinha dele.
       -  Eu no vou ficar amiguinha dele. J sou. Sempre fui! Chegaram  porta da casa de Judite. Alex estacionou, puxou o freio de mo e, encarando-a bem fundo 
nos olhos, confessou:
       -  Ento, Judite, creio que vai ficar muito difcil para ns...
       -  Difcil, no - cortou ela, rubra de raiva. - Impossvel. Saiu batendo a porta e entrou correndo para dentro de casa, sem nem olhar para trs. Estava com 
raiva de Alex, decepcionada por causa de seu preconceito. Mas foi melhor descobrir como ele era agora. Se descobrisse que ele era to preconceituoso depois do casamento, 
o desgosto seria maior. E ela no estava disposta a subjugar seus princpios, aquilo em que acreditava, em nome de ningum. Para ela, aquele namoro havia terminado 
ali.
       
     Captulo 10
       
       O telefone tocou e Judite atendeu com agressividade, certa de que ouviria a voz debochada de Jnior do outro lado. Para sua surpresa, porm, no foi Jnior 
quem ligou, mas Mozart, que sussurrou bem baixinho:
       -  Quem fala?  Judite?
       -  Mozart! Que bom que ligou!
       -  Queria mesmo falar com voc. Preciso ver Romero.
       -  Onde est?
       -  Na casa de meus tios. Meus pais chegaram hoje cedo, e partiremos amanh. Mas no posso ir sem falar com Romero.
       -  No sei se ser possvel. Ele est no hospital.
       -  Por favor, leve-me at l. No posso ir embora e deix-lo como se nada tivesse acontecido.
       Judite considerou por alguns segundos. Podia imaginar o que ele estava sentindo, quanto deveria estar sofrendo. Partir para longe, sem se despedir de quem 
amava, deveria ser muito duro. Mas o pai ficaria furioso se soubesse que ela levara Mozart at o hospital. Ou talvez no. O pai renegara Romero, dizia que, dali 
em diante, no queria mais saber dele, que no tinha mais filho. Se era assim, no se incomodaria se Mozart fosse visit-lo. Nem tomaria conhecimento. E, se tomasse, 
pouco importava. Ele j no tinha mais ascendncia sobre Romero, mesmo.
       -  Est certo - concordou ela, finalmente. - Mas a hora da visita j passou.
       -  No h nenhum jeito?
       -  Bom, eu fiquei de voltar mais tarde para falar com o mdico. Quer ir comigo?
       -  Quero.
       -  Est certo, ento. Mas no estou prometendo que voc possa v-lo. Vai depender do mdico, se ele autorizar ou no.
       -  Vou arriscar.
       -  Bom. Vamos nos encontrar mais tarde na porta do hospital. - Deu-lhe o endereo. - Sabe onde fica?
       -  Eu descubro.
       -  Muito bem. Espero-o s oito horas. No se atrase. Se voc se atrasar, entrarei sozinha.
       -  No se preocupe, no me atrasarei.
       Desligaram. Judite ficou pensativa, imaginando o que os pais de Mozart teriam dito daquilo tudo. Pelo que ela sabia, eles eram pessoas avanadas e liberais, 
mas ela no imaginava at onde ia a liberalidade deles.
       Jantou mais cedo naquela noite e saiu sem falar com ningum. No queria ouvir as lamrias da me nem as censuras do pai. O hospital era perto, e ela tomou 
um nibus. Poucos minutos depois, descia em sua porta. Ainda faltavam vinte minutos para as oito, mas Mozart j estava l, consultando o relgio a todo instante. 
Logo que ele a viu, correu ao seu encontro e abraou-a com efuso, deixando que as lgrimas escorressem de seus olhos.
       - Judite... - balbuciou. - Eu sinto tanto!
       -  Eu sei. Tambm sinto.
       -  A culpa foi minha...
       -  No diga isso.
       -  Foi, sim. Romero era um garoto normal at me conhecer. Fui eu que o iniciei nessa vida.
       -  Muito me admira ouvir voc falar desse jeito. Logo voc, que sempre teve a mente to aberta.
       - Jamais poderia imaginar que as coisas chegariam a esse ponto. Ah! se eu no o tivesse seduzido...
       -  No diga besteiras, Mozart! Romero sempre foi desse jeito, apenas no sabia ou no se aceitava. O que voc fez foi tirar-lhe o vu do medo e do preconceito 
com ele mesmo.
       -  Acha mesmo?
       -  No tenho dvidas. E, se quer saber mesmo, acho que quem o despertou para isso no foi nem voc. Foi o tal de Jnior. Foi depois que ele violentou Romero 
que ele comeou realmente a questionar sua sexualidade.
       -  Mas ele ainda resistia. Fui eu quem o desvirtuou.
       -  Voc apenas o ensinou a ser verdadeiro com seus sentimentos. Isso no  nada demais.
       -  Acha isso mesmo?
       -   claro. No acredito que algum se torne homossexual ou qualquer outra coisa pela s influncia de outro. No acredito nem que algum possa se tornar 
homossexual. Quem  homossexual j nasce assim. As pessoas relutam, no querem se aceitar, algumas at se casam para no ter de se enfrentar. At que, um dia, acontece 
alguma coisa que as coloca diante de si mesmas, e elas so impelidas a reconhecer suas tendncias, a se aceitar do jeito que so. Muitas no conseguem e vivem cheias 
de conflitos.
       -  Acho que  a maioria. Todo mundo tem medo do preconceito.
       -   verdade. O preconceito  uma chaga na humanidade.
       -  O preconceito destri uma pessoa, Judite. Veja s o que fez a Romero.
       -  Acho que quem se destruiu mais foi meu pai. A incompreenso traz o desassossego, a raiva que consome, o medo que o transformou numa pessoa superficial 
e amarga.
       -  Voc  to diferente de todo mundo! Romero tem muita sorte de ter uma irm como voc.
       -  Sei que sou um pouco diferente. Mas  que no consigo ver os erros que as pessoas costumam apontar nos outros. Observo as diferenas de comportamento, 
de gostos, de ideais. E isso, para mim,  natural, faz parte da vida. Mas no consigo ver essas diferenas como aberrao, apenas como diversificaes no jeito de 
viver, sentir e pensar. E da? Somos todos seres humanos, no somos? As coisas esto a, no esto? Se esto,  para serem experienciadas. Se no, Deus, que  muito 
inteligente, jamais as colocaria no mundo.
       -   uma maneira, no mnimo, inusitada de ver as coisas.
       -   porque todo mundo complica tudo. Sabe, Mozart, eu acredito muito em Deus. No nesse Deus vingativo e punitivo que todo mundo prega por a. Mas num Deus 
de amor e compreenso. Numa fora inteligente que criou o mundo e tudo que est nele. E Deus no erra nunca, no  mesmo? Se no erra, por que ento pensar que ser 
homossexual  um erro? Pois no foi Deus quem fez o homem e permitiu que ele conhecesse a homossexualidade?
       -  No sei. Talvez as pessoas achem que o homossexual se desvirtuou dos ensinamentos de Deus.
       -  S se desvirtua dos ensinamentos de Deus quem no consegue amar. Para mim, a nica lei que  eterna e verdadeira  a lei do amor. A partir da, tudo o 
mais  conseqncia. Quem ama compreende, ajuda, no critica, no rouba, no inveja, no mata, no fala mal. E isso, para mim,  o que conta no ser humano. No importa 
se homem ou mulher, htero ou homossexual, branco ou negro, rico ou pobre. Cada um vive o que tem de viver, e ningum vive de forma errada. Vive o que precisa. E 
o que precisamos  sempre o melhor para ns. E o melhor, seja o que for,  o que vem para nossas vidas.
       -  Nossa, Judite, de onde tirou essas idias?
       -  Das reflexes que fao sobre a vida. Bom, mas deixemos essas consideraes para outro dia. Viemos ver Romero. Vamos entrar?
       Entraram juntos, e Judite dirigiu-se  mocinha da recepo:
       -  Gostaria de falar com o Dr. Plnio Portela, por favor.
       A recepcionista consultou uma prancheta e respondeu com voz mecnica:
       -  O Dr. Plnio est na emergncia. Vocs podem ir por esse corredor e virar  direita no final. Perguntem por ele  recepcionista de l.
       -  Obrigada.
       Afastaram-se e foram para o local indicado. Por sorte, quando eles chegaram, Plnio estava no corredor, dando orientaes a um casal. Os dois se puseram um 
pouco mais atrs. Logo que ele terminou, reconheceu Judite e cumprimentou-a:
       -  Como vai, Judite?
       -  O senhor se lembra de mim?
       -  Como no?  a irm daquele rapazinho, Romero, no  mesmo?
       -  Sou eu mesma. Puxa, doutor, que bom que se lembrou de mim. Gostaria muito de falar com o senhor.
       -  Voc deu sorte. O movimento hoje est fraco. Vamos por aqui, para meu consultrio.
       Mozart olhou para Judite com olhar de splica, e ela indagou:
       -  Doutor, ser que meu amigo aqui no poderia dar uma palavrinha com Romero?
       -  O horrio de visitas j acabou.
       -  Eu sei - interveio Mozart, j agoniado. - Mas  que eu vou viajar para Braslia amanh. De l, parto para a ustria e no sei quando poderei ver Romero 
novamente.
       Plnio compreendeu. Era um homem vivido e de uma sensibilidade extrema. Piscou o olho para Mozart e respondeu em tom amistoso:
       -  Bom, creio que no far mal se voc der apenas uma palavrinha com ele.
       Chamou a enfermeira de planto e deu autorizao para que Mozart entrasse, seguindo com Judite para seu consultrio particular. Mozart entrou na enfermaria 
com todo o cuidado. No queria perturbar os doentes. A enfermeira conduziu-o at o leito que Romero ocupava, e ele se aproximou. O rapaz dormia e ressonava, e Mozart 
sentiu a garganta estrangular. J o amava sinceramente e sentiria muito sua falta. Contudo, no tinham como permanecer juntos naquele momento.
       Os dois eram menores de idade, no trabalhavam, no tinham onde viver. Mozart sabia que muitos homossexuais caam na marginalidade por causa do preconceito. 
No tendo um comeo de vida slido, seria difcil arranjar um emprego que os sustentasse. E, mesmo que achassem, teriam de viver de forma obscura, escondendo-se, 
ocultando seus sentimentos, policiando gestos e palavras, tudo para que ningum descobrisse a verdade sobre eles e os discriminasse. Era uma vida muito ingrata e 
injusta, mas era a vida que a sociedade lhes oferecia.
       Por isso, Mozart sabia que era preciso vencer. Concluiria seus estudos de piano e retornaria ao Brasil triunfante, como grande pianista. Enquanto isso, esperava 
que Romero fizesse uma faculdade, mas agora no sabia se ele conseguiria. Seu futuro era incerto, o que quase fez Mozart desistir de seus planos.*Os pais, porm, 
no permitiriam. No porque era homossexual, porque j desconfiavam e aceitaram bem, mas porque no queriam que o filho sofresse com o preconceito. Queriam prepar-lo 
para a vida e para seus dissabores, a fim de que Mozart tivesse condies de se sustentar e viver sem precisar se humilhar diante de ningum.
       Mozart ficou parado, observando Romero. Este, como que sentindo sua presena, abriu os olhos lentamente e sorriu. Ergueu o corpo na cama e abraou o amigo.
       -  Mozart - gemeu. - Pensei que nunca mais fosse v-lo.
       -  No poderia partir sem ver voc.
       - J vai embora?
       -  Tenho de ir. Meus tios ligaram para meus pais, e eles vieram me buscar. Tio Clvis no me quer mais aqui.
       -  Entendo... Vai logo para a Europa?
       -  Assim que as frias terminarem. Papai est providenciando minha ida antes do programado, para me tirar desta situao.
       -  Seus pais ficaram zangados com voc ?
       -  No. Ficaram chateados por causa de meus tios. Eles no compreendem, e meus pais no querem desrespeit-los.
       -  Como o invejo! Ah, se meus pais fossem assim...
       -  Voc tem Judite. Ela  uma moa maravilhosa.
       -   verdade. No h ningum igual a Judite. Pena que Alex no pense assim. S espero que eles no se desentendam por causa disso.
       Embora Judite no tivesse dito nada, Mozart sabia que ela e Alex haviam brigado porque o primo os acusara de serem os responsveis pelo rompimento do namoro. 
No contou nada a Romero. Ele j estava muito abalado, e saber que a irm havia terminado com Alex s serviria para transtorn-lo ainda mais, impondo-lhe uma culpa 
que, absolutamente, ele no tinha.
       -  Ela no veio? - indagou Romero, passando os olhos pela enfermaria.
       -  Est l fora, conversando com o mdico.
       Nesse ponto, Romero no agentou mais. Estava tentando ser forte, mas a notcia da breve partida de Mozart causou-lhe imensa tristeza. S havia duas pessoas 
no mundo que ele amava e em quem podia confiar: Judite e Mozart. Mozart ia embora, e Judite precisava viver sua vida. O que seria dele dali para a frente?
       -  Vou me sentir to s... - desabafou. - O que ser de mim, Mozart?
       -  Nada mudou em nossos planos. Apenas temos de antecipar algumas coisas. Eu vou mais cedo para a ustria, e voc tambm vai ter de se virar.
       -  Mas como? O que poderei fazer? Meu pai no me quer mais em casa. Como viverei?
       Mozart engoliu em seco. Sabia que Silas no voltaria atrs em sua palavra, o que talvez at fosse melhor. Se aceitasse Romero de volta, na certa exigiria 
que ele se enquadrasse em seus padres, impondo-lhe verdadeira tortura mental.
       - Voc tem de ser forte e corajoso. Arrume um emprego e continue estudando. Tente se formar. Disso vai depender todo o nosso futuro.
       -  Voc fala srio, Mozart? Vai mesmo voltar para me buscar?
       -  S no volto se voc no quiser - abaixou-se rapidamente e deu-lhe um beijo discreto nos lbios, acrescentando bem baixinho: - Vou lhe mandar algum dinheiro 
da Europa. Para ajudar nas despesas. Ningum precisa saber.
       -  Como?
       -  Deixe comigo, que darei um jeito. Judite pode nos ajudar. A vontade de Romero era atirar-se nos braos de Mozart, mas
       conseguiu controlar-se. Apesar do horror da situao, nem tudo estava perdido. Mozart parecia sincero ao dizer que voltaria para busc-lo. E por que no voltaria? 
Ento os dois no se amavam?
       Discretamente, Romero apanhou a mo de Mozart e beijou-a, molhando-a com suas lgrimas sentidas.
       -  Eu amo voc - balbuciou. - Sempre.
       Mozart no respondeu. Estava por demais emocionado para conseguir falar. Sentiu que os olhos tambm se enchiam de lgrimas e apertou a mo de Romero, dizendo-lhe, 
com o olhar, quanto o amava tambm.
       
     Captulo 11
       
       No dia seguinte, ao meio-dia, Mozart partiu com seus pais de volta a Braslia. Os tios haviam ido lev-lo ao aeroporto e pareciam felizes com sua partida. 
Alex despediu-se em casa. Estava magoado com o primo, julgando-o culpado por seu rompimento com Judite.
       No outro dia, Romero teria alta do hospital, e Judite estava deveras preocupada com seu destino. No sabia o que fazer para ajud-lo. Mozart dissera-lhe que 
mandaria dinheiro para colaborar com o sustento de Romero, mas onde ela iria coloc-lo para viver?
       Faltavam apenas quinze dias para o comeo das aulas, o que ela considerava at um alvio. Romero tambm deveria voltar para a escola, mas ela achava que o 
pai no permitiria. A histria vazara, como era de se esperar, e alguns vizinhos cochichavam entre si, apontando Silas com deboche ou com piedade. Isso s servia 
para irrit-lo ainda mais. Passados apenas poucos dias do ocorrido, parecia que ele havia redobrado seu dio.
       Nomia, por sua vez, s o que fazia era rezar. Diante do pequenino altar montado em seu quarto, rezava para que Nossa Senhora protegesse seu filho, lhe desse 
juzo e o fizesse arrepender-se de seus erros, retornando ao bom caminho. Quem sabe, assim, Silas no o aceitaria de volta? Judite assistia a essas rezas com mal 
disfarado desdm. No que desacreditasse do poder da orao ou dos santos. S no conseguia acreditar que Romero houvesse cometido algum pecado que necessitasse 
de piedade ou reparao.
       Ela havia ido ao hospital de manh e agora estava sentada na sala, ajudando a me com as costuras, quando o telefone tocou. Silas veio correndo atender e 
quase explodiu de dio ao ouvir a voz debochada de Jnior:
       -  E ento, seu Silas? J descobriu o casinho de Romero?- riu. - Eu tinha ou no tinha razo?
       Jnior no sabia o que havia acontecido, e Silas no conseguiu se controlar. Estava com raiva, frustrado, deprimido. Eram tantos sentimentos ao mesmo tempo, 
que ele parecia um caldeiro em ebulio.
       -  Seu moleque! - gritou. - Destruiu nossa vida! No est satisfeito?
       -  Destru? Mas eu no fiz nada...
       -  Veado!
       Silas bateu o telefone com fria e sentou-se no sof, chorando desconsolado. Um minuto depois, o telefone tocou novamente, e Judite correu para atender. O 
pai no estava mais em condies de faz-lo.
       -  Al? - disse ela, mas Jnior no respondeu. - Por que no nos deixa em paz, Jnior? J conseguiu o que queria. Meu irmo est no hospital por sua causa. 
No est satisfeito?
       Jnior desligou. No precisava ouvir mais nada. Conseguira mesmo o que queria. Vingara-se daquele cretino e da bichinha sua amante.
       Mas no estava satisfeito. Precisava descobrir em que hospital Romero estava. Queria v-lo pessoalmente, rir na cara dele, apontar-lhe o dedo e dizer-lhe: 
Viu? Quem mandou mexer comigo?
       Estava irrequieto. Sara do trabalho mais cedo, alegando dor de cabea. J faltara muito naquele ms, e o chefe estava de olho nele. Mais um pouco e levaria 
uma justa causa. Precisava se cuidar, mas no podia perder aquela oportunidade. Apanhou as Pginas Amarelas e comeou a procurar os telefones dos hospitais mais 
prximos. Um a um, foi telefonando, dando o nome de Romero, at que encontrou o que procurava.
       No dia seguinte, faria uma visitinha ao rapaz. No horrio de visitas, o movimento deveria ser grande, e ningum barraria sua entrada. Tampouco o conheciam, 
de forma que no teria problemas.
       E, ainda que algum o conhecesse, o que poderiam fazer contra ele? No podiam acus-lo de nada. A violncia que cometera contra Romero fora realizada havia 
muito tempo, e nenhum processo tinha sido aberto. E ele no podia ser acusado de ser o responsvel por Romero estar no hospital. De qualquer forma, trataria de se 
prevenir. Apanhou o canivete em cima da mesa e virou-o nas mos, sorrindo. Ningum o pegaria desprevenido.
       As visitas comeavam s oito horas, c s oito e meia Jnior entrou no hospital, seguindo direto para a enfermaria. Ao chegar, porm, uma surpresa: Romero 
no estava mais l. Procurou em todos os leitos, mas nem sinal do rapaz. Sentiu a raiva crescer dentro dele e foi chamar uma enfermeira.
       -  Por favor - disse, esforando-se para controlar a ira -, procuro um paciente, Romero Silveira Ramos. Sabe onde est?
       -  O doutor Plnio deu-lhe alta hoje cedo. Saiu agorinha mesmo, com a irm. Se correr, ainda ser capaz de peg-los na rua.
       No era possvel! Perdera-os por questo de segundos. Mas nem tudo estava perdido. Talvez eles ainda estivessem por ali.
       Jnior passou pela enfermeira feito um furaco, quase derrubando-a ao cho. Correu pelos corredores feito louco, at que alcanou a rua. Efetivamente, l 
estavam eles. Parados na beira da calada, eles conversavam e olhavam para a rua. Estavam esperando um txi.
       O carro logo apareceu, e Judite fez sinal. O txi parou, e ela abriu a porta, para que Romero pudesse entrar primeiro. Apenas Dona Filomena concordara em 
receb-lo, mas s naquele dia, para que ele no ficasse na rua. Entretanto, no podia ficar com ele: no queria se desentender com Silas. Judite o levaria para l 
e depois veria o que fazer. No podia contar com mais ningum. Os tios tambm lhe voltaram as costas, e ela era grata a Filomena por sua bondade. Ainda acreditava 
que um milagre fosse acontecer.
       Assim que ela abriu a porta do carro, Jnior apareceu por trs e fechou a porta com um empurro, pondo-se entre Romero e o txi. A surpresa do rapaz foi to 
grande, que ele quase caiu para trs.
       -  Ora, ora, ora - zombou Jnior. - Aonde  que as mocinhas pensam que vo?
       Apesar de s haver visto Jnior uma vez, e, assim mesmo, de relance, Judite sabia que era ele. S podia ser. Romero sentiu uma onda de pnico invadi-lo e 
recuou dois passos, esbarrando na irm, parada logo atrs. Aquilo era um desaforo! Judite no iria permitir que aquele brutamontes covarde espezinhasse o irmo. 
Rapidamente, puxou Romero com a mo, colocando-o atrs dela, e encarou Jnior com ar de desafio.
       -  O que quer aqui? - indagou sria.
       -  Por qu ? - revidou Jnior, olhando-a ameaadoramente. - A rua  de todos.
       -  Saia de nosso caminho - ordenou ela, sustentando o olhar. Jnior comeou a rir e bateu na porta do txi, que arrancou na
       mesma hora. O motorista no queria se envolver em nenhuma briga de namorados e foi apanhar outro passageiro, mais  frente.
       -  Mas que bonitinho - ironizou, fitando Romero. - Alm de veado,  covarde. Precisa da irmzinha para defend-lo.
       -  Se voc no sair da minha frente, vou chamar a polcia - ameaou ela.
       -  Chame e vai se arrepender.
       -  No tenho medo de suas ameaas. Co que ladra no morde. E voc  um co bem vagabundo, que nem sabe onde pr o prprio rabo.
       Jnior sentiu vontade de esbofete-la. Aquela vadia era muito atrevida e arrogante. Merecia uma lio. Mas eles estavam na porta do hospital, havia uma poro 
de gente olhando e um guarda comeou a aproximar-se. Romero suspirou aliviado, e Judite fixou Jnior com ar de vitria.
       -  Algum problema aqui? - indagou o policial, fitando Jnior de cima a baixo.
       -   esse rapaz, seu guarda - retrucou Judite, com desdm. - Acho que perdeu o caminho da cadeia, que  onde deveria estar.
       O guarda olhou-a espantado, mas Jnior interps:
       -  A mocinha  muito espirituosa. Pena que a TV no esteja atrs de comediantes.
       -  Mas a Justia continua atrs de bandidos - rebateu Judite com firmeza.
       -  O que est acontecendo? - tornou o guarda. - Moa, esse sujeito lhe fez alguma coisa?
       Jnior no esperou resposta. Empurrou o guarda para cima de Judite e Romero e saiu correndo. O policial logo se recomps e correu atrs dele. Mas o rapaz 
havia sumido na multido, e o guarda no pde alcan-lo. Jnior correu o mais rpido que pde, s parando quando se certificou de que no havia ningum atrs dele. 
Estava furioso, sentindo um dio fremente de Judite. J era a segunda vez que aquela cadelinha lhe dizia uns desaforos. Mas aquilo no ficaria assim. Ela ia ver 
s uma coisa. Ela no o conhecia e no sabia com quem estava lidando.
       Rapidamente, fez sinal para um txi e deu o endereo da casa de Romero. No sabia que ele havia sido expulso de casa e pensava que Judite o estaria levando 
para l. Deu um trocado a mais, para que o motorista corresse e avanasse alguns sinais, e chegou  frente de Judite. Saltou do txi e foi se esconder do outro lado 
da calada, atrs de uma rvore, bem defronte  casa de Filomena.
       Poucos minutos depois, o txi de Judite e Romero apareceu, parando exatamente na calada em que Jnior estava escondido. Ele no entendeu nada, mas procurou 
ocultar-se da melhor forma possvel. Judite saltou e ajudou Romero a descer. Assim que se viraram para a porta da frente da casa de Filomena, Jnior saltou de seu 
esconderijo, canivete em punho, apontando-o para a moa de forma ameaadora.
       Nessa hora, Filomena, ouvindo o rudo do carro, abriu a porta para receb-los. Viu Jnior ameaando Judite e soltou um grito de pavor. Jnior assustou-se 
e olhou para Filomena com cara de espanto, dando  moa a chance de empurr-lo para longe. Com o susto, Jnior se descontrolou. Com um golpe rpido e mecnico, enterrou 
a lmina do canivete bem fundo no abdmen de Judite, que tombou na calada com um gemido de dor.
       Dona Filomena, apavorada, redobrou a gritaria, enquanto Romero, abaixado ao lado do corpo da irm, soluava e chamava-a pelo nome:
       - Judite! Judite! Fale comigo, Judite! Judite!
       O espanto foi tamanho, que Jnior se aproveitou para fugir. Todos os vizinhos acorreram, atrados pelos gritos de Filomena, assim como Silas e Nomia. Ao 
verem o corpo da filha tombado no cho, envolto em uma poa de sangue, Nomia desmaiou, e Silas comeou a berrar tambm:
       -  Uma ambulncia! Pelo amor de Deus, algum chame uma ambulncia! Minha filha est ferida! Minha filha...
       Um vizinho apareceu de carro e ofereceu-se para lev-los ao hospital. Entraram todos. Nomia e Romero atrs, com Judite atravessada em seu colo, e Silas no 
banco da frente. Em meio ao desespero, nem se importaram com a presena de Romero. Quinze minutos depois, chegaram ao hospital, e Judite foi logo levada para o Centro 
de Tratamento Intensivo. Seu estado era grave, e Plnio foi chamado s pressas. Havia muito j terminara seu planto, mas voltou para seu ltimo atendimento do dia.
       Judite ainda respirava, embora sua pulsao estivesse se tornando fraca. Plnio examinou a ferida e mandou que a levassem com urgncia para a sala de cirurgia. 
Mas no havia mais nada que pudesse ser feito. A facada lhe perfurara o fgado e, ao dar entrada na sala de cirurgia, ela j no respirava mais.
       Dar a notcia  famlia era sempre algo doloroso. Por mais que visse situaes como aquela, Plnio no conseguia se acostumar. Ainda mais quando a vtima 
era algum to jovem e cheia de vida como aquela moa. Ainda se lembrava de que estivera com ela naquela manh mesmo, quando dera alta ao irmo. O que teria acontecido 
em to curto espao de tempo?
       A notcia da morte de Judite foi um choque para todos. Nomia desmaiou novamente e foi levada para a enfermaria, e Silas comeou a andar de um lado para o 
outro, as mos na cabea, gritando feito louco. Apenas Romero parecia manter a calma. Chorava baixinho, angustiado, olhos pregados no cho.
       -  Isso no  possvel! - berrava Silas. - Minha filha, no! No pode ser verdade!
       -  Por favor, meu senhor, tenha calma - Plnio tentava consolar.
       -  Mas no pode ser! No  verdade! Por favor, doutor, diga que no  verdade!
       -  Como gostaria que no fosse...
       -  Por qu, meu Deus? Por que isso tinha de acontecer logo comigo? Sou um homem direito, honesto, trabalhador... Nunca fiz mal a ningum... Por que isso tinha 
de acontecer justo com minha filha?
       -  Deus tem mistrios que ningum consegue desvendar - continuava Plnio.
       - No pode ser! Como Deus foi injusto comigo! Primeiro, meu filho... e, agora, isto...
       S ento Silas se deu conta de que Romero estava ali entre eles. Empurrou Plnio para o lado e acercou-se dele, encarando-o com os olhos chispando de dio.
       -  Voc! - bradou.
       -  Pai... - gemeu Romero, tomado pela dor.
       -  Foi voc! A culpa foi toda sua! Voc matou minha filha!
       -  No, no. Foi Jnior. Eu vi, Dona Filomena viu.
       - Jnior! Mas como?
       -  No sei, pai. Ele nos seguiu...
       -  No me chame de pai! Nunca mais me chame de pai, seu pederasta nojento! -Romero encolheu-se todo, envergonhado, enquanto Silas continuava a gritar: - A 
culpa foi toda sua! Se voc no tivesse se metido em ms companhias, nada disso teria acontecido! Mas no! Meu filho resolveu achincalhar o nome da famlia com suas 
veadagens! No satisfeito, matou minha filha! Minha nica filha!
       -  Pai, por favor...
       -  J disse para no me chamar de pai!
       Descontrolado, Silas partiu para cima de Romero aos tapas, e o rapaz, ainda dolorido da surra anterior, ajoelhou-se no cho, tentando aparar os golpes com 
os braos. Vendo aquela cena inslita, Plnio agarrou as mos de Silas e falou incisivo:
       -  Pelo amor de Deus, senhor, controle-se! Seno, serei obrigado a chamar a segurana!
       -  Foi esse cachorro, doutor! Esse pederasta! Por culpa dele, minha filha agora est morta!
       -  Sei que  doloroso, mas o senhor precisa tentar manter a calma. Sua mulher est l dentro e inspira cuidados. E seu filho...
       -  Ele no  meu filho! No tenho filho veado!
       Foi um custo acalm-lo. Plnio s conseguiu porque levou Romero para seu consultrio. Sentia imensa pena do jovem. Judite fizera-o lembrar-se do que havia 
lhe acontecido algum tempo antes. Ele havia sido brutalmente violentado e o pai no lhe dera nenhum apoio. Depois, fora espancado pelo prprio pai, fato que a irm 
tambm havia confessado na noite anterior, em troca de segredo absoluto. E, agora, o menino era humilhado pelo pai na frente de todo mundo. Sempre o pai.
       
     Captulo 12
       
       Foi muito dolorosa a morte de Judite. A polcia foi chamada e um inqurito foi instaurado. O corpo teve de ser levado  percia, porque Judite morrera assassinada, 
e  esse o procedimento comum nesses casos.
       Logo que o corpo foi removido para o Instituto Mdico Legal, Silas quis ir junto, mas o delegado no permitiu. Entendia sua dor, mas no havia nada que ele 
pudesse fazer ali. Melhor seria ir para casa com a famlia e aguardar a liberao do corpo.
       Silas estava transtornado. Nomia, aptica, tivera de ser sedada para no ter uma crise. Os dois foram para casa. Em sua dor, Nomia esquecera-se por completo 
de Romero, e Silas recusou-se a v-lo ou falar com ele. Julgava-o responsvel pela morte da filha e dizia que jamais iria perdo-lo.
       Romero permaneceu no consultrio de Plnio at que os pais se foram. Quando as coisas pareciam ter retomado a normalidade, o mdico voltou a seu consultrio 
e encontrou o rapaz chorando, arrasado.
       -  Como est se sentindo, meu filho? - perguntou bondoso.
       -  Ai, doutor, minha irm... - Foi s o que conseguiu dizer, caindo num pranto convulso e atormentado.
       Plnio aproximou-se dele e envolveu-o num abrao fraterno, passando a mo pelas suas costas com delicadeza. Aos poucos, Romero foi se acalmando, at que o 
pranto cessou, restando apenas alguns soluos mais persistentes.
       -  Faz bem chorar, meu filho - acrescentou Plnio, compreensivo. - Limpa a alma e alivia o corao.
       -  O senhor no me repeliu...
       -  Por que faria isso?
       -  Meu pai... meu pai falou coisas horrveis sobre mim.
       -  Seu pai est com o corao carregado pela dor.  compreensvel.
       -  Ele no mentiu - sussurrou envergonhado.
       -  No precisa me contar. No tenho nada com sua vida.
       A exceo de Judite e Mozart, Romero no havia sido tratado com gentileza por mais ningum. Baixou os olhos e chorou novamente, de emoo, grato pelas palavras 
amigas daquele mdico quase desconhecido.
       -  Doutor... o que farei de minha vida? Perdi tudo. Minha famlia no me quer... Minha irm se foi...
       -  E o amigo que veio visit-lo ontem? Rosto coberto de rubor, Romero respondeu:
       -  Partiu com os pais.
       - No tem nenhum lugar para onde ir? Nenhum parente, nada? Romero meneou a cabea e retrucou angustiado:
       -  Meus avs j morreram. Tenho dois tios e uma tia. Mas eles tambm no vo querer me aceitar.
       -  J os consultou?
       -  Judite me disse. Ela ligou para eles, mas disseram que no queriam se envolver. E, depois, tm filhos... No querem correr o risco de que eu os vicie, 
como eles mesmos disseram.
       -  Entendo.
       Plnio levou a mo  cabea, pensativo. Aquele era um bom rapaz, podia-se perceber. Era uma injustia e uma crueldade abandonar assim uma criana, s porque 
gostava de coisas que ningum conseguia compreender. Ele estava transtornado. Sabia que sua obrigao seria procurar o juizado de menores e informar o caso. Romero 
s tinha catorze anos e deveria ir para uma instituio. Mas o que seria dele em uma instituio para menores? Seria discriminado tambm, se no acabasse apanhando 
ou coisa pior. E, a, tornar-se-ia um marginal. Por mais digno e honesto que fosse, seria difcil resistir aos maus tratos sem reagir. E a maior reao  agresso 
costumava ser a prpria agresso. No demoraria muito, e Romero acabaria fugindo e atirando-se na "prostituio" ou coisa pior. Poderia cair no vcio das drogas 
ou na bandidagem, o que seria uma pena.
       Mas o que ele, Plnio, poderia fazer? No era responsvel pelo rapaz. Cuidara dele como mdico, no podia ser tambm seu pai. Ele tinha famlia... Famlia? 
No podia chamar aquilo de famlia. O pai, preconceituoso ao extremo, dificilmente o aceitaria de volta. E a me no passava de uma criatura apagada e sem vontade 
prpria.
       Olhando para ele, Plnio sentiu o corao se confranger. Ele era to jovem! Bem podia ser seu filho. Ficou imaginando qual seria sua reao se aquilo acontecesse 
a seu filho. Reagiria diferente. Jamais o teria expulsado. Ao contrrio, ter-lhe-ia oferecido amor e compreenso. Teria de aprender com ele. Talvez fosse at doloroso, 
porque  difcil para um pai ver seu filho escolher caminhos diferentes dos programados para ele. Mas a vida dos filhos  dos filhos, e a funo dos pais  am-los, 
seja qual for o caminho que estiverem percorrendo.
       Mas isso se fosse com seu filho. S que Romero no era seu filho. Era um paciente como outro qualquer. A nica diferena  que estava sozinho. No tinha casa, 
no tinha dinheiro, no tinha ningum. Apenas ele se preocupava com sua sorte. Temia por seu futuro, no desejava que ele fosse atirado no poo amargo da marginalidade. 
Ah! se pudesse fazer algo para impedir...
       S que no podia... Ou ser que podia? Plnio era um homem de posses, morava numa bela manso com a mulher, o filho e o cunhado. Rafael era um intil, no 
gostava de estudar, no queria trabalhar. E Eric estava crescendo. Viviam rodeados de conforto e de empregados. No precisavam de mais ningum.
       Contudo, ele podia ajudar. Podia assumir a criao do menino. Podia dar-lhe estudo, uma boa educao. E, quanto ao fato de ser homossexual, isso no seria 
problema. Orientaria Romero para que soubesse agir com dignidade e respeitasse sua casa. Tinha certeza de que o rapaz no adotaria nenhuma conduta que pudesse envergonhar 
ou desrespeitar sua famlia.
       Pediu licena a Romero e foi para outra sala. Precisava antes consultar a mulher. Lavnia, a princpio, no gostou da idia. Levar para dentro de sua casa 
um rapaz desconhecido, envolvido em tantos problemas, podia ser um problema para eles tambm. Mas a maternidade recm-conquistada acabou por enternecer seu corao. 
E se fosse seu filho? No gostaria tambm que algum o estivesse ajudando? Por fim, concordou, e Plnio desligou o telefone satisfeito. Voltou a seu consultrio 
e anunciou:
       -  Vou ajud-lo, Romero, se voc desejar.
       -  Como?
       -  Vou lev-lo para morar comigo.
       -  O senhor vai o qu ?
       -  Vou lev-lo para minha casa. Voc quer ir?
       Romero desatou a chorar. Agarrou a mo do mdico e ps-se a beij-la, murmurando entre soluos:
       -  Obrigado, doutor... Nem sei o que fazer para lhe agradecer. Vou trabalhar, serei seu criado, farei o que o senhor mandar. Nem precisa me pagar...
       -  No precisa fazer nada disso - objetou Plnio, puxando a mo. - Quero assumir sua educao, se seu pai no se opuser.
       -  Meu pai?
       -  Sim. Terei de consult-lo tambm.
       -  Tenho certeza de que meu pai vai ficar muito feliz de se ver livre de mim.
       -  Se ele concordar, pretendo colocar voc numa boa escola, para que voc estude e faa uma faculdade mais tarde. Se depender de mim, vai ter um futuro decente.
       Romero estava emocionado. E com medo. Ser que o doutor havia se esquecido do que o pai falara? Enxugou as lgrimas e, olhos baixos, sussurrou:
       -  O senhor ouviu bem tudo que meu pai disse a meu respeito?
       -  Ouvi.
       -  Sabe que sou... diferente, no sabe?
       -  Para mim, voc  igual a todo mundo. Tem olhos, nariz e boca. Respira, come, vai ao banheiro. Tem sentimentos e  inteligente. No sei onde est a diferena.
       -  No se importa por eu ser... homo... homo...
       -  Homossexual? Em absoluto. J disse que no tenho nada com sua vida. Desde que voc saiba respeitar meu lar, para mim no h problema.
       -  Eu vou respeitar, doutor, o senhor vai ver. Posso ser homossexual, mas no sou nenhum tarado nem imoral. Nunca sa por a cantando ningum nem me exibindo.
       -  Isso no me preocupa, Romero. Sei que voc  um bom rapaz e no costumo me enganar com as pessoas. Agora, vamos. Meu planto j terminou h horas, e estou 
ficando com fome.
       Saram e foram para a casa do mdico. Romero ficou impressionado com a beleza e a imponncia da manso em que ele vivia. A pedido de Plnio, Lavnia mandou 
preparar um quarto s para ele. Rafael no estava em casa, mas ela tinha certeza de que o irmo no concordaria em dividir seu quarto com algum. Ainda mais com 
um homossexual.
       -  Fique  vontade - falou Lavnia, mostrando-lhe o quarto. - O banheiro  aqui e  todo seu. Pode tomar um banho, se quiser.
       Romero estava agradecido, porm envergonhado. Quase no tivera coragem de dizer que estava sem roupas para mudar. Lavnia saiu em silncio e foi ao quarto 
do irmo. Ele no ia gostar, mas no havia jeito. Abriu o armrio e apanhou uma bermuda e uma camiseta. Ficariam um pouco largas em Romero, porque ele era um menino 
franzino, mas era o que podia arranjar no momento.
       Quando Rafael chegou  casa, no gostou nada de saber que tinham hspedes, e que o hspede estava usando suas roupas.
       -  Isso  um absurdo, Lavnia! - queixou-se. - Dessa vez, Plnio passou dos limites. Trazer para dentro de casa um menor abandonado!
       -  Ele no  menor abandonado. A irm foi assassinada, e o pai o colocou para fora de casa.
       -  Por qu? O que ele fez?
       -  No sei e no me interessa.
       -  No sabe? Duvido. Plnio no traria um menino para c sem lhe contar toda a sua histria.
       -  Oua, Rafael, o menino  homossexual. Mas Plnio no queria que eu lhe contasse. Por isso, fique quieto. No diga nada que lhe falei, est bem?
       Rafael deu de ombros. Achava um absurdo o cunhado levar um homossexual para morar com eles, mas no adiantaria nada falar. Plnio era o dono do dinheiro, 
era quem mandava, e ele no podia questionar nada.
       -  Mas ele tinha de usar minhas roupas? - reclamou, nitidamente demonstrando sua contrariedade.
       -   s por enquanto. Depois que tudo se acalmar, Plnio vai buscar as coisas dele em sua casa.
       -  Enquanto isso, ele usa o que  meu? Ora, Lavnia, francamente! J  um absurdo que Plnio queira trazer uma bicha para morar conosco, mas tudo bem: quem 
manda aqui  ele, e eu no posso dizer nada. Mas no acho que eu seja obrigado a concordar que ele use minhas roupas. E se tiver alguma doena?
       -  Voc est exagerando. Romero  um rapazinho muito direito. Vai ver quando o conhecer.
       -  No fao a menor questo de conhec-lo.
       -  Mas vai. Ele agora mora conosco, vai fazer parte da famlia.
       -  Era s o que me faltava!
       -  Quanto s roupas, no se preocupe. Hoje  tarde sairei para comprar algumas para ele, at que Plnio busque suas coisas.
       Na hora do almoo, Romero foi apresentado a Rafael. A antipatia foi recproca, mais pelo fato de que Rafael franzira o cenho ao conhecer Romero do que pela 
repulsa.
       Depois do almoo, Lavnia deixou Eric com a bab e foi comprar algumas peas de roupa para Romero. Plnio estava descansando do planto noturno, e o menino 
ficou praticamente sozinho. Saiu andando pela casa, conhecendo salas e sales, a piscina, a quadra de vlei, o jardim. Aquela casa mais parecia um clube, de to 
grande e com tantas coisas. Romero estava maravilhado. Era realmente uma beleza!
       Quando voltou para casa, encontrou a bab dando um suco a Eric. O menino era uma gracinha, e Romero ficou encantado com ele. J estava comeando a engatinhar, 
e Romero e a bab divertiam-se a valer com seus tombos e gorgolejos. De um canto, Rafael observava-os com ar de ironia, at que se aproximou e perguntou com sarcasmo:
       -  Gosta de crianas, Romero?
       -  Gosto muito.
       -  Prefere as meninas ou os meninos?
       Romero sentiu o rosto arder, mas respondeu com aparente firmeza, fingindo que no havia percebido o tom de ironia em sua voz:
       -  Gosto dos dois.
       -  Pois eu prefiro as meninas.
       Afastou-se, com risinhos de deboche. Romero no se sentia bem na presena de Rafael. O rapaz fazia-o lembrar de Jnior, o que era bastante desagradvel. Olhando 
para ele, Romero ficou imaginando onde  que Jnior estaria quelas horas. Na confuso, ele aproveitara para fugir. Ser que j estava preso? O delegado dissera-lhe 
que ele seria intimado a depor, tanto na delegacia quanto em juzo. Jnior desgraara de vez sua vida. E, agora, Rafael parecia querer inferniz-lo tambm.
       Toda a famlia de Romero esteve presente ao enterro de Judite, menos Romero. A conselho de Plnio, ele no compareceu. O jovem ainda quis protestar, alegando 
que era sua irm querida, mas o mdico foi convincente:
       -  Por que se expor ainda mais? Quer ser humilhado novamente, diante de toda a famlia?
       - No.
       -  Pois, ento, o melhor que tem a fazer  no ir.
       -  Mas, doutor, Judite era minha irm. Eu a amava muito.
       -  Voc no precisa chorar em sua sepultura para provar que a amava. Se existir algum lugar para onde as almas vo depois de mortas, Judite deve estar l, 
sabendo o quanto voc a amava e ainda ama.
       A muito custo, Plnio conseguiu convenc-lo. Por mais que Romero estivesse sentindo a morte da irm, ainda guardava bem vivas na memria as palavras speras 
e acusadoras do pai. E ele no sabia se teria foras para passar por aquilo novamente. Por isso, deixou-se convencer.
       Somente aps a missa de stimo dia foi que Plnio resolveu procurar a famlia. Bateu  porta da casa e, assim que Nomia veio abrir, sentiu o ar pesado de 
tristeza que vinha l de dentro.
       -  Boa tarde, Dona Nomia - cumprimentou ele. - Lembra-se de mim?
       A fisionomia daquele homem no lhe era estranha, mas Nomia no conseguia se lembrar de onde o conhecia.
       -  Do hospital - esclareceu o mdico. - Sou o doutor Plnio. Fui eu que atendi sua filha no dia em que foi ferida.
       Nomia agarrou-se  porta e desatou a chorar. Ainda no conseguira se acostumar com a morte da filha, e aquele homem falava sobre o dia da tragdia como se 
fosse uma coisa corriqueira.
       -  V embora, por favor - gemeu ela.
       -  Gostaria de falar-lhe um instante, se possvel.
       -  Meu marido no est...
       -  No tem importncia. Por favor,  s um minutinho.
       -  O que o senhor quer? Minha filha j se foi. De nada vo adiantar seus conselhos mdicos.
       -  No  sobre sua filha que vim lhe falar, mas sim sobre seu filho.
       Nomia largou a porta e fixou-lhe os olhos.
       -  O que disse? Sabe alguma coisa sobre Romero?
       -  Dona Nomia, seu filho est comigo, em minha casa.
       -  Em sua casa?
       -  Sim. Naquele mesmo dia, levei-o para l. Ele no tinha para onde ir,  apenas uma criana. No podia deix-lo ao abandono.
       -  Oh! Graas a Deus! - exclamou Nomia, mos postas em sinal de orao. - Deus ouviu minhas preces. Vamos, doutor, entre.
       Puxou-o para dentro e fechou a porta. Queria aproveitar que Silas no estava para ter notcias do filho.
       -  Vim aqui para saber se vocs no voltaram atrs na deciso de expuls-lo de casa.
       Ela meneou a cabea com ar sofrido e considerou:
       -  Silas se recusa at a ouvir falar no nome de Romero. Diz que ele  o culpado pela morte de Judite. Mas no . Sei que no . Meu filho andou metido com 
ms companhias. Aquele tal de Mozart o viciou e o levou para o mau caminho. Mas ele  um bom menino. Tenho certeza de que, se estivesse aqui entre ns, abandonaria 
essa vida de pecados.
       Embora no concordasse com a opinio de Nomia, Plnio achou melhor no discutir. Ela era uma mulher muito conservadora e jamais entenderia a situao do 
filho. Ainda assim, seu corao de me falava mais alto, e ela parecia aliviada por saber que Romero no estava desamparado.
       - No vim aqui para discutir os motivos que levaram Romero a escolher o caminho que escolheu. Vim apenas para me certificar de que seu marido no o quer mais 
de volta.
       -  De jeito nenhum. Eu, por mim, jamais o teria mandado embora. Mas o senhor sabe como , no, doutor? O marido manda... O que eu posso fazer? S rezar.
       -  Entendo. Se  assim, creio que a senhora no se importar se ele permanecer em minha casa.
       -  Importar-me? Pelo contrrio. Vou rezar todos os dias pelo senhor. Deus h de lhe pagar por essa caridade.
       - No  caridade, Dona Nomia.  apenas uma questo de humanidade. Seu filho  um bom menino, e eu tenho condies de educ-lo.
       -  Educ-lo? Como assim?
       -  Vou coloc-lo na escola, dar-lhe um futuro.
       -  Oh! Isso  muito mais do que poderia esperar.
       -  Apenas gostaria de poder levar suas coisas. Minha mulher at j lhe comprou algumas roupas novas, mas estar em contato com suas prprias coisas vai ajud-lo 
a se acostumar mais depressa. Ele ainda est pouco  vontade.
       Nomia sorriu e falou com orgulho:
       -  Esse  o meu Romero. Aprendeu bem tudo que lhe ensinei. Pode ficar sossegado, doutor, que Romero no  um menino atrevido nem confiado. No mexe em nada 
que  dos outros, no responde mal.  um menino de ouro. Pode andar meio perdido, mas educao ele tem.
       -  Isso  o que importa, Dona Nomia. E ento? Posso levar suas coisas?
       -  Pode. Se o senhor me der licena, vou preparar umas sacolas com as coisas de que ele mais gosta, para o senhor levar.
       -  timo.
       -  Posso colocar alguns discos tambm? Romero sempre gostou muito de msica.
       -  A vontade. O que a senhora quiser.
       Nomia foi para o quarto, agradecendo a Deus por aquela bno. Nem tudo estava perdido. A filha fora-se para sempre, e no haveria no mundo nada que apagasse 
a sua dor. O filho, contudo, embora tambm no estivesse mais com ela, ao menos fora acolhido por um mdico humano e bondoso.
       Enquanto ela arrumava as coisas de Romero em algumas sacolas de supermercado, Silas entrou em casa. Ao abrir a porta, deu de cara com Plnio sentado no sof 
da sala. O mdico levantou-se para cumpriment-lo.
       -  Como vai, seu Silas? Tudo bem?
       Ao contrrio de Nomia, Silas lembrava-se muito bem dele. No de quando tentara salvar a vida da filha, mas da vez em que atendera Romero, logo aps o jovem 
ter sido violentado.
       -  Doutor - cumprimentou, com um aceno de cabea. - O que faz aqui? Mais alguma coisa que devssemos saber sobre a morte de Judite?
       -  No. A morte de Judite  agora responsabilidade das autoridades. A polcia deve estar investigando o caso.
       -  Esto atrs daquele cachorro. Jnior fugiu.
       -  Espero que seja encontrado logo.
       Silas sentou-se defronte a ele e olhou-o com curiosidade.
       -  Se me permite perguntar, doutor, o que o traz aqui? Plnio pigarreou e respondeu com cautela:
       -  Vim buscar algumas roupas para Romero. Ele est em minha casa.
       Durante alguns segundos, pareceu a Plnio que Silas no havia entendido direito o que ele dissera. Mas, passado o primeiro susto, ele se levantou transtornado, 
deu uma volta na sala e retorquiu irado:
       -   muito atrevimento seu vir  minha casa tocar no nome daquele ordinrio!
       -  Perdo, seu Silas - desculpou-se Plnio, levantando-se tambm. - No queria ofender. S pensei que gostaria de saber o paradeiro de seu filho.
       -  Eu no tenho filho!
       -  Est bem, se  assim que prefere. No vim aqui para discutir. Vou pegar as coisas de Romero, se no se importar, e irei embora.
       -  Por que est fazendo isso? - indagou, entre atnito e desconfiado. - Por acaso est amasiado com ele?
       -  Eu!? Mas que idia! Romero  um garoto.
       -   s por isso? S porque ele  um garoto? E se ele j fosse um homem? Seria diferente? O senhor  homossexual tambm?  por isso que o est ajudando?
       -  No. Estou ajudando-o porque ele  apenas uma criana, no tem para onde ir. Mas no sou homossexual, no. Tenho mulher e filho.
       -  Um menino?
       -  Sim.
       -  Pois, ento, vou lhe dar um conselho, para que depois o senhor no venha me acusar de nada. Tome cuidado com seu filho. Romero no  confivel.  um veadinho 
sem-vergonha e sem moral. No me espantaria nada se seduzisse seu garoto tambm.
       -  Mas que disparate! Seu filho  homossexual, no  um criminoso.
       -  Eu no tenho mais filho! Perdi tudo que tinha. Minha filha morreu, e prefiro pensar que meu filho est morto tambm.
       -  Como quiser.
       Nesse instante, Nomia voltou para a sala, olhos rasos d'gua. No suportava ver o marido falar do filho daquele jeito.
       - J est tudo pronto - avisou chorosa. - Se algum vier me ajudar a pegar...
       Vendo que Silas no se mexia, Plnio seguiu Nomia at o quarto que fora de Romero. No caminho, viu um outro, com a porta aberta, uma colcha cor-de-rosa na 
cama, bichinhos de pelcia numa prateleira mais alta. Devia ter sido o quarto de Judite. Plnio engoliu em seco e seguiu avante, parando na prxima porta.
       Nomia havia arrumado as roupas, os livros, os discos e alguns jogos de Romero em vrias sacolas de supermercado.
       -  Coloquei coisas demais? - perguntou envergonhada.
       -  No, est perfeito. Vamos levar isso para o carro.
       Em duas viagens, j haviam transportado tudo. Plnio despediu-se apenas de Nomia, porque Silas havia ido para o quarto e trancado a porta.
       -  Por favor, doutor - suplicou ela, com olhos midos. - Cuide do meu menino.
       -  No se preocupe. Cuidarei dele como se fosse meu prprio filho.
       -  Deus h de lhe pagar em dobro por tanta bondade. Nada h de lhe faltar at o fim de seus dias.
       -  Obrigado.
       -  Estarei rezando pelo senhor e pela sua famlia.
       -  Reze por Romero. Ele vai precisar muito mais do que ns. Plnio deu partida no motor e foi embora. Pelo retrovisor, viu Nomia parada na porta, as mos 
sobre a boca, chorando. De Silas, nem sinal.
       Nomia voltou para casa sentindo-se mais confortada. Foi para o quarto onde o marido estava e olhou para ele, em busca de um pouco de compreenso. Mas Silas 
abriu a porta novamente e, j do corredor, indagou com estudada frieza:
       -  O jantar est pronto?
       Nomia engoliu as lgrimas e passou por ele, desgostosa, balbuciando com amargura:
       - J vou terminar.
       Afastou-se pelo corredor e foi para a cozinha chorar suas lgrimas. Sentia-se mais s do que jamais estivera em toda a sua vida, pensando em como faria para 
sobreviver sem a companhia dos filhos.
       
     Captulo 13
       
       Assim que desencarnou, Judite foi acolhida no plano espiritual e submetida a longo tratamento em um hospital do espao. Ao despertar, sentiu como se algo 
queimasse em sua barriga. A princpio, no entendia direito o que havia acontecido. Embora bem assistida, acordara muito confusa, achando que estava doente ou que 
havia sofrido algum acidente. Levou algum tempo para compreender o que se passara com ela.
       Fbio, guia espiritual encarregado de orient-la e esclarec-la, mostrara-se incansvel durante toda a sua recuperao. No comeo, fora difcil. Judite aceitara 
o fato de que havia desencarnado, mas sentia muitas dores no abdome.
       -  Seu fgado foi seriamente atingido - esclareceu o esprito, aps ministrar-lhe revigorante passe. - Foi isso que a fez desprender-se do corpo.
       -  No entendo o porqu dessa dor. No morri? Ento no deveria sentir mais nada.
       -  As coisas no so bem assim. Seu corpo fludico ainda est muito preso s sensaes da matria porque os seus sentimentos continuam arraigados s emoes 
de sua vida corprea. Liberte-se dessas emoes e a dor tambm desaparecer. Ela  mera iluso que seu corpo astral alimenta porque est preso a sentimentos inferiores.
       -  Sentimentos inferiores? - objetou Judite, entre perplexa e aborrecida. - Que eu saiba, no desejo mal a ningum!
       -  No foi isso o que eu disse. Mas, enquanto permanecer com essa raiva dentro de voc, essa dor no vai passar.
       -  Raiva?! - indignou-se. - No tenho raiva.
       -  Tem, sim. Tem raiva de Jnior e de seu pai.
       -  Eles agora pertencem a outro mundo. No foi o que disse?
       -  Foi.
       -  Ento, como posso ter raiva de pessoas que no podem mais conviver comigo? Sou apenas esprito; eles, matria.
       -  Da mesma maneira pela qual ainda sente dor. Somos todos espritos e temos sentimentos. E sentimentos no se apagam com a morte. Se transitamos entre vrios 
mundos, nossos sentimentos nos acompanham aonde quer que vamos. Cabe a ns modific-los em favor de nossa melhora.
       -  Mas eu no tenho raiva. Como posso tirar de mim algo que no tenho?
       -  Tem tanta raiva, que no consegue sequer enxerg-la. Que tal comear reconhecendo-a, para depois se livrar dela?
       -  Isso no  justo. Voc quer justificar minha dor com um sentimento que no existe em mim.
       -  Tem certeza?
       -  Tenho.
       -  Ento, venha comigo. Vamos juntos rezar por seu pai e por Jnior.
       Na mesma hora, todo o corpo fludico de Judite retesou-se, e ela revidou com veemncia:
       - Tambm no precisa exagerar. No tenho raiva, mas voc no acha que  querer muito que eu ainda v rezar pelo homem que causou minha morte?
       -  Isso no  raiva?
       -  No.
       -  Ento, o que ?
       -  ... ... no sei, no interessa!
       -  Pois, ento, reflita sobre si mesma. Se o que sente por Jnior no  raiva, gostaria que me dissesse o que .
       -  Est bem! - explodiu ela. -  raiva, sim. E da? O que quer que eu faa? Que finja que no estou sentindo nada? Afinal, o desgraado me matou!
       -  No quero que voc finja nada. Ao contrrio, fui o primeiro a lhe pedir que reconhecesse que tem raiva.
       -  Est bem, reconheo. E agora? A dor ainda continua l.
       -  Por que sente raiva de Jnior?
       -  Por qu? J lhe disse: porque ele me matou. Eu era jovem, bonita, tinha a vida toda pela frente. Mas ele veio e me tomou tudo isso.
       -  Reflita mais um pouco, Judite. Voc desencarnou jovem e cheia de vida,  verdade. Mas faa uma anlise verdadeira de seus sentimentos. Ser que voc lamenta 
mesmo o fato de ter deixado para trs todas essas coisas? Ou ser que existe algo bem mais profundo escondido a dentro de voc, algo que voc teme rever?
       -  Como assim? No entendo.
       -  Pense, Judite, pense. Tente pensar em Jnior como um pobre-coitado. Ser que voc consegue?
       -  No. Se  para ver as coisas desse jeito, pobre-coitada sou eu, que morri, ao passo que ele est l, no bem-bom.
       -  Quem disse que ele est no bem-bom?
       -  Ele est vivo, no est?
       -  E quem disse que isso  bom? As vezes, pode ser melhor estar desencarnado.
       Judite parou para pensar. Lembrou-se de tantas pessoas que viviam no mundo sofrendo, aleijadas, enfermas, miserveis. Nessas circunstncias, era melhor mesmo 
estar morta.
       -  Mas esse no  o caso de Jnior - insistiu.
       -  Quem disse que no?
       Ela no respondeu. Ele continuou:
       -  Quer saber o que aconteceu a ele? Judite titubeou, mas acabou aquiescendo:
       -  Quero.
       -  Ento, venha comigo.
       Imediatamente, Judite viu-se transportada, ao lado de Fbio, a um barraco numa favela. O lugar era sujo e escuro, e Judite pde perceber vrios espritos 
circulando por ali. Recuou assustada quando um vulto alto e forte passou rente a eles, olhos vermelhos, e entrou no barraco.
       -  No se preocupe - tranqilizou Fbio -, eles no podem nos ver.
       A um sinal, Judite seguiu Fbio para dentro do barraco. Largado sobre uma cama de ferro, Jnior parecia adormecido. A seu lado, uma seringa vazia e uma tira 
de borracha davam sinais de que ele consumira drogas. Colado a ele, o vulto parecia adormecido tambm.
       -  Mas o que  isso? - indagou Judite, aterrada.
       - Jnior anda se drogando. Desde o dia em que matou voc, vem tomando fortes doses de herona. A vibrao de sentimentos difceis, como a culpa e o dio, 
encontrando na droga um facilita-dor de sintonia, atraiu vrios espritos viciados, que se aproveitam da droga que ele injeta no sangue para se drogarem tambm. 
Fora os que j o acompanhavam antes.
       -  Meu Deus, que horror!
       -  Sim, Judite,  um horror. Esse que a est, colado a ele,  um velho conhecido seu. H muito vem assediando Jnior, inspirando-lhe todos os atos que ele 
praticou at ento.
       -  Quer dizer que ele me matou e violentou Romero por causa desse esprito?
       -  Eu no disse isso. Disse apenas que o esprito o inspirou. Ele s aceitou as sugestes porque quis. Ningum est obrigado a proceder de um jeito que no 
quer. O que acontece  que Jnior  um esprito por demais fraco, inexperiente, despreparado para a vida. Ainda guarda muito do dio de antigamente e, com isso, 
chamou para junto de si outros espritos que tambm se alimentam de dio. Principalmente por Romero.
       -  Por qu? O que Romero lhes fez?
       -  Em breve, voc vai descobrir.
       -  Descobrir o qu?
       -  Sua ligao, e a de Romero, com Jnior.
       -  Voc est me dizendo que Jnior, Romero e eu j nos conhecamos de outras vidas?
       -  Isso mesmo. Vocs se conheciam e se ligaram reciprocamente.
       -  Mas como? Por qu?
       -  Voc mesma vai descobrir. Mas no agora. Neste momento, quero que olhe bem para Jnior e me diga: quem  que est em situao melhor?
       -  Isso no vem ao caso. Ele est assim por culpa dele mesmo. Ningum mandou virar assassino.
       -  Tem razo. A culpa, ou melhor, a responsabilidade no  de mais ningum, a no ser dele mesmo. Mas ser que isso nos impede de nos compadecermos de sua 
sorte e de nos utilizarmos de todos os meios disponveis para ajud-lo? Ser que somos iguais a ele, to iguais que nos tornamos indiferentes ao sofrimento e  dor, 
achando bem-feito, porque ele teve o que mereceu? Ser certo deixar que se queime a criana que teima em brincar com fogo ou no cuidar de seu ferimento s porque 
foi teimosa e no nos obedeceu?
       Judite engoliu em seco e olhava de Jnior para Fbio, sem saber bem o que dizer ou pensar.
       -  Olhe, Fbio - tornou em dvida -, o estado dele  lamentvel. Mas, se voc quer saber se sinto pena dele, no sinto, no. Cada um tem aquilo que merece.
       -  Sem dvida. Ser que no foi por isso mesmo que ele a assassinou?
       Ela recuou aterrada, sufocando um grito de indignao e espanto:
       -  Voc est insinuando que eu mereci ser assassinada?
       -  Foi voc quem falou. Disse: cada um tem aquilo que merece.
       -  No foi isso o que eu quis dizer. Foi apenas uma maneira de falar.
       -  Uma maneira de dizer cada um tem aquilo que merece, a me' nos que seja comigo, porque s mereo coisas boas, e as ruins acontecem por injustia!
       Judite silenciou, pensativa. No fundo, ele tinha razo. Utilizando aquele raciocnio, ela fizera por onde ser assassinada. E Romero tambm merecera ser violentado.
       -  No acha que esse merecimento  muito cruel e vingativo?
       -  Se voc olhar pelo lado da punio,  mesmo. Mas, se encarar as coisas de forma construtiva, ver que a vida  como um quebra-cabea, no qual cada pea 
se encaixa em seu lugar e s nele. s vezes, nos enganamos e achamos que determinada pea pertence a outro lugar, mas basta tentarmos encaix-la para percebermos 
nosso engano. Se, naquele momento, ainda no sabemos que lugar lhe foi destinado, deixaremos a pea  espera, at que finalmente surja o espao vazio que s por 
ela poder ser preenchido.
       -  A vida  um jogo, Fbio?  isso que est tentando me dizer?
       -  Digamos, de uma forma bem-humorada, que  um jogo educativo, movido por peas denominadas experincia. Participa quem quer e quem sabe, e quem no sabe 
tenta aprender. Cada qual em seu momento, vai encaixando as peas no lugar que j consegue reconhecer como sendo o local que a elas  destinado. Encaixadas todas 
as peas, pode-se dizer que o esprito j no tem mais nada a experienciar nesse plano e ala a outros, onde novos jogos lhe sero propostos, com objetivos mais 
inteligentes e sublimes. Nada acontece fora de hora ou de lugar, e cada um aprende o que precisa para avanar em seu estgio de evoluo.  a experincia construindo 
e desenvolvendo o jogo, tornando-o dinmico, atrativo, pedaggico e extremamente compensador.
       -  E Jnior? Tambm participa desse jogo?
       -  Tem dvida?
       -  Ele est encaixando as peas no lugar errado.
       -  Exatamente. Enquanto no perceber seu erro, o jogo no se completa e poder ter de se repetir.
       -  Ele est  se matando.
       -  E no vai durar muito.
       -  Como assim? Quer dizer que ele tambm vai morrer?
       -  Veja bem: ele no tem sada. No a que ele deseja. O melhor para ele seria permitir que a polcia o prendesse, porque seria til para ele viver essa experincia. 
Mas, por medo e covardia, enveredou por um caminho paralelo, cuja possibilidade j conhecia e cujo risco assumiu. E Jnior, ao contrrio de voc e de Romero,  um 
fraco. No vai conseguir suportar suas prprias escolhas.
       -  Vai se matar?
       -  A droga vai mat-lo, o que d no mesmo.
       -  E da? Talvez seja melhor para ele. Vai se livrar da cadeia e ainda vai ter assistncia.
       -  Engana-se, minha querida. Quem  suicida dificilmente tem um bom amparo. As culpas so to grandes que o esprito, mesmo sem saber, recusa qualquer tipo 
de ajuda. Nem enxerga o auxlio do alto e cai num vale de sombras.
       -  Cruzes!
       - Jnior no vai fugir  regra. O futuro que o aguarda  por demais triste e doloroso.
       -  Por que voc no faz algo para ajud-lo, j que est com tanta peninha dele?
       -  Eu no estou com peninha dele. Ele tem seu livre-arbtrio. E, depois, as companhias que atraiu no me permitem alcanar sua mente. Sem saber, ele est 
cada vez mais sendo tomado por esses espritos menos esclarecidos.
       -  Como voc mesmo disse, ele tem seu livre-arbtrio. E est usando-o da pior forma possvel.
       -  Ele ainda no est maduro o suficiente para us-lo de outra maneira. Est fazendo o melhor que pode. Eu apenas lamento o fato de Jnior estar desperdiando 
um tempo precioso.
       -  Uma encarnao jogada no lixo, voc quer dizer.
       -  Nada disso. Toda encarnao  aproveitada. De tudo na vida, h de se tirar uma lio, ainda que essa vida seja abreviada por medo ou covardia. Ele apenas 
desperdia um tempo que poderia estar aproveitando em outras experincias, postergando, assim, de maneira inevitvel e mais dolorosa, o seu crescimento.
       -  Oua, Fbio, tudo isso  muito bonito, mas no estou entendendo aonde voc quer chegar.
       -  Quero que voc se recorde do passado.
       -  Para qu? Para descobrir o que foi que fiz a Jnior que justificasse o que ele me fez? A mim e a Romero?
       -  Para entender, Judite. A si mesma, a Romero e a Jnior. E a seu pai.
       -  Meu pai?
       -  Voc no achou que seu pai, justo ele, fosse um estranho em sua vida, achou?
       -  No sei. Nunca pensei nisso.
       -  Pois j  hora de pensar.
       -  Meu pai  um homem cruel.
       -  Crueldade  uma falsa interpretao da ignorncia. Seu pai est ferido e magoado. E voc, com raiva.
       -  Raiva dele tambm?
       -  Vai negar?
       -  Acho que no d, no  mesmo? A vida toda, meu pai foi um homem autoritrio. Nunca nos tratou com carinho.
       -  Cada um tem aquilo que merece. So as suas palavras. Eu diria mais: cada um tem aquilo de que precisa. - Judite calou-se, e Fbio chamou-a com um gesto 
de mos: - Vamos. Nossa presena aqui j no  mais necessria.
       Voltaram  colnia, e Fbio deixou Judite em seu alojamento, sozinha com seus pensamentos. A visita a Jnior fora proveitosa. Judite estava com raiva, mas 
era uma moa inteligente e sensvel. Aos poucos, comeou a questionar seus prprios sentimentos, e as palavras de Fbio foram se tornando vivas dentro dela. Voltou 
os olhos para a janela, onde um sol alaranjado espalhava seu colorido de ouro sobre o planeta. Aquilo lhe trouxe  memria fragmentos h muito esquecidos. E ela 
comeou a recordar.
       
     Capitulo 14
       
       A  medida que o sol ia se pondo, Judite ia estreitando mais e mais a vista, tentando enxergar o bordado que tinha sobre o colo. Estranhou o fato de estar 
bordando, coisa que jamais fizera, mas sentiu que aquela atividade fazia parte de sua vida. Em dado momento, ergueu os olhos e olhou-se no espelho, parando assombrada. 
A imagem que o espelho lhe devolvia era de uma Judite diferente, muito loura e de profundos olhos azuis. Espantou-se consigo mesma... Seria mesmo ela? Algo dentro 
de si lhe dizia que estava diante de algum que ela fora um dia e que ficara para trs, mas algum cujas atitudes passadas ainda se faziam sentir no presente.
       Voltou a ateno para o bordado e comeou a desligar-se de sua mente. Sentiu que a Judite que fora um dia ia sumindo e dando lugar quela mulher loura que 
bordava incessantemente. De repente, percebeu que j no pensava mais como a Judite de hoje. Ainda era ela mesma, embora com outro corpo, outra mente, outros pensamentos. 
Viu seus companheiros de jornada terrena com outros corpos, outros rostos, trajando roupas diferentes e utilizando uma linguagem estranha. Mas eram os mesmos, ela 
sabia. Estavam todos ali. Inclusive ela mesma. Identificando um a um, comeou a se lembrar...
       Naquele tempo, Judite provinha de uma famlia de nobres e vivia no campo, numa manso rica e luxuosa, juntamente com o marido e o filho. A me, Nomia, logo 
aps a morte do pai, gastara toda a fortuna para pagar as dvidas que o marido deixara, e Nomia fora obrigada a aceitar a caridade de Silas, ento seu genro, para 
no ter de viver na rua. Silas acolhera-a a contragosto, s para satisfazer a chorosa esposa, mas no simpatizava com a sogra nem admitia que se intrometesse em 
seus assuntos domsticos. Por isso, Nomia vivia calada, quase como uma estranha, evitando ao mximo dar opinio sobre a vida da filha, do genro e do neto, a quem 
adorava, mas de quem no podia muito se aproximar.
       Quando Romero, filho de Judite e Silas, completou sete anos, Silas sentiu a necessidade de lhe providenciar esmerada educao. No tinha tempo nem pacincia 
para dar aulas ao filho, portanto, o melhor era encontrar algum que pudesse lhe ensinar a boa educao e as letras.
       Partiu para a cidade em busca de um preceptor e foi apresentado a um rapazinho de gestos afetados, muito hbil na arte de ensinar, embora no fosse propriamente 
o que se pudesse chamar de homem. Mas aquilo agradou Silas. Admirado com a educao e a finura do rapaz, decidiu contrat-lo, achando que estaria resolvendo dois 
problemas de uma s vez. Sendo o rapaz um sujeito efeminando, Silas no precisaria se preocupar com os perigos que a proximidade de um homem atraente e viril pudesse 
representar para sua jovem e fogosa mulher. Satisfeito consigo mesmo, partiu com Fbio para sua manso no interior.
       No princpio, ningum percebeu nada. Fbio era um jovenzinho muito atraente, de gestos cuidadosamente afetados para enganar o marido de Judite. Silas nunca 
fora um homem msculo e, por isso mesmo, tinha muito cime da mulher. Fora por medo de perd-la que aceitara aquele preceptor efeminado, sem desconfiar que aquilo 
no passava de uma manobra para engan-lo e conseguir o emprego.
       Fbio enganara todo mundo, at mesmo a prpria Judite, que, julgando-o um efeminado irremedivel, no lhe prestava muita ateno. Aos poucos, porm, o rapaz 
foi se interessando por ela, at que no pde mais esconder. Um dia, aproveitando-se de que ningum estava olhando, tomou-a nos braos e declarou seu amor. Apesar 
do espanto, Judite correspondeu. Era uma mulher jovem e insacivel, insatisfeita com o desempenho sexual do marido, que, alm de j se aproximar da casa dos sessenta 
anos, nunca fora um amante ardoroso. No eram raras as ocasies em que no conseguiam manter relaes, o que a deixava frustrada e infeliz.
       O filho, Romero, desde cedo demonstrara um temperamento difcil. Era arrogante, atrevido e mal-educado. Gostava muito da me e de Fbio, a quem considerava 
seu nico amigo, mas jamais poderia imaginar que ele e sua me estivessem tendo um caso. Quando descobriu, pensou que o mundo fosse desabar sobre ele. Fbio dormia 
num quarto ligado ao de Romero. Este, uma noite, escutou rudos vindos l de dentro. Sem saber do que se tratava, escancarou a porta e parou estarrecido. Deitados 
na cama, nus, a me e Fbio se amavam.
       Foi um choque. O menino ficou espantado e comeou a chorar, ameaando fazer um escndalo, mas Judite conseguiu cont-lo. Pegou-o no colo e disse-lhe o quanto 
o amava. Explicou-lhe que ela era mulher e tinha certas necessidades que ele ainda no podia compreender, e o pai, que era quem deveria prov-las, j no tinha mais 
condies de faz-lo. Mas Silas era seu marido, e ela lhe devia respeito. O que faria se descobrisse? E se a matasse? Ser que Romero estava preparado para ficar 
sem a me? Judite explicou ao filho que a melhor maneira de evitarem uma desgraa seria mantendo silncio. E ainda havia Fbio. Silas mataria ou mandaria embora 
o nico amigo de verdade que Romero tivera em toda a vida. Era isso o que ele queria?
       Com medo de perder o amigo e, principalmente, a me, Romero aceitou. No entendia bem por que aquilo estava acontecendo, mas acabou se acostumando. Todas 
as noites, quando Judite chegava para se deitar com Fbio, Romero corria a espreit-los. Aos poucos, foi achando aquilo tudo muito natural. J rapazinho, tentava 
repetir com as criadas o que aprendia com a me e seu amante.
       Romero cresceu e tornou-se um rapaz muito bonito, cabelos e olhos castanhos, corpo esbelto e bem torneado. Nas costas, uma cicatriz em forma de meia-lua, 
um pouco acima das ndegas, emprestava-lhe um charme especial que levava as mulheres  loucura. Mas tinha problemas srios, com os quais no sabia lidar. No conseguia 
se apaixonar por moa nenhuma. S o que lhe interessava era o sexo. Quanto mais dormia com as mulheres, menos se apegava a elas. Seus gestos lhe pareciam maquinais, 
muito diferentes dos de Judite, e Romero buscava em seus corpos, inconscientemente, o corpo ardente da me. A me era o fruto de sua paixo, o objeto do desejo proibido 
que jamais sonharia ter. Nenhuma mulher se igualava a ela, e Romero vivia insatisfeito, sempre  procura de algo que preenchesse o vazio e a carncia que Judite 
deixara em seu corpo e em sua alma.
       Com o tempo, esse vazio foi crescendo, pois Romero jamais conseguia se sentir realizado com mulher alguma. At que, um dia, foi apresentado a uma moa, filha 
de um parente distante de seu pai, por quem comeou a se interessar. A moa fora mandada ao campo pelos pais para tentar amenizar um grave defeito de seu carter: 
era ninfomanaca. Aos dezesseis anos, j havia se deitado com praticamente todos os homens que integravam a alta sociedade que freqentavam, inclusive alguns maridos 
de mulheres importantes. Pretendiam seus pais que ela passasse algum tempo longe das atribulaes da sociedade, em meio  natureza, onde no pudesse ter muito contato 
com rapazes.
       A moa, de rara beleza, possua uma sensualidade exacerbada e no se importava com o juzo que faziam a seu respeito. Era voluntariosa e sedutora como ningum. 
Poucos eram os homens que conseguiam resistir a seu assdio. Muitos se apaixonavam, mas a moa, de nome Teresa, era fria e insensvel, pouco se importando com o 
sentimento que os homens nutriam por ela. Dizia-se que um rapaz havia enlouquecido por sua causa, enquanto muitos outros se entregavam ao desespero e viviam acabrunhados 
e tristes.
       Os pais, desesperados, tentavam prend-la dentro de casa, ameaando envi-la para um convento ou uma terra longnqua, mas Teresa no se importava. No fundo, 
possua certo domnio sobre os pais, que j comeavam a temer pela sanidade da filha, vendo perdida sua reputao.
       Quando o marido de uma influente dama da sociedade se suicidou, deixando aos ps da cama em que ingerira forte dose de veneno um bilhete apaixonado, os pais 
de Teresa no viram outra sada: ou afastavam a filha dali, ou corriam o risco de algum apaixonado acabar assassinando-a. Feito o contato com Silas, Teresa foi enviada 
para sua casa de campo, onde o inevitvel logo aconteceu.
       Teresa e Romero apaixonaram-se e, aps intenso e tumultuado romance, acabaram por ficar noivos.
       Os pais da moa adoraram a idia, achando que Romero seria a salvao de sua filha. Mas Silas no gostou. Ver o nome de sua famlia associado ao daquela devassa 
era demais. Concordara em receb-la em sua casa por considerao a seus pais, e tambm porque eles lhe ofereceram rendosa propriedade como paga por aquele favor. 
Mas um casamento entre aquela ninfomanaca e seu filho estava fora de cogitao.
       S que Romero no era o tipo de homem que se deixasse dominar, nem Teresa o tipo de mulher que se intimidasse com facilidade. O temperamento sensual de ambos 
os unira feito dois ms, e tudo que queriam era ficar juntos. Marcaram a data do casamento, para desgosto de uns e alegria de outros. s vsperas das bodas, uma 
desgraa sucedeu. Quando os noivos cavalgavam juntos, o cavalo de Teresa assustou-se com uma cobra e deu imenso pinote, jogando a moa ao cho com violncia. Na 
queda, Teresa bateu com a cabea numa pedra e morreu.
       Romero pensou que fosse enlouquecer. Buscou apoio na me, mas ela estava ocupada demais com Fbio para lhe dar muita ateno. Afagou seu rosto, beijou-lhe 
as faces e tranqilizou-o, dizendo que moas solteiras, havia muitas pela regio. A av, que no costumava dizer nada, permaneceu silente, temendo uma reao violenta 
do genro. Sentia pena do neto, mas no ousava apoi-lo, com medo de que Silas cumprisse a ameaa de expuls-la de sua casa. O pai, por sua vez, agradeceu imensamente 
aquele infortnio. Estavam resolvidos seus problemas.
       Depois da morte de Teresa, Romero jurou que jamais tornaria a se apaixonar. A falta da noiva despertou novamente em seu ntimo o desejo oculto, e no reconhecido, 
pela me. Sem perceber, jogara de volta seus sentimentos para Judite. Toda aquela sensualidade que sentira com relao a Teresa retornava agora para a me, s que 
mais intensa, marcada pela frustrao. Romero passou a sentir cime da me, no gostava de v-la com Fbio e vivia seguindo-a com o olhar, acompanhando os movimentos 
leves de seu corpo feminino.
       Seu desespero foi aumentando cada vez mais. Perdera sua cmplice de prazeres, a nica mulher com quem conseguira se identificar. E a me, objeto secreto de 
todos os seus desejos, cada vez lhe prestava menos ateno. Romero voltou a dormir com todo tipo de mulher, sem jamais conseguir satisfazer-se. Justificava sua insatisfao 
com a diferena que via entre elas e Teresa, mas a verdade era que nenhuma daquelas mulheres supria a carncia da me que Romero sentia, no s em seu corpo, mas 
em seu corao.
       Aos poucos, seu carter foi se distorcendo cada vez mais, naquela incessante e desenfreada busca de prazer. Era preciso experimentar outras coisas. As mulheres 
no conseguiam satisfaz-lo por completo, deixando sempre a impresso de que lhe faltava algo mais. Desesperado, procurou um efeminado, mas no conseguiu o prazer 
que buscava. Ainda no era aquilo que queria.
       No auge de sua insatisfao, comeou a reparar nas garotinhas, entre dez e treze anos, que trabalhavam nos campos de plantao. Percebeu que elas o excitavam, 
e talvez estivesse ali a soluo que procurava. Rico e poderoso, pagava pelo sexo infantil. Oferecia aos pais das meninas somas vultosas em troca de algumas noites 
de prazer com suas filhas, muitas das quais ainda nem haviam se tornado mocinhas. Alguns homens ainda relutavam, mas o poder do dinheiro falava mais alto, e muitas 
crianas eram levadas ao leito de Romero pelas mos gananciosas dos prprios pais.
       Tudo para ver se Romero conseguia reencontrar o prazer que um dia conhecera e perdera. Mas as meninas no eram Judite e no conseguiam repetir com ele os 
mesmos movimentos, os mesmos sussurros, o mesmo tremor que ele, por tantas e tantas vezes, presenciara no corpo da me. A desculpa que dava a si mesmo era que jamais 
conseguiria encontrar algum que se igualasse a Teresa. Porque Teresa, sem que ele soubesse, fora a nica que conseguira chegar perto do que Judite sempre representara 
para ele.
       Embora as meninas o excitassem e lhe dessem prazer, no bastavam para suprir sua lubricidade, e ele resolveu experimentar tambm os meninos. Assim como as 
meninas, Romero pagava para que os pais levassem seus filhos at ele. Talvez pudesse vivenciar com os garotos o que gostaria de ter sentido, ele mesmo, com as carcias 
e beijos da me. Mas os meninos no eram Romero, assim como Romero jamais seria igual a Judite.
       Com o tempo, isso passou a ser um costume, e a nica fi uma que Romero encontrou de chegar perto de saciar sua sede de ,\cxc > era dormindo com crianas. 
E ele no se dava conta de que a nica pessoa capaz de realmente satisfaz-lo plenamente seria a nica que jamais poderia ter. Mesmo em seus desvios, Romero jamais 
poderia conceber que o que sentia era uma paixo platnica pela me. Por isso, entregou-se de corpo e alma quelas prticas e, sempre que queria, mandava buscar 
um menino ou uma menina para satisfazer seu vcio. As crianas choravam e imploravam, mas ele lhes prometia doces e brinquedos, e elas acabavam cedendo.
       Quando o pai descobriu, foi um tremendo choque. Silas j desconfiava de que Romero levasse moas para seu quarto, mas jamais poderia imaginar que se deitasse 
com crianas. Ao surpreend-lo com um garotinho de onze anos nos braos, Silas quase perdeu a razo. Agarrou o filho pelos cabelos e tirou-o do quarto a tapas, jurando 
que ia mat-lo. Foi um desastre.
       Revoltado com o pai, Romero acabou por delatar a me, s para se satisfazer com sua humilhao. Contou-lhe sobre seu antigo caso com Fbio, e Silas sentiu 
imenso desgosto. Atormentado, soltou o filho e parou estupefato, sem saber o que o revoltava mais: se a traio da mulher ou a indignidade do filho. Empurrou-o para 
longe e afastou-se acabrunhado. S agora compreendia tudo. Por isso Judite insistira em no despedir o preceptor quando Romero completou seus estudos. Pediu-lhe 
que mantivesse o rapaz ali, para ajud-la com a literatura, e Silas concordou. Como fora estpido! E, agora, corroa-se de cime, o corao dilapidado pela dor da 
traio. Quanto mais pensava nas palavras de Romero, mais se indignava. Por que Judite traiu-o logo com o preceptor, um efeminado? Esse pensamento foi dominando 
sua mente, fazendo com que refletisse sobre a mentira de Fbio, e a verdade desabou sobre ele feito uma avalanche. Analisando aquela situao, sentiu profundo dio 
de Judite. Aquele sentimento horrorizou-o, porque o dio que sentia, voltara-o todo para Judite, jamais para Fbio. Frustrara-se com o preceptor, no com a mulher. 
Sentia-se trado por ele, no pela mulher, porque, no fundo, era a Fbio que Silas desejava, no a Judite.
       Chocou-se profundamente com essa descoberta. Se ele era homem, como podia estar sentindo tudo aquilo por outro homem? Deveria lamentar era pela mulher. Mas 
Judite, estranhamente, no era a causa verdadeira de seu cime. A causa de sua dor no era ela. Era Fbio. Era a ele que temia perder, no a ela. Tentou imaginar 
Judite nos braos de Fbio e quedou estarrecido. O que sentia, na verdade, era inveja. Inveja porque gostaria de estar no lugar da mulher, gostaria que fosse ele, 
no Judite, o amante de Fbio. Foi s ento que percebeu que teria dado tudo para sentir em sua boca os lbios quentes e macios do preceptor.
       Por isso seu casamento sempre fora to difcil. Jamais conseguira satisfazer a mulher. O sexo cansava-o e causava-lhe at certa repulsa, e ele precisava se 
esforar ao mximo para conseguir manter relaes com Judite. Silas obrigava-se a algo que no era de sua natureza. Era um homem que, inconscientemente, admirava 
outros homens, no se interessando pelas formas nem pelos encantos femininos.
       Ao constatar essa verdade, sentiu-se imensamente angustiado. S ento se dava conta de que passara a vida toda se enganando. Pensou em se matar. Assumir-se 
como efeminado representaria o fracasso de toda uma vida. Seria a vergonha, o escrnio, a humilhao. Como aceitar perder o respeito da mulher, do filho e de toda 
a sociedade? Jamais!
       Faltou-lhe coragem para tirar a prpria vida. Ao encostar o cano da pistola na tmpora, seu dedo hesitou no gatilho, e ele recuou. Alm de tudo, era um covarde! 
Guardou a pistola de volta no armrio e ps-se a chorar. Foi quando Romero o surpreendeu aos prantos. Inteligente e perspicaz, logo percebeu o dilema do pai. Seguindo 
seus olhares, notou a dor que os nublava todas as vezes em que fitava Fbio. Sim. O pai sofria pelo rapaz, no pela mulher. Era um efeminado, sem coragem de se assumir, 
sofrendo calado a dor de seu desvio.
       Movido por sentimentos menos dignos, Romero aproveitou-se para escarnecer do pai. Prometeu silncio, em troca de que ele continuasse permitindo que levasse 
crianas para seu leito. Silas, com medo, aquiesceu, e entre pai e filho estabeleceu-se um pacto de silncio, embora Romero no perdesse a oportunidade de humilh-lo, 
sempre que se viam sozinhos. Chamava-o de efeminado e sodomita, perguntando-lhe quantas vezes j havia sonhado com Fbio fazendo amor com ele. Apesar da raiva, Silas 
no dizia nada. O medo de ser descoberto acabava paralisando-o, e ele ia guardando dentro de si a raiva que sentia de si mesmo e daquela vergonhosa doena que o 
transformara em um homem pela metade.
       Aos poucos, um dio surdo comeou a crescer dentro dele. dio de si mesmo, do filho, da mulher, de Fbio. Como no se atrevia a fazer nada contra ningum, 
descontava na sogra. Humilhava Nomia publicamente, gritava com ela, dava-lhe ordens como se fosse uma criada, sujeitando-a s tarefas mais degradantes. E Nomia 
sofria calada, temendo ser posta na rua, aceitando passivamente tudo que ele lhe dizia e ordenava.
       Pior do que tudo era o dio que sentia de si mesmo. Silas queria ser homem. Nascera homem, precisava da virilidade. Jamais aceitaria aquela aberrao que 
descobrira ser. Por qu? Por que tivera de se transformar naquilo? No era nenhuma mulherzinha. Era homem, homem! Dia e noite, ficava repetindo para si mesmo que 
no era um efeminado. Era homem! Todas as vezes em que via Fbio, porm, suas palavras caam no vazio, e ele se desesperava, porque, por mais que quisesse negar, 
desejava ardentemente o corpo do preceptor.
       No entendia por que Deus permitia que aquilo acontecesse. Para ele, era antinatural, e ele estava embrenhado naquela deformidade da natureza. Mas ningum 
poderia saber. Jamais! Precisava continuar fingindo que era um homem de verdade. Resolveu ocultar-se do mundo. Tornou-se um homem sombrio e aptico, desinteressado 
da vida e dos problemas domsticos. Comeou a emagrecer e passou a se isolar de tudo e de todos. Quase no saa do quarto e no se importava mais com o correr dos 
dias e dos meses. Para ele, sua vida j havia terminado.
       Assim foram passando os anos. Romero continuava a seduzir crianas para preencher o vazio deixado pela me. Judite, por sua vez, cada vez mais apaixonada 
por Fbio, percebendo a passividade de Silas, j nem se dava mais ao trabalho de esconder seu caso amoroso. Tanto desgosto acabou por destruir o frgil corao de 
Silas. Em uma manh fria de inverno, cerrou os olhos para a vida. Para Judite, foi a libertao. Agora, sim, via-se livre para assumir seu amor de tantos anos. Embora 
Romero fosse contra, ela se casou com Fbio logo aps o trmino do perodo prprio de luto e mudaram-se para a cidade.
       Quanto mais velho Romero ficava, mais se interessava por crianas. Aos trinta e oito anos, era ainda solteiro e sem perspectivas de nenhum noivado. No que 
faltassem moas interessadas nele. Era Romero quem no conseguia se interessar por mais ningum. Embora Judite aceitasse a justificativa da perda da noiva querida, 
algo no comportamento do filho chamou-lhe a ateno. Estava agora mais velha, casada com o homem que realmente amava, e o fogo da paixo comeava a arrefecer. Um 
pouco liberta do apego que sentia por Fbio, pde reparar melhor nas atitudes de Romero, que lhe pareceram bem estranhas. Passou a espreit-lo e, em pouco tempo, 
descobriu o que ele fazia.
       Assim como Silas, Judite tambm ficou chocada, mas, no sabendo como proceder, foi procurar Fbio. S que Fbio j no estava mais interessado no comportamento 
de Romero. Ele agora era um homem, e Fbio no era mais seu preceptor. Achava que no deviam se envolver e aconselhou Judite a fingir que de nada sabia. Se os pais 
das crianas no reclamavam, por que ela deveria se preocupar?
       Certa tarde, foi procurada por um velho conhecido, que vivia numa casa prxima  sua. O homem estava abismado. O filho de onze anos e a filha de dez lhe disseram 
que haviam sido molestados por Romero.
       -  Como assim, molestados? - quis saber Judite, perplexa.
       -  Molestados, a senhora entende. Meu Iv e a pequena Brigite disseram que Romero os acariciou.
       -  Ora, senhor, faa-me o favor. Acariciar crianas, que eu saiba, no  nenhum crime.
       -  No quando as carcias atingem partes imprprias - rebateu o homem, vermelho de raiva e de vergonha. - Vou lhe dar um conselho, senhora. Mantenha seu filho 
longe dos meus.
       Judite no respondeu. No tinha o que dizer. Aquele homem era Jnior, um homem severo, que enriquecera subitamente, envolvido em negcios escusos. Jnior 
terminou suas ameaas, levantou-se irado e foi embora, e Judite ficou deveras preocupada. Queria ajudar o filho, mas no sabia como. Resolveu procur-lo. Romero 
olhou para ela com um misto de ternura e mgoa, e anunciou: - Quer me ajudar? Compre as crianas para mim. Judite ficou chocada. Sentiu vontade de dar-lhe um tapa 
no rosto e cham-lo  razo, mas no fez nada disso. No fundo, sentia-se culpada por ele ser do jeito que era. No fosse sua louca paixo por Fbio, que a cegara 
at diante do prprio filho, e talvez Romero no tivesse aquela tara. Sempre soubera que o filho os espionava enquanto se amavam, mas a loucura do prazer com o amante 
era maior do que suas responsabilidades de me.
       S agora compreendia o mal que fizera ao filho. Jamais deveria t-lo deixado sem os cuidados maternos em funo de homem algum. Deixara-o  vontade para que 
ela pudesse fazer o que queria. No se interessava por suas brincadeiras nem pelo que andava fazendo, porque andava sempre ocupada em deleitar-se no leito do amante. 
Mesmo em seu maior momento de dor, quando Teresa morrera, no soubera confort-lo. Limitara-se a dirigir-lhe frases feitas e palavras despidas de qualquer sentimento, 
aliviada por achar que cumpria com seu dever de me. Agora, porm, sentia-se horrorizada, enojada. Romero no ouvia ningum, s fazia o que queria. E tudo por culpa 
dela. Sem saber, criara um monstro.
       Jnior era um honrem influente na cidade, e Romero no conseguiu o que queria. Via seus filhos brincando no jardim e enchia-se de desejo. Quanto mais pensava 
neles, mais os desejava. Fosse o menino, fosse a menina, ao menos um dos dois precisava ter. Mas era difcil. At ento, s seduzira filhos de criados ou de gente 
humilde. Em troca de uma boa soma, os pais sempre acabavam por concordar. Mas ele no podia comprar Jnior. Era um homem rico e jamais venderia os filhos por dinheiro 
algum.
       Precisava dar um jeito. Mandou chamar Llio, seu criado de confiana, e deu-lhe ordens para espreitar a casa de Jnior e descobrir os horrios em que as crianas 
saam para a escola ou para o parque. Informado de tudo, ps-se a segui-las, sempre que saam sozinhas com a bab. Queria uma das duas, no importava qual fosse. 
Se Iv ou Brigite, tanto fazia. Desde que tivesse nas mos o corpo macio, fresco e intocado de uma criana, era quanto lhe bastava.
       No parque, esperou o momento oportuno. As crianas jogavam bola com alguns amiguinhos, enquanto a bab lia, sentada em um banco. Em dado momento, a bola caiu 
um pouco mais distante e rolou para o meio de um bosque que havia ali, bem perto de onde Romero estava. O rapaz sorriu e sentiu a boca seca, vido que estava por 
colocar as mos numa das crianas. Para sua felicidade, Iv foi atrs da bola. A bab ainda o chamou, mas o menino apontou para o lugar aonde a bola havia rolado, 
e ela consentiu que ele fosse busc-la. Assim ele fez. Desavisado, deu dois passos e entrou no pequeno bosque.
       Depois de quinze minutos, vendo que Iv no voltava, a bab largou c livro que estava lendo e correu na direo do lugar por onde ele havia entrado. Tudo 
estava quieto; riem o vento soprava nas rvores. Assustada, a moa chamou uma, duas, trs vezes. Mas Iv no respondia. Sentindo-se dominada pelo pnico, virou-se 
para correr. Precisava chamar a polcia. Foi quando escutou um choro abafado, vindo de mais alm. Desesperada, correu aos tropees, arranhando a perna nos espinhos 
dos arbustos.
       Em poucos instantes, alcanou o local de onde provinha o choro e estacou estarrecida. Recostado a uma rvore, o corpo todo encolhido, Iv soluava. A roupa 
rasgada, o rosto arranhado, os cabelos em desalinho davam mostras de que ele havia sofrido algum tipo de violncia. Ela se aproximou e tentou segur-lo, mas ele 
comeou a gritar e a chorar desesperado.
       -  O que houve? - indagou a bab.
       -  O homem... o homem... o homem... - o menino ficava repetindo.
       Ajudada por outras babs e algumas mes, a moa conseguiu lev-lo para casa. O pai ainda no havia chegado do trabalho, e a me quase desmaiou ao ver o estado 
em que o filho se encontrava. O mdico foi chamado s pressas. Examinou o menino e constatou a agresso. Ele havia sido violentado e estava traumatizado. Perguntaram-lhe 
o que havia acontecido, mas ele no conseguia falar. O choque fora muito traumtico, e Iv parecia alheio ao mundo.
       Quando Jnior chegou, no teve dvidas. Somente uma pessoa podia ter feito aquilo a seu filho. Pistola em punho, partiu para a casa de Romero. Iria vingar 
o mal que ele havia feito a seu filho.
       Chegou na hora do jantar. Enfiou a pistola no cinto, tocou a sineta e esperou que abrissem a porta. No se anunciou. Empurrou o criado para o lado e entrou 
apressado. Na sala de jantar, a famlia estava reunida em volta da mesa, e Jnior esbravejou:
       -  Ainda consegue comer, canalha? Deleita-se  mesa, enquanto meu filho jaz como um morto-vivo sobre a cama?
       Romero, tomado de surpresa, no respondeu. Foi Fbio quem assumiu a palavra:
       -  Senhor, a que devemos to inesperada visita?
       -  Aquele canalha! - apontou para Romero o dedo trmulo. - Aquele canalha abusou de meu filho!
       -  No! - objetou Judite, veemente. - Est enganado. Meu filho jamais faria uma coisa dessas.
       -  Ns todos sabemos o que esse monstro  capaz de fazer!
       -  Tenha calma, senhor - interps Fbio. - Vamos conversar. O corpo todo de Jnior sacudiu de soluo, e ele largou os braos
       ao longo do corpo, apertando com a mo a pistola presa na cintura.
       -  Ele violentou meu filho - choramingou angustiado. - E agora Iv no consegue nem mais falar.
       -  Lamento pelo que aconteceu a seu filho - falou Romero, tentando emprestar  voz um tom compungido.
       -  Lamenta?! Como lamenta, canalha, se foi voc o autor do atentado?
       -  No tenho nada com isso.
       -  Ainda tem a coragem de negar?
       -  Senhor - interveio Judite -, posso imaginar o quanto est sofrendo, mas meu filho nada teve a ver com esse infeliz episdio.
       -  Foi ele! - esbravejou Jnior, fora de si.
       Romero levantou-se calmamente, sorveu um gole de vinho e, fitando o outro com olhar cnico, disse mansamente:
       -  O senhor no tem provas.
       -  Cachorro!
       -  Vamos para a outra sala - sugeriu Fbio, olhando significativamente para Judite. Queria que ela tirasse Romero dali.
       -  No! - berrou Jnior, fincando os ps no cho. - Esse monstro no pode mais viver. Preciso livrar o mundo dessa praga, antes que ele faa mal a mais algum.
       Rapidamente, sacou da cinta a pistola e apontou para Romero, e um brilho de terror passou pelos olhos do rapaz. Jnior no teve tempo de atirar. Judite foi 
mais rpida e interps-se entre eles, enterrando-lhe no peito uma faca de cortar carne. Ele soltou a arma e levou as mos  faca, tentando pux-la de dentro de si. 
J no tinha mais foras. De sua boca, um gemido gutural se fez ouvir, e ele fitou Judite com espanto. Ela recuou assustada, e ele se arrastou em sua direo. Mas 
seus olhos j no podiam ver mais nada. Jnior estendeu a mo para a frente e tocou o vazio, desabando em seguida no cho, rosto colado no soalho.
       Embora muitos desconfiassem dos motivos que haviam levado Jnior  casa de Romero armado de uma pistola, nada pde ser provado contra o rapaz. Iv, aterrado 
e traumatizado com o que havia lhe acontecido, jamais recuperou a fala. Vivia meio abobado, sempre com medo de que Romero aparecesse para machuc-lo novamente. Devido 
 invaso, e sem provas de que fora Romero quem violentara o menino, Jnior foi acusado de tentar fazer justia com as prprias mos, o que ratificou a legtima 
defesa de Judite. Ningum foi acusado de nada.
       Voltando dessa viso, Judite piscou os olhos diversas vezes. O sol ainda continuava a se pr, e ela ficou abismada. Em poucos segundos, recordara diversos 
episdios de sua ltima vida. Chorou baixinho, sentindo imensa tristeza pelo que havia acontecido. Agora sabia. Mesmo sem que lhe dissessem, sabia perfeitamente 
quem era quem naquela tragdia.
       Ouviu uma batida de leve na porta, e Fbio entrou com seu sorriso meigo. Acercou-se de Judite e confortou sua angstia. Sentindo o abrao fraterno do esprito 
amigo, Judite soltou o pranto e chorou por quase meia hora. Pacientemente, Fbio acariciava-lhe os cabelos, transmitindo-lhe vibraes de amor e compreenso. No 
disse nada. Esperou at que Judite sossegasse o pranto e tivesse vontade de falar. Assim que se sentiu mais fortalecida, ela enxugou as lgrimas e desabafou:
       -  Estou arrasada, Fbio. Vi tudo.
       -  Se fosse para voc ficar arrasada, no teria recordado esses acontecimentos.
       -  Como no ficar, depois de tudo que aconteceu? Fomos todos uns monstros.
       -  Monstros s existem na imaginao de quem no consegue compreender o lado oposto do bem. Se voc encarar esses fatos com outros olhos, ver que eles so 
apenas experincias do dia-a-dia. Todos ns precisamos viver para aprender. Faz parte da vida e do crescimento, e no precisamos nos culpar quando ainda no conseguimos 
realizar a atitude desejada. Quando compreendermos isso, perceberemos que no h monstros no mundo, nem vtimas, nem malfeitores. O que h so espritos em crescimento.
       -  Voc fala como se tudo fosse simples.
       -  A vida  muito simples, Judite. Ns a complicamos porque ainda no estamos acostumados com a simplicidade. Para que algo seja valoroso, para que parea 
realmente importante,  preciso ser complexo. O que  simples parece despido de importncia.
       Judite ficou pensativa. Havia uma grande verdade no que Fbio dizia mas, ainda assim, no justificava o que acabara de recordar.
       -  Matar aquele homem no foi to simples assim - objetou ela.
       -  Foi simples, na medida em que seu assassinato foi apenas a resposta que a vida lhe deu a uma causa anterior. Nada acontece por acaso, e ningum recebe 
aquilo que no merece. No  o que voc mesma diz?
       -  ... Suas palavras fazem sentido. Mesmo assim, no me sinto nada  vontade em saber que fui eu o instrumento da resposta da vida, nem que foi por minhas 
mos que aquele homem experimentou a simplicidade das coisas.
       -  Use o mesmo raciocnio para voc e ver que tudo continua sendo muito simples. O fato de voc ter servido de instrumento naquele instante apenas atendeu 
 sintonia que sua alma estabeleceu com sua vtima.
       -  Ele no era vtima!
       -  Est vendo s ? No h vtimas nem algozes. A vtima de agora foi o carrasco de antes, e por a vai. Todo mundo d e tudo mundo recebe.
       - Todo mundo faz maldade e todo mundo recebe castigo.
       - Todo mundo vive e todo mundo aprende. Quem faz o mal sempre tem a oportunidade de repensar o que fez e de refazer sua atitude. Mais cedo ou mais tarde, 
todos acabam acertando. Mas ningum, jamais,  castigado. Deus  bom demais para pensar em castigos. O que ele nos apresenta so as oportunidades que a vida pe 
a nosso dispor. Cada um aproveita o que quer, na medida do que pode.
       -  Foi isso, ento, Fbio? Foi por isso que as coisas aconteceram daquela forma?
       -  Tudo est em seu lugar. No existe pedra ou folha que esteja acima ou abaixo de onde deveria estar. Cada coisa no mundo tem um lugar prprio, que nunca 
 ocupado ou tomado por outra. No existem erros. Ningum passa pelo que no deveria passar, ningum sofre o mal direcionado a outro, ningum vive ou morre sem precisar 
viver ou morrer. E a vida, Judite, e a vida  por demais sbia para nos enganar. E sabe por qu? Porque  criao de Deus.
       -  Suas palavras fazem-me sentir mais aliviada. Obrigada.
       -  No precisa me agradecer. Agradea a si mesma por se permitir recordar em to pouco tempo. Muitos esto aqui h anos e ainda no conseguiram.
       - Porque no?
       -  Por medo, culpa, orgulho, dio e tantos outros sentimentos difceis.
       -  Fiquei triste com o que vi.
       -  Pois no devia. Veja s a maravilhosa oportunidade que voc teve de refazer seus atos. Foi voc quem pediu essa oportunidade. E aqui  assim: pediu,  
atendido.
       -  Sempre?
       -  Desde que seja para o crescimento, sim.
       -  E quanto a Romero? Ele tambm pediu a vida que est levando?
       -   claro. Romero  um esprito muito querido aqui entre ns. Depois que desencarnou, passou muito tempo nas trevas. Primeiro sentiu raiva porque ficou perdido, 
depois vieram a solido e o medo. Em seguida, o cansao e a compreenso. Por fim, veio o desejo de mudar. E voc nem pode imaginar quanto ele j se havia modificado 
quando desencarnou. Ademais, os anos nas trevas, e depois aqui, serviram para expandir bem seus pensamentos, e ele hoje  um esprito muito mais lcido e esclarecido 
que h cem anos.
       -  Se  assim, por que teve de passar por tudo que passou?
       -  A culpa ainda  um tormento. Por conta dela, assumimos as mais dolorosas experincias.
       -  Foi ele quem quis assim?
       -  Foi. Essa foi a maneira que ele encontrou de livrar-se da culpa e considerar-se quite com a vida.
       -  E era necessria? Quero dizer, ele no poderia ter feito isso
       de outro modo?
       -  Foi a opo dele, e no nos cabe julgar. Voc ou eu poderamos ter nos aliviado da culpa de outra maneira, seja de uma forma mais leve, seja mais sofrida. 
Mas cada um tem seu livre-arbtrio e age conforme suas escolhas.
       -  Sempre escolhemos?
       -  s vezes, no. Muitas vezes, o esprito pode estar em tal estado de confuso que no consegue nem raciocinar direito, que dir escolher alguma coisa. A, 
ento, os espritos encarregados de ajud-lo traam planos para sua nova reencarnao e apresentam-no a ele. Se ele concordar, vive aquela experincia. Se no, pensa-se 
em outra coisa.
       -  Em suma: ou escolhemos ou aceitamos o que vamos viver.
       -  Exatamente.
       -  Ento, ou eu escolhi ser assassinada ou aceitei o assassinato.
       -  Voc aceitou essa possibilidade. Ningum se compromete a assassinar ningum. Se o faz,  porque no conseguiu ainda compreender o valor da vida e do perdo. 
Por isso, na primeira oportunidade esquece os compromissos assumidos e deixa-se levar pelos instintos.
       -  E eu aceitei isso.
       -  Aceitou. Voc j sabia que Jnior poderia mat-la nessa vida. Aceitou correr o risco, assim como ele aceitou o fato de que poderia vir a mat-la, embora, 
aqui, acreditasse que no.
       - Jnior no conseguiu me perdoar...
       -  O dio e o desejo de vingana ainda so sentimentos muito arraigados no homem. Por mais que tentemos nos desfazer deles, eles sempre vm  tona quando 
no estamos muito firmes em nosso desenvolvimento moral.
       -  O mesmo aconteceu com meu pai, no  mesmo?
       -  Seu pai, ainda hoje, ao ver um homossexual, sente medo do que foi um dia e revolta-se consigo mesmo. Por isso odeia-os tanto: porque eles acionam a lembrana 
daquilo que mais gostaria de ter sido e que o medo, o orgulho e o preconceito no o deixaram assumir.
       -  E voc, Fbio? Por que no reencarnou comigo?
       -  Preferi esper-la aqui.
       -  Voc j est muito evoludo. Virou guia espiritual? Fbio riu gostosamente e retrucou em tom jovial:
       -  Sou apenas mais um trabalhador do espao.
       -  Mas voc me parece to sbio, to... evoludo.
       -  Andei estudando desde que cheguei aqui. Reconheo q aprendi muito e hoje penso de uma maneira muito diferente da q pensava antes. Estou mais amadurecido, 
mais consciente da vida de seus processos. Mas no sou evoludo. Ainda tenho muito o q aprender.
       -  Posso aprender com voc? Isto , voc me ensina?
       -  Voc vai ter suas oportunidades. E eu estarei sempre por p to para ajud-la. Ainda a amo, sabia? No  s porque estou a que deixei de am-la.
       Abraaram-se com ternura. Judite estava feliz. Sentia-se ma reconfortada, menos sozinha, mais confiante em si mesma.
       -  Preciso ajudar Romero - falou ela, aps passada a emoo
       -  Eu sei. Ainda se sente culpada, no  mesmo?
       -  Falhei como me. Foi minha loucura, nossa loucura, que contribuiu para que Romero se tornasse a criatura que se tornou.
       - Tem razo, Judite. Ns fomos inconseqentes, irresponsveis e imaturos. Jamais deveramos ter nos relacionado daquela forma na frente de uma criana.
       -  Foi por isso que ele assumiu aquele comportamento distorcido, no foi?
       -  Foi por isso que deu continuidade a ele. Romero j vinha de outras vidas com um sentimento mal resolvido por voc e com s rios desvios sexuais, resqucios 
do tempo em que viveu no imprio romano. A maternidade serviria para acertar as coisas. E at que melhorou. Mas voc no se deu conta de que ele precisava se desvencilhar 
da sexualidade e, ao invs de orient-lo, acabou estimulando-o a manter vivo o desejo que tinha por voc.
       Mas ele no sabia disso. Quero dizer, nem percebia que me desejava.
       Claro que no. Romero tinha a noo perfeita dos papis de me e filho. Por isso, no conseguia entender o que sentia. Jamais lhe passou  pela cabea que 
a desejasse. Tanto que se apaixonou por Teresa. 
       Teresa era uma alma que possua srias enfermidades na rea sexual. Sempre foi mulher ertica e gostava de usar os homens. Em vrias encarnaes, foi-lhe 
dada a chance de se modificar. Mas Ela no conseguia. No conseguia ver nos homens nada alm de uma fonte de prazer. At que conheceu Romero...Justamente. Ligaram-se 
por afinidade e desenvolveram um sentimento que poderia se transformar em amor. Mas Teresa havia feito outros planos para sua vida e optou por desencarnar no auge 
da juventude. Foi a primeira forma que encontrou de conter sua sensual idade desmedida.
       - Por que diz a primeira?
       - Porque a segunda foi escolhendo trocar de sexo na encarnao seguinte.
       -  O qu? Quer dizer que Teresa vai nascer homem?
       - J nasceu. E conviveu com vocs durante algum tempo.
       -  No v me dizer que  Mozart!
       -  Ele mesmo.
       -  Meu Deus!  por isso que ele  homossexual?
       - No caso dele, sim. O apego  feminilidade  ainda muito for-i e, embora Mozart possua muito da natureza masculina em seu ser. li um homem decidido, senhor 
de si mesmo, dono de sua vontade.
       -  Nesse caso, devo agradecer por eles terem se encontrado. Mozart hoje me parece uma pessoa bastante equilibrada.
       -  E . Seu desejo de se modificar  muito forte. E ele est conseguindo. Hoje  uma pessoa com perfeita noo de moralidade, incapaz de se envolver em relaes 
menos dignas ou promscuas.
       -  Isso nada tem a ver com a homossexualidade?
       -  No. Ser homossexual  uma coisa e, no caso de Mozart, especificamente, est ligado ao apego. Ser promscuo  outra coisa bem diferente. A promiscuidade 
est ligada a problemas na rea sexual como forma irresponsvel e imatura da busca do prazer sem limites. O que gera isso  a imaturidade do esprito, ainda muito 
preso a seus instintos mais primrios. Isso se aplica a homens, mulheres e homossexuais. Qualquer um que no saiba orientar sua sexualidade de uma forma sadia, aproveitando 
a plenitude que o prazer pode proporcionar com respeito e iluminao, estar em desequilbrio com a natureza e, conseqentemente, consigo mesmo.
       -  Romero hoje  apaixonado por Mozart, como um dia j o foi por Teresa. Ser que conseguiu se desvencilhar do desejo que sentia por mim?
       -  Conscientemente, ele no sentia desejo. L no ntimo, sua alma tinha o conhecimento do desejo, mas ele jamais fez contato com isso. E respondeu a esse 
sentimento da nica forma que encontrou. Dormia com crianas para satisfazer a carncia da criana dentro de si, porque a nica pessoa que no podia ter era a prpria 
me.
       -  Que horror!
       -  No  um horror, Judite.  um estado de desequilbrio momentneo, mas nada que seja irreversvel. Tanto que vocs optaram por nascer irmos com o intuito 
de libertar Romero do apego  sexualidade que o ligava a voc, ensinando-o a desenvolver o amor fraterno. Pretendiam, dessa forma, atingir um amor mais sublime e 
sem posse.
       -  Mas aquelas crianas...
       - Todas aquelas crianas vibravam na mesma sintonia que ele. Se no, no teriam sido atradas. O caso de Iv, por exemplo... Romero estava de olho nele e 
em sua irm. Por que ele, e no a irmzinha, correu atrs daquela bola? Porque, para a pequena Brigite, aquela experincia no seria necessria.
       -  E por que o foi para Iv?
       -  A histria de Iv  outra histria, e no devemos ser curiosos. Seria um desrespeito para com aquele esprito.
       -  Desculpe-me, Fbio. Tem razo.
       -  No precisa se desculpar. A curiosidade  um estado normal nos seres humanos. Devemos apenas control-la, para que ela no se torne inconvenincia ou invaso.
       Judite silenciou por alguns minutos, impressionada com a sabedoria de Fbio. Agora que se recordava de tudo, lembrava-se dos momentos que haviam passado juntos. 
Ambos haviam se amado de verdade, e Fbio, como preceptor, era um homem sensvel e inteligente. No era de espantar que estivesse to bem na vida espiritual.
       -  Voc vai me ajudar com Romero? - tornou ela, aps breve
       reflexo.
       -  Vou. Tambm me sinto responsvel. O que tnhamos de viver jamais deveria ter interferido em seus deveres de me. Era minha obrigao ajud-la a orientar 
Romero, pois no foi  toa que fui escolhido para seu preceptor. Era meu dever ensinar a ele no apenas as letras e os nmeros, mas a retido de carter e de conduta. 
Esse era meu propsito quando aceitei, na vida espiritual, ser seu mestre. Infelizmente, porm, deixei-me levar pela paixo e abandonei meu compromisso.
       -  Fico feliz de poder contar com voc.
       - Assumi essa responsabilidade novamente, mas aqui, no astral. Venho acompanhando-os, a voc e a Romero, desde que encarnaram. Espero poder fazer por ele 
aquilo que no fui capaz de realizar naquela vida passada.
       Judite abraou-o novamente, molhando o peito dele com suas lgrimas de amor e de gratido. No sentia mais dio de Jnior nem do pai. Comeava a compreender. 
J nem sentia mais dor.
       
     Captulo 15
       
       Os anos passados na casa de Plnio foram os melhores da vida de Romero. O mdico era um homem muito bom e atencioso, e a amizade entre eles fluiu genuna. 
Durante um tempo, as coisas pareciam se acertar.
       O inqurito que apurou a morte de Judite apontou Jnior como o culpado, mas, enquanto a polcia estava em seu encalo, ele destrua a vida com o veneno da 
herona. Alguns meses depois, foi encontrado morto no barraco em que Judite o visitara, vtima de overdose.
       Enquanto ia crescendo, Romero fez de tudo para ter notcias de Mozart. Mas o rapaz ficara de se corresponder com Judite, e Judite agora estava morta. Em Salzburgo, 
recebera a notcia em uma carta que Alex lhe enviara, quase acusando-o de ser culpado por aquela desgraa. Mozart lamentou muito o ocorrido e chegou a pedir aos 
pais que entrassem em contato com a famlia de Romero. Mas Silas destratou-os e bateu o telefone, e eles nunca mais ligaram.
       Alex ouvira falar que Romero fora levado para a casa do mdico, mas no contou ao primo nem aos tios. Silas no queria nem ouvir falar no nome do filho, e 
Nomia era por demais omissa para tentar mandar notcias a Mozart ou  sua famlia. Romero telefonou a Alex, pedindo o endereo de Mozart na ustria, mas tampouco 
Alex quis falar com ele. Como no sabia o telefone ou o endereo dos pais de Mozart em Braslia, Romero no conseguiu falar com eles tambm. Assim, o contato entre 
os dois rapazes acabou se perdendo, e os anos transcorreram sem que soubessem do paradeiro um do outro.
       Em sua nova vida, Romero continuou a estudar. Plnio pagou-lhe um bom colgio, e ele acabou entrando para a faculdade de medicina e j estava para se formar. 
Queria ser pediatra. Fora essa a forma que seu esprito encontrara de remediar o mal que havia feito a tantas crianas no passado. Cuidando de suas doenas e de 
suas feridas, estaria, de alguma forma, compensando-as pelas tantas dores que lhes causara.
       Sem que ele soubesse, os espritos de Judite e de Fbio estimulavam-lhe os estudos, davam-lhe fora e coragem, incentivavam-no quando ele pensava em desistir. 
A vida de um homossexual era bastante dura e, por mais que ele tentasse esconder, algum colega sempre acabava descobrindo, e Romero virava motivo de chacota entre 
alguns.
       Plnio tivera uma sria conversa com Romero sobre a sua homossexualidade. Dissera-lhe que jamais o julgaria ou que o impediria de seguir seu caminho. S o 
que pedia era que respeitasse seu lar, e teria pedido o mesmo se o rapaz fosse heterossexual, como o fizera com Rafael. Nem um, nem outro estava autorizado a levar 
rapazes ou moas para dormir em sua casa. Podiam namorar quem quisessem, levar namorados e namoradas para festas e reunies, at para banhos de piscina. Mas sempre 
com o cuidado de no desrespeitar a famlia.
       Embora Rafael no seguisse muito as regras, Romero era bastante respeitador. Nunca levara um amigo ou namorado para dentro de casa. Sentia-se pouco  vontade 
e, por mais que Plnio lhe dissesse que no tinha do que se envergonhar, achava-se diferente, e as diferenas sempre desguam no medo e na vergonha, frutos do preconceito.
       Era comum Rafael reunir amigos  beira da piscina aos domingos. Finalmente conclura a faculdade e tinha sua prpria firma de arquitetura, que Plnio montara 
para ele. S que o rapaz era desinteressado e deixava os projetos a cargo dos arquitetos que contratara, ocupando seu tempo com diverso e mulheres.
       Rafael odiava Romero em silncio. Sabia que ele era protegido de Plnio e, por isso, no o confrontava diretamente. Certa ocasio, porm, chegara a insinuar 
que o cunhado e o rapaz deveriam ter um caso, o que justificaria a afeio que os unia. Mas Lavnia no se deixou sugestionar e brigou com o irmo, o que o deixou 
ainda mais furioso.
       Naquela tarde, Rafael mandara preparar um churrasco  beira da piscina e convidou os amigos e a namorada. Plnio e Lavnia apenas passaram para cumprimentar 
as pessoas, mas no se detiveram muito tempo ali. Plnio no gostava das amizades do cunhado, embora as tolerasse por causa da mulher. Depois de quinze minutos, 
pediram licena e retiraram-se.
       Na varanda do andar de cima, Romero brincava com Eric. O menino estava agora com onze anos e tornara-se quase um irmo para Romero. Eric gostava do rapaz 
como se fosse mesmo seu irmo mais velho. Contava-lhe segredos, pedia-lhe ajuda com os deveres, saam juntos para irem ao cinema. Eram mesmo como irmos, e Romero 
nutria sincera afeio pelo menino. S no tivera ainda coragem de lhe contar que era homossexual.
       Tamanha afeio incomodava Rafael aos extremos. Por mais que ele fizesse, Eric parecia no gostar dele. Sempre que o via, arranjava uma desculpa para se afastar, 
o que o irritava bastante, ainda mais quando saa de perto dele para ir  procura de Romero. Era um disparate! Seu prprio sobrinho, rejeitando-o por causa de uma 
bicha, que nem da famlia era! Ser que Eric demonstrava tambm certas tendncias?
       Rafael pensou em dividir suas suspeitas com Plnio, mas mudou de idia. O cunhado, na certa, ficaria furioso e brigaria com ele, protegendo e defendendo Romero. 
E, depois, Eric no valia tamanho desgaste. Era um menino tolinho, apesar de sua beleza. O fato, porm, era que a amizade de Eric e Romero o incomodava muito, e 
Rafael no conseguia fazer com que o menino gostasse dele. Pior: o garoto parecia tem-lo. Eric demonstrava no semblante certo temor de Rafael, o que o irritava 
e excitava ao mesmo tempo. Era boa a sensao de saber que era temido, isso o fazia sentir-se superior e poderoso.
       - Eric! - chamou Rafael l de baixo. - Por que no vem at aqui um instante? Minha namorada quer conhec-lo.
       -  Agora no, titio - protestou o menino. - Romero est me ensinando a jogar xadrez.
       -  Xadrez? Mas  um absurdo vocs dois ficarem trancados a com um dia to bonito! Ou ser que esto fazendo outra coisa que no querem me contar?
       -  No estamos fazendo nada demais - objetou Romero. - Ao contrrio de voc, que fica o tempo todo se agarrando com aquela moa.
       Apontou para uma moa que tomava sol  beira da piscina, tendo ao lado um copo de cerveja.
       -  E da, Romero? - retrucou com ironia. - Por acaso est com cime? Mas ela no  o seu tipo, e eu no como do seu fruto.
       Romero olhou-o com desdm e no respondeu. Queria evitar discusses na frente de Eric. Ele era ainda muito criana e no entendia daquelas coisas. Romero 
virou as costas para Rafael e fez sinal para que Eric se afastasse da balaustrada.
       -  Venha, Eric - chamou. - Vamos continuar nosso jogo.
       Eric afastou-se e tornou a se sentar em frente a Romero, e Rafael voltou resmungando para a piscina. O menino parecia concentrado no jogo, at que perguntou:
       -  O que ele quis dizer com aquilo?
       -  Com o qu?- tornou Romero, pensando no que ia lhe dizer.
       -  Aquilo, voc sabe, de que ela no  o seu tipo e ele no come do seu fruto. No entendi.
       Romero soltou a pea que segurava e olhou para ele. No sabia o que lhe dizer. Ele e Plnio nunca haviam conversado sobre como deveriam proceder quando Eric 
comeasse a fazer perguntas, e agora se sentia confuso. No queria contar a verdade ao menino, porque no sabia se Plnio iria gostar. Por isso, deu de ombros e 
respondeu com aparente naturalidade:
       -  No sei. Rafael fala coisas sem pensar, s para nos chatear. Eric voltou os olhos para o tabuleiro e colocou as mos sobre
       seu peo.
       -  No ser porque voc  homossexual? - indagou, sem tirar os olhos da pea que comeava a mexer.
       Romero olhou-o abismado, todo vermelho, o rosto pegando fogo. Como  que ele sabia disso?
       -  O que quer dizer, Eric? Agora quem no est entendendo nada sou eu.
       -   que outro dia ouvi uma conversa entre tio Rafael e mame, e ele se queixava de que no era nada agradvel ter um homossexual dentro de nossa casa, mexendo 
em nossas coisas, comendo de nossa comida. Disse que papai deveria mand-lo embora assim que se formasse.
       Ele sentiu o rosto arder ainda mais e comeou a balbuciar:
       -  No... no d ateno ao que seu tio diz... Isto , pergunte a seu pai... Eu no sei...
       Levantou-se aturdido, os olhos j marejando. A ltima coisa que gostaria era que Rafael envenenasse Eric contra ele. Eric era ainda muito criana para entender 
certas coisas e, provavelmente, a idia que fazia dos homossexuais, se  que j sabia o que era isso, era de marginais sem escrpulos e sem vergonha.
       Virou as costas para o menino e foi caminhando para dentro. No queria que Eric o visse chorando.
       -  No vai mais jogar? - indagou o menino.
       Romero limitou-se a balanar a cabea e saiu. Estava confuso, envergonhado. Por que Rafael no o deixava em paz? Desde que chegara ali, o rapaz vivia implicando 
com ele. Sempre que no havia ningum olhando, chamava-o de bichinha e de marics. Romero no se importava, j estava meio acostumado. Na escola e, depois, na faculdade, 
no eram poucos os que o chamavam assim, e os olhares de troa e de reprovao tambm eram muitos. Embora ele nada fizesse, as pessoas pareciam adivinhar que ele 
era homossexual, talvez pelos seus trejeitos levemente afetados.
       Ele no ligava. Plnio ajudara-o a enfrentar e superar aquelas coisas. Por isso, quando debochavam dele, fingia que no escutava ou saa de perto. Tinha poucos 
amigos, porque era uma pessoa tmida e retrada. Alguns colegas ainda o tratavam bem, embora com certa distncia. Nunca o chamavam para festas ou passeios, e ele 
acabou se acostumando  solido. No tinha amigos,  exceo de Plnio e, agora, de Eric. Mesmo os parceiros que tivera nada representaram em sua vida. Ainda doa 
em seu corao a saudade que sentia de Mozart.
       Para tudo isso, ele no ligava. Mas agora, na iminncia de que Eric se aborrecesse com ele, comeou a sentir-se angustiado. Ele era seu amigo, seu irmozinho, 
e seria por demais doloroso se o rapaz passasse a desprez-lo por influncia, no s do tio, mas de toda a sociedade. Plnio era um homem mpar em seu tempo, Romero 
sabia. Ningum pensava feito ele. As pessoas, principalmente os homens, eram muito preconceituosas e incompreensivas. Iam logo julgando e inventando coisas que em 
nada refletiam a realidade.
       Ao cair da tarde, Plnio chegou do trabalho e veio falar com ele. Romero estava estudando quando o mdico chegou, mas foi com alegria que o recebeu.
       -  Doutor Plnio! Chegou agora?
       -  Sim, acabei de chegar. E j soube o que aconteceu. Romero enrubesceu e retrucou:
       -  O que aconteceu?
       -  A pergunta de Eric... - Romero corou mais ainda, e Plnio prosseguiu: - Por que ficou to sentido? Eric no o destratou, destratou?
       -  No, claro que no. Ele apenas me fez uma pergunta, e eu no soube o que responder. Fiquei surpreso pelo fato de ele j saber que sou homossexual.
       -  Por qu? Por acaso, no  isso o que voc ?
       -  Sou, mas... no queria que ele soubesse.
       -  Por qu?
       -  Ele pode no compreender.  apenas uma criana.
       -  As crianas compreendem as coisas muito melhor do que ns, Romero. E sabe por qu? Porque so puras e no tm imagens preconcebidas. Somos ns que lhes 
incutimos o preconceito.
       -  Mas tive medo de que o senhor no aprovasse que ele soubesse.
       -  Voc acha que vou criar meu filho numa mentira? Pensa que poderemos esconder dele a realidade? Ento ele no tem olhos, no tem ouvidos?
       -  Tem. Foi por isso que descobriu.
       -  Pois . E lhe fez uma pergunta, no uma acusao ou um julgamento, muito menos uma condenao. Apenas uma pergunta. E voc no soube responder. No soube 
ser sincero e simples o bastante para lhe responder com a verdade.
       -  No  to simples assim.
       -  bastante simples. Dizer a verdade  muito fcil. O que complica  a mentira. Para mentir, precisamos inventar uma histria e memoriz-la, para que sempre 
a contemos do mesmo jeito, ao passo que a verdade j vem pronta e sempre ser do mesmo jeito. Voc no precisa tomar cuidado para no cair em contradio, o que 
sempre acontece com a mentira. Porque mentir at que  fcil. Difcil  sustentar a mentira.
       -  Tem razo - desabafou Romero, envergonhado. - Mas  que fiquei confuso... Nunca havamos falado sobre Eric, sobre como proceder quando ele descobrisse.
       -  Compreendo, Romero, e no o estou recriminando. Apenas quero que voc entenda que no  preciso mentir em minha casa. Sei que muitos de meus colegas no 
aprovam o que fao, mas  assim que eu sou. Procuro ser verdadeiro, principalmente comigo mesmo, e no me importo com o juzo que fazem de mim.
       -  O senhor  uma pessoa muito especial, doutor.
       - Todos somos especiais, meu filho. Mas o fato  que voc ainda no consegue se aceitar. Tem vergonha de ser o que . Por isso vive por a pelos cantos, escondido 
at de si mesmo.
       -  As pessoas no me compreendem. Por que deveria expor ao mundo o que sou? Para provocar seu preconceito?
       -   claro que no. Voc deve se preservar, porque as pessoas so mesmo muito preconceituosas, o que acaba tornando-as um pouco cruis tambm. No precisa 
dizer nada a ningum, porque ningum tem nada a ver com sua vida. Mas tambm no precisa ficar se escondendo, com vergonha de si prprio. Seja voc mesmo, aja naturalmente, 
ame e viva sem medo, fale com as pessoas como um igual, porque voc no  diferente de ningum.
       -   difcil...
       -  Mas voc tem de tentar, seno vai viver a vida toda se escondendo e jamais conseguir ser feliz.
       -  No sei se consigo...
       -  Comece por Eric. Ele  seu amigo, e voc no precisa ocultar nada dele. Conte-lhe, voc mesmo, que  homossexual.
       -  O senhor acha que devo?
       -  Acho, sim. Ele veio me perguntar, e foi o que eu disse a ele: que perguntasse a voc, porque se tratava de sua vida e eu no tinha o direito de me meter.
       Romero sorriu agradecido, cheio de admirao por aquele homem. Jamais havia conhecido algum como ele. Plnio era uma pessoa muito segura de si e de suas 
convices, no tinha medo de nada nem de ningum, assumia o que pensava sem se preocupar com o que diriam dele. Aquilo era fantstico! Havia apenas uma diferena. 
Plnio era heterossexual, no era homossexual, e no tinha por que temer o preconceito.
       Esse era o maior medo de Romero: o preconceito. Fora por causa dele que sua vida se desgraara. O pai expulsara-o de casa, Mozart partira para a Europa e 
a irm fora assassinada. E, agora, corria o risco de perder Eric tambm.
       O maior exemplo de simplicidade que podemos seguir so as crianas. Para elas, tudo  muito fcil e simples, e ningum precisa ser excludo s porque  diferente. 
Basta que elas compreendam. As crianas encontram lugar no mundo e em seus coraes para tudo: para os animais, as plantas, os brinquedos, as pessoas. Para uma criana, 
uma pessoa  uma pessoa, e no importa que seja rica, preta, bonita ou homossexual. Importa apenas que goste dela. Somos ns, com os preconceitos que vamos assumindo 
ao longo de nossas vidas, que tornamos as crianas preconceituosas tambm. Elas seguem nosso exemplo e sero exatamente do jeito que as ensinarmos. Se apenas lhes 
mostrarmos as diferenas, sem nenhum peso ou julgamento, elas entendero e aceitaro tudo normalmente, sem motivos de medo ou discriminao. Ao contrrio, se fizermos 
parecer que algum  pior ou inferior s porque no  como ns, elas acharo que ser diferente  feio e crescero crticas e preconceituosas, a tudo julgando e condenando 
conforme os valores que aprenderam.
       Criado num ambiente sem preconceitos, Eric ouviu o relato de Romero com calma e tranqilidade. Romero foi quem chegou cheio de preocupaes. Como dizer a 
verdade sem o chocar, decepcionar, magoar? Sentou-o no sof da sala, pigarreou vrias vezes e comeou devagarzinho:
       - Bem, Eric, outro dia voc me perguntou por que seu tio havia falado aquelas coisas, voc se lembra? - O menino lembrava-se e balanou a cabea. - Pois . 
Perguntou-me tambm se eu era homossexual. Voc sabe o que  isso, um homossexual?
       -  Sei.  um homem que gosta de outros homens.
       -  Pois ... - pigarreou novamente. - Isso  uma coisa que acontece a certos homens... e a mulheres tambm... No sei lhe dizer por qu. No tm culpa. Nascem 
assim, no tm como evitar...  um impulso, um instinto... ou talvez seja um desvio, sei l... Mas  algo muito forte...  mais forte do que eles, sabe?
       O olhar de espanto de Eric o fez pensar. Ele estava fazendo justamente o contrrio do que Plnio lhe dissera. Estava complicando as coisas, tentando explicar 
demais. Falava como se fosse culpado por ser homossexual, quase como se estivesse se desculpando por ser do jeito que era. E no precisava de nada disso. Nem Eric 
estava questionando nada. Plnio vivia lhe dizendo que no tinha do que se envergonhar, mas ele falava de um jeito como se fosse revelar algum tipo de aberrao.
       -  Voc est querendo me dizer que  mesmo homossexual?
       Ele corou violentamente. Por mais que pensasse estar preparado, ainda lhe era difcil assumir. Difcil at para si mesmo. Contudo, no podia mentir para o 
menino. Nem tinha mais como. Pigarreou novamente, roxo de vergonha, e respondeu baixinho:
       -  ...  isso... sou...
       Durante alguns instantes, Eric ficou olhando seu rosto, at que respondeu srio:
       -  Papai me disse que algumas pessoas no gostam dos homossexuais, o que no  o caso de nossa famlia. Aqui em casa, gostamos de todo mundo.
       Romero no resistiu. Comeou a chorar baixinho, e Eric alisou sua cabea. Havia tanto carinho nas mos do menino, que Romero comeou a soluar.
       - No chore, Romero - prosseguiu ele. - No sou como as outras pessoas. Gosto de voc assim mesmo. Voc  como meu irmo mais velho. Gosto de voc muito mais 
do que gosto de meu tio.
       Romero abraou Eric e foi se acalmando. Sentia-se reconfortado pelo seu amor, um amor que nada tinha de sexual. O que Romero sentia por Eric era um afeto 
profundo e sincero, que se acentuava  medida que os anos iam se passando.
       Os dois permaneceram abraados por muito tempo, at que a entrada inesperada de Rafael os tirou daquele momento nico de carinho. O rapaz vinha chegando do 
trabalho quando viu os dois abraados na sala, e em sua cabea comearam a despontar sentimentos os mais mesquinhos possveis. Via naquela cena intenes que no 
existiam e parou diante deles abismado.
       -  Mas o que est acontecendo aqui? - indagou atnito. - O que pensa que est fazendo com meu sobrinho, sua bicha desaforada?
       Romero e Eric separaram-se, e foi o menino quem respondeu:
       -  Romero e eu s estvamos conversando.
       -  Estou vendo. Que tipo de conversa  essa? E algum segredo?
       -  Rafael, no  nada disso que voc est pensando - justificou Romero. - Eric  como um irmo para mim.
       -  Bem se v, seu sem-vergonha. Mas isso no vai ficar assim. Vou agora mesmo chamar Plnio!
       Largou a pasta sobre o sof e correu para dentro. Plnio estava em seu quarto, analisando uns exames, e levou um susto com a entrada intempestiva do cunhado.
       -  Rafael! - espantou-se. - O que houve?
       - Aquele aproveitador! - berrou Rafael, irado. - Molestador de criancinhas!
       -  Quem? De quem est falando?
       -  De Romero! E de quem mais haveria de ser? Quem  a nica bicha que mora nesta casa?
       -  O que quer dizer, Rafael? Fale logo, ande!
       -  Cheguei do trabalho agora mesmo e flagrei-o aos abraos com Eric, no sof da sala! E sabe-se l o que no teria feito se eu no tivesse chegado a tempo!
       -  Ser que no est exagerando? - questionou Plnio. - Os dois precisavam conversar.
       -  Que bela conversa eles estavam tendo! Espere s at minha irm saber disso. Vai exigir que voc expulse aquele veado de nossa casa!
       -  Sua irm no vai fazer nada disso. Lavnia conhece Romero to bem quanto eu e sabe que ele seria incapaz de fazer qualquer coisa com Eric.
       -  Vocs so dois cegos mesmo. Ou dois idiotas!
       Voltou correndo para a sala, onde Eric e Romero haviam permanecido, agora mais afastados um do outro. Quando Rafael entrou, seguido por Plnio, Romero levantou-se 
e foi logo se explicando:
       -  Dr. Plnio, no  nada disso que Rafael est pensando. Ele entendeu tudo errado.
       -  Sei disso, Romero, no precisa se justificar - tranqilizou Plnio.
       -  No acredita em mim, no  mesmo? - explodiu Rafael. - Pois vou contar tudo a Lavnia. Lavnia!
       Saiu correndo em direo  cozinha, certo de que a irm estaria ali, mas ela havia ido ao cabeleireiro e ainda no voltara, o que s servira para irrit-lo 
ainda mais.
       -  Deixe de bobagens, Rafael - censurou Plnio, logo que ele voltou da cozinha. - Sua irm e eu sabamos e incentivamos essa conversa entre Romero e Eric. 
No h nada demais.
       -  S quero ver o dia em que ele lhes aprontar uma traio - disse entre dentes, os olhos chispando de dio. - A, vo me dar razo.
       - Jamais irei tra-lo, doutor! - ops Romero. - No precisa se preocupar.
       -  Sei disso.
       Rafael saiu aos tropees e foi para seu quarto. Naquela noite, nem desceu para jantar. Estava com tanto dio que no conseguiria engolir nada. Por que ningum 
acreditava nele? Por que Plnio preferia dar crdito a um estranho, ao invs de acreditar na palavra do cunhado? Aquilo no estava direito.
       Ligou o aparelho de televiso e escolheu um filme de horror. Mais tarde, quando o filme j havia quase terminado, Plnio veio bater  sua porta. Rafael espantou-se 
sobremaneira com a presena do cunhado ali e, pensando que ele quisesse recrimin-lo, comeou a atacar:
       -  Por que est aqui? Veio me censurar por ter olhos e ver o que ningum mais v?
       - No  nada disso, Rafael. Vim aqui em paz.
       -  Paz? Voc nunca me deu paz.
       -  Ao contrrio, voc  que nunca quis viver em paz conosco. Sempre foi rebelde, agressivo, mal-humorado. Por qu?
       -  Est preocupado comigo agora, ?
       -  Estou. Sua irm e eu sempre nos esforamos para que voc tivesse tudo. Voc estudou, tem uma profisso, sempre foi bem tratado em nossa casa. Se no fiz 
mais por voc, foi porque voc no permitiu.
       -  Voc jamais gostou de mim!
       -  No  verdade. Quando voc veio morar conosco, tentei me aproximar de voc. Mas voc sempre me rejeitou. Nunca quis minha amizade.
       -  E voc achou timo, no foi? S assim podia recriminar tudo que eu fazia.
       -  Isso tambm no  verdade. Deus sabe o quanto me esforcei para me aproximar de voc.
       -  E da? O que isso tem a ver com o descaramento de Romero?
       -  Voc odeia o rapaz. Por qu?
       -  Eu no o odeio. Apenas no me agrada ter de conviver com um veadinho.
       -  Romero nunca lhe fez nada. Ao contrrio, desde que chegou aqui, tem se comportado muito bem. E Eric o adora.
       -   esse o problema. Ele est seduzindo o menino. Ser que vocs no conseguem ver?
       -  Voc est pondo maldade onde no existe. Romero  um rapaz direito.
       -   um veado! No  confivel.
       -  Engano seu. S porque  homossexual, no quer dizer que seja tarado. Ele gosta de Eric e o respeita. Romero no transa com crianas.
       -  Como voc sabe? J saiu com ele? Sabe aonde ele vai? Viu com quem ele transa?
       -  Nem  preciso.
       -  Ou ser que voc pensa que ele  algum santinho? Que no tem parceiro e que vive dedicado  famlia?
       -  Isso no me interessa. Romero  livre para fazer o que quiser e sempre foi muito respeitador, ao contrrio de voc.
       -  Ele  sempre melhor do que eu, no ?
       -  No disse isso. Mas ele obedece s regras da casa e nunca trouxe ningum para c. Ao contrrio de voc, que vive se agarrando com as moas na piscina. 
E cada dia com uma!
       -  E da? Devia ficar satisfeito. Pelo menos eu fao o que  natural.
       -  O que voc faz  imoral, isso sim. E d mau exemplo a Eric.
       -  Ah! Quer dizer agora que quem d mau exemplo sou eu? Eu, que sou normal, sou o mau exemplo, e Romero, que  um transviado,  que  o bonzinho? Essa  boa!
       -  Voc interpreta as coisas a seu favor.
       -  Foi o que voc disse!
       -  Mais ou menos. No quis me referir  sexualidade de cada um, porque isso  o menos importante para mim. O mau exemplo vem da conduta, no do sexo.
       -  Fale o que quiser, Plnio, mas o fato  que voc d sempre um jeito de defender Romero e me acusar.
       -  No estou acusando nem defendendo ningum. Estou apenas tentando ser justo.
       -  Quero s ver o dia em que ele aprontar alguma...
       -  Isso no vai acontecer. Conheo Romero e seu carter. Ele  um homem de bem.
       -  Ele no  nem homem. Que dir de bem!
       -  Lamento muito que seus valores sejam esses. Um dia ver o quanto est errado.
       -  Quem ver que est errado  voc. Aposto como ele, mais cedo ou mais tarde, vai mostrar o falso que realmente .
       Plnio suspirou e revidou entristecido:
       -  Infelizmente, Rafael, j sabemos quem  o mais falso aqui.
       -  Quer dizer que sou eu, no ? - Plnio no respondeu. - Posso perguntar uma coisa, cunhadinho?
       Apesar do ar de deboche, Plnio assentiu:
       -  Pode.
       -  O que voc faria se descobrisse que seu protegido no  nada disso que voc pensa? Que  um veado cretino e mau-carter?
       -  Ele no  nada disso.
       -  Mas e se fosse? O que voc faria?
       -  Sei que no .
       - Tudo bem, voc sabe. Mas e se fosse? O que voc faria? Continuaria deixando-o viver aqui conosco? - Silncio. - Continuaria?
       -  No - foi a resposta seca.
       -  Era o que eu queria saber.
       Com ar de cansado, Plnio levantou-se para sair. Fora ao quarto do cunhado para tentar acalm-lo e faz-lo ver que Romero era uma pessoa decente. Queria viver 
em paz com ele tambm; j estava cansado de tantas brigas. Mas Rafael era uma pessoa difcil e sentia muito cime de Romero. Tanto, que no conseguia esconder.
       
     Captulo16
       
       Estava  lanada a semente do dio. Rafael no conseguia entender o sentimento de Plnio por Romero. Ou melhor, no conseguia entender o que ele mesmo sentia 
pelo rapaz. Desde que Romero ali chegara, Rafael no simpatizara com ele, mas fora obrigado a toler-lo porque o cunhado, por um motivo desconhecido, enchera-se 
de amores por ele. Aquilo no era justo. Ele era da famlia, mas Plnio reservara suas atenes para um estranho homossexual.
       Pior de tudo era Eric. Rafael fazia o que podia para que o sobrinho gostasse dele, mas no adiantava. Eric parecia ter verdadeiro horror a ele. Por que seria? 
Rafael nunca lhe fizera nada. Ao contrrio, sempre o tratara bem. Por que, ento, Eric no gostava dele? Por mais que se esforasse, no conseguia entender. S o 
que compreendia era que o menino adorava Romero, o que cada vez mais o enchia de despeito.
       Alheio aos sentimentos do tio, Eric estudava em seu quarto. A me dissera-lhe que quando terminasse os deveres poderia ligar a televiso. Romero ainda no 
havia chegado da faculdade. Fazia estgio num hospital de clnicas e sempre voltava mais tarde. Eric estava to absorto na lio de histria que no viu Rafael entrar. 
O tio chegou sorrateiro e apoiou os cotovelos na escrivaninha, fitando o menino com olhar malicioso. Na mesma hora, Eric encolheu-se e indagou assustado:
       - O que voc quer, tio Rafael? Estou estudando.
       -  No quero nada, Eric. Vim apenas ver se precisa de alguma ajuda.
       -  No preciso, obrigado. Gosto de histria e, alm do mais, sempre que tenho alguma dvida, Romero a tira para mim.
       Romero, Romero! Sempre Romero. Rafael sentiu vontade de dar uns tapas no sobrinho, mas conseguiu se conter.
       - Romero no est - retorquiu, com mal disfarada raiva. - Por isso, se precisar de alguma coisa,  s me chamar.
       -  Obrigado, titio, mas j disse que no precisa.
       -  Hum... Ento, que tal um sorvete?
       -  No vai dar. E agora, se voc no se importar, gostaria que sasse. Ainda no terminei a lio.
       Rafael deu um sorriso carregado de sarcasmo, despenteou os cabelos de Eric e saiu. Depois que ouviu a porta do quarto fechar-se, Eric soltou um suspiro. Por 
mais que o tio fizesse, no conseguia gostar dele. Havia algo de falso em suas palavras, e seu jeito amistoso parecia pura enganao. Eric no se deixava convencer. 
Sabia que Rafael no gostava de Romero, e talvez aquele fosse o motivo para querer conquistar sua amizade: para competir com Romero.
       No corredor, o corao de Rafael se enchia de dio. No apenas por Romero e Plnio, mas comeava a antipatizar com Eric tambm. O garoto parecia no compreender 
o que ele estava tentando fazer. Queria apenas ser seu amigo. Era seu tio, algum da famlia com quem poderia contar, no um veado estranho em quem no se podia 
confiar.
       A medida que ia caminhando, Rafael ia refazendo em sua mente a imagem assustada de Eric. O menino estava ficando bem crescido e era muito bonito. Daria trabalho 
com as garotas, c o cunhado no deveria deix-lo a ss com Romero. Nunca se sabia o que ele seria capaz de fazer. Nada. Romero no seria capaz de nada. E aquilo 
era o que mais irritava Rafael. Romero era homossexual e tinha tudo para ser um marginal. Mas no era. Era um homem bom e ajuizado, respeitador e amoroso, sincero 
e esforado. Tudo que ele no era. S que ele era heterossexual, e Romero, no. Essa era sua grande vantagem sobre o outro.
       Quando Romero chegou mais tarde, Eric j estava dormindo.
       Rafael tambm j se havia recolhido, e Plnio estava de planto no hospital. Apenas Lavnia estava acordada, vendo televiso.
       -  Boa noite - cumprimentou ele. - Tudo bem?
       -  Tudo timo - respondeu ela. - E voc? Est com fome?
       -  Estou, sim.
       -  H comida no fogo. Quer que eu v esquentar para voc?
       - No precisa. Posso me arranjar sozinho.
       Mesmo assim, Lavnia foi esquentar a comida para ele. Como j era tarde, no quis acordar nenhuma das empregadas, e ela no se importava de fazer alguns servios 
domsticos.
       -  Onde esto todos? - indagou Romero, entre uma garfada e outra.
       -  Dormindo.
       -  Que pena. Trouxe um presente para Eric.
       -   mesmo? O que ?
       Romero tirou um embrulhinho do bolso da camisa e exibiu-o a Lavnia. No era nada demais. Apenas a miniatura de uma motocicleta.
       -  Amanh darei a ele - falou Romero, enquanto limpava os lbios com o guardanapo. - Bem, agora acho que vou tomar um banho e dormir. Estou cansado.
       -  Eu tambm. Amanh levanto cedo para acordar Eric e Rafael. Ele disse que tem uma reunio logo pela manh e me pediu para cham-lo. E voc sabe como Rafael 
 difcil de se tirar da cama.
       Ambos riram, e cada qual seguiu para seu quarto. Romero foi direto tomar um banho, e Lavnia passou no quarto do filho para ver se ele no estava vendo televiso. 
O menino dormia profundamente, e ela se aproximou, pousou-lhe um beijo na testa e tornou a sair, fechando a porta lentamente. A caminho de seu quarto, parou para 
dar uma espiada no irmo, e Rafael tambm dormia profundamente. Sorriu satisfeita e foi para a cama.
       No dia seguinte, bem cedinho, Lavnia foi acordar o irmo e o filho. Rafael resmungou um pouco, como sempre, mas acabou acordando.
       -  Levante-se, seu preguioso - chamou ela, com jovialidade -, ou vai se atrasar.
       Certificando-se de que Rafael j estava de p, a caminho do banheiro, dirigiu-se para o quarto do filho. Para sua surpresa, Eric j estava acordado. Parecia 
mesmo que nem havia dormido. Todo encolhido sob os lenis, mostrava olheiras fundas e olhos lacrimejantes.
       -  O que h com voc, meu filho? - indagou preocupada, experimentando-lhe a testa. - Est doente?
       O menino no respondeu. Ao invs disso, agarrou-se  me e desatou a chorar. Nessa hora, Plnio vinha voltando de seu planto e, escutando o choro do filho, 
foi direto para seu quarto.
       -  Eric! - chamou. - Lavnia! O que houve?
       -  No sei. Quando entrei aqui para acord-lo, encontrei-o assim.
       -  Deixe-me examin-lo - falou incisivo, gentilmente puxando a mulher pelo brao.
       -  No! - foi o grito angustiado de Eric. - No quero! No tenho nada!
       -  Eric, meu filho - indignou-se Plnio, que nunca havia visto o menino reagir daquele jeito -, no vou machuc-lo. Quero apenas ver se h alguma coisa...
       - J disse que no! No tenho nada. Estou bem. Apenas gostaria que vocs sassem e me deixassem sozinho.
       A voz de Romero se fez ouvir preocupada:
       -  Est tudo bem a?
       Romero havia acabado de chegar, seguido por Rafael, que indagou solcito:
       -  Posso ajudar em alguma coisa?
       -  O que foi, Eric? - indagou Romero, aproximando-se do menino.
       Na mesma hora, Eric redobrou o choro. Agarrou-se ao colo da me e chorou copiosa e desesperadamente.
       -  Mas o que deu nesse menino? - tornou Lavnia, cada vez mais aflita.
       Subitamente, Plnio percebeu que algo de muito errado havia acontecido. Eric no conseguia sentar-se direito, o que ele achou muito estranho. A todo instante, 
virava-se de um lado para outro, evitando o contato direto com a cama. Plnio sobressaltou-se. J vira muitas vezes aquela situao no hospital e sabia bem o que 
significava.
       -  Deixem-me a ss com meu filho - ordenou incisivo.
       -  Por qu, Plnio? - contestou Lavnia.
       -  Quero examin-lo sozinho.
       -  Mas por qu? Eu sou a me dele.
       -  E eu sou o mdico.
       A muito custo Plnio conseguiu fazer com que o menino soltasse o pescoo da me. Saram todos, e o mdico sentou-se ao lado do filho na cama. Eric chorava 
sem parar, evitando o olhar penetrante do pai. Com cuidado, Plnio foi afagando a cabea do menino, at que ele se acalmou. Quando percebeu que ele j estava mais 
calmo, pediu com carinho:
       -  Eric, por favor, deixe-me examin-lo agora.  para o seu bem.
       -  Mas eu j disse que no tenho nada.
       -  No adianta querer enganar seu pai. Sou mdico e conheo muito bem certos sintomas.
       -  Que sintomas?
       -  Deixe-me examin-lo primeiro. Depois falaremos sobre isso. Plnio tentava deitar o menino na cama, mas ele relutava.
       Percebeu o rubor cobrindo suas faces, e novamente as lgrimas voltaram a cair.
       -  Por favor, pai - suplicou ele -, deixe-me ficar aqui sozinho. Estou bem. S o que lhe peo  que me deixe faltar  escola hoje.
       -  Como quiser. Mas o fato de no querer ir  aula j no  um sinal de que algo no anda bem? - Eric no disse nada. - O que houve, meu filho? O que lhe 
fizeram?
       - Nada.
       -  Est sentindo alguma dor?
       -  No.
       -  Est machucado?
       -  No.
       -  Ento, por que est com essa dificuldade de se sentar? Eric no agentou mais. Agarrou-se ao pai e comeou a chorar em desespero, falando aos borbotes:
       -  Eu no queria! Mas ele me forou! Entrou em meu quarto no meio da noite e me obrigou a fazer coisas! Foi horrvel, pai, horrvel! Ele me fez deitar de 
bruos... tirou meu pijama... e me machucou... e riu. Quase me sufocou... e riu!
       -  Quem, meu filho, quem? - retrucou Plnio, entre revoltado e horrorizado. - Quem fez isso a voc?
       Eric desvencilhou-se de seu abrao, encarou-o por alguns segundos com um estranho brilho no olhar. Por uns momentos, pareceu hesitar. Mas em seguida baixou 
os olhos e, entre soluos, respondeu com voz sumida:
       -  Romero.
       Plnio recuou aterrado. Aquilo no podia ser verdade. No Romero! No o Romero que ele conhecia, que havia ajudado e por quem seria capaz de colocar a mo 
no fogo. Desesperado, escancarou a porta do quarto e berrou o nome do rapaz. Rapidamente, todos acorreram. No apenas Romero, mas tambm Lavnia e Rafael.
       - Romero... - balbuciou o mdico, sem saber bem o que dizer. -  verdade o que Eric me diz?
       -  O qu, doutor?
       -  Diga-me que no  verdade. Diga-me que ele sonhou. Que no foi voc, foi outra pessoa.
       -  Que no fui eu o qu?
       -  Que o machucou.
       -  Eu, machucar Eric? De onde tirou essa idia?
       J agora recobrando o domnio sobre si mesmo, Plnio conseguiu expor o problema com mais calma:
       -  Algum atacou meu filho. Fez... voc sabe bem o qu.
       -  Minha nossa senhora! - foi o desabafo angustiado de Lavnia, que correu a abraar o filho, em prantos.
       -  Como! ? - espantou-se Romero. - O senhor est tentando me dizer que algum... que algum... violentou Eric?
       Plnio assentiu e respondeu agoniado:
       -  E ele diz que foi voc.
       -  Eu!? Mas isso  um absurdo! Ele s pode estar brincando.
       -  Acha que meu filho brincaria com uma coisa dessas?
       -  Eric - apelou angustiado -, diga a verdade. Eu no fiz isso a voc. Jamais lhe faria algo semelhante. A voc ou a qualquer outra pessoa. Vamos, Eric, conte 
a verdade. Diga que no fui eu.
       -  Pare de aterrorizar o menino! - interveio Rafael, irado. - J no basta o que lhe fez?
       -  Mas eu no fiz nada.
       - Ah! No? E por que Eric iria inventar uma coisa dessas, hein?
       -  No sei... No fao idia...
       -  Por favor, Eric - tornou a rogar Romero -, diga-lhes a verdade. No fui eu. Quem fez isso a voc?
       -  Ele no quer falar - objetou Rafael. - Est com medo de voc, o que  bem fcil de compreender, no ?
       -  Eric jamais sentiria medo de mim!
       - Meu filho - interveio Plnio -, no precisa ter medo. Sou seu pai e estou aqui para proteg-lo. Por isso, no tenha medo de falar a verdade. Vamos, diga-me: 
quem lhe fez isso?
       Rosto lavado em lgrimas, Eric olhou timidamente para Romero e depois para Rafael, que incentivou em tom amistoso:
       -  Vamos, Eric, pode falar. No tenha medo.
       -  Pelo amor de Deus, Eric! - insistia Romero.
       Apenas Lavnia parecia no se importar com quem havia feito aquilo. Estava to angustiada que nem conseguia pensar direito. Naquele momento, s lhe importava 
o bem-estar do filho.
       -  Vamos lev-lo a um hospital - ponderou. - Ele precisa de cuidados mdicos.
       -  Eu sou mdico, Lavnia - argumentou Plnio. - Vou cuidar dele pessoalmente.
       -  Eric ainda no respondeu  sua pergunta, Plnio - lembrou Rafael, ansioso.
       -  Ele no quer - falou Lavnia. - E isso no  o mais importante agora. O mais importante  ver se ele est bem.
       -  Vamos, Eric, fale - insistia Rafael. - Quem fez isso a voc? Foi Romero ou no foi?
       - No fui eu!
       -  Foi ou no foi? - continuava Rafael.
       Eric abaixou os olhos novamente e apertou a mo da me. Quando falou, foi em tom quase inaudvel, com profundo sofrimento:
       -  Foi... Foi Romero...
       O olhar de triunfo de Rafael teria sido detestvel, no fosse a dor que atravessou o corao de Plnio naquela hora. Ele no quis ouvir mais nada. Empurrou 
todo mundo para fora do quarto e, tentando conter as lgrimas, conseguiu convencer Eric a deixar-se examinar. No era preciso nem um exame minucioso para que fosse 
constatada a violncia. O menino estava bem machucado e chorava dolorosamente. Sentia-se envergonhado e humilhado, e nada do que Plnio fizesse poderia curar a dor 
daquele momento.
       Depois que examinou bem o filho, Plnio chamou Lavnia para que o ajudasse a se lavar e trocar de roupa. Passou-lhe uma pomada e deu-lhe um remdio, alm 
de um leve calmante. Em seguida, limpo e asseado, as roupas de cama trocadas, Eric adormeceu, com Lavnia montando guarda  sua cabeceira.
       -  O que faremos? - indagou Plnio, em busca de socorro.
       -  Faa como quiser - foi a resposta seca de Lavnia. - S no quero esse rapaz nem mais um minuto em nossa casa.
       -  Acredita mesmo que foi ele?
       -  E quem mais haveria de ser?
       -  No sei... Ainda me custa crer. No temos provas.
       -  A palavra de Eric no  prova suficiente?
       -  Tenho minhas dvidas. Eric  uma criana. Est confuso e assustado.
       Antes que Lavnia pudesse responder, seus olhos foram atrados para um pequenino objeto cado perto da cama do filho, que agora dormia tranqilo. Mais que 
depressa, ela correu a apanh-lo, e lgrimas de dio afloraram em seus olhos.
       -  Isto! - falou com raiva, exibindo-lhe a miniatura de motocicleta. - Isto  prova mais do que suficiente para mim!
       -  O que  isso?
       -  Pergunte a Romero.
       Lavnia colocou a miniatura na mo do marido e voltou para junto do filho, deixando Plnio sem entender bem o que aquilo significava. Ainda no queria acreditar 
que Romero fosse capaz de um crime como aquele, mas no podia fingir que Eric no o acusara. O menino sempre o adorara, e isso era motivo mais do que suficiente 
para no duvidar de sua palavra.
       Com muito pesar, saiu em busca do rapaz.
       -  Onde est Romero? - perguntou a Rafael, que havia permanecido do lado de fora do quarto do sobrinho.
       -  Foi para seu quarto, eu acho - respondeu em tom falsamente doloroso. -J posso entrar?
       -  Eric est descansando.  melhor deix-lo em paz.
       Saiu pelo corredor, em direo ao quarto de Romero, e Rafael foi seguindo-o.
       -  Eu bem que lhe avisei, no foi? - disse, em tom de vitria.
       -  No me amole, Rafael. No  hora para isso.
       -  O que pretende fazer agora?
       -  Ainda no pensei em nada.
       -  Creio que a nica coisa sensata a fazer  chamar a polcia e entregar o criminoso.
       -  No quero me precipitar.
       -  Precipitar-se? Voc viu o que aconteceu! -- Vi. Mas ainda no resolvi o que vou fazer.
       -  No me diga que vai deix-lo ficar. O que ele fez foi imperdovel!
       -  Ainda no tenho certeza se foi ele.
       -  Como no? Acha que Eric est inventando isso?
       -  Ele est muito amedrontado.
       -  O que  natural, no acha?
       -  Oua, Rafael - objetou Plnio, a mo pousada na maaneta da porta do quarto de Romero -, no me surpreenderia nada se descobrisse que quem fez isso foi 
voc.
       -  Eu! ? Ora, essa  boa. Isso  um ultraje, uma calnia! Entendo que voc goste de Romero e esteja decepcionado. Mas da a querer me culpar s para livrar 
a cara dele j  demais, no concorda?
       Sem responder, Plnio entrou no quarto de Romero e bateu a porta na cara de Rafael, o que o deixou ainda mais furioso. Depois de tudo, o cunhado ainda defendia 
aquele safado.
       Romero, semblante triste, colocava suas coisas numa mala e levantou os olhos quando Plnio entrou.
       -  Como est Eric? - perguntou interessado.
       -  Vai ficar bem.
       -  Fico feliz.
       -  Vai a algum lugar?
       -  Vou embora, doutor. No posso mais ficar aqui depois de ter sido acusado de algo que no fiz. Se o senhor no confia em mim, no vejo por que ficar.
       -  No se trata disso, Romero. Confiei em voc minha vida inteira. Jamais poderia imaginar que fizesse uma coisa dessas.
       -  No fiz nada, e o senhor sabe disso to bem quanto eu.
       -  Por que Eric o acusaria?
       -  No sei. Gostaria de perguntar a ele, mas, dado seu estado, no sei se seria conveniente.
       -  Gostaria de acreditar que no foi voc.
       -  Pois pode acreditar. No fui eu mesmo.
       Ele retirou do bolso a miniatura que Lavnia havia colocado em sua mo e estendeu-a para Romero.
       -  Sabe o que  isso?
       A um olhar rpido, Romero reconheceu o presente que havia comprado para Eric e respondeu:
       -   um presente. Nada demais. Comprei para Eric ontem, mas nem tive tempo de entregar.
       -  Pois Lavnia achou isso no quarto de Eric.
       -  O qu? Impossvel. Nem cheguei a lhe dar.
       -  Se no lhe deu, como isso foi parar no quarto de meu filho?
       -  No sei. Explique o senhor.
       -  No tenho explicao para isso.
       -  Nem eu.
       -  Pois devia, porque o objeto  seu. Ou no ?
       - J disse que . No tenho por que negar. Comprei-o ontem, mas, quando cheguei, Eric j estava dormindo. Por isso, no pude entreg-lo, o que faria hoje.
       -  Chegou a dar pela falta dele?
       -  S agora que o senhor me mostrou. Havia at me esquecido de que o comprara.
       -   curioso que um objeto que voc comprou na noite em que tudo aconteceu tenha ido parar junto  cama de meu filho.
       -  Curioso, .
       -  E voc tem certeza de que no sabe como isso aconteceu.
       - J disse que no.
       -  Estranho...
       -  Oua, doutor, sei o que est pensando. Que fui eu que, no meio da noite, entrei sorrateiramente no quarto de seu filho, a pretexto de levar-lhe o brinquedo 
e, no resistindo, abusei dele e o violentei. Em seguida, por descuido, deixei cair ou esqueci a miniatura no cho. No  isso?
       O mdico revirou-se na cama de Romero, onde estava sentado, e respondeu com visvel desconforto:
       -  Por mais que eu no queira,  a essa concluso que chego.
       -  E, s porque sou homossexual, o senhor acha que eu seria capaz de uma barbaridade dessas.
       - No se trata disso. No  apenas porque voc  homossexual. Mas as provas...
       -  Que provas? Essa moto? Isso no prova nada. Qualquer um poderia t-la apanhado em meu quarto e colocado l.
       -  Est sugerindo que algum incriminou voc deliberada-mente?
       -  No estou sugerindo nada. Eric mesmo podia ter acordado no meio da noite, ido a meu quarto e apanhado a moto. Mas  um caso a se pensar.
       -  Quem faria isso, Romero, quem?
       -  O senhor no imagina?
       -  Rafael? - deixou escapar, com medo at de pronunciar aquele nome.
       -  O senhor o conhece melhor do que eu.
       -  E uma acusao grave, Romero. No h prova nenhuma contra ele.
       -  Por isso, no quero acus-lo. J chega o que estou sentindo por ser acusado injustamente. No quero fazer o mesmo com outra pessoa. Mesmo que seja com 
algum detestvel como Rafael.
       -  Vocs dois no se do mesmo, no  ? Por qu ?
       -  Pergunte a ele.  ele quem vem implicando comigo desde que vim morar nesta casa.
       Romero terminou de fechar a mala e fitou o rosto dorido de Plnio. O mdico no sabia o que dizer. Queria muito acreditar nas palavras de Romero, mas estava 
difcil. Eric acusara-o formalmente, e no havia nenhum indcio de que Rafael  que fosse o culpado. E ele era irmo de sua mulher, tio de Eric. Ningum no mundo 
acreditaria que ele tivesse feito aquilo. E no era homossexual. Andava sempre bem acompanhado de mulheres bonitas, ao contrrio de Romero, que, alm de seu histrico 
de tragdias, era homossexual declarado. Todos iriam achar que ele estava reagindo ao meio social da mesma forma como fora tratado e que fazia agora com Eric o que 
antes lhe haviam feito e que o havia "viciado".
       -  Para onde voc vai? - perguntou Plnio, preocupado.
       -  Para uma pensozinha na cidade.  s o que posso pagar com o dinheiro que recebo da bolsa do estgio.
       Plnio ainda pensou em lhe dar algum dinheiro, mas mudou de idia. O rapaz ficaria ofendido, e Lavnia ficaria irritada. Romero apanhou a mala de cima da 
cama e estendeu a mo para Plnio, que no a tomou.
       -  Bem - falou com desgosto -, at logo, ento.
       -  At logo - respondeu Plnio, engolindo em seco. Da porta, Romero ainda falou, sem se voltar:
       -  Se no se importar, gostaria de saber notcias de Eric.
       -   melhor no. Lavnia pode no gostar.
       -  Entendo.
       Romero rodou nos calcanhares e saiu, fechando a porta sem fazer barulho. Plnio ficou sozinho no quarto, lutando para conter as lgrimas. O que acontecera 
ao filho j doa bastante, e ainda tinha de suportar outra dor, que era a de ver Romero indo embora daquela maneira. Mas ele no podia impedi-lo. Lavnia ficaria 
furiosa e acabaria brigando com ele. No fundo, ela at que tinha razo. Todas as provas apontavam Romero como o criminoso, e nem ele teria motivos para duvidar. 
S que, em seu ntimo, algo lhe dizia que alguma coisa no estava correta naquela histria. Fosse pelo dio que Rafael sentia por Romero, fosse pela amizade que 
unia Romero a Eric, o fato era que Plnio no conseguia acreditar que fosse ele o responsvel por aquele crime abominvel.
       Com profundo suspiro, Plnio levantou-se e voltou para o quarto de Eric. O menino dormia a sono solto, e Lavnia no estava mais ali. Ouviu vozes vindas de 
seu quarto e foi para l, onde a mulher e Rafael conversavam baixinho.
       -  Ah! Plnio - disse Rafael. - Que bom que chegou! Estvamos imaginando que providncias voc tomou contra Romero.
       -  No tomei providncia alguma.
       -  Como assim? - tornou Lavnia, abismada. - Pensei que fosse chamar a polcia.
       -  Polcia? Achei que voc no estivesse interessada no que eu faria a ele. Disse que s o que queria era que ele fosse embora daqui. E isso ele j fez.
       -  Romero foi embora? - indignou-se Rafael. - Assim, sem dar conta de seus atos?
       -  O que queria que eu fizesse, Rafael? Que o prendesse aqui? No podia. Foi ele mesmo quem quis ir.
       -  Quis fugir, voc quer dizer. Ele deve estar apavorado, com medo de que voc o entregue  polcia.
       -  Ele sabe que eu no faria nada disso.
       -  E por que no, Plnio? - objetou Lavnia, de uma forma transtornada e quase irreconhecvel. - No era voc mesmo quem vivia dizendo que os crimes sexuais 
no podiam passar impunes?
       -  Lavnia tem razo - concordou Rafael. -  seu dever noticiar o fato  polcia. Romero tem de ir preso.  uma ameaa para a sociedade.
       -  No estou bem certo se foi ele quem fez isso.
       -  Vai comear com isso de novo? - sibilou Lavnia. - J no temos provas suficientes?
       -  No tenho prova nenhuma, a no ser a palavra de Eric, que no pode ser tida como definitiva.
       -  E a moto? - tornou Lavnia.
       -  Qualquer um podia t-la colocado l.
       Disse isso e olhou fixamente para Rafael, que tratou logo de se defender:
       -  O que est sugerindo? Que fui eu?
       -   voc quem est dizendo.
       -  Acusa-me injustificadamente, Plnio. Voc est querendo me acusar s para salvar seu amiguinho. Por qu? Por que tanto interesse naquela bicha?
       -   isso mesmo, Plnio - concordou Lavnia, desconfiada. - Por que defende tanto Romero, a ponto de no acreditar na palavra de seu prprio filho e de duvidar 
do carter de seu cunhado?
       -  O que vocs dois esto querendo insinuar  uma infmia! Voc sabe muito bem, Lavnia, que sou um homem honesto em meus princpios e em meus sentimentos. 
Se fosse homossexual e tivesse algum caso com Romero, no estaria mais casado com voc!
       -  Perdoe-nos, Plnio - desculpou-se ela, j arrependida. - No foi isso que tencionamos dizer.  que estou to nervosa...
       -  Tambm estou. Mas nem por isso devemos nos comportar como irresponsveis. Temos de pesar bem as conseqncias de tudo que faremos, a fim de que no prejudiquemos 
um inocente.
       -  Voc tem razo...
       -  No se deixe levar por essa conversa mole, Lavnia - irritou-se Rafael. - O culpado  Romero, est mais que provado. E seu lugar  na cadeia!
       -  No se meta mais nisso, Rafael! - censurou Plnio, bastante irritado. - Voc no  o pai de Eric, no tem direito de dar opinio nem de perturbar a cabea 
de sua irm, muito menos de decidir como devemos proceder.
       Rafael engoliu o dio e saiu batendo a porta. No iria permitir que Romero continuasse levando a melhor sobre ele. No deixaria que aquilo ficasse assim. 
Daria um jeito de convencer Lavnia a acusar formalmente o rapaz. E rpido!
       
     Captulo 17
       
       Depois de vivenciar tantas experincias dolorosas como aquela, Plnio via-se agora na mesma situao de outros pais, que vacilavam ante a dvida de se deviam 
ou no acusar os violentadores de seus filhos. S agora conseguia entender a hesitao deles. Expor a criana quela humilhao era algo por demais doloroso, e ele 
no sabia se devia fazer o mesmo a Eric. Tinha medo das conseqncias danosas que um processo criminal daquela natureza poderia causar ao filho e temia que o trauma 
daquela violncia acabasse causando algum dano em sua mente. No seria melhor deixar as coisas como estavam e tentar esquecer? No seria melhor para o menino lev-lo 
a um psiquiatra e tentar resolver as coisas sem envolver a polcia e a Justia?
       Mas havia o culpado. Seria justo, por outro lado, permitir que continuasse livre para violentar outros meninos, para fazer a outros o mal que fizera a seu 
filho? Em situaes semelhantes, ele sempre fora o primeiro a orientar os pais a procurar ajuda da polcia. Mas, agora, no sabia... Tinha dvidas sobre o que seria 
o mais certo a fazer. O que seria melhor para o filho? No para ele ou Lavnia, mas para Eric. Pensou em consultar o menino, perguntar-lhe o que preferia, mas Lavnia 
foi veemente em suas recriminaes. O filho era ainda uma criana, dizia, e no estava apto a tomar uma deciso de tamanha responsabilidade sozinho.
       - Voc tem de denunciar esse rapaz, Plnio - dizia ela. - Ele  uma abominao! Onde j se viu fazer isso a uma criana?
       -  E se no foi ele? - rebateu Plnio, ainda incrdulo.
       -  L vem voc de novo com essa histria. Pois ento no v que foi ele mesmo?
       -  No estou bem certo.
       -  Pare com isso. No vou admitir que voc acuse meu irmo. Rafael pode ser um doidivanas, mas  um homem decente. No  nenhum pederasta.
       -  Agora voc trata Romero assim, no  mesmo? Antes, no se referia a ele dessa forma.
       Ela enrubesceu e retrucou embaraada:
       -  Antes, eu no tinha medo. Mas agora tenho.  isso o que d querer dar chance a essa gente.
       -  No v o quanto est sendo injusta, Lavnia? Romero sempre foi um rapaz direito.
       -  Ele veio de um meio que no  igual ao nosso. Onde morava antes de conhecer voc? L no subrbio, lugar de gentinha...
       -  Mas que disparate! S porque morava no subrbio, no quer dizer que a famlia de Romero era de gentinha. Eram gente direita. Gente como eu ou voc.
       -  Isso  que no! Somos pessoas de estirpe. No criamos homossexuais. E me reservo o direito de no querer que Eric seja um.
       -  Voc me surpreende, Lavnia. No sabia que era to preconceituosa.
       -  No sou. Estou apenas tentando ser mais seletiva, o que deveria ter feito quando voc resolveu trazer esse rapaz para viver aqui conosco.
       Plnio fixou-a desgostoso. No reconhecia mais a mulher. Lavnia nunca agira daquela forma. Sempre fora uma mulher doce e generosa, mas agora estava mudada. 
Teria sido por causa da dor de ver o filho magoado? Ou aquele fora o motivo que encontrara para revelar quem realmente era?
       Com uma sombra de tristeza no olhar, Plnio demonstrou sua indignao:
       -  Voc ainda tem coragem de dizer que no  preconceituosa? Pois fique sabendo que h homossexuais em qualquer classe social. A diferena  que entre os 
ricos eles so tolerados porque o que manda nas pessoas  o poder do dinheiro. Ningum tem coragem de abrir a boca para discriminar um homossexual se ele for rico 
e influente. Agora, se for gente comum, vira o bode expiatrio do mundo, no ?
       -  Mesmo os mais abastados, Plnio, viram alvo das lnguas ferinas dos fuxiqueiros. O que acontece  que ningum tem coragem de falar nada pela frente. Agora, 
por trs, a histria  outra. J cansei de ouvir comentrios maldosos sobre homossexuais endinheirados. Quando surgem em sociedade, so tratados com deferncia e 
uma quase subservincia. Mas, quando viram as costas, tornam-se o alvo preferido dos mexeriqueiros.
       -  Isso tudo  hipocrisia!
       -  Concordo que seja hipocrisia, mas  assim que as coisas funcionam. Mesmo em sociedade, isso  feio. Voc mesmo sabe que a tolerncia  muito grande porque 
ningum se atreve a criticar quem tem dinheiro. E  por isso que no quero o nome de meu Eric servindo de chacota e de divertimento nas rodas seletas dos maches 
da elite.
       -  No a estou reconhecendo, Lavnia. Jamais poderia imaginar que voc fosse assim. Sempre a julguei uma mulher sensata e de princpios. Surpreende-me com 
essas palavras mesquinhas e carregadas de preconceito.
       -  Julga-me assim porque no se importa com o que possa vir a acontecer a seu filho. Farei de tudo que estiver a meu alcance para evitar que ele vire homossexual. 
Esse infeliz episdio pode arruinar a vida de nosso filho. Por causa disso, ele pode se tornar gay tambm. E o que diro nossos amigos?
       -  Engana-se. Se Eric tiver de ser gay,  porque j , embora eu no acredite nisso. E  exatamente para defend-lo que hesito em acusar Romero.
       -  No  o que parece. Pelo visto, voc quer  defender Romero. No sei por que se tomou de amores pelo rapaz...
       -  No vamos comear com isso de novo.
       - No estou comeando nada. Eu s queria entender. Lembro-me das vezes em que voc cuidava de casos semelhantes. Chegava  casa sempre arrasado, questionando 
a atitude dos pais que se recusavam a acusar os agressores. E agora faz a mesma coisa.
       Ele sabia que ela tinha razo. Nem ele conseguia entender direito sua atitude. Estava apenas tentando proteger o filho. E Romero. Talvez sua indeciso residisse 
no fato de que no acreditasse que Romero fosse o culpado. Embora seu filho o tivesse acusado e todas as provas apontassem para o rapaz, Plnio no conseguia se 
convencer. Algo naquela histria no caa bem, e ele sabia o que era. Mas no tinha como provar. Nem para si mesmo. A exceo daquela forte intuio, no havia nada 
que comprovasse que suas suspeitas estavam certas.
       -  E eu, por minha vez, no entendo voc - retrucou ele. - Diz que est preocupada com a sociedade, porque no quer que Eric vire motivo de chacota entre 
suas amiguinhas fteis e vazias. E o que acha que vo falar de nosso filho se esse caso vier  tona? No teme a reao dos maches, nas rodas sociais, contando a 
todo mundo, em detalhes, o que lhe aconteceu? Acha que no haver risinhos? Nem ironias? Ou sugestes maldosas?
       -  De qualquer forma, algum vai acabar descobrindo. Voc sabe como so as fofocas sociais. E o que vo dizer? Que no tomamos nenhuma atitude para esconder 
as tendncias de nosso filho. E, depois, as situaes so diferentes. Uma coisa  ser vtima inocente. Outra coisa  ser pederasta por opo. Se delatarmos o culpado, 
todos vo compreender e nos apoiar, certos de que estaremos tentando limpar a honra de nosso filho. Ningum quer um joo-ningum pederasta e molestador circulando 
entre pessoas de bem.
       Por mais que Lavnia tentasse se justificar com o medo do preconceito social, Plnio sabia que aquele no era o nico motivo pelo qual ela insistia em que 
ele acusasse Romero. O real motivo de tanta insistncia era Rafael. Ele sempre tivera muita influncia sobre a irm. Mesmo quando ela o recriminava ou discordava 
dele, fazia-o com contrariedade e insegurana. Plnio tinha certeza de que Rafael enchera a cabea de Lavnia com uma poro de bobagens sobre discriminao e pederastia, 
e ela se deixara convencer porque, no fundo, era to preconceituosa quanto todo mundo. Apenas ocultara de Plnio essa faceta, inconscientemente tentando adaptar-se 
a seus princpios para agrad-lo. Mas no era essa sua natureza. Lavnia era uma mulher altamente preconceituosa, e agora havia motivos que a levavam a desvendar 
sua real personalidade.
       -  Est certo - concordou ele, por fim, contrariado e infeliz. - Se  o que quer, vou  polcia. Mas saiba que vai ser doloroso para Eric. Vai ter de passar 
por um exame de corpo de delito que no sei se ser agradvel.
       -  Ele pode suportar. J suportou coisa pior. Voc  o mdico. Vai poder ajud-lo.
       Com profundo suspiro de dor, Plnio aprontou-se para ir  delegacia.
       Antes, porm, passou pelo quarto do filho. Queria ter uma ltima conversa com o menino. Ao colocar a mo na maaneta, levou um susto, porque algum do lado 
de dentro, ao mesmo tempo, abria a porta com cuidado.
       -  Plnio! - surpreendeu-se Rafael, ao quase esbarrar com o cunhado.
       -  O que est fazendo aqui, Rafael?
       -  Vim ver como Eric est passando.
       Com certa irritao, Plnio chegou Rafael para o lado e entrou. O menino estava recostado na cama, fingindo ler um gibi, atento  antipatia que flua entre 
o pai e o tio.
       -  Deixe-me a ss com meu filho, por favor.
       O rapaz saiu revoltado, quase batendo a porta, e Plnio aproximou-se do filho. Sentou-se a seu lado e afagou seus cabelos.
       -  Como se sente? - perguntou com voz amorosa.
       -  Bem...
       - Ainda est com dor?
       -  Um pouco. Estou assado e dolorido.
       -  Vai passar. - Apanhou a mo do menino, que soltou o gibi, e prosseguiu constrangido: - Sua me insiste em que eu v  polcia.
       -  Para qu!?
       -  Quer denunciar Romero. 
       -  Oh!
       Havia tanta angstia naquela interjeio, que Plnio se sentiu encorajado a perguntar:
       -  Tem certeza de que foi Romero quem fez isso a voc? Eric no respondeu e Plnio insistiu:
       -  Tem?
       -  Tenho - respondeu o menino, com voz hesitante.
       -  Certeza absoluta?
       -  Sim...
       -  No pode estar enganado?
       -  No - falou Eric aps breve silncio.
       -  E seu tio?
       -  O que tem ele?
       -  Esteve aqui conversando com voc, no foi?
       -  Foi.
       -  O que ele queria?
       - Nada. Veio ver como eu estava passando.
       -  Oua com ateno, Eric, e responda-me sem medo: seu tio fez algum tipo de ameaa a voc?
       -  No - foi a resposta rpida.
       -  Ele o tocou?
       -  No.
       -  No foi ele quem fez isso, ao invs de Romero?
       -  No.
       - Tem certeza?
       - Tenho.
       -  No foi ele quem entrou em seu quarto na outra noite?
       -  No, no! J disse que no! Por que no acredita em mim? No foi tio Rafael quem fez isso comigo. Foi Romero! Quisera eu que no fosse, mas foi ele! Foi 
Romero, Romero!
       Eric soluava desesperado, e Plnio abraou-o:
       -  Psiu! Est bem, Eric, acredito em voc. No precisa se desesperar.
       Aos pouquinhos, o menino foi se acalmando, sentindo-se seguro nos braos do pai. Plnio ficou pensativo. Eric parecia falar a verdade. Estava arrasado, triste, 
angustiado. Sua voz era carregada de dor e ressentimento, mas parecia sincera. Teria Plnio se enganado? Seria mesmo Romero capaz de uma atrocidade daquelas? Talvez 
estivesse se enganando, no querendo enxergar o que estava bem diante de seus olhos. Talvez Romero fosse o culpado, e ele se houvesse enganado com o rapaz durante 
aqueles anos todos. As pessoas realmente surpreendiam, e ningum podia dizer o que ia no fundo da alma dos outros.
       Plnio deu um beijo na testa do filho, alisou seus cabelos e levantou-se para sair.
       -  Descanse - falou com voz sentida.
       -  Aonde voc vai?
       -  Fazer o que j devia ter feito antes. Ir  polcia.
       Eric engoliu o soluo e apanhou de volta a revista, mal conseguindo enxergar as letras, com os olhos cheios de lgrimas. Esperou at que o pai sasse e deitou-se 
na cama, afundando o rosto entre os travesseiros.
       Por que no tivera coragem de falar a verdade? Por que tinha de ser medroso, covarde? Por que no enfrentara o tio com a mesma audcia com que ele mentia 
e o ameaava?
       Entre soluos, relembrou a cena da noite passada.
       J devia ser muito tarde, porque a casa estava escura e em silncio quando ele acordou, sentindo que a cama afundava a seu lado. Abriu os olhos sonolento 
e viu o tio ali sentado, sorrindo seu usual sorriso de sarcasmo.
       -  Tio Rafael! - dissera espantado. - Aconteceu alguma coisa?
       -  No, meu querido - foi a resposta melosa, em tom de falsidade. - Ainda no.
       Sorrindo, Rafael acariciou seu rosto e seus cabelos, causando imensa repulsa em Eric, que tentou recuar. Mas o tio no o permitiu. Rapidamente, sem dizer 
nada, pulou em cima dele e tapou sua boca com a mo. Em seguida, dominando-o, virou-o de bruos e machucou-o. Foi horrvel! Eric ainda se lembrava da dor que sentira 
ao ser brutalmente violado. Ele chorava, os soluos abafados pela mo do tio, que parecia no se importar.
       Eric sentiu-se sufocar, porque Rafael apertava sua boca com fora, por vezes tapando-lhe tambm o nariz, o rosto de encontro ao travesseiro. Parecia que, 
quanto mais ele chorava, mais o tio sentia prazer com o que fazia, e,  medida que o ar ia lhe faltando, a respirao de Rafael tornava-se mais e mais ofegante. 
At que parou. Rafael afrouxou a mo sobre a boca do sobrinho e virou-o de frente para ele.
       - Nem uma palavra, ouviu? - ameaou. - Se disser algo a algum, mato-o de pancada.
       Eric no conseguia falar. Apenas chorava e soluava, enquanto o tio prosseguia ameaando:
       -  Se algum desconfiar, diga que foi Romero, aquela bicha nojenta. Est me ouvindo?
       Eric no respondeu, e Rafael esbofeteou-o de leve.
       -  Acho bom voc fazer como estou mandando, ou vai ser pior para voc. Sabe do que sou capaz, no sabe?
       O menino assentiu e ele continuou:
       -  No estou de brincadeiras. Se voc disser que fui eu, nego tudo. Ser sua palavra contra a minha. E ningum vai acreditar em voc. Muito menos naquele 
veado. Todos vo pensar que vocs esto tendo um caso e que, ao ser descoberto, voc quis me acusar. Porque  isso mesmo o que direi. Que Romero o violentou e o 
viciou, levando-o para o mau caminho. Um garotinho! Ha, ha, ha! E voc sabe o que acontece com essas bichas que molestam crianas? Elas vo presas. Vo para a cadeia, 
que  para onde Romero vai acabar indo tambm. Voc entendeu bem tudo que eu falei, no entendeu? Responda!
       -  Entendi... - respondeu Eric, ainda soluando.
       -  timo.  por isso que gosto de voc. Sempre foi um menino obediente e comportado. Agora, repita comigo: quem foi que violentou voc?
       O garoto engoliu em seco e respondeu hesitante:
       -  Romero...
       -  Muito bem! Fico impressionado com a rapidez com que voc aprende as coisas. Se fizer tudo direitinho, conforme mandei, ningum vai se dar mal. Se no fizer, 
acabo com voc e com Romero tambm. Voc duvida, Eric, que eu possa acabar com Romero?
       -  No.
       -  timo! Porque posso. Dou um jeito de acabar com ele, e ningum nunca vai ficar sabendo que fui eu. Um belo dia, ele vai ser encontrado na sarjeta, com 
a boca cheia de formiga.
       Eric sentiu um arrepio e encolheu-se todo. Achava que o tio falava a verdade. Por isso jamais gostara dele. Sempre sentira, em seu ntimo, que Rafael no 
era uma boa pessoa, apesar de a me dizer que o era.
       - No faa nada com Romero, por favor - suplicou o menino.
       -  S vai depender de voc. Se fizer tudo direitinho, conforme mandei, Romero continua vivo. Se no fizer... - Correu o dedo pelo pescoo, como se o estivesse 
cortando com uma faca. - ...j era.
       Eric levou a mo  boca, assombrado, sufocando uma exclamao de espanto, e apenas murmurou:
       -  Vou fazer como voc mandou.
       -  Pense bem, queridinho do titio - debochou Rafael. - Mais vale uma bicha presa e viva do que largada no cemitrio, voc no acha?
       Riu de sua piada sem graa e apertou a bochecha do sobrinho, levantando-se para ir embora. Quando ele j ia saindo, Eric ouviu um barulhinho, como se alguma 
coisa pequenina casse ao cho, e s no dia seguinte veio a descobrir que era a miniatura de moto que Romero havia comprado para lhe dar de presente e que Rafael 
tirara de seu quarto enquanto dormia e deixara cair propositalmente ao lado de sua cama.
       Na delegacia, o delegado tomou nota de tudo que Plnio lhe dissera, louco de vontade de pr as mos naquele safado, como chamara Romero. Pediu a Plnio que 
levasse o menino para fazer o exame de corpo de delito, assegurando-lhe que o mdico perito era homem cuidadoso e procederia ao exame sem causar maiores danos  
honra do menino. Como Plnio tambm era mdico, embora no tivesse habilitao legal para aqueles casos, poderia acompanhar o exame pessoalmente, a fim de minorar 
o sofrimento da criana.
       -  No se preocupe, doutor - disse o delegado, como se estivesse fazendo-lhe imenso bem em prender Romero -, acharemos o meliante. No sabemos para onde foi, 
mas sabemos onde estuda e onde trabalha. Haveremos de encontr-lo.
       Plnio voltou para casa com o corao oprimido, com medo de estar cometendo uma grande injustia. Quando chegou, Lavnia e Rafael estavam reunidos na sala, 
conjeturando sobre a pena que seria aplicada a Romero.
       -  O que est acontecendo aqui? - perguntou Plnio, mal ocultando a contrariedade que aquela cena lhe causava.
       -  Nada - disfarou Lavnia. - Estvamos apenas conversando. E ento? Como foi?
       Ele a encarou com desgosto e respondeu com ar cansado.
       -  Precisamos levar Eric  percia.
       -  Onde?
       -  No Instituto Mdico Legal.
       -  Voc quer dizer o IML, aquele IML? - rebateu Lavnia, horrorizada.
       -  No conheo outro.
       -  Mas voc no pode lev-lo quele lugar. Ser muito traumatizante para Eric.
       -  Foi voc quem quis assim.
       -  Mas pensei que voc mesmo fosse fazer o exame nele, acompanhado de um mdico de nossa confiana, num consultrio particular.
       -  Infelizmente, no  assim que a lei procede. O delegado mandou-me lev-lo ao IML o mais depressa possvel, sob pena de sumirem os efeitos da violncia. 
- Vendo o ar de desagrado de Lavnia, ele sugeriu: - Ainda est em tempo de desistirmos.
       Um rpido olhar de Rafael foi suficiente para que Lavnia retomasse o controle sobre si mesma e rebatesse com uma quase fria:
       -  Isso  que no! Aquele maldito tem de pagar! Venha, Plnio, vamos conversar com Eric. Voc ir junto, no ir?
       -  Sim, o delegado deu-me essa autorizao.
       -  Melhor assim. No ser to difcil, se voc o acompanhar. Se no, podemos pedir a Rafael que v em seu lugar.
       -  De jeito nenhum! - rebateu Plnio, indignado. - Eric  meu filho, e sou eu quem vai estar ao lado dele nessa hora. E, depois, creio mesmo que ele no gostaria 
da companhia de Rafael.
       Lavnia deu de ombros e foi ao quarto do filho ajud-lo a se preparar, e Rafael tambm ia saindo quando sentiu a mo de Plnio sobre seu brao.
       -  No pense que me engana, Rafael. Voc pode enganar sua irm, que  uma tola e confia cegamente no irmozinho querido. Mas eu sei quem voc  e estou de 
olho em voc.
       Com ar sarcstico, Rafael puxou o brao e falou ironicamente:
       -  No sou eu que sou a bicha. Muito menos o pedfilo.
       -  Tenho minhas dvidas.
       Rafael no respondeu. Limitou-se a soltar um risinho debochado e foi para a beira da piscina. No estava com vontade de trabalhar naquele dia e resolveu ficar 
para ver se Lavnia ia precisar dele para alguma coisa. J havia mesmo perdido a reunio da manh, e o cliente, na certa, arrumara outra firma.
       O menino arrumou-se aos prantos. Estava assustado, com medo do que iria lhe acontecer. Plnio procurou tranqiliz-lo da melhor forma que pde, embora soubesse 
que ningum saa sem marcas de uma ida ao Instituto Mdico Legal.
       Por sorte, ou talvez porque Plnio fosse mdico tambm, o exame realizado em Eric foi rpido e o menos constrangedor possvel. O mdico que o examinou no 
o submeteu a interrogatrios desnecessrios nem fez qualquer comentrio que pudesse embara-lo.
       -  Tudo bem, meu filho? - perguntou Plnio, j no carro, a caminho de volta.
       -  Tudo - respondeu Eric, choroso.
       -  Voc no precisa sentir-se envergonhado. O que lhe aconteceu foi horrvel, mas voc vai superar.
       -  Vou virar veado tambm?
       Plnio olhou-o penalizado e respondeu com compreenso:
       -  S se voc quiser.
       -  Tio Rafael diz que quem passa por isso fica viciado e vira veado.  o que vai acontecer comigo?
       Plnio mordeu os lbios e procurou esclarecer:
       -  Seu tio Rafael no sabe de nada. Ningum vira homossexual. Quem  j nasce assim.
       -  Mas tio Rafael disse que Romero ficou assim depois que foi violentado, como eu fui.
       -  Ele no ficou assim, meu filho. O atentado que Romero sofreu s serviu para despertar algo que estava adormecido dentro dele.
       -  Por qu?
       -  No sei lhe dizer. S sei que foi assim que Romero descobriu que era homossexual, no que se tornou um.
       -  Mas, se no fosse aquilo, ele jamais teria assumido o que . 
       - Talvez. Cada pessoa reage  vida  sua maneira, e Romero tambm encontraria a dele. Talvez vivesse a vida inteira infeliz sem se assumir, travando uma batalha 
impiedosa consigo mesmo. Talvez at viesse a se casar e ter filhos, s porque era isso que se esperava dele. Ou talvez ele tivesse descoberto sua homossexualidade 
de outra forma e a tivesse aceitado naturalmente. No temos como saber como cada um descobre seu caminho.
       -   errado, pai? Romero est cometendo algum pecado por ser homossexual?
       -  No, Eric. Em minha opinio, nada que acontece na vida est errado. Apesar de no ser um homem religioso, acredito numa fora maior que ns, que nos criou 
a todos e  muito mais sbia do que pensamos. E essa fora no criaria nenhum tipo de armadilha para os homens s para v-los em queda. No acredito nisso. Quem 
criou o homem criou tambm a homossexualidade, e, se a criou,  porque achou necessrio.
       -  Mame diz que no  natural.
       -  Sua me est ferida, com raiva.
       -  Ela tambm tem medo de que eu fique igual a Romero.
       -  Voc no tem de se preocupar com isso. Seja o que for que vier a ser em sua vida, ter todo o meu apoio.
       -  No quero ser como Romero, pai. Gosto das garotas.
       -  Ento, no tem com que se preocupar.
       -  Mas... e se elas no gostarem de mim? E se meus amigos descobrirem o que me aconteceu e caoarem de mim?
       -  Voc no tem culpa do que lhe aconteceu. Ningum tem. Mas no  isso que vai determinar as escolhas que vai fazer em sua vida. So as suas prprias tendncias 
e necessidades.
       -  Mas tio Rafael diz...
       -  No se impressione com o que seu tio diz. Ele  uma pessoa amarga e pouco confivel. Ainda no me convenci de que no foi ele quem fez isso a voc.
       - J disse que no foi ele! - revidou Eric com raiva.
       -  Est bem, meu filho, no precisa se zangar. Se voc diz, eu acredito. - Esperou alguns minutos e perguntou: - E Romero? O que voc sente pelo homem que 
lhe fez mal? Est com raiva dele?
       Como poderia? Romero no havia feito nada alm de ser seu amigo. Eric sentia imensa angstia pelo que estava prestes a lhe acontecer, mas lembrava-se bem 
das ameaas do tio. Temia no s por sua vida mas pela do prprio Romero. Achava que, se falasse a verdade, Rafael cumpriria a promessa e daria um jeito de mat-los, 
a ambos. Com o peito sufocado pela dor, comeou a chorar e, olhos baixos, respondeu amargo:
       - No quero mais falar de Romero.
       Plnio compreendeu sua dor e respeitou-a. Ainda no estava convencido, mas no tinha argumentos para refutar as afirmaes de Eric. Talvez ele tivesse mesmo 
razo e Romero no fosse nada daquilo que ele pensasse ser. Ou talvez Romero apenas no conseguisse controlar seus instintos. De qualquer forma, se fora ele mesmo 
quem fizera aquilo ao menino, merecia punio.
       
     Captulo 18
       
       Assim que saiu da casa de Plnio, Romero foi para o centro da cidade e alugou um quarto numa pensozinha barata. No era nenhuma maravilha, mas era limpo 
e asseado. Ajeitou suas coisas no armrio velho e recostou-se na cama, angustiado com os ltimos acontecimentos. Ningum mais do que ele lamentava a sorte do pequeno 
Eric. Como podiam pensar que fora ele o responsvel por aquele ato abominvel? Logo ele, que passara por situao semelhante?
       Pensando nisso, no pde deixar de sentir certa mgoa. Plnio jamais deveria ter acreditado naquela infmia. Ento no o conhecia? No estava a par de tudo 
que sofrer na vida? A mentira de Eric, at que podia entender. O menino estava assustado, com medo de ser castigado pelo tio. Sim, porque Romero tinha certeza de 
que fora Rafael quem fizera aquilo. Lembrava-se de que, na noite anterior, estava dormindo quando pensou ter ouvido um barulho na porta. Olhou, mas no viu nada, 
embora tivesse ficado com a sensao de que algum entrara em seu quarto, procurando alguma coisa, e sara sorrateiramente. S depois se dera conta de que Rafael 
devia ter entrado na surdina, procurando algo incriminador, e, achando o embrulhinho em cima da mesinha-de-cabeceira, tirara-o sem que percebesse. S isso justificava 
o fato de a miniatura ter sido encontrada perto da cama de Eric.
       Mas como faria para provar sua inocncia? Alm da palavra de Eric e da pequena moto, Romero era homossexual, o que, por si s, j parecia prova suficiente. 
Ningum hesitaria em acreditar que fora ele o culpado, porque um homossexual, na cabea dos ignorantes, era algum sem moral e sem carter. Ele sabia que isso no 
era verdade. Era homossexual, sim, mas no era um cafajeste. Era um homem decente. Estudava, trabalhava e s saa com rapazes adultos, responsveis por seus prprios 
atos. Jamais se interessara por crianas. No era tarado, e o corpo dos meninos no lhe despertava nenhum desejo. Como poderia? Eram crianas.
       Eric, em especial, era seu amigo, o irmo mais novo que no tivera. Ao perder Judite, Romero sentira-se mais s do que nunca no mundo. Plnio fora muito bom 
para ele, cuidara de sua educao, fora compreensivo e carinhoso. Mas Eric era mesmo seu amigo. Romero sentia-se  vontade com o menino, nutria por ele uma afeio 
sincera e desinteressada, muito semelhante  que sentira por Judite. Como puderam pr em dvida seu afeto, conspurcar um sentimento que era puro e verdadeiro?
       Apesar da decepo e do desgosto, precisava continuar vivendo. Faltavam poucos meses para se formar, e ele estava ansioso por comear a trabalhar. J estava 
providenciando residncia num hospital municipal, onde poderia ingressar na pediatria. S ento lhe ocorreu que, se algum soubesse do ocorrido, jamais confiaria 
nele para levar-lhe os filhos. Diriam at que ele escolhera aquela profisso s para poder abusar dos meninos, o que seria uma infmia. Mas era o que diriam, e ele 
no teria chances como pediatra. Comeou a sentir-se inquieto, temendo por seu futuro. Embora no acreditasse que Plnio fosse procurar a polcia, sabia que corria 
grande risco de aquela histria vazar, ainda mais com Rafael encarregando-se de espalh-la para todo mundo.
       Resolveu no pensar mais naquilo. De nada adiantaria sofrer antecipadamente. O jeito era esperar para ver o que iria acontecer e continuar tocando a vida. 
Desceu para comer alguma coisa por ali mesmo e voltou para o quarto. Tomou um banho e ligou o aparelho de televiso. Esperou um longo tempo at que a imagem aparecesse, 
em preto-e-branco e sem brilho. Passou o dia naquele quarto, sem coragem de sair para a vida, at que veio a noite e ele acabou adormecendo.
       No dia seguinte, acordou bem cedo. Precisava estar no estgio s sete horas e correu para l. Quando chegou, notou algo estranho na entrada do hospital. Havia 
um carro de polcia parado na porta, e um guarda conversava com o chefe dos estagirios. Ele hesitou e teve vontade de correr, mas ficou dizendo para si mesmo que 
aquilo nada tinha a ver com ele. Caminhou a passos vagarosos, tentando no olhar para a polcia, e foi se aproximando. Cumprimentou o chefe com um sorriso forado 
e j ia entrando quando viu que o homem apontava para ele com o queixo. Imediatamente, dois policiais o cercaram, e ele foi colocado no carro, sem muitas explicaes. 
Estava preso.
       Na delegacia, o tratamento que recebeu foi o pior possvel, chegando at a apanhar. Queriam que ele confessasse um crime que no havia cometido, mas ele resistia. 
Quando, finalmente, no agentou mais levar pancadas, assinou a confisso. Ele sempre fora fraco e faria qualquer coisa para no sentir mais tamanha dor.
       Trancafiaram-no numa cela, onde ele permaneceu por alguns dias, ao lado de prisioneiros da pior espcie. Ao saberem que ele estava sendo acusado de atentado 
violento ao pudor contra um menino de onze anos, os presos se revoltaram. Tinham um estranho cdigo de tica e no admitiam estupradores ou violentadores entre eles.
       -  Olhem s - ironizou Carlo, um dos presos mais mal-encarados -, temos uma bichinha aqui.
       Os outros presos riram e olharam para Carlo, ansiosos.
       -  Deixe-me em paz - rebateu Romero, timidamente.
       -  Ele pensa que  melhor do que ns - prosseguiu Carlo. - S porque, alm de veado,  filhinho de papai.
       -  No penso nada. No tenho nada contra vocs.
       -  Mas ns temos contra voc, bichinha. Sabe o que ?  que ns no gostamos de molestadores.
       Romero nem viu direito o que aconteceu. Rapidamente os homens se aproximaram dele e o seguraram, deitando-o no cho frio e spero da cela. Rasgaram suas roupas 
e o violentaram. Ele ficou aterrado. Chorava e implorava que o largassem, mas os homens no ligavam para sua angstia. Para eles, estavam vingando a sorte do pobre 
menino, fazendo a Romero o que ele impiedosamente fizera ao pobre garotinho.
       Esse fato se sucedeu por mais alguns dias. Os homens, revoltados, aproveitavam para saciar seus instintos em Romero, sob o pretexto de serem justiceiros. 
Na verdade, queriam apenas sentir prazer com o sexo violento e sdico. Nas primeiras vezes, Romero chorou muito. Mas depois acabou se acostumando e parecia no ligar 
mais. Suportava tudo com extrema passividade, quase que com apatia, o que acabou desinteressando Carlo e os outros presos. Finalmente, deixaram-no em paz.
       O inqurito foi muito rpido, e logo o advogado de Plnio havia ingressado com a queixa-crime. Como Romero no tinha recursos, foi designado um defensor pblico 
para o caso. No dia seguinte ao ajuizamento da ao, ele foi visitado por uma moa de vinte e oito anos, dizendo-se sua defensora naquele caso.
       -  Muito prazer - cumprimentou ela secamente, colocando  sua frente os autos do processo de Romero. - Meu nome  Maria da Glria Soares Pimenta e fui designada 
para ser sua defensora.
       Romero olhou-a incrdulo e contestou envergonhado:
       -  Olhe, doutora, no me leve a mal, mas no acha que, para meu caso, seria melhor um homem mais velho e experiente?
       Maria da Glria fitou-o por cima dos culos de aro de tartaruga e respondeu com firmeza:
       -  Para quem afirma aqui ser vtima do preconceito, at que o senhor est me saindo um belo de um preconceituoso, no acha?
       O rosto de Romero corou violentamente, e ele comeou a balbuciar:
       -  Sinto muito... No queria ofend-la. Perdoe-me mesmo. Mas  que uma mulher...
       -  Romero - cortou ela impaciente, sem lhe dar tempo de concluir sua frase -, no sei bem o que aconteceu neste caso. S o que sei  que voc est sendo acusado 
de violentar o filho de gente importante. Voc  homossexual, j sofreu abuso antes, e as provas a seu favor no so das melhores. No creio que voc seja a pessoa 
mais indicada para julgar quem quer que seja.
       Romero sentiu as orelhas arderem e teve vontade de pedir quela mulher que sasse e o deixasse sozinho. No precisava ser defendido por algum to arrogante. 
E, depois, estava na cara que ela tambm j o havia condenado, antes mesmo de o conhecer.
       -  No quis ser grosseiro nem a estou julgando - desculpou-se ele, cada vez mais ruborizado. -  que pensei que cargos como esse fossem dados apenas a homens 
mais experientes.
       -  Pois pensou errado. Estou formada h sete anos e, h trs, sou defensora pblica. E ningum me deu esse cargo. Fui aprovada em concurso pblico.
       -  Peo desculpas novamente por t-la ofendido - repetiu ele com certa raiva, o que no era comum em seu comportamento. - No quis ofend-la, mas, se a senhora 
j vai comear a me defender com essa antipatia toda, achando que sou mesmo culpado, acredito que no dar muito certo.
       -  Quem foi que disse que eu o acho culpado?
       -  E no acha? Acabou de me acusar agora mesmo.
       -  Eu o acusei? No me lembro de t-lo acusado de nada.
       -  A senhora mesma disse que eu violentei o filho de um homem importante porque sou homossexual e porque j fui violentado tambm. Isso no  uma acusao? 
Ou melhor, um julgamento precipitado?
       Ela tirou os culos do rosto e fixou os olhos dele, falando com muita segurana:
       -  Em primeiro lugar, no o acusei de nada, muito menos o estou julgando precipitadamente. Em segundo, eu no disse que voc violentou o menino porque  homossexual 
e porque tambm j foi violentado. Disse que voc  acusado de ter violentado o garoto, que  homossexual e que j sofreu abuso sexual antes. Falei alguma mentira?
       Romero corou de novo e tornou envergonhado:
       -  Peo que me perdoe novamente. Mas achei que a senhora pensasse como todo mundo.
       -- Quem pensa como todo mundo  voc. Pensa que, s porque  homossexual, ningum vai acreditar em sua palavra. Est sendo preconceituoso com voc mesmo.
       -  No  verdade! Sei que sou inocente, apesar de ter assinado uma confisso.
       -  Aquela confisso no tem valor jurdico nenhum.  muito fcil desacredit-la em juzo, porque todo mundo sabe como so obtidas as confisses.
       -  Est me dizendo que acredita em mim?
       -  No estou dizendo nada. Mas que mania voc tem de querer adivinhar tudo que penso!
       -  Desculpe-me.
       -  Bem, voltando ao caso, vamos esquecer a confisso. Ela no  prova suficiente.
       -  Doutora - interrompeu Romero, agora com certo tom de angstia, e ela o olhou impaciente -, perdoe-me por perguntar. Mas tenho mesmo de ficar preso aqui? 
Este lugar  horrvel. E os presos... fizeram-me tantas coisas...
       Engoliu em seco e acabou por deixar escapar um soluo, sensibilizando imensamente o corao de Maria da Glria. Ela sentiu tremenda piedade dele, de sua fragilidade, 
do caminho que escolhera para sua vida, que o tornara culpado apenas por ser homossexual. S naquele momento foi que se deu conta do que os outros presos lhe haviam 
feito e sentiu compaixo, no porque estivesse sendo preso e acusado, pois ela no sabia ainda se ele era inocente ou culpado, mas pela imensa injustia por v-lo 
atirado ali unicamente pelo fato de ser homossexual. Ele era uma alma sensvel, podia perceber, e devia estar sofrendo muito com tanta brutalidade.
       -  Fique tranqilo - falou com mais brandura. - Irei daqui direto ao juiz com um pedido de habeas corpus. Voc  ru primrio, estudante de medicina, embora 
sem endereo fixo.
       -  Estou morando numa penso.
       -  Vai servir. Bem, acho que isso  motivo mais que suficiente para voc ser solto. Desde que no fuja...
       -  No vou fugir. Pode confiar em mim.
       Naquele momento, um sentimento mais profundo comeou a nascer entre Romero e Maria da Glria. Ela sentia que podia confiar no rapaz. Entrara ali com certa 
preveno, imaginando que monstro poderia ter feito algo to terrvel a um garotinho. Mas, conhecendo-o, duvidava de que ele fosse mesmo culpado. Ele parecia to 
frgil, to sensvel! Como algum com aquela aura de sensibilidade poderia ter violentado uma criana? Resolveu que estudaria melhor o caso, em vez de preparar uma 
defesa formal e impessoal. Se Romero fosse inocente, ela queria descobrir. Se no fosse, deixaria a Justia agir a seu modo.
       
     Captulo 19
       
        No astral, Judite assistia a tudo com o corao oprimido. No fosse Fbio a seu lado, no teria conseguido manter-se em equilbrio. Mas o esprito amigo 
ia encorajando-a e fazendo-a lembrar-se, a todo momento, de que nada na vida acontece em vo.
       -  Mas isso era necessrio? - questionava ela, ainda tentando encontrar um meio de aliviar o sofrimento do irmo.
       -  Bem... sim e no. Nada que acontece no mundo  desnecessrio. Por outro lado, Romero poderia ter optado por outros caminhos. Mas nada melhor do que a experincia 
para nos fazer conhecer e compreender os efeitos de nossos atos.
       -  Tem razo. Mas ele est sofrendo tanto!
       -  Sofre o que escolheu para si mesmo. Foi a opo dele, no para que sofresse, mas para que compreendesse. S que ns, quando encarnados, estamos presos 
ao sentir da carne e medimos nosso sofrimento pelo que a atinge, seja fsica, seja emocional, seja mentalmente.
       -  Como assim?
       -  Fisicamente, reagimos  dor. Pancadas, escoriaes, mutilaes. Emocionalmente, sentimos tristeza, saudade, culpa, rejeio. Mentalmente, retemos lembranas 
difceis, criamos iluses e mscaras de comportamento para levarmos avante a personalidade que nos foi dada nessa vida. Tudo isso, embora se processe em nveis distintos 
de nossa conscincia, acaba por refletir-se em nosso corpo fsico. Tanto que adoecemos.
       -   verdade...
       -  E isso porque no conseguimos enxergar alm do mundo material. Quando conseguimos ver com os olhos da alma, vamos entendendo nossos processos. Para Romero, 
nesse momento, ele  vtima de uma trama e de uma injustia. Para sua alma, ele apenas est acionando a roda da vida, fazendo com que se cumpra mais uma etapa em 
sua jornada de luta pela evoluo. E, creia-me, Judite, nada acontece que no tenha sido escolhido ou aceito por ele. Porque ele quis, porque desejou, porque acreditou 
ser essa a melhor forma de aprender. Nada lhe foi imposto nem exigido. Ningum quis castig-lo nem o incentivou  autopunio. Foram suas culpas, seus medos, seus 
dios que o fizeram escolher essa experincia. E seu desejo de mudar.
       -  Pobre Romero...
       -  No diga isso. Ningum  pobre quando est ganhando valiosos ensinamentos morais. Tudo que acontece  para nosso bem, se no nesta, em outra vida. Porque 
ningum consegue escapar da vida espiritual. E  l, quando deparamos com o que somos e com quem somos, que temos de acertar contas com nossa conscincia.  ela 
que vai determinar o que j vencemos e o que ainda no.
       -  Sei que tudo na vida tem um porqu. Sei tambm que ningum sofre por acaso. Sei de nossas escolhas e de tudo o mais. Mas Romero  meu irmo. Sinto pena 
dele.
       -  Pois no devia. Por que sentir pena de quem est crescendo? Agora pode no parecer, mas depois voc ver os resultados. Quando ele se libertar das culpas 
que traz, do antigo vcio da pedofilia, da total ausncia de respeito por seus semelhantes, voc me dir se valeu ou no a pena. Nada como ser livre, Judite. E s 
seremos inteiramente livres quando nosso corao no se confranger mais diante das lembranas. No dia em que pararmos e olharmos para dentro de ns mesmos, evocando 
recordaes de tempos idos, e isso no nos incomodar, a, sim, j teremos nos libertado e estaremos prontos para viver novas experincias em outros mundos. - Fez 
uma pausa e mudou o tom de voz: - Mas ainda h outros espritos sofrendo verdadeiramente, porque atirados num lamaal de dor por sua ignorncia e relutncia em crescer.
       -  Quem? Algum que eu conhea?
       -  Sim. Algum que voc conheceu de perto. Quer ver quem ?
       -  No me diga que meu pai ou minha me desencarnaram!
       -  No, seus pais vo muito bem, nos padres que estabeleceram para si mesmos.  a outra pessoa que me refiro.
       -  Quem ? Quero v-la.
       -  Ento, venha comigo. Mas devo alert-la de que iremos adentrar o mundo inferior, onde alguns espritos ignorantes permanecem em profundo sofrimento.
       Em questo de segundos, Judite viu-se numa caverna, no astral inferior, onde vrios espritos pareciam amontoados, gemendo, olhos vidrados. Alguns pareciam 
disputar alguma coisa, outros riam abobalhados.
       -  Mas o que  isso? - sussurrou horrorizada, agarrando-se ao brao de Fbio.
       -  No se preocupe. Eles no podem nos ver nem ouvir. Caminharam por entre aqueles corpos semimortos, at que
       chegaram a uma espcie de vala, onde alguns espritos tossiam, como se estivessem engasgados com alguma coisa.
       -  O que eles tm? - indagou, entre aterrada e penalizada.
       -  So espritos que desencarnaram em conseqncia das drogas e do lcool.
       -  Todos eles?
       -  Todos eles.
       Nesse momento, Fbio avistou quem estava procurando. Jogado a um canto da vala, com uma seringa agarrada na mo, Jnior debatia-se. Judite fitou-o horrorizada. 
Mal o havia reconhecido.
       -   Jnior! - exclamou, mais para si do que para Fbio. - Mas ele est muito mal!
       -  Muito mal mesmo. Ainda nem sabe que morreu.
       -  Depois desses anos todos, ainda permanece na ignorncia?
       -  Sim. E, oferecendo-lhe drogas como recompensa, alguns espritos se utilizam dele.
       -  Como assim?
       -  Pedem que ele perturbe encarnados. Como ele est num estgio de quase demncia, nem se d conta direito do que est fazendo.  levado de um lado a outro 
feito um autmato. Colocam-no junto a algum encarnado que queiram prejudicar, e ele fica ali, sugando as energias da pessoa. Depois, como pagamento, do-lhe a droga 
que o mantm.
       Judite sentiu imensa pena de Jnior. Naquele momento, pouco importava que fosse ele quem lhe houvesse tirado a vida. Sentiu o corao apertar-se e segurou 
a mo de Fbio, contendo nos olhos as lgrimas de compaixo.
       -  No podemos ajud-lo?
       -  Voc pode. 
       -  Eu?!
       -  Foi a culpa por hav-la assassinado que o colocou assim. Foi por remorso que ele aplicou aquela dose e se matou.
       -  Ele quis se matar?
       -  Intencionalmente, no. Mas assumiu o risco e responde como suicida.
       -  O que posso fazer para ajud-lo?
       -  Por enquanto, reze por ele. Envie-lhe vibraes de amor e de perdo. Faa-o sentir que voc no o odeia, que no lhe quer mal. S quando ele acreditar 
em seu perdo  que conseguir sentir-se digno de perdoar-se a si mesmo tambm.
       -  No sei se posso fazer isso. No me sinto capaz.
       -  Voc ainda no o perdoou? Seja sincera.
       - J. Se no o tivesse perdoado, no estaria to condoda.
       -  Pois, ento,  o que basta.
       -  No estou preparada para isso.
       -  Estamos sempre preparados para agir em nome do amor. Para ajudar, basta querer.
       Voltaram  colnia espiritual. Judite estava impressionada. Jamais vira tanto sofrimento. Perto daqueles espritos, Romero at que no estava to mal. Podia 
estar sofrendo tambm, mas nada que no houvesse sido programado como parte de seu plano de crescimento. E, depois, estava assistido. Fbio estava sempre a seu lado, 
dando-lhe passes, encorajando-o com sonhos e pensamentos otimistas. Mas e Jnior? No tinha ningum por ele.
       - Jnior no tinha famlia? - perguntou Judite de repente.
       -  No. O pai era um bbado e morreu cedo, atropelado. A me largou-o aos cuidados de uma tia e sumiu no mundo. Quando a tia descobriu que ele era homossexual, 
fez como seu pai fez com Romero e expulsou-o de casa. Jnior viu-se sozinho aos dezesseis anos. Virou garoto de programa, fez alguns biscates, arranjou uns. empreguinhos 
suspeitos e de baixa remunerao. At que aconteceu o que aconteceu.
       -  Pobre rapaz... No   toa que virou marginal.
       - V, Judite, como nada acontece por acaso? Muitas vezes nem precisamos voltar a outras vidas para encontrar a causa de nossos infortnios. E ento? Est 
disposta a ajud-lo?
       -   claro que sim. Farei o que puder.
       -  timo. Fico feliz.
       Como precisava esperar que Jnior aceitasse sua ajuda, s o que Judite podia fazer por ele era enviar-lhe vibraes de amor, de paz, de coragem e, acima de 
tudo, de perdo. Todas as manhs, aproveitando a energia renovadora do sol nascente, Judite sentava-se no jardim e irradiava para Jnior um pouco daquela luz.
       E para Romero tambm.
       
     Captulo 20
       
       No mesmo dia em que Maria da Glria visitara Romero na priso, ele fora solto. O juiz acatou o pedido de habeas corpus, pois ele era primrio e tinha bons 
antecedentes, e Romero viu-se novamente livre. Nunca antes dera tanto valor  liberdade como naquele momento. Sentiu que era a coisa mais importante em sua vida 
e, estimulado por Judite e Fbio, decidiu que no deixaria de lutar por si mesmo. Afinal, no fora ele quem fizera aquilo. No tinha de se entregar ao desnimo por 
estar sendo acusado de um crime que no cometera.
       De volta  penso, tomou um banho e foi descansar. Precisava estar apresentvel quando reaparecesse no estgio. A bolsa era pequena, mas era s com o que 
podia contar. No dia seguinte, arrumou-se todo e partiu para o hospital. Entrou acabrunhado, temendo a reao das pessoas, e foi caminhando direto para seu posto, 
na pediatria. O mdico encarregado dos estagirios daquele setor cumprimentou-o com ar de espanto, pediu licena e saiu. Voltou pouco depois, em companhia do diretor 
do hospital.
       -  Voc  Romero Silveira Ramos? - perguntou o diretor, com cara de poucos amigos.
       -  Sou - foi a resposta lacnica de Romero.
       -  Venha comigo.
       Romero seguiu-o em silncio, sentindo os olhares de recriminao dos colegas e dos enfermeiros. Entrou em seu gabinete e sentou-se na poltrona que ele lhe 
indicara.
       -  No sou homem de fazer rodeios - comeou o diretor, carrancudo. - Por isso, vou direto ao ponto. Seu caso j  conhecido de todos aqui, e no creio que 
seja conveniente mant-lo a servio deste hospital.
       -  Mas, doutor...
       -  No me interrompa, por favor. Ainda no terminei. - Romero sentiu as orelhas em fogo e baixou os olhos, enquanto o diretor prosseguia: - No sei como uma 
coisa dessas foi acontecer justo em meu hospital. Mas no posso permitir que algum como voc mantenha contato com as crianas que so atendidas aqui.
       -  Doutor! - protestou Romero, indignado. - No sou um monstro! Jamais tocaria numa criana.
       -  No  o que parece.
       - No aconteceu nada entre mim e aquele menino. Posso lhe assegurar. Gosto de crianas, jamais lhes faria qualquer mal.
       - Ah, no? - ele meneou a cabea. - Nega que  homossexual?
       -  No sei o que tem isso a ver... - revidou ruborizado.
       -  Tem tudo a ver! Se voc no fosse um pederasta, no estaria sendo acusado de ter molestado um menino.
       -  O senhor tem razo. Se eu no fosse homossexual, ningum pensaria em me acusar. Como sou, virei o culpado de todas as perverses do mundo.
       - No se faa de vtima. Ningum mandou gostar de transar com garotinhos.
       -  Eu no transo com garotinhos! - objetou veemente, vermelho feito um pimento. - No sou nenhum marginal. Sou uma pessoa decente!
       -  Olhe, Romero, no quero entrar em discusses sobre o que  ou no ser decente. Mas o fato  que voc  homossexual declarado e est sendo acusado de ter 
violentado o filho de um mdico. Como espera que algum confie os filhos a seus cuidados?
       J havia comeado. O preconceito estava atirando sua rede, e o primeiro peixe a cair nela fora sua profisso. Em poucos segundos, Romero vislumbrou sua to 
sonhada carreira de pediatra ir por gua abaixo. O diretor tinha razo. Ningum, em s conscincia, levaria seus filhos para ele cuidar. Teriam medo de que ele se 
aproveitasse de sua condio de mdico e molestasse os meninos.
       -  Vai me mandar embora? - sussurrou vencido.
       -  Diante das circunstncias,  a nica coisa sensata a fazer. Voc vai se tornar um mdico! Devia pensar nisso e dar-se mais ao respeito. Voc h de convir 
que j no fica nada bem um mdico pederasta. Que dir pederasta e pedfilo!
       -  Doutor... - suplicou, a voz embargada. - No faa isso, por favor. Preciso desse emprego para sobreviver.
       -  Ora, vamos, meu rapaz. Isso nem emprego . E apenas um estgio.
       -  Mas a bolsa  razovel. Estou me mantendo com ela.
       -  No, no, sinto muito. No  possvel.
       -  Mas, doutor, o que vou fazer de minha vida? Fui solto porque estou estudando, tenho esse estgio e arranjei uma pensozinha barata para morar. E se o juiz 
mandar me prender de novo?
       -  No quero parecer insensvel, mas isso  um problema que voc mesmo ter de resolver. No  por culpa minha que voc est nessa situao. Cada um deve 
responder pelos seus atos.
       -  Mas eu no fiz nada!
       -  Isso  a Justia que ir decidir.
       -  De que adianta a Justia, doutor? O senhor j me condenou. O senhor e todo mundo. S porque sou homossexual, acham que no presto. Mas no  assim. Sou 
um homem honesto, cumpridor de meus deveres, incapaz de fazer mal a quem quer que seja. Eu sei que sou assim. E o senhor no acredita em mim s porque sou homossexual. 
No sou doente nem tenho nenhum tipo de peste.
       -  Pense como quiser, meu rapaz. Mas aqui voc no fica mais. Passe no departamento pessoal e apanhe o resto de sua bolsa. E, para no dizer que no sou generoso, 
mandei que lhe pagassem a bolsa integral. Embora no tenha trabalhado o ms todo, vai receber como se tivesse.
       Romero olhou para o diretor com profundo desgosto. No fundo, ainda esperava que ele agradecesse pela sua generosidade. Mas Romero apenas balanou a cabea 
e saiu. J se humilhara demais. Ainda assim, aceitou o dinheiro que ele lhe dera. No era muito, mas Romero no estava em condies de recusar nenhuma ajuda.
       Comprou o jornal a caminho da penso e abriu-o, procurando nos classificados algo que lhe servisse. Havia poucos anncios naquele dia, porque no era domingo. 
Depois de dar uma topada no meio-fio, fechou o jornal e fez o resto do caminho em silncio.
       Mais tarde, foi at a faculdade e trancou a matrcula. Estava no ltimo semestre, mas Romero no sabia se conseguiria enfrentar os olhares do resto da turma. 
Nunca fora uma pessoa popular e no tinha muitos amigos. Pensou em sua famlia, tentando imaginar se eles j saberiam do ocorrido.
       Ao receber a notcia, Nomia chorara desconsolada, mas Silas nem queria ouvir falar no nome do filho. Sentia cada vez mais dio por ele ter se tornado aquela 
aberrao, como dizia. Apesar do medo, Romero resolveu ligar. Escolheu uma hora em que sabia que o pai no estaria e telefonou.
       -  Al?
       Era a me. Ele podia reconhecer sua voz cansada.
       -  Me? Al, me! Sou eu, Romero.
       Por uns instantes, Romero achou que ela ia desligar. Nomia no respondera nada, e ele pensou que ela no queria falar com ele. Decepcionado, insistiu:
       -  Me, sou eu, Romero, seu filho.
       -  Sei quem  Romero - respondeu ela por fim, e Romero no saberia dizer se sua voz era de raiva, frieza ou medo.
       -  Fale comigo, me.
       -  Voc sumiu. H anos que no o vejo.
       -  O que voc queria? Papai me expulsou de casa.
       -  Por que resolveu aparecer agora?
       -  Preciso de voc. Estou encrencado.
       - J sei. Seu pai tem um conhecido que trabalha no frum e tratou logo de vir contar a novidade.
       -  Por favor, me, me ajude. Estou arrasado.
       -  Por que fez aquilo, Romero? Por que no seguiu meu conselho e virou um rapaz direito? Viu no que deu?
       -  No fui eu, me. No fiz aquilo.
       -  No d para acreditar. Voc ...
       -  Sou homossexual, me, no sou tarado nem criminoso. Quantas vezes tenho de repetir isso?
       -  O que voc quer?
       -  Preciso de ajuda. Estou quase sem dinheiro.
       -  Lamento, meu filho, mas no posso ajud-lo. Seu pai no quer. Nesse momento, o esprito de Judite aproximou-se, atrado
       pelos pensamentos da me, que lamentava a perda dos dois nicos filhos. Fbio, que vinha junto, aproximou-se dela e deu-lhe um passe revigorante, e Judite 
soprou ao seu ouvido:
       -  Ajude-o, me. Ele  seu filho.
       Recebendo as sugestes da filha como seus pensamentos, Nomia respondeu:
       -  Gostaria de ajud-lo, Romero. Mas seu pai...
       -  Papai no precisa saber - prosseguiu Judite.
       -  No precisa contar a ele - retrucou Romero.
       -  Mas e se ele descobrir?
       - No vai descobrir - falou Romero, quase suplicando.
       -  Se descobrir, diga que agiu seguindo seu amor de me - orientou Judite.
       -  No sei...
       -  Por favor, me! - implorava Romero. - Meu dinheiro est acabando. Preciso sobreviver.
       -  Devia ter pensado nisso antes de fazer o que fez.
       -  Mas no fui eu! No fui eu! Por que ningum acredita em mim? S Judite. Se Judite estivesse viva, aposto como acreditaria em mim!
       -  Eu acredito nele, me - confirmou Judite. - Por que voc tambm no acredita? E, mesmo que ele fosse culpado, no  seu filho? Ao aceitar receb-lo como 
filho, no aceitou tambm todas as responsabilidades de me? No se comprometeu a cuidar dele e orient-lo pela senda do bem? E, depois, ajud-lo no significaria 
compactuar com seus atos, ainda que ele tivesse feito isso. Voc  me. No deveria am-lo acima de tudo e pelo resto da vida?
       A saudade de Judite fez com que Nomia quase que ouvisse as palavras da filha. Sentia, em seu corao, a splica de ambos os filhos. No sabia que a moa 
estava ali a seu lado, embora pudesse sentir sua presena.
       -  Pelo amor de Deus, me! - Romero comeava a chorar. - Estou implorando. S desta vez, ajude-me!
       -  Ajude-o, me - insistia Judite tambm. - Ver como isso lhe far bem.
       -  Me! Diga alguma coisa, me! Por favor!
       Romero chorava muito, e o corao de me de Nomia falou mais alto.
       -  Est certo, meu filho - concordou por fim. - Diga-me onde est, e eu irei at a. No quero que seu pai nem desconfie de uma coisa dessas.
       Ainda chorando, Romero deu-lhe o endereo da penso. Ela anotou no caderninho e arrancou a folha, para que Silas no descobrisse.
       -  Amanh, assim que seu pai sair para o trabalho, tomarei um nibus e irei a. Vou lhe arranjar algum dinheiro.
       -  Obrigado, me - soluou Romero, agradecido.
       Desligaram, e Judite beijou a me no rosto. Nomia no sentiu o beijo, mas a saudade que sentia da filha intensificou-se. Olhou o papelzinho que tinha nas 
mos e pensou em Romero. Por que tivera de perder os dois filhos de uma vez?
       Assim que Silas saiu para o trabalho, Nomia vestiu-se e preparou uma cesta de comida para o filho. Passou primeiro na Caixa Econmica Federal e sacou algum 
dinheiro da caderneta de poupana que ela e o marido tinham em conjunto. Em seguida, tomou um nibus e foi para a penso em que Romero se encontrava. Ele a estava 
esperando embaixo, na rua, e correu em sua direo logo que a viu, levantando-a no alto com um abrao.
       -  Me - murmurou enternecido, a voz embargada de emoo. - Como senti sua falta!
       Ela acariciou seu rosto, em lgrimas, e respondeu emocionada:
       -  Como voc cresceu! E que rapaz bonito ficou! Pena que est um pouco magrinho...
       Romero beijou-lhe a mo e puxou-a para a penso, subindo com ela para seu quarto. Ela estudou o lugar com olhar crtico, mas no fez nenhum comentrio. Judite, 
a seu lado, em silncio desencorajava-a de comentrios desestimulantes. Em uma mesa, colocou a cesta e dela retirou o que levara. Um pouco de frango assado com farofa, 
po, um pedao de queijo, algumas frutas, uma garrafa de suco e um bolo de laranja que assara na vspera e escondera na cristaleira da sala, para que Silas no o 
visse.
       -  Isso tudo  para mim? - perguntou incrdulo.
       -  Imaginei que no estivesse se alimentando direito.
       Ela tinha razo. Foi s quando se sentou e experimentou um pedao do frango que ele percebeu o quanto estava faminto. Havia dias no comia nada decente e 
devorou o frango com farofa. Comeu uma banana de sobremesa e guardou o resto.
       -  Vou guardar para depois. No sei quando terei chance de ver comida de verdade outra vez.
       -  Por qu, Romero? - perguntou ela, lutando para conter as lgrimas. - Por que teve de fazer isso ?
       -  No fiz nada, me. No fui eu.
       -  Mas o menino falou que sim...
       -  Ele estava assustado. Falou o que mandaram.
       -  Quem? Quem o mandou falar uma barbaridade dessas?
       -   o que vou descobrir.
       -  Ah! Romero, Romero. Por que no seguiu meus conselhos? Por que no largou esse vcio e voltou para sua famlia? Voc ficou um rapaz muito bonito. Podia 
se casar, ter filhos, levar uma vida normal.
       Ele baixou os olhos e suspirou com tristeza. A me no conseguia entender. Jamais entenderia que casar e ter filhos, para ele, no seria uma vida normal.
       -  No tenho nenhum vcio, me - afirmou baixinho.
       -  E fazer o que voc faz com outros homens no  um vcio?
       - No, me.  s uma preferncia.
       -  Pois essa preferncia no  saudvel.
       -  Est bem, me. No quero discutir.
       Apesar de desapontado com a incompreenso da me, Romero estava feliz porque ela viera. J no se sentia to s. Embora Nomia nunca tivesse sido uma me 
decidida, jamais deixara faltar-lhe nada. Sempre fora carinhosa e atenciosa. Seu mal era que morria de medo do marido.
       Aps alguns minutos, Nomia suspirou e observou:
       - J est ficando tarde. Preciso ir. No quero que seu pai d pela minha falta.
       -  Quando vir de novo?
       -  No sei. Quando precisar de algo, ligue para mim. - Tirou o dinheiro da bolsa e colocou-o na mo dele. - Aqui est o dinheiro que me pediu. No  muito, 
mas foi o que deu para arranjar.
       -  Como voc conseguiu tanto assim? - tornou ele, espantado com as notas que virava em seus dedos.
       -  Saquei da poupana. -Me!
       -  Seu pai no pode nem desconfiar. Sabe como ele  com aquele dinheiro. So as nossas economias.
       Ele a fitou agradecido e correu a dar-lhe um beijo no rosto.
       -  Voc  um anjo, me.
       -  No sou, no. Sou apenas sua me.
       Ela acariciou-o novamente e levantou-se. Desceram juntos, e Romero acompanhou-a at o ponto de nibus. Estava mais tranqilo. Aquela visita o confortara muito 
mais do que a comida e o dinheiro que ela lhe levara, porque ela lhe dera aquilo de que mais necessitava naquele momento: amor.
       Dois dias depois, Romero teve de comparecer  primeira audincia de seu caso. Maria da Glria j havia chegado e aguardava-o.
       -  Como est, Romero? Nervoso?
       -  Um pouco.
       -  Pois no h com o que se preocupar. Voc teve sorte: o juiz Vitorio  muito humano.
       -   preconceituoso?
       -  No sei. Vamos descobrir agora.
       Romero entrou cabisbaixo. Sentado a uma mesa, imponente, o juiz parecia-lhe Deus.  sua direita, um homem feio e carrancudo olhou-o com desdm, e Maria da 
Glria explicou que aquele era o promotor.
       -   ele que vai me acusar? - quis saber Romero.
       -  No. Ele s vai acompanhar o caso. Quem vai acusar voc  o advogado do doutor Plnio, o doutor Antero Nunes.
       Do outro lado da mesa, Plnio estava sentado ao lado do advogado, que Maria da Glria cumprimentou com um aperto de mo.
       Sentaram-se, Romero evitando encarar Plnio. Foi quando Fbio se aproximou e soprou em seu ouvido:
       -  No tenha receio de olhar para ele, Romero. Voc no fez nada.  inocente. No precisa evitar seu olhar.
       Romero achava que aquele pensamento lhe aflorara espontneo e concordou consigo mesmo. Ergueu os olhos, hesitante, e fitou Plnio de frente. O mdico, sentindo 
o seu olhar, virou-se para ele e devolveu-o. Sentiu o corao enternecer-se e quase sorriu. Romero parecia-lhe um menino assustado e triste. Era to frgil, com 
ar inocente e gentil. Como poderia ter feito uma coisa daquelas?
       Quando a audincia comeou, terminados os procedimentos preambulares, o juiz pediu a Romero que lhe contasse tudo que havia acontecido naquela noite.
       -  Cheguei da faculdade - comeou ele -, e Dona Lavnia estava na sala. Ela foi esquentar o jantar para mim, e eu lhe mostrei uma miniatura de motocicleta 
que havia comprado para Eric. Depois do jantar, fui para meu quarto. Tomei um banho e fui dormir.
       -  S isso? - tornou o juiz.
       -  Que eu me lembre, s.
       O juiz havia se dado por satisfeito, e o advogado de Plnio fez-lhe algumas perguntas tambm. Por fim, chegou a vez de Maria da Glria.
       -  Excelncia, gostaria que o senhor Romero nos dissesse onde
       colocou a miniatura.
       -  Pode responder  pergunta - disse Vitorio a Romero.
       -  Na mesinha-de-cabeceira. Queria d-la a Eric no dia seguinte.
       - Tem certeza de que no a entregou naquele dia? - era Maria da Glria novamente.
       O juiz olhou para ele, que respondeu:
       -  Absoluta.
       -  E como acha que ela foi parar no quarto de Eric?
       -  Como? - repetiu o juiz.
       -  Algum a pegou.
       -  Quem? - foi o prprio juiz quem perguntou. - Quem voc supe que possa ter feito isso?
       -  No sei.
       -  No sabe ou no quer dizer?
       -  No tenho certeza.
       -  Diga assim mesmo - incentivou o juiz.
       Romero olhou para o advogado de Plnio. O mdico havia se retirado da sala, de modo que no ouvisse seu depoimento.
       -  Fale, Romero - estimulou o esprito de Judite. - No tenha medo de falar a verdade.
       -  Desconfio do tio do menino, Rafael.
       -  Mas isso  um disparate! - protestou o advogado. - O senhor est tentando se salvar acusando outra pessoa. Quanta indignidade!
       Romero no disse mais nada. Sentia-se intimidado por aquele homem e pelo seu tom de voz agressivo. Talvez fosse melhor no falar mais aquilo. Ningum iria 
acreditar nele mesmo. O juiz ainda tentou tirar mais alguma coisa de Romero, mas ele no quis responder, e a audincia foi encerrada.
       -  Por que no contou tudo? - perguntou Maria da Glria, quando j estavam do lado de fora.
       -  Para qu? Quem iria acreditar em mim?
       -  No sei. Talvez o juiz acreditasse. A funo dele  buscar a verdade.
       -  A verdade est do lado dos ricos e poderosos. Rafael  um rapaz de famlia rica e tradicional. Quem vai acreditar que ele violentou o sobrinho e colocou 
a culpa no pederasta enjeitado? No lhe parece uma histria por demais inverossmil?
       -  Nem sempre o que  verossmil  verdadeiro. A verdade, por vezes, se esconde sob a aparncia do impossvel.
       -  Pode at ser. Mas no vou me arriscar a ficar mais encrencado do que j estou.
       -  Voc  muito estranho. Diz que  inocente, mas no quer se defender.
       -  Quero, sim. S no quero acusar ningum de algo de que no tenho certeza.
       -  Oua, Romero: algum violentou o menino. Isso est mais do que provado. A princpio, voc parece ser o culpado. Mas, se no foi voc, quem foi?
       -  Pergunte a Eric. Ele  o nico que sabe. Alm do violenta-dor,  claro.
       - Tem razo. Se algum conhece a verdade, esse algum  Eric.
       -  Vai falar com ele?
       -  No. Seus pais no permitiriam. Mas talvez o juiz consiga fazer com que ele fale a verdade.
       -  Por que est fazendo isso, doutora?
       -  Porque sou sua defensora.
       -  S por isso?
       -  E porque acredito em sua inocncia. Ao tomar posse em meu cargo, jurei defender a justia.
       Movido por um impulso fraterno, Romero abraou-a. Estava muito carente, e a amizade de Maria da Glria emocionou-o. Desde que aquele inferno comeara, todos 
lhe voltavam as costas. Mas havia conseguido reaproximar-se da me e ganhara uma nova amiga. At que as coisas no iam to mal assim.
       
     Captulo 21
       
       Fbio e Judite acompanhavam tudo. Do mundo espiritual, tentavam alcanar a mente do juiz, assim como haviam feito com a defensora, incutindo-lhe pensamentos 
que revelavam a verdade. Com Maria da Glria, o efeito surtira rpido. Com o juiz, esperavam que no fosse diferente. Vitorio simpatizara com o rapaz, achara-o um 
moo tmido e com ar decente. Teria mesmo sido capaz de uma atrocidade daquelas? Precisava descobrir. Interrogaria o menino e o levaria a falar a verdade. No o 
intimidaria nem o pressionaria. Mas no era difcil a um magistrado extrair a verdade de uma criana.
       Ao voltar da audincia, Plnio encontrou Lavnia e Rafael andando de um lado para o outro na sala, ansiosos por sua chegada.
       -  At que enfim! - exclamou Lavnia, correndo para o marido. - E ento? Como foi?
       Plnio sentou-se no sof e encarou-a com ar cansado.
       -  Como esperava que fosse? Constrangedor.
       -  Romero estava l? - perguntou Rafael.
       -  O que voc queria? Que ele no comparecesse e fosse preso de novo?  claro que estava l.
       -  No precisa falar com Rafael nesse tom - censurou Lavnia. - No  ele o criminoso.
       - Nem eu - respondeu Plnio rispidamente. Levantou-se irritado e foi ao quarto de Eric. O menino havia retomado suas atividades normais e estava estudando. 
Voltara a freqentar a escola, mas no conversava com ningum sobre o que lhe acontecera. Estava triste, acabrunhado, evitando o contato com os amigos. Plnio entrou 
e sentou-se na cama, atrs dele.
       -  Ol, meu filho. Como est?
       Eric soltou o lpis em cima do caderno e virou-se para ele, os olhos brilhantes das lgrimas que os umedeciam de quando em vez.
       -   difcil, pai - desabafou, a voz embargada.
       -  Esto escarnecendo de voc? Fizeram algum comentrio maldoso?
       -  No diretamente. Mas, por trs, sei que comentam e apontam para mim.
       -  Sinto muito, Eric. Deus sabe o quanto gostaria de ter evitado expor voc a esse constrangimento. Mas sua me insistiu... E, depois, no acho justo um criminoso 
andar impune por a. Eu no gostaria que isso acontecesse ao filho de mais algum. No concorda?
       Eric apenas balanou a cabea, evitando o olhar do pai.
       -  No quero mais estudar l - falou baixinho.
       -  Mas, meu filho, j estamos quase no fim do ano. No seria melhor esperar um pouco mais?
       -  No, pai.  muito difcil. Nem sei se vou conseguir passar de ano. Eu leio, leio e no entendo nada. E se for reprovado?
       -  No faz mal. Se for reprovado, no ano que vem voc se recupera.
       -  Todos vo me apontar na rua.
       -  Ningum vai fazer isso. No precisa se sentir envergonhado. Voc no teve culpa.
       -  Ouvi uma conversa de alguns garotos maiores. Foi por acaso, na escola. Eles nem me viram. Mas sabe o que disseram?
       -  O qu ?
       -  Que eu nunca mais serei o mesmo depois disso. Que j fui arrombado, e nada vai poder me remendar.
       -  Mas quanta grosseria! Quem so esses garotos? Vou falar com o diretor. Isso no pode ficar assim.
       -  No, pai, por favor! J  difcil saber que riem de mim. Vai ser pior se ainda me odiarem.
       Plnio no sabia ao certo o que dizer. J esperava por algo semelhante. Mas no podia simplesmente dizer ao filho que no ligasse ou que fingisse que no 
escutava nada. Aquelas palavras eram por demais aviltantes para serem ignoradas. O que poderia fazer? Eric tinha razo: falar com o diretor da escola para que tomasse 
uma providncia seria pior. S serviria para expor ainda mais o filho e provocar raiva nos outros garotos. E a as humilhaes e as chacotas seriam maiores, o que 
poderia ter efeitos desastrosos na cabea do filho.
       Vendo que o menino chorava, Plnio estendeu os braos para ele, e Eric aninhou-se em seu colo.
       -  No quero que voc sofra, meu filho.
       -  No posso evitar.  muito difcil!
       -  Est bem. Olhe, se no quiser, no precisa mais ir  escola. Posso arranjar de voc s aparecer nos dias de prova.
       -  Voc faria isso?
       -   claro. Vou amanh mesmo conversar com o diretor do colgio. Com o dinheiro que pago, garanto que ele no ir se importar. Acha que consegue estudar em 
casa?
       -  Vou me esforar.
       -  Se precisar, posso ajud-lo. Sua me e seu tio Rafael tambm. Plnio havia propositadamente tocado no nome de Rafael.
       Queria experimentar a reao do menino. Como era de se esperar, Eric encolheu-se todo e franziu o cenho, protestando veemente:
       -  Tio Rafael, no. No preciso da ajuda dele.
       -  Por que no, meu filho?
       -  Porque no gosto dele.
       Foi a resposta lacnica. Eric evitava falar sobre o tio, e Plnio j percebera isso. Para ele, aquele comportamento s tinha uma explicao. Eric tinha medo 
de acabar falando a verdade. Mas por qu? Na certa, porque Rafael o estava ameaando. Tinha quase certeza disso.
       -  No quer saber como foi a audincia de hoje? - indagou
       de sbito.
       -  No... - hesitou o menino.
       -  Nem como vai Romero?
       -  Isso... no me interessa.
       -  Ele est muito abatido. Mais magro e muito plido. Plnio notou a sombra de tristeza que atravessou o olhar de Eric, deixando duas lgrimas carem silenciosas. 
O menino, por sua vez, achando que devia dizer alguma coisa, retrucou com fingida raiva:
       - No tenho nada com isso.
       -  Tem certeza?
       -  Tenho. E no quero mais falar sobre esse assunto.
       Com um suspiro profundo, Plnio deu um tapinha no joelho de Eric e levantou-se. No queria for-lo a nada.
       -  Est bem, meu filho. Voc  quem sabe.
       Deu-lhe um beijo carinhoso na testa e saiu. Poucos minutos depois que ele se foi, a porta abriu-se novamente, mas dessa vez foi Rafael quem entrou. O rapaz 
acercou-se do sobrinho, que imediatamente sentiu o corpo retesar-se, e disse em tom de ameaa:
       -  No se esquea de nosso trato, Eric. O preo que ir pagar  muito alto para se arriscar.
       -  No precisa vir aqui para me lembrar de nada.
       -  Ser que no? Olhe para voc! Est com cara de madalena arrependida.
       -  Deixe-me em paz! J no basta o que voc fez?
       -  O que seu pai veio lhe dizer, hein? Veio lhe falar sobre o coitadinho do Romero? Contar-lhe como a vida tem sido difcil para ele? Pois lembre-se de que 
ser ainda muito mais difcil se voc falar alguma coisa.
       - J disse que no vou falar nada!
       -  Calma, no precisa ficar nervoso. Vim apenas me certificar de que voc est bem lembrado disso.
       -  Voc  nojento!
       -  Ah! est ficando valente, ? A bichinha vai dar uma de macho agora, vai?
       -  No sou bichinha! Voc  que ! Uma bicha nojenta e covarde!
       Rafael ergueu a mo para bater-lhe, mas recuou a tempo. No podia perder a cabea, ou poria tudo a perder. Tinha de manter o controle, dele e de Eric, at 
o fim. Se perdesse a calma, perderia tambm o domnio que mantinha sobre o garoto.
       -  No sou bicha - protestou Rafael, olhos injetados de sangue. - Nunca dei o rabo por a. Mas voc... Voc j, no  mesmo?
       Eric era apenas uma criana. Espantado com o linguajar chulo do tio, desatou a chorar. No sabia o que lhe responder.
       -  V embora... - soluou. - Deixe-me em paz.
       -  Vou sim. No tenho mais nada a fazer aqui. J dei meu recado e espero que voc o tenha entendido bem. Voc entendeu? - Eric balanou a cabea. - timo.
       Por que o tio no o deixava em paz? Desde quando o violentara, no passava um dia sequer em que no o atormentasse. Na maioria das vezes, no falava nada. 
Limitava-se a passar por ele e fazer um gesto de silncio com o dedo. Outras vezes, passava o dedo no pescoo, como se o estivesse cortando, e Eric encolhia-se todo, 
de medo. J no estava agentando mais.
       
     Captulo 22
       
       Sozinho em seu quarto de penso, o que mais Romero tinha tempo para fazer era pensar. Conseguira um emprego de frentista num posto de gasolina, mas foi despedido 
poucos dias depois, quando o gerente descobriu que ele estava sendo acusado de violentar um menino de onze anos. Depois, arranjou um lugar de estocador num supermercado, 
mas foi despedido na primeira vez em que teve de se ausentar, para ir  segunda audincia. Em todos os empregos que arrumava, acontecia sempre a mesma coisa: os 
patres acabavam descobrindo seu caso e despediam-no. Era muito difcil esconder uma coisa daquelas.
       Em sua solido, voltou a pensar muito em Mozart. Fazia muitos anos que no tinha notcias dele. Por onde andaria? Teria j terminado seus estudos na Europa? 
Sentiu imensa saudade. Como o amara! Desde que ele partira, jamais conseguira se afeioar a algum como se afeioara a ele. Tivera alguns relacionamentos, mas nada 
duradouro. Conhecera pessoas agradveis, gays como ele, mas ningum por quem pudesse realmente se apaixonar. Os anos iam passando, e seu corao ainda pertencia 
a Mozart.
       Como o processo estava se arrastando muito, a me achou que era melhor no se falarem mais pelo telefone. Ficou acertado que ela o visitaria uma vez por semana, 
s segundas-feiras pela manh. Levava-lhe ento alguma comida, lavava e passava sua roupa, fazia-lhe companhia por algumas horas. Depois, voltava para casa e deixava-o 
sozinho com sua solido.
       Quando Nomia entrou naquela segunda-feira, encontrou-o mais cabisbaixo do que nunca.
       -  O que houve, meu filho? - indagou preocupada, j lhe apalpando a testa. - Est doente?
       -  No  nada, me.
       -  , sim. Voc est estranho. O que foi? Algo com o processo?
       -  No. O processo vai caminhando.
       -  Mas como demora!
       -  A Justia  demorada mesmo.
       -  Se no  isso, ento o que ?
       Romero ficou olhando-a, tentando imaginar se podia confiar a ela seu segredo. Embora a me estivesse mais atenciosa com ele e houvesse parado de recrimin-lo, 
ainda no o aceitava do jeito como ele era. Por vezes at parecia fingir que nada estava acontecendo, que ele no estava sendo processado e que no era homossexual. 
Uma ou duas vezes chegara a insinuar que tudo melhoraria depois que ele se casasse e tivesse filhos. Romero no dizia nada. No queria mago-la ainda mais e, por 
isso, escutava tudo em silncio.
       Mas ela era a nica pessoa com quem podia contar. Era sua me, no lhe queria mal. Ao contrrio, queria ajud-lo. S que a ajuda que ela lhe oferecia no 
era exatamente a que ele estava esperando.
       -  Me - comeou ele a dizer cautelosamente -, se eu lhe pedisse um favor, voc o faria?
       -  Depende. Que tipo de favor?
       -  Gostaria que encontrasse algum para mim.
       -  Quem?
       -  No vai se zangar se eu disser?
       -  No. Quem est procurando? Algum que eu conhea?
       -  , sim, embora no o tenhamos visto por muitos anos.
       -  Quem ?
       Ele titubeou por alguns segundos, at que respondeu com certa hesitao:
       -   Mozart...
       -  O qu ? Mozart? Ficou maluco? Por que quer encontrar o homem que desgraou sua vida?
       -  Ele no desgraou minha vida.
       -  Foi ele quem viciou voc.
       - No sou viciado. E, depois, quem primeiro me iniciou nesta vida no foi ele. Foi Jnior.
       -  No fale no nome daquele assassino na minha frente! Nunca mais repita o nome do animal que tirou a vida de sua irm!
       -  Ele est morto.
       -  Espero que esteja queimando no inferno.
       - No quero falar de Jnior. Quero falar  de Mozart. Preciso saber onde ele est.
       - No fao a menor idia. E nem fao questo de saber. Aquele moo foi um mal-agradecido; traiu nossa confiana bem debaixo de nosso nariz!
       -  Por favor, no seja rancorosa. J se passaram tantos anos...
       -  Mas veja s no que deu. Voc ficou assim at hoje. No fosse por ele, no teria virado... virado... isso que voc .
       Romero j estava arrependido de ter comeado a falar. Devia ter imaginado que a me reagiria daquela forma.Soltou um longo suspiro e considerou:
       -  Est bem. No vamos mais falar sobre isso. Eu s pensei que voc pudesse me ajudar.
       -  Pois pensou errado. No vou ajudar meu filho a se encontrar com nenhum marginal.
       -  Mozart no  marginal.  um artista e j deve estar famoso na Europa. At voc gostou da msica dele.
       -  Isso no lhe dava o direito de fazer o que fez.
       -  Est certo, vamos mudar de assunto.
       -  Posso saber por que voc quer encontr-lo agora, depois de todos esses anos?
       -  Sinto falta dele. Ele era meu amigo.
       -  Bem sei a amizade que vocs tinham. Uma pouca-vergonha, isso sim!
       -  J pedi para mudarmos de assunto.
       -  Acho bom mesmo. No vou contribuir ainda mais com essa sem-vergonhice.
       A muito custo, Romero conseguiu desviar o assunto. Por mais que Nomia dissesse que no gostava de se lembrar do ocorrido, no parava de falar. Externava 
ainda sua indignao diante de tudo que acontecera. Parecia agora aceitar Romero melhor, desde que ele no tivesse nenhum parceiro nem tocasse no assunto. Romero 
era homossexual, mas ela bem podia fingir que no era.
       Quando Nomia chegou  casa mais tarde, Silas j havia voltado do trabalho. Ela levou tremendo susto ao v-lo em casa to cedo e pensou rpido numa desculpa 
para dar.
       -  Onde esteve? - perguntou ele, curioso.
       -  Fui  farmcia - respondeu rapidamente. - E voc? Por que voltou mais cedo?
       -  Faltou gua na escola, e as crianas foram dispensadas.
       -  Quer um caf? Vou fazer um fresquinho.
       Silas limitou-se a assentir. Achou estranho que ela tivesse ido  farmcia e houvesse voltado sem nenhum embrulho, mas no fez nenhuma observao. Estava 
conferindo a correspondncia e indagou, mais para si do que para a mulher:
       -  Por que ser que a Caixa no manda mais os extratos?
       Nomia gelou, mas conseguiu disfarar e correu para a cozinha, rezando para que ele no perguntasse de novo. No perguntou. At aquele momento, Silas achava 
que o problema deveria ser do correio ou do prprio banco. Mais tarde veria o que estava acontecendo.
       Depois que a me saiu, Romero ficou ainda mais pensativo. Pensava cada vez mais em Mozart, sem saber que o rapaz, recentemente de volta ao Brasil, tambm 
pensava em encontrar-se com ele. Jamais o esquecera. Perdera contato com ele por causa das circunstncias, mas tinha esperanas de rev-lo e tornar-se, ao menos, 
seu amigo. Imaginava que ele pudesse estar compromissado com algum, mas estava disposto a arriscar. Queria oferecer-lhe sua amizade.
       Desconhecendo esse fato, Romero encheu-se de coragem e procurou, em sua caderneta de telefones, o nmero da casa de Alex, antigo namorado de Judite. Colocou 
o caderninho no bolso e desceu para telefonar. Parou num orelho, enfiou as fichas e, dedos trmulos, discou o nmero de Alex.
       -  Al? - atendeu uma voz feminina do outro lado.
       -  Por favor, eu gostaria de falar com Alex - pediu, a voz hesitante.
       -  Ele no est.
       -  Quando posso encontr-lo?
       -  No sei. Talvez venha aqui no fim de semana.
       -  Quem est falando?  a me dele?
       -  , sim. Quem fala?
       -   um amigo da faculdade.  que estou precisando falar com ele...
       -  Bem, Alex est casado, se  que voc no sabe. E no mora mais aqui. Mas costuma vir nos visitar aos sbados. Se quiser, pode telefonar para ele. Se no, 
deixe seu nmero, que darei o recado.
       -  No precisa, obrigado.
       Desligou. Ento, Alex casara-se. Era mesmo de esperar, depois de tantos anos. Contudo, mesmo que tivesse conseguido falar com ele, o que lhe diria? Que estava 
sendo acusado de violentar uma criana e queria falar com Mozart? Alex lhe diria uns desaforos e bateria o telefone na cara dele.
       Triste, voltou para a penso. Seria melhor desistir daquela idia. Mozart estava mesmo perdido para ele; no adiantava nada tentar encontr-lo. E o que lhe 
diria? Escrever-lhe-ia uma carta, contando-lhe seus dissabores e pedindo-lhe para voltar? No podia, no tinha esse direito.
       Enquanto isso, Mozart tambm pensava em Romero. Havia desembarcado em Braslia e pedira notcias do rapaz, mas os pais no souberam lhe dizer. Tudo que sabiam 
era que Romero havia ido morar com o mdico que o atendera, mas no sabiam o endereo. Tambm desconheciam o processo que o envolvia. A famlia de Alex, envergonhada 
com o que acontecera, nunca mais tocara no nome de Romero, e o caso acabou caindo no esquecimento. S que agora Mozart no conseguia parar de pensar nele. Onde estaria? 
O que teria sido feito dele?
       - V para o Rio de Janeiro - sugeriu o esprito de Judite, que em muito colaborara para que as lembranas de ambos se reavivassem. - Ainda no gosta dele?
       Gostava. Mozart gostava muito de Romero. Por isso, resolveu partir  sua procura. J era homem feito e viera ao Brasil em frias. Tinha tempo para procur-lo 
sem ter de se preocupar com nada. Ficaria num hotel, para no envolver a famlia, c tentaria encontr-lo sozinho. Se Deus ajudasse, conseguiria.
       
     Captulo 23
       
       Mais uma audincia estava para se realizar, e, dessa vez, Eric seria ouvido.
       O dia ainda nem havia raiado quando o menino ouviu um rudo estranho em seu quarto e quase desmaiou de susto no momento em que Rafael pulou sobre ele.
       -  Nem um pio! - sussurrou o tio, tapando-lhe a boca com uma das mos. - S vim aqui para lhe dar um aviso: muito cuidado com o que vai dizer mais tarde.
       Da mesma forma como veio, partiu. Eric ficou sozinho, fitando o teto escuro, com medo at de pensar. No conseguiu mais dormir e ficou acordado at que a 
me viesse cham-lo. Desde cedo, comeou a passar mal. Sentiu dor de barriga, vomitou, chegou at a urinar nas calas. Estava apavorado.
       -  No precisa se preocupar - tranqilizou a me. - Fale a verdade e vai dar tudo certo. No tenha medo de Romero. O juiz no vai permitir que ele o machuque 
mais.
       Como dizer a ela que no era Romero que ele temia, mas o tio? Como contar que Romero nunca fora nada alm de seu amigo, ao passo que Rafael, alm de o violentar, 
aterrorizava-o todos os dias, ameaando matar a ele e a Romero?
       -  No tenho medo de Romero, me - admitiu.
       -  Voc  um menino muito corajoso - elogiou Lavnia, beijando-o na bochecha. - E  um homem de verdade!
       No era. Eric no se sentia um homem. Sentia-se um menino, uma criana frgil e indefesa. Por que a me exigia dele atitudes que estavam alm de suas foras?
       -  Est pronto? - era a voz de Plnio, que chegara para busc-lo. - No devemos nos atrasar.
       Lavnia ajeitou a gola da camisa do filho e deu-lhe novo beijo no rosto.
       - Tem certeza de que ele precisa ir?- indagou ao marido, bastante aborrecida com aqueles procedimentos judiciais. - Ele j disse tudo  polcia. Vai ser difcil 
ter de relembrar e repetir tudo novamente.
       -  A defensoria insiste.  um direito seu.
       -  Mas que coisa! Que falta de sensibilidade.
       -  No se esquea de que foi voc quem insistiu para que fosse assim. Ou pensou que Romero seria logo acusado, condenado e preso, sem nenhuma chance de defesa? 
Agora voc no tem do que reclamar.
       Pai e filho foram tomar o carro, enquanto Rafael os espiava da janela de seu quarto. No queria aparecer diante do cunhado. Sabia que Plnio estava de olho 
nele e no queria que pensasse que ele estava pressionando o menino.
       Quando a audincia comeou, o juiz mandou que Romero sasse e comeou o interrogatrio, tendo a seu lado os espritos de Judite e de Fbio.
       -  Eric, quero saber se voc compreende bem o que est acontecendo aqui. Voc compreende?
       -  Compreendo.
       -  Muito bem. Aquele homem que saiu daqui h pouco, o senhor Romero Silveira Ramos, est sendo acusado de haver violentado voc. Isso  exato?
       -  Sim, senhor.
       -  Voc mesmo o acusou, no foi?
       -  Foi.
       -  Pode me contar como foi que tudo aconteceu?
       -  Ele... ele... entrou em meu quarto... - comeou a choramingar, e o pai abraou-o.
       O juiz mandou que trouxessem gua para o menino. Esperou pacientemente at que ele bebesse tudo, para depois prosseguir:
       -  Sente-se bem? Podemos continuar? - O menino fez que sim. - Muito bem. Do que voc se lembra daquela noite?
       -  Eu... estava dormindo... ouvi um barulho... - soluou e parou abruptamente.
       -  Era algum?
       Eric assentiu, e o juiz continuou:
       -  Quem? -Ele...
       -  Ele quem?
       -  Ro... Romero... - gaguejou, em tom quase inaudvel.
       - Tem certeza?
       Eric desatou a chorar novamente, redobrando o pranto de propsito. Queria que o juiz se comovesse e o liberasse daquele interrogatrio. No queria acusar 
Romero ali, diante do juiz, mas tinha medo de dizer a verdade. Se Rafael descobrisse, seria seu fim.
       -  Eric - tornou com calma o magistrado, apesar dos soluos do garoto -, no quero que pense que o estou obrigando a falar. No  nada disso. Mas, se voc 
disser a verdade, poderemos punir o homem que fez isso a voc. No deseja puni-lo?
       Eric meneou a cabea e baixou os olhos, agarrando o brao do pai.
       -  Excelncia - protestou o doutor Antero -, est claro que o menino est transtornado e no tem condies de falar. Solicito que ele seja dispensado dessa 
situao to penosa.
       -  No concordo, excelncia - objetou Maria da Glria. - O depoimento do menino  fundamental para esclarecermos os fatos.
       O juiz olhou para ambos por alguns momentos e fitou Plnio, que abraava o filho, tentando acalm-lo.
       -  E o senhor, doutor Plnio? - dirigiu-se ao mdico. - Como pai, o que diz?
       Plnio teve de lutar com todas as suas foras para resistir  tentao de livrar o filho daquela situao embaraosa. Mas sabia que somente ele poderia salvar 
Romero. Por mais que amasse e quisesse proteger o filho, no podia permitir que um homem inocente fosse condenado.
       -  Meu filho est muito nervoso - falou por fim -, mas no creio que isso deva obstruir a descoberta da verdade.
       -  Teremos ento de adiar a audincia - determinou o juiz. - Est encerrada.
       Juntaram suas coisas e saram. Do lado de fora, Antero tornou indignado:
       -  Por que fez isso, Plnio? Deveria ter concordado com a dispensa de Eric. O juiz ia aceitar.
       -  O depoimento dele no  meio de prova?
       -  Os fatos j esto mais do que provados. Eric no precisava depor, a no ser por insistncia da defesa. A doutora Maria da Glria insiste que foi outra 
pessoa que violentou Eric e acha que poder provar com o depoimento do menino.
       -  Tambm acho - foi a resposta seca de Plnio.
       No caminho de volta para casa, Eric seguiu em silncio. No tinha vontade de falar. Ver Romero ali fora extremamente embaraoso. Eric no sabia se conseguiria 
sustentar aquela mentira por muito tempo. Sabia que no teria de contar nada na frente dele, mas o s fato de saber que o estaria prejudicando causava-lhe imensa 
dor.
       Em casa, Lavnia correu para eles e abraou o filho, beijando-o repetidas vezes nas faces.
       -  Meu menino - falou amorosa. - Como foi? Falou a verdade direitinho?
       -  Ele no falou nada - esclareceu Plnio. - Ficou nervoso, e a audincia foi adiada.
       -  No me diga que ele vai ter de se sujeitar a isso de novo!
       -  Infelizmente, vai ter, sim.
       -  Mas que coisa maante! Bem, no importa. Venha, querido, venha comer alguma coisa.
       Levou o filho para a cozinha, a fim de preparar-lhe um lanche. Na sala, Plnio e Rafael haviam permanecido. O rapaz, desde que o cunhado entrara, no dissera 
uma s palavra. Podia-se perceber a tenso em seu semblante. Plnio tambm notou. Aproximou-se dele, que fingia ver televiso, e indagou:
       -  No foi trabalhar hoje?
       -  Lavnia me pediu que ficasse e lhe fizesse companhia. Plnio abaixou-se diante dele e encarou-o bem fundo nos olhos.
       -  Lavnia  uma tola, Rafael. Acredita em voc e acha que o irmozinho ainda  o beb que ela segurou nos braos um dia. Mas voc no perde por esperar. 
A verdade ainda vir  tona, e Lavnia h de descobrir o monstro em que voc se transformou.
       Apesar de intimidado, Rafael sustentou-lhe o olhar e respondeu com frieza:
       - Tolo  voc, se pensa que pode me acusar de algo. No fiz nada, no sou culpado de nada. E no tenho culpa se seu queridinho  quem no presta. Tome cuidado, 
Plnio, pois est arriscado a chegar o dia em que Lavnia descobrir aquilo em que voc se transformou.
       Plnio quase o esbofeteou. Segurou-o pelo colarinho, mas soltou-o a tempo. No valia a pena sujar as mos com aquele verme. Empurrou-o de volta para o sof 
e foi ao encontro da mulher e do filho. Agora, mais do que nunca, estava certo de que fora Rafael quem fizera aquilo a Eric. Ele, apenas ele, era o culpado daquele 
crime. E iria pagar.
       
     Captulo 24
       
       Mozart retirou o fone do gancho e parou com o dedo sobre o disco do telefone, ainda em dvida sobre se devia ou no tentar encontrar Romero. Os tios disseram-lhe 
que nunca mais ouviram falar dele, e Mozart, embora no acreditasse muito, no quis insistir. Por fim, tomou coragem e discou o nmero da casa do rapaz. Esperou 
alguns segundos, at que uma voz de mulher veio atender:
       -Al?
       Assustado, Mozart no respondeu, e Nomia continuou:
       -  Al? Quem est falando?
       Mozart desligou o telefone em silncio. Por que no tivera coragem de falar? Do que tinha medo? Afinal, no fizera nada de errado. Se antes Romero era uma 
criana, agora j era um homem, e os pais no deveriam mais interferir em sua vida. Decidido, apanhou o telefone novamente e ouviu, pouco depois, a voz de Nomia 
do outro lado da linha:
       -  Al? Quem fala?
       -  Sou eu, Dona Nomia - respondeu com hesitao. - Mozart...
       Por alguns instantes, Nomia pensou que houvesse entendido errado e retrucou perplexa:
       -  Quem!?
       -  Mozart... amigo de Romero... no se lembra de mim? Lembrava-se muito bem, embora preferisse no se lembrar.
       -  O que voc quer? - tornou ela, em tom agressivo.
       -  Desculpe-me incomod-la, mas seria possvel me dar notcias de Romero?
       -  Por qu? O que quer com ele?
       -   que cheguei agora da Europa. Gostaria de rev-lo. Pode me dar seu telefone?
       -  Romero no tem telefone.
       -  E o endereo? Pode me dar?
       -  No sei onde ele mora - mentiu. - E, por favor, no nos telefone mais. Silas no gostaria de saber que voc ligou.
       -  Sinto muito... eu... no queria causar nenhum transtorno...
       -  Pois, ento, faa como lhe digo: no telefone mais para minha casa. No sei de Romero e, ainda que soubesse, no lhe diria. O que voc fez a ele foi imperdovel.
       Do outro lado da linha, Mozart sentiu o rosto arder e quase desligou o telefone. Seria possvel que, depois de tanto tempo, eles ainda sentissem raiva dele? 
E Romero? Ser que ainda no o haviam aceitado do jeito como era? Pelo visto, ele e os pais ainda continuavam sem se falar.
       Contendo o desejo de desligar para fugir quela acusao injusta, Mozart insistiu:
       -  Est bem, no ligarei mais. Mas a senhora podia anotar o telefone de onde estou?
       -  Para qu?
       -  Quem sabe, a senhora no se encontre com Romero por acaso e possa lhe dar meu nmero?
       -  Isso no vai ser possvel.
       -  Ainda assim, no poderia anotar? Vamos, Dona Nomia, no custa nada.
       -  Est bem - concordou, a contragosto. - Pode falar. Apanhou a caneta na gaveta da mesinha de telefone e abriu o
       caderninho. Anotava ou no anotava? Pensou em no anotar. No queria que Romero soubesse que Mozart estava de volta. Mas, estranho... Por que o filho fora 
perguntar pelo rapaz justamente no momento em que ele voltava ao Brasil? Teria tido alguma premonio? Pensando nisso, rapidamente mudou de idia e tomou nota do 
nmero.
       -  A senhora anotou? - era Mozart novamente, preocupado com o silncio repentino.
       -  Anotei. Mas no prometo nada. No sei por onde Romero anda.
       -  No faz mal. E s para o caso de a senhora encontr-lo.
       -  Est certo. Bem, se  s isso...
       -   s isso. Muito obrigado.
       Mozart pousou o fone no gancho c ficou pensativo, evocando o tempo em que ele e Romero se encontravam diariamente. Desde que partira, no havia um s dia 
em que no pensasse nele. Depois de tudo que acontecera, principalmente da trgica morte de Judite, no conseguiram mais manter contato. Mesmo agora, as coisas pareciam 
difceis. Nomia dizia no ter notcias do filho, o que bem poderia ser verdade. Romero fora expulso de casa e estava vivendo na casa do mdico...
       O mdico! Era isso. Romero fora acolhido pelo mdico que cuidara dele no hospital. Ento, se ele encontrasse o mdico, encontraria Romero tambm. Vira-o apenas 
uma vez, quando fora despedir-se de Romero. Qual era mesmo seu nome? No se lembrava muito bem, mas, ainda assim, tentaria descobrir. Tomou um txi e foi para o 
hospital, torcendo para que o mdico ainda trabalhasse l. J se haviam passado mais de dez anos, e tudo deveria estar diferente. De qualquer forma, precisava tentar.
       No hospital, seguiu direto para a recepo e perguntou polidamente  enfermeira que estava atrs do balco:
       -  Bom dia. Estou procurando um mdico que trabalhava aqui h uns dez anos...
       -  Dez anos? Sinto muito, meu jovem, mas vai ser difcil. Eu no estava aqui h dez anos.
       -  Mas ele ainda deve trabalhar aqui.
       -  No sabe o nome dele?
       -  No me lembro. S sei que atendia na emergncia.
       -  Emergncia? Hmm... deixe ver... Temos o doutor Paulo Sampaio...
       -  Paulo Sampaio? - Mozart pensou por alguns instantes e balanou a cabea. - No, no  esse.
       -  E o doutor Carlos Soares?
       -  Tambm no.
       -  Doutor Antnio Amorim Sobrinho? - Ele meneou a cabea. - Doutor Plnio Portela? Doutor Vicente...
       -  Espere um instante! Plnio Portela... era isso! Era o doutor Plnio, agora me lembro. Foi esse nome que ouvi Judite falar.
       A moa sorriu e foi consultar seus apontamentos.
       -  Ah! Que pena! - lamentou. - Hoje no c dia do planto dele.
       -  E quando ser?
       -  Deixe-me ver... Ah! Aqui est. Quinta-feira, ou seja, depois de amanh.
       -  Ele continua no planto noturno?
       -  Hmm... continua. O planto da noite vai das oito horas at as oito da manh seguinte.
       -  Obrigado.
       -  De nada.
       Mozart saiu com o corao palpitante. Tinha certeza de que aquele mdico poderia dar-lhe notcias de Romero. Quem sabe, at, ele ainda no estivesse morando 
em sua casa?
       Enquanto isso, Nomia chegava  penso em que Romero vivia. O rapaz estava sentado em sua cama, um livro de medicina pousado no colo, quando ela bateu  porta. 
Sabendo que era a me, decorreu a atender. A me era a nica pessoa que o visitava.
       -  Ol, mame - disse ele, beijando-a no rosto.
       -  Que cara  essa, meu filho?
       -  Estava lendo.
       -  Voc parece desanimado.
       Ele suspirou profundamente e tornou a sentar-se. Passou a mo pelos cabelos e baixou a cabea, lutando para conter as lgrimas.
       -  Passei a semana toda procurando emprego. No consegui nada.
       -  Nessa situao,  mesmo difcil. Voc precisa primeiro se livrar desse processo.
       -   o que estou tentando. A doutora Maria da Glria insiste no depoimento de Eric. Acha que isso vai ajudar.
       -  Deus queira.
       Ela foi retirando da sacola as coisas que havia trazido, e, enquanto arrumava tudo em cima da pequena cmoda, Romero perguntou com jeito casual:
       -  Pensou naquilo que lhe pedi?
       -  Naquilo o qu?
       -  Sobre tentar encontrar Mozart.
       Nomia teve um sobressalto. Romero parecia sentir a proximidade do amigo, o que era muito estranho. Era muita coincidncia. Romero comeou a perguntar sobre 
Mozart justo no momento em que ele chegava da Europa e o procurava tambm. Haveria, por trs daquilo tudo, alguma estranha fora movendo seus destinos? Com esse 
pensamento, pensou em lhe dizer que Mozart havia telefonado, mas mudou de idia. Ainda no estava bem convencida de que aquela notcia seria realmente til ao filho.
       -  Trouxe algum dinheiro para voc - desconversou, colocando as cdulas sobre a cmoda, ao lado de um saco de biscoitos.
       -  Sacou da poupana outra vez? 
       -  Foi.
       -  Mas papai vai acabar percebendo.
       -  Espero que no.
       -  Voc  um amor - falou emocionado, abraando-a com ternura.
       -  Eu apenas me preocupo com voc. Embora seu pai o tenha renegado, eu ainda o tenho como filho. Ao longo desses anos, percebi que meu amor de me  maior 
do que qualquer coisa que voc venha a fazer. Ainda no concordo com o que voc faz... Juro que at tentei entender, mas, com seu pai martelando em minha cabea, 
fica difcil!
       -  No precisa se justificar, me. Estou feliz que tenha, pelo menos, me aceitado.
       -  Cansei de lutar contra isso. Gostaria muito que voc se voltasse para o lado do bem e se casasse. Mas, se voc no quer...
       -  No estou do lado do mal, me. Sou uma pessoa direita. Estou at estudando para ser mdico!
       -   verdade... Bem, talvez seja isso mesmo o que importe nas pessoas, e eu no tenha ainda compreendido direito a verdade de Deus. Seja como for, voc  
meu filho, e essa  a nica verdade que me importa no momento.
       Ele abraou-a novamente e sentou-se na cama para comer o sanduche que ela lhe havia preparado. Enquanto ia mastigando, perguntou novamente:
       -  E Mozart, me? Ainda no me respondeu...
       -  O que quer que lhe diga? No sei dele e no tenho meios de saber.
       -  Mas voc podia tentar.
       -  No sei como. Quer que eu telefone para a famlia dele ? Isso eu no vou fazer. Tambm tenho meu orgulho.
       -  Por favor, me,  importante. No sei explicar, mas sinto que ele est prximo.
       -  Prximo? Como  possvel? Ele foi para a ustria.
       -  Isso foi h dez anos. J deve ter completado os estudos. Quem sabe no est, agora mesmo, aqui no Brasil?
       -  Voc est sonhando.  a solido que o leva a crer em coisas absurdas.
       -  Por que absurdas? Mozart  um ser humano real. No  nenhum absurdo que tenha resolvido voltar para a terra natal.
       -  No pense mais nisso, Romero. Para no sofrer mais. Mozart sumiu no mundo, e no vai lhe fazer bem ficar pensando nele. Esquea.
       Embora silenciasse, Romero no esqueceu. Nem de longe desconfiava que Mozart havia telefonado para a me, mas algo lhe dizia que o rapaz no estava to sumido 
assim. Quase que sentia sua presena, embora no soubesse explicar de onde vinha tanta certeza.
       Talvez a me tivesse razo. Talvez a solido o estivesse torturando-o a tal ponto que o fizesse imaginar coisas. Na certa, Mozart nunca mais voltaria ao Brasil, 
e eles jamais tornariam a se encontrar.
       Do lado do astral, porm, Judite dizia-lhe que no. Seu esprito, que havia acompanhado toda a conversa, aproximou-se do irmo e soprou em seu ouvido:
       -  No desanime de encontrar Mozart. Ele tambm o procura, e ns vamos ajud-los a se reencontrarem.
       Inexplicavelmente, Romero sentiu-se mais confiante. Era isso mesmo. No havia nenhum motivo para ele crer que Mozart estivesse por perto, mas seu corao 
dizia-lhe que, em breve, voltariam a se ver. Romero lembrou-se de Judite e sentiu a saudade apertar-lhe o corao. Como gostaria que a irm estivesse ali!
       Na quinta-feira, muito antes de o relgio bater oito horas, Mozart estava parado no saguo do hospital em que Plnio trabalhava. Na recepo, fora informado 
de que ele ainda no havia chegado e ps-se a esper-lo. Quase s oito, Plnio entrou, cabea baixa, carregando na mo sua maleta de mdico. Mozart reconheceu-o 
logo que o viu. Embora dez anos se houvessem passado, ele continuava praticamente o mesmo. A no ser pelo ar cansado, no havia mudado em nada.
       -  Doutor Plnio? - perguntou Mozart, ainda hesitante.
       -  Sim - respondeu o mdico, fitando-o curioso, puxando pela memria para lembrar-se de onde o conhecia.
       -  No sei se o senhor se lembra de mim. Faz alguns anos que o conheci. Encontrei-o apenas uma vez...
       -  Mesmo? Em que posso ajud-lo?
       -   que sou amigo de Romero... Soube que ele est vivendo em sua casa.
       Mozart percebeu que Plnio havia empalidecido e comeado a suar frio. Teria acontecido alguma coisa a Romero?
       -  Como  seu nome?
       -  Mozart.
       -  Ah! Agora me lembro. Romero sempre falou muito em voc.
       -  Quer dizer que  o senhor mesmo? Graas a Deus! Precisava tanto falar com ele! Pode me dizer onde est?
       -  Infelizmente, meu jovem, isso no ser possvel.
       -  No? Por qu? Ele no mora mais com o senhor?
       - No. Faz alguns meses que Romero se foi.
       -  Para onde? O senhor no poderia me dar o endereo? Ele saiu da cidade? Mudou-se de pas?
       -  Calma, rapaz, uma pergunta de cada vez. Em primeiro lugar, no lhe dou o endereo porque no sei onde ele est vivendo. Quanto a sair da cidade ou do Pas, 
tenho certeza de que ele continua aqui.
       -  Mas no tem idia de onde ele est? Deve ter, ou ento no afirmaria com tanta certeza que ele continua no Rio de Janeiro.
       -  Oua, Mozart, sei que ele continua aqui porque est respondendo a um processo criminal em liberdade e est proibido de se ausentar.
       -  Processo criminal? - indignou-se o rapaz. - Mas por qu? O que ele fez?
       -  Lamento, mas no gostaria de tocar nesse assunto.
       -  Por favor, doutor, ajude-me. O senhor  amigo dele. No pode t-lo mandado embora s porque ele se meteu em alguma encrenca.
       -  E voc? Por que o interesse depois de tantos anos?
       -  E que acabei de chegar ao Brasil...
       -  Por que no o procurou antes? Ele sentiu muito sua falta.
       -  Eu bem que tentei. Mas ningum quis me dizer onde ele estava. Por isso, perdi o contato com ele. S que agora estou de volta. Gostaria muito de v-lo.
       -  Porqu?
       -  Por qu? Bem, gosto muito de Romero... somos amigos... Plnio suspirou dolorosamente. Ouvira muito falar de Mozart
       e sabia quanto aquele rapaz havia sido importante na vida de Romero. E agora, vendo-o ali  sua frente, sentiu que podia confiar nele. O rapaz parecia estar 
dizendo a verdade, seus sentimentos pareciam genunos. Ele gostava mesmo de Romero. Talvez pudesse ajudar.
       -  Venha comigo - falou incisivo, e Mozart seguiu-o. Plnio levou-o para seu consultrio e trancou a porta. Sentou-se defronte a ele e, sem mais rodeios, 
declarou:
       -  Muito bem, Mozart. Vou lhe contar o que aconteceu. Romero est sendo acusado de ter violentado um menino de onze anos de idade.
       -  O qu!? Mas isso  um absurdo! Uma calnia! Romero jamais faria uma coisa dessas.
       -  Foi o prprio menino quem contou.
       -  Ele est mentindo! E o senhor deveria conhecer Romero melhor. No podia ter acreditado numa barbaridade dessas!
       -  Acontece, Mozart, que o menino  meu filho. Mozart quedou embasbacado.
       -  Seu filho? - repetiu atnito. - Mas como pode ser ? Romero sempre foi um rapaz decente. O senhor sabe o que ele passou. Conhece sua histria melhor do 
que ningum.
       -  E  por isso que no acredito que tenha sido ele.
       -  No? No estou entendendo. Foi o senhor mesmo quem falou...
       Plnio cortou-o e, em breves palavras, contou a Mozart tudo que estava acontecendo. O rapaz cocou o queixo e encarou o mdico.
       -  Quer dizer ento que o senhor no acredita mesmo que tenha sido ele?
       - No. Mas no posso provar. Ainda.
       -  Por qu? Como espera poder provar?
       -  Espero que meu filho nos diga a verdade. Ele est com medo de Rafael, mas talvez o juiz consiga faz-lo falar.
       Mozart fitou-o desgostoso. Agora, mais do que nunca, precisava encontrar Romero.
       -  Por favor, doutor, onde ele est?
       -  Quisera eu saber... Talvez sua defensora saiba.
       -  Quem  ela?
       -  Uma doutora Maria da Glria no sei de qu.
       -  Onde posso encontr-la?
       -  Na defensoria pblica.
       -  Irei at l agora mesmo. Quanto antes encontrar Romero, melhor. Preciso lhe dar meu apoio, mostrar a ele que no est sozinho.
       -  Faa isso, meu rapaz. Toro para que voc o encontre e o ajude a enfrentar esse momento difcil. E espero poder provar sua inocncia.
       -  Ele  inocente, doutor, no tenho dvidas disso. Mozart saiu do hospital sentindo uma angstia sem fim. Por
       que permitira que o tempo e a distncia os afastassem? Por que no insistira em encontr-lo? Ele agora deveria estar sofrendo muito, pensando que no havia 
ningum que se importasse com ele. Havia a me, mas ela dissera que desconhecia o paradeiro do filho. Estaria mentindo? Ou preferira no se envolver e fingia no 
ter conhecimento de nada?
       Foi difcil trabalhar naquela noite. A figura de Mozart no saa do pensamento de Plnio. Depois de tantos anos, o rapaz resolvera aparecer, o que no deixava 
de ser uma pena. Por que no voltara alguns meses antes? Se tivesse aparecido h mais tempo, talvez Romero estivesse com ele, fora de sua casa, e nada daquilo tivesse 
acontecido. Mas as coisas no aconteceram daquele jeito, e ele precisava conformar-se.
       Terminou o planto e foi embora. Ao entrar em casa naquela manh, Plnio logo percebeu que Rafael no havia ido trabalhar novamente. J passava das dez horas, 
e ele estava tomando sol  beira da piscina. Eric, agora de frias, permanecia trancado no quarto, vendo televiso ou jogando videogame.
       Foi conversar com o filho. Ele estava assistindo a um episdio de Jornada nas Estrelas e nem desviou os olhos quando o pai entrou.
       -  Ol, meu filho - cumprimentou Plnio, beijando-o nas faces. - Como estamos hoje?
       -  Bem...
       -  Por que no vai tomar um pouco de sol? Est fazendo um dia to bonito!
       -  No quero. No tenho vontade.
       -  Seu tio est na piscina - falou de propsito. - Por que no se junta a ele?
       Plnio percebeu que o corpo todo de Eric estremeceu, mas no fez nenhum comentrio. Era evidente que o filho tinha medo de Rafael.
       - J disse que no quero - repetiu Eric.
       -  Gostaria de ir ao cinema?
       -  Com quem?
       -  Comigo. Se sua me quiser, tambm poder ir.
       - Tio Rafael tambm vai?
       -  No, se voc no quiser.
       -  No quero.
       -  Ento est certo. Vou dormir um pouco e, mais tarde, iremos ao cinema. Depois, poderemos lanchar e tomar um sorvete. No  uma boa idia?
       -  .
       Plnio beijou-o novamente e foi para seu quarto. Estava cansado, com sono e precisava descansar. Tirou a roupa, tomou um banho rpido e desabou na cama, sem 
nem falar com a mulher. Acordou com o pr-do-sol e olhou pela janela. Ouviu um barulho de gua e foi espiar. L embaixo, Rafael ainda se divertia  beira da piscina, 
mergulhando com uma garota.
       -  Ol, querido - disse uma voz atrs dele. - Dormiu bem? Era Lavnia, que chegara sem que ele percebesse. Plnio virou-se para ela e abraou-a.
       -  Muito bem - respondeu com um bocejo. - E voc? O que fez durante o dia?
       -  Fui ao cabeleireiro.
       -  Por que no levou Eric junto?
       -  Ele no quis ir. Chamei-o para ir  piscina, mas ele se recusou terminantemente. Acho que vamos ter de coloc-lo num psiclogo.
       -  Talvez voc tenha razo.
       Ele no queria dizer que Eric estava com medo de Rafael e acabou concordando. Eric estava muito traumatizado, no s pela violncia que sofrer, mas por estar 
sendo obrigado a mentir e a incriminar seu melhor amigo.
       -  Fiquei de lev-lo ao cinema hoje - continuou ele. - No gostaria de nos acompanhar?
       -   claro. Vou falar com Rafael. Tenho certeza de que tambm gostaria de ir.
       -  Por favor, Lavnia, no faa isso. Eric no iria gostar. Apesar de contrariada, Lavnia no discutiu. Talvez fosse melhor mesmo que Rafael no fosse. Ele 
e o marido no vinham se entendendo muito bem ultimamente e, por mais que ela no acreditasse naquela verso de que fora o irmo quem violentara Eric, preferia no 
criar caso com Plnio. Depois que a verdade viesse  tona e Romero fosse preso, sua vida voltaria ao normal.
       -  Est bem - concordou. - Vou a seu quarto mandar que se vista.
       A noite no cinema foi tima. Assistiram ao filme e tomaram sorvete. Eric estava feliz, embora um tanto quanto acabrunhado. De volta  casa, foram dormir. 
Plnio deu uma espiada no quarto de Rafael e, constatando que o cunhado dormia, foi para a cama.
       Na escurido, Rafael abriu os olhos. Ouvira quando Plnio chegara e atirara-se na cama, apagando a luz do abajur. Sabia que o cunhado iria verificar se ele 
estava dormindo e ficou esperando.
       Depois que Plnio saiu, aguardou ainda cerca de vinte minutos e ento se levantou. P ante p, foi ao quarto de Eric.
       O menino havia acabado de adormecer quando sentiu a cama afundar e abriu os olhos, espantado. Ao deparar com o tio ali sentado, teve vontade de gritar, mas, 
a um gesto de silncio de Rafael, ele se calou.
       -  O que voc quer? - sussurrou o garoto no escuro, agarrando-se ao lenol.
       -  Soube que voc no quis minha companhia hoje - respondeu sarcstico. - Posso sabei por qu? No somos amigos?
       Acariciou o rosto de Eric, que recuou aterrado.
       -  Deixe-me em paz - suplicou,  beira das lgrimas.
       -  No se preocupe, Eric. No vou fazer nada. No sou tolo. S vim lhe dar um aviso. Voc est me tratando muito mal. Sua me j percebeu e no est entendendo, 
ou finge que no entende. Mas seu pai sabe. Se voc deixar escapar alguma coisa, vai se arrepender. Cumpro minhas ameaas, e a a coisa vai ficar feia para seu lado. 
O seu e o daquela bichinha.
       -  No falei nada.
       -   bom que no fale mesmo. Estou de olho em voc.
       
     Captulo 25
       
       Na defensoria pblica, Mozart teve outra decepo. Como a Justia estava em recesso de fim de ano, Maria da Glria no se encontrava, e ele no pde obter 
o endereo de Romero. Mozart voltou ao hotel com o corao cada vez mais oprimido. Sabia que Romero estava prximo, mas onde encontr-lo? Se ao menos a me dele 
soubesse...
       Resolveu telefonar-lhe novamente. Ela devia saber de alguma coisa. Mozart discou o nmero de sua casa e aguardou que algum atendesse. Dessa vez, porm, quem 
atendeu foi Silas. Mozart consultou o relgio e constatou que j era noite, hora em que Silas retornava do trabalho. Pensou em desligar, mas o desejo de encontrar 
Romero falou mais alto.
       -  Al, seu Silas? - falou da forma mais corts que podia. - Aqui quem fala  Mozart.
       -  Quem! ? - foi a reao, igualzinha  de Nomia. - Que Mozart?
       -  Amigo de Romero.
       -  No conheo nenhum Romero.
       -  Por favor, seu Silas, preciso falar com Dona Nomia.
       Ele ia bater o telefone na cara de Mozart, mas, ao ouvir o nome da mulher, mudou de idia. O que aquele pederasta podia querer com sua mulher?
       -  Nomia no est - mentiu. - Pode falar comigo.
       -  No... Pode deixar. Se  assim, prefiro ligar mais tarde.
       -  O que h, rapaz? Est de segredinhos com minha mulher, ?
       -  No se trata disso. Mas  que o assunto  s com ela mesmo.
       - J disse que pode falar comigo. Eu e minha mulher no temos segredos.
       -  Obrigado, mas ligo depois.
       -  Escute aqui, moo! No quero voc telefonando para minha casa. Se tem algo a dizer, diga agora.
       -   que... - titubeou - ...gostaria de dizer a ela que j sei de Romero.
       -  Sabe o qu?
       -  O que aconteceu a ele. Sei que est sendo processado.
       -  Isso por acaso  de sua conta?
       -  No. Mas imaginei se ela no o estaria ajudando.
       -  Minha mulher no ajuda ningum sem minha autorizao! - berrou, a tal ponto que Mozart teve de afastar o fone do ouvido.
       -  Tudo bem, seu Silas, o senhor tem razo. Perdoe-me. No vou ligar mais.
       Desligou apressadamente, antes que Silas gritasse de novo, torcendo para que no tivesse causado nenhum problema a Nomia.
       Assim que Silas colocou o fone no gancho, Nomia entrou na sala, trazendo uma tigela, que ps na mesa do jantar. Com ela, estavam os espritos de Judite e 
Fbio. Silas encarou-a desconfiado, e ela perguntou inocentemente:
       -  Quem era?
       -  Ningum. Engano.
       Embora no tivesse acreditado, Nomia no perguntou mais. Percebera que ele havia demorado ao telefone, apesar de no ter ouvido o que dissera. Sentiu uma 
apreenso dominar-lhe o peito, mas tentou manter-se firme.
       -  O jantar est servido - falou secamente.
       Silas sentou-se e esperou at que ela se sentasse e o servisse, para s ento interrogar:
       -  Tem tido notcias de Romero?
       -  De Romero? - espantou-se. - Por que a pergunta?
       -  Responda-me apenas. Tem tido ou no notcias daquele safado ?
       Ela engoliu em seco e mentiu:
       -  No.
       -  Tem certeza?
       - Tenho.
       -  E de Mozart?
       -  De Mozart? Imagine, Silas,  claro que no. Mozart est na Europa.
       -  Digamos que ele tenha voltado. Ser que no a procurou?
       -  A mim? E por que o faria?
       -  Para saber de Romero.
       - No sei de nada disso. Que eu saiba, Mozart est na ustria, e Romero est sumido.
       -  E voc no tem notcias de nenhum dos dois, no ?
       - J disse que no.
       Ele pousou a colher no prato de sopa e olhou fixo nos olhos de Nomia, o que a deixou deveras incomodada. Limpou os lbios com o guardanapo e disparou com 
mal contida raiva:
       -  Quero que me escute bem, Nomia, que  para depois no dizer que no avisei. Se eu descobrir que voc anda ajudando aquele veadinho do seu filho, coloco-a 
para fora de casa tambm, e voc que v viver na sarjeta com ele!
       Judite aproximou-se mais ainda e quase que se colou ao corpo da me. Ela precisava reagir. No era certo ser tratada como uma incapaz.
       -  Vamos, me, tenha coragem. Reaja! Ele no pode falar assim com voc. No  direito.
       -  No gosto de brigas - pensou Nomia. -  melhor no responder.
       -  No precisa brigar - continuava Judite. - Apenas mostre-lhe que  preciso respeitar as pessoas. Voc no  uma coisa, sem vontade ou sentimentos.
       -  Se responder, ele vai ficar ainda mais furioso.
       -  No vai, no. Ele vai se espantar e vai parar para pensar. O que o estimula a ser arrogante e autoritrio  sua passividade. Ajude-o, me. Ajude-o a se 
ver e a modificar esse temperamento difcil.
       -  Ouviu bem o que lhe disse, Nomia? - era a voz de Silas, interrompendo o dilogo dela com o invisvel.
       -  Agora, me! - incentivou Judite. - Responda! Coloque-se como gente!
       -  Ouvi, sim - respondeu Nomia, um tanto hesitante. - Mas no precisa falar comigo desse jeito. Voc no  o dono da verdade nem senhor de minha vontade. 
- Elevou o tom de voz, agora mais confiante. - Romero  meu filho, e, se eu quiser, vou ajud-lo tanto quanto achar necessrio. Quanto  ameaa de me colocar daqui 
para fora, isso no me assusta. Somos casados h quase trinta anos, e eu hei de ter meus direitos.
       Era a primeira vez que Nomia lhe respondia, o que deixou Silas deveras aturdido. Nem ela se reconhecia e ficou esperando que ele esbravejasse e gritasse 
com ela de novo. Mas Silas no fez nada disso. Olhou-a com indignao e retrucou:
       -  No foi isso que eu quis dizer... No vou realmente expuls-la... - Com o rosto vermelho, explodiu: - Mas que droga, Nomia! S de ouvir o nome de Romero, 
fico fora de mim! Ele me deixa louco!
       -  Pois no devia - prosseguiu ela, inspirada pelo esprito da filha. - Romero  to seu filho quanto meu. Devamos ajud-lo. No somos seus pais? No foi 
com isso que nos comprometemos?
       -  Comprometemos? No me comprometi com nada. No pedi para ter filhos!
       -  Mas teve. E  dever dos pais orient-los pelo caminho do bem.
       -  Voc est querendo dizer que Romero virou veado porque eu no o orientei direito?  isso, Nomia?
       -  No falei nem pensei nada disso. Romero  o que  por vontade prpria, e no nos cabia direcionar seu destino. Mas ns deveramos t-lo mantido aqui em 
nossa casa, e talvez ele no estivesse envolvido nesse processo infamante.
       -  Ele deve arcar com as conseqncias do que fez. Ningum mandou violentar o menino.
       -  Voc no acredita nisso! Est apenas usando isso como desculpa para extravasar seu dio. Por que odeia seu filho, Silas? O que foi que ele lhe fez?
       -  Ele  um pederasta, isso sim! Dormia com aquele sem-vergonha em nossa casa. Traiu nossa confiana.
       - Nada disso teria acontecido se voc no tivesse insistido em fazer dele o que voc gostaria que ele fosse.
       -  Eu! ? Gostaria que meu filho fosse homem. Ser que isso  pedir demais?
       -  Pois deveria gostar que ele fosse um homem honesto e decente, e no apenas viril.
       -  Ora vamos, Nomia, nenhum pai gosta de ter um filho homossexual.
       -  Isso, por si s, no  motivo para discriminar e renegar o prprio filho.
       Silas jogou o guardanapo em cima da mesa e levantou-se bruscamente, quase derrubando seu prato no cho.
       -  No estou entendendo voc. Durante todos esses anos, concordou comigo. Posso saber o que aconteceu para mudar de idia agora?
       -  Jamais concordei com voc. Apenas lhe obedeci. S que no sou uma boneca manipulvel, Silas. No sou marionete. Sou sua mulher, me de seus filhos, e tenho 
o direito de ter minhas prprias opinies.
       Ele no respondeu. No fundo, sabia que ela tinha razo, mas o orgulho no lhe permitia concordar com ela. Remoendo a raiva, deu-lhe as costas e saiu batendo 
a porta. Nomia permaneceu sentada, sem se mover. Sentiu uma estranha emoo tomar conta de todo o seu corpo. Era como se, naquele momento, estivesse se libertando 
das amarras s quais vivera atada por toda a vida. Silas sentira-se intimidado, ela percebera. Dera importncia ao que ela dissera, o que era uma sensao nova para 
ela. Nunca, em toda a vida, tivera voz ativa para nada. Ele nunca a escutara, e ela no tinha direito de ter opinio prpria. Mas, agora, no. Impusera sua vontade 
e ele se espantara. E no tivera coragem de enfrent-la.
       Agora ela sabia. Era uma mulher, uma pessoa digna, que tinha direito de ser respeitada. Tinha o direito de ser ela mesma.
       No nibus para casa, Nomia ia pensando. Acabara de visitar o filho na penso e estava angustiada. Romero andava triste, cabisbaixo, sentindo-se extremamente 
s, sem amigos nem ningum que o pudesse entender. Alm dela, no havia mais ningum no mundo disposto a ajudar. Ningum, a no ser Mozart. Desde a ltima vez que 
telefonara e falara com Silas, nunca mais dera sinal de vida. Teria desistido de Romero? Teria voltado para a Europa, desiludido e certo de que nunca mais se encontrariam? 
Nomia comeou a pensar. No concordava com aquele meio de vida do filho, mas agora se sentia em dvida sobre o que seria o certo e o que seria o errado. Gostaria 
muito que Romero tivesse se casado e lhe dado netos, mas ser que valeria a pena um casamento sem amor? O filho no dava para aquilo. Ele mesmo dizia que no havia 
jeito de gostar de mulheres. Como ento pretender obrig-lo a desposar uma e, pior, ter filhos com ela, filhos que acabariam sofrendo imensamente quando, mais tarde, 
a verdade viesse  tona? Ou ser que Romero conseguiria viver a vida inteira fingindo ser o que no era? Mesmo que conseguisse, seria isso o ideal? Ser que valeria 
a pena fingir que ele era igual a todo mundo, s para manter a aparncia que a sociedade exigia, e viver infeliz? J no estava bem certa.
       Os pensamentos de Nomia voltaram ao passado,  poca em que Romero, recm-entrado na adolescncia, sofrer aquela violncia. Desde ento, nunca mais fora 
o mesmo. Durante muito tempo, Nomia quis acusar Jnior, e depois Mozart, pelos desvios do filho. Mas agora via que eles no podiam ser responsveis pela escolha 
que Romero fizera de sua vida. Romero era o que era e teria sido o mesmo, ainda que Jnior ou Mozart jamais houvessem atravessado seu caminho.
       S que agora ele estava enfrentando um processo criminal srio.  claro que tudo isso acontecera porque ele era homossexual. No que ela acreditasse que Romero 
houvesse violentado o garoto. Pelo que conhecia de seu filho, sabia que ele seria incapaz de uma atitude daquelas. Era o preconceito contra sua homossexualidade 
que fazia com que todos acreditassem que ele era o culpado. Mas, como Romero mesmo dizia, ele era apenas um homossexual, no um criminoso ou marginal. Era diferente, 
ela sabia. Romero sempre fora um bom filho, estudioso, educado, honesto, de bom corao. Ser que todas essas qualidades haviam se apagado s porque ele escolhera 
outra forma de se relacionar sexualmente?
       Por mais que Silas insistisse em que Romero no era um rapaz digno, ela no conseguia concordar. Por muito tempo, vivera  sombra do marido, pensando o que 
ele pensava, desejando o que ele queria, fazendo o que ele mandava. Repudiara o filho porque Silas assim determinara, e ela, embora desgostosa e contrariada, no 
teve coragem de enfrent-lo. Mas isso agora havia acabado. No que ela de repente, de uma hora para outra, virasse uma mulher ousada e atrevida. Tambm ela no ia 
tentar ser o que no era. Sempre fora mulher calma e pacfica, mas agora estava conseguindo ver a grande diferena que havia entre a pacificidade e a passividade. 
Precisava continuar pacfica, mas jamais voltaria a ser passiva. Afinal, no fora justamente isso que lhe tirara a paz?
       Como se isso no bastasse, havia o amor. O amor no devia estar atrelado a esse tipo de coisa. Achava mesmo que o amor no devia estar atrelado a nada. Amor 
 um sentimento, no uma equao que deva ser resolvida  base da lgica. Fulano  um bom rapaz, logo  digno de ser amado. J o outro no , portanto no merece 
o amor. Para amar, basta sentir. S isso. No  preciso explicao, nem justificativa, nem motivo. O amor  simplesmente o amor.
       Nomia agora compreendia isso. Ainda mais ela, que era me e amava seus filhos desde quando nasceram. Perdera Judite havia alguns anos, e s agora conseguia 
compreender tambm a filha. Judite sempre amara Romero e nunca se importara com o que ele era. Para ela, o que contava era o sentimento. Em sua curta vida, tentara 
dizer-lhe isso, mas ela no entendera. Estava surda a qualquer coisa que no fosse a voz do marido.
       S que agora entendia. Entendia e iria fazer tudo que estivesse a seu alcance para no perder Romero tal como perdera Judite. A filha partira, e, se havia 
algum lugar para onde os espritos bons iam, devia ser l que ela estava, porque Judite sempre fora uma pessoa boa, e Nomia acreditava que a filha estaria sendo 
ajudada por algum. Mas o filho ainda vivia entre eles. Ela tinha tempo de reconquist-lo.
       Entrou em casa decidida. Silas ainda no havia voltado do trabalho, de forma que ela poderia agir sem maiores problemas. Apanhou o caderninho dentro da bolsa 
e tirou o fone do gancho. Sem hesitar, discou o nmero que Mozart lhe dera. Uma voz metlica atendeu do outro lado da linha, e ela pediu que a ligassem com o quarto 
do rapaz. Em poucos instantes, ele atendeu.
       -  Mozart? - indagou ela. - Aqui quem fala  Nomia, me de Romero.
       -  Ah! Dona Nomia, como vai? - replicou ele, ansioso.
       -  Vou bem. Estou ligando porque gostaria de saber se voc ainda quer se encontrar com Romero.
       -  Se quero? Mas  claro que quero! A senhora sabe disso.
       -  Eu sei. Vou lhe dar o endereo. Quer anotar?
       -  S um instante - Mozart correu a apanhar lpis e papel. - Pode falar.
       Nomia deu-lhe o endereo e explicou direitinho a Mozart onde ficava a penso.
       -  Anotou tudo?
       -  Tudinho.
       -  Ento v. Ele ainda no sabe que voc chegou ao Brasil. Vai ficar feliz.
       -  Obrigado, Dona Nomia!
       Mozart desligou e arrumou-se correndo. Tomou um txi e deu ao motorista o endereo da penso. No demorou muito, e logo chegaram. O jovem saltou, cumprimentou 
o homem da recepo com um aceno de cabea e subiu os degraus de par em par. No segundo andar, foi andando pelo corredor, com o papel na mo, procurando o quarto 
de Romero. At que o encontrou. Parou  porta, indeciso, encheu os pulmes de ar e bateu.
       Do lado de dentro, Romero assustou-se com aquelas batidas. A me sara dali havia pouco, e ele no esperava a visita de mais ningum, ainda mais quelas horas. 
Encostou o ouvido na porta, mas no ouviu nenhum barulho do lado de fora. Inseguro, perguntou:
       -  Quem ?
       Ouvindo aquela pergunta, proferida numa voz to incerta e sumida, o outro respondeu:
       -  Sou eu, Romero. Mozart...
       Nem precisou dizer mais nada. Reconhecendo-lhe a voz, Romero escancarou a porta. No havia dvida. Era mesmo Mozart quem estava parado ali, na sua frente, 
olhando-o com um misto de saudade e arrependimento.
       -  Mozart... - sussurrou. - Que milagre o trouxe aqui?
       -  Sua me. Ela me deu seu endereo, e eu vim.
       -  Voc sumiu... Pensei que no quisesse mais me ver.
       -  Eu tentei. Fiz de tudo para encontr-lo. Mas o destino no quis.
       Calou-se, a voz embargada, e Romero abraou-o comovido, escondendo o rosto em seu ombro, chorando feito uma criana. No podia crer que, depois de tantos 
anos, Mozart estava ali novamente. O outro gentilmente empurrou-o para dentro e fechou a porta, estreitando-o num abrao amoroso e amigo.
       -  Como senti sua falta! - desabafou Romero entre soluos. - S Deus sabe quanto senti saudade sua!
       Com extremo cuidado, Mozart sentou-se ao lado de Romero na cama e permitiu que ele extravasasse o pranto. Ele precisava chorar. Estava passando por momentos 
difceis, e o pranto aliviava a dor. Chorou por quase meia hora, agarrado ao pescoo de Mozart, sem conseguir falar. Apenas sentia o puro afeto que emanava do outro.
       Depois que se acalmou, conseguiu falar com mais clareza. Os dois estavam felizes com o reencontro, e Mozart pediu a Romero que lhe contasse direitinho o que 
havia acontecido. Em detalhes, Romero contou tudo, desde o dia em que fora morar com Plnio, aps a morte de Judite, at quando toda aquela desgraa acontecera. 
Mozart ficou revoltado com a atitude de Rafael, mas concordava que o melhor seria provar a inocncia de Romero.
       -   o que estou tentando fazer. E a doutora Maria da Glria espera que Eric conte a verdade ao juiz.
       -  Quando ser a prxima audincia?
       -  Daqui a um ms, mais ou menos.
       -   muito tempo. Voc no pode continuar morando aqui at l. Arrume suas coisas e v comigo para o hotel.
       -  Voc acha isso conveniente?
       -  Por que no?
       -  Talvez a doutora Maria da Glria no ache.
       -  Tem razo.  melhor falar com ela primeiro. Mas ela est de frias.
       -  Como voc sabe disso? Voc a conhece?
       - No, no conheo. Mas ouvi falar a seu respeito.
       -  Como? Quem lhe disse?
       - Desde que cheguei, venho tentando localiz-lo. Primeiro, procurei sua me. No obtendo sucesso, fui atrs do mdico com quem voc morou. Eu sabia o hospital 
em que ele trabalhava e parti para l.
       -  Voc falou com o doutor Plnio?
       -  Falei, sim. Foi ele quem sugeriu que eu procurasse a defensora pblica. Est muito preocupado com voc.
       -  No acredito. Foi ele quem abriu esse processo contra mim.
       -  Acho que ele foi obrigado. Mas ele no acredita que voc tenha feito isso. Tambm desconfia do cunhado.
       -  Ele lhe disse isso?
       -  Disse. E tambm espera que Eric fale a verdade. Ele gosta muito de voc, e me pareceu que estava sofrendo muito. Est ansioso para esclarecer tudo.
       Romero sentiu-se duplamente feliz. Encontrara Mozart, em quem vinha insistentemente pensando, e agora ele lhe dizia que Plnio no acreditava que ele fosse 
culpado. Isso tambm era motivo de alegria. Gostava de Plnio como se fosse seu pai e ficara muito triste ao imaginar que ele estivesse acreditando que ele fora 
capaz de machucar Eric. No bastasse o fato de que no era pedfilo, Romero amava o menino profunda e sinceramente, e jamais faria algo que pudesse mago-lo. No 
o faria a ele nem a nenhuma outra criana.
       Do lado do astral, Judite e Fbio, de mos postas, irradiavam fluidos de amor e esperana pelo ambiente. Deram um passe em Mozart e outro em Romero. A moa 
beijou o irmo na face e sorriu para Fbio.
       -  Mais uma etapa cumprida - disse o esprito.
       -  Sim. Minha me est conseguindo se libertar da priso psquica em que meu pai a colocou e tenta ser ela mesma. Mozart, finalmente, encontrou Romero. Em 
breve, o processo criminal chegar ao fim, com vitria de meu irmo, acredito, e tudo estar terminado. Apenas meu pai no consegue enxergar.
       -  Tudo tem sua hora, Judite. Seu pai ainda  um esprito muito empedernido. Vamos rezar para que ele tambm compreenda e aceite.
       De mos dadas, os dois espritos afastaram-se, deixando Romero e Mozart a ss com seu amor e seus carinhos.
       Quando Maria da Glria voltou das frias, faltavam poucos dias para a audincia de Romero. O rapaz fora procur-la em seu escritrio, acompanhado de Mozart. 
Maria da Glria foi apresentada a Mozart e ficou surpresa ao saber que ele era um msico famoso na Europa.
       -  No acho que seja uma boa idia voc ir morar com um rapaz nesse momento - aconselhou ela. - Lembre-se de que voc s foi acusado porque  homossexual. 
No quer fazer parecer que estava louco para se atirar nos braos de outro homem, quer?
       - No.
       -  Pois, ento, espere um pouco. Quando tudo terminar, voc poder levar sua vida normalmente.
       -  Doutora - interveio Mozart -, no gostaria que a senhora pensasse mal de ns. Romero e eu nos conhecemos h muitos anos e sempre nos amamos. No quero 
que parea que nossa relao  algo sujo ou imoral.
       -  No estou dizendo isso. Mas  o que as outras pessoas vo dizer. Vocs, mais do que ningum, devem saber o que  ser discriminado pelo preconceito.
       -  Sabemos...
       -  Pois, ento, compreendam. Todo mundo vai acusar Romero de tarado, vo dizer que ele no pode passar sem homem e sem sexo. E o advogado do doutor Plnio 
vai se utilizar disso como uma arma. Far parecer que Romero est desesperado para continuar transando com seus homens, tanto que nem liga para o que aconteceu e 
j foi viver com outro. No.  melhor que Romero permanea sozinho.
       -  Sei que tem razo - concordou Mozart. - Mas  importante que ao menos a senhora saiba que ns no somos imorais.
       -  Eu sei. Eu tive de aprender que ser homossexual no significa ser imoral ou criminoso. Aprendi isso com Romero, se voc quer saber. At ento, eu tambm 
fazia uma idia meio errada de vocs.
       -  ? - indignou-se Romero. - Como assim?
       -  Bem, perdoe-me, Romero, mas eu achava que os homossexuais eram pessoas sem moral, que seriam capazes de tudo para se satisfazer. Quando entrei em sua cela 
naquele dia, ainda pensava assim. Achava que voc devia mesmo ser culpado, mas ia defend-lo porque  minha funo. Mas depois, conhecendo-o melhor, vi que no  
nada disso. Hoje, fao uma idia bastante diferente dos homossexuais. Sei que um homem gostar de outro no significa abandonar os princpios nem a moral.
       -  A senhora  casada? - perguntou Mozart.
       -  Sou.
       -  Tem filhos?
       -  Tenho. Um casal.
       -  Seria capaz de deix-los aos cuidados de um homossexual?
       -  Essa  uma pergunta difcil. Mas sim... Se o homossexual for uma pessoa direita, eu os deixaria, sim.
       -  Como a senhora iria saber?
       -  Conhecendo-o como pessoa, como ser humano. Eu jamais deixaria meus filhos com uma pessoa qualquer, fosse htero, fosse homossexual. Porque h homossexuais 
maldosos, tanto quanto h heterossexuais tarados e molestadores. S que o fato de ser homossexual j no conta mais como um ponto a menos para a pessoa, como algo 
que deponha contra sua conduta. Hoje sei que as pessoas contam pelas suas atitudes, sua dignidade, seu carter. E isso nada tem a ver com a sexualidade.
       -  Embora boa parte dos homossexuais acabe mesmo na marginalidade - observou Mozart.
       -  Para mim - continuou ela -, o que leva muitos homossexuais  marginalidade  o preconceito, a discriminao. Ou o medo de serem discriminados, mal compreendidos. 
Muitos homossexuais no conseguem se assumir, acham-se diferentes e no se julgam dignos ou merecedores de conviver normalmente com as outras pessoas. Por isso, 
no lutam, no competem com os outros por uma posio melhor na vida, e a acabam mesmo caindo na marginalidade, ou seja, pem-se  margem da sociedade, julgando-se 
errados, condenando-se pelo que so. Da porque h tantos homossexuais na prostituio, levando uma vida libertina, descambando para a obscenidade e a perdio, 
o que  uma pena.
       -  A senhora pensa exatamente como o doutor Plnio... - comentou Romero, com certa tristeza.
       -  A senhora  muito avanada para nossa poca - considerou Mozart, tentando desviar a mente de Romero da lembrana do mdico. - Se fosse na Europa, no dizia 
nada. Apesar de haver preconceito por l tambm, ele no  to forte quanto aqui.
       -  Est na hora de as coisas mudarem - ponderou Maria da Glria. - Eu, por mim, j mudei meu pensamento. Estou tentando deixar de lado toda forma de preconceito.
       -  Fico feliz - disse Romero. - Ainda mais porque a senhora  minha defensora.
       -   isso mesmo, Romero. E, como sua defensora, vou voltar ao assunto que os trouxe aqui. No vo viver juntos por ora. Mozart pode continuar visitando-o, 
mas tomem cuidado para que ningum os veja e tire concluses precipitadas e maldosas. Sua conduta  muito importante para firmar seu carter. E o juiz me parece 
simptico a voc. Tanto que vai interrogar Eric. No estrague tudo, por favor.
       -  Pode deixar. Vou me comportar direitinho.
       -  Muito bem. At o dia da audincia, ento. Qualquer novidade, entrem em contato.
       Apertaram-se as mos e saram. Apesar de desaconselhados de morarem juntos, Mozart e Romero no estavam tristes. Haviam se reencontrado, o que era o mais 
importante. Depois, poderiam assumir sua relao e continuar levando uma vida normal.
       
     Captulo26
       
       Finalmente, chegara o dia da audincia em que Eric iria prestar depoimento. Como vtima, sua palavra era de suma importncia, embora ouvida com os cuidados 
que toda criana requer.
       Logo pela manh, ele acordou passando mal. Sentia o estmago arder e chegou a ter uma pontinha de febre. Plnio, porm, medicou-o e cuidou dele, tentando 
fazer com que no ficasse nervoso.
       -  Talvez seja melhor ele no ir - sugeriu Lavnia, deveras preocupada com o filho. - O doutor Antero poder dizer que ele no est bem. E uma criana; no 
h de advir nenhuma conseqncia ruim para ele.
       -  No se trata disso, Lavnia - objetou Plnio. - O depoimento de Eric  muito importante para que se descubra a verdade.
       -  Mas que verdade? A verdade est mais do que na cara. No sei do que voc ainda duvida.
       Plnio no respondeu. Limitou-se a olh-la com desgosto e entrou no banheiro. Queria encerrar aquela discusso. Irritada, Lavnia saiu do quarto e foi ver 
como o filho estava. Ele parecia bem, apesar de extremamente nervoso.
       -  Voc no precisa se preocupar, querido - tranqilizou ela, abraando-o com ternura. - No precisa nem ir, se no quiser.
       -  Foi o que disse a ele - era a voz de Rafael, que vinha entrando nesse momento. - Que no precisa ir. No foi, Eric?
       O menino balanou a cabea, mas no disse nada. Estava apavorado com a idia de que teria de mentir diante do juiz. No sabia se conseguiria. Alm do mais, 
sentia que estava no limite de suas foras. Aquela mentira toda o estava sufocando, e o que ele mais queria era poder contar a verdade. Mas, se falasse, o tio cumpriria 
sua promessa, e ele e Romero poderiam acabar mortos. O que poderia fazer?
       - Voc quer ir, Eric? - perguntou Lavnia, de forma inocente. Eric no respondeu, e Rafael falou no lugar dele:
       -   claro que ele no quer. Voc no est vendo, Lavnia? O menino est apavorado. A simples idia de ter de se ver frente a frente com aquele monstro de 
novo deve lhe dar calafrios. Coitadinho! Isso  uma maldade, Lavnia! Plnio no devia expor o menino dessa maneira. Imagine como deve ser difcil ter de reviver 
todo aquele horror.
       Essas palavras foram decisivas para Lavnia. De um salto, murmurou um "Tem razo" e voltou correndo para seu quarto. Depois que ela saiu, Rafael soltou um 
sorriso cnico, deu um tapinha no rosto de Eric e sibilou em tom de ameaa:
       - Voc no vai se esquecer do que eu lhe disse, vai? - Eric meneou a cabea. - timo. Porque, seno...
       Fez novamente aquele gesto de quem cortava a garganta e foi embora, deixando o menino apavorado em sua cama.
       Enquanto isso, Lavnia tornava a entrar em seu quarto.
       -  Ele no vai - comunicou incisiva. - No vou permitir que voc exponha meu filho a tanto sofrimento.
       Plnio, que estava terminando de dar o n na gravata, estacou a meio e fitou-a pelo espelho, respondendo com calma:
       -  Ele vai. Sou o pai dele, fui eu quem comeou aquela maldita ao. E por sua vontade. S que agora pretendo termin-la. E de forma justa.
       Virou-se e saiu pelo corredor, caminhando a passos rpidos. Ao entrar no quarto de Eric, encontrou o menino todo encolhido sobre a cama, os olhos brilhantes 
de lgrimas.
       -  Apronte-se, Eric - falou amoroso. -J est quase na hora. Lavnia veio logo atrs e protestou com veemncia:
       -  Deixe-o em paz, Plnio! No v que ele est apavorado?
       -  Ele est apavorado, sim, mas no  por causa de Romero.
       -  Como no? Ele est com medo de se encontrar com aquele cafajeste novamente.
       - Ele no tem o que temer. Sou seu pai e irei proteg-lo de tudo e de todos. Ainda que da prpria famlia!
       -  O que est querendo dizer com isso? Que eu posso fazer-lhe algum mal?
       -  Voc, no.
       - Quem, ento?
       -  Voc sabe.
       -  Plnio, no vou admitir que faa insinuaes sobre meu irmo! No  justo voc querer defender seu... seu...
       -  Meu o qu, Lavnia? Vamos, fale. Repita essa infmia!
       -  E isso mesmo, Plnio. Eu no queria acreditar. Mas voc j est passando dos limites. Nenhum pai expe o filho dessa forma se no tem um motivo muito forte 
por trs de tudo!
       -  Em primeiro lugar, no estou expondo meu filho. No foi minha a idia de ajuizar essa ao. Foi sua. Em segundo lugar, no vou discutir com voc os motivos 
que me levaram a fazer o que estou fazendo agora. Mentiras no me incomodam.
       -  No vai discutir porque no tem o que dizer.  isso, no ? Quer salvar a pele de seu amante acusando o cunhado inocente e nem liga para o que ele fez 
a seu prprio filho!
       -  Cale-se, Lavnia! J basta!
       O pranto angustiado de Eric f-los calar. Lavnia correu para ele e abraou-o, afagando-lhe os cabelos.
       -  Eric - disse Plnio, incisivo -, faa como estou lhe mandando. Vista-se e vamos agora ao frum. Est na hora de sua audincia.
       Lavnia tentou protestar novamente, mas Plnio no permitiu. Pela primeira vez em sua vida, foi rude com ela. Segurou-a pelo brao com fora e levou-a para 
fora, trancando a porta do quarto. Ela ficou do lado de fora, esmurrando a porta c gritando, mas Plnio, voltando-se para o filho, indagou:
       -  Voc acredita no que sua me disse? - Eric meneou a cabea. - Pois, ento, faa como lhe digo. Vista-se e vamos  audincia. Sem medos. Eu estou a seu 
lado e nada nem ningum poder lhe fazer mal. Eu prometo.
       Eric obedeceu. Vestiu-se vagarosamente e segurou a mo do pai.
       Plnio apertou-a com fora e abriu a porta. Parados no corredor, Lavnia e Rafael obstruam a escada.
       -  Vai ter de me bater para passar por mim - rosnou Lavnia.
       - No sou nenhum covarde, Lavnia - respondeu Plnio. - Mas, se for para salvar a vida de um inocente e levar paz ao corao de meu filho, esteja certa de 
que no hesitarei em empregar toda a minha fora para tir-la de meu caminho.
       Eric escondeu-se atrs do pai, com medo de encarar o tio. No queria ir, mas tambm no queria ficar. Sentia-se movido por uma estranha fora, algo que o 
compelia a ir avante, algo que nem sabia explicar. S o que sabia, naquele momento, era que precisava ir.
       Diante de tanta convico, Lavnia chegou para o lado, e Plnio passou por ela a passos decididos. Nem se deu ao trabalho de olhar para o cunhado. Simplesmente 
empurrou-o para o lado e desceu as escadas, puxando Eric pela mo. Rafael no se atreveu a dizer nada. Do jeito que Plnio estava, era bem capaz de lhe acertar um 
soco.
       Chegaram ao frum em cima da hora, e Antero correu a seu encontro.
       -  Pensei que no viessem mais.
       - J chamaram?
       - J. A doutora Maria da Glria e Romero acabaram de entrar.
       -  Ento vamos. O que estamos esperando?
       -  Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? Pode ser doloroso para Eric.
       -  No se preocupe. Sou o pai dele. E, depois, a verdade o reanimar.
       Entraram apressados e foram sentar-se em seus lugares. Pelo canto do olho, Eric fitou o rosto sofrido de Romero, que olhava para a frente, evitando encar-lo. 
Por um momento, porm, seus olhares se cruzaram, e Eric baixou os olhos, tentando conter as lgrimas.
       Terminadas as formalidades preliminares, o juiz mandou que Romero sasse para que comeasse o interrogatrio.
       -  Muito bem, Eric - comeou o magistrado. - Sabe por que est aqui de novo, no sabe?
       -  Sim, senhor.
       -  Voc no prestou nenhum compromisso de falar a verdade;  menor de idade e no est obrigado a responder a nenhuma pergunta. Quem vai lhe fazer todas as 
perguntas serei eu. Se seu advogado ou a doutora defensora quiserem saber alguma coisa, faro as perguntas por meu intermdio. Se voc achar que est sendo difcil, 
pararei a audincia. Mas, se voc conseguir ir adiante, peo que se concentre e fale apenas a verdade. Sem medos. Voc aqui est protegido pela Justia e ningum 
lhe far nenhum mal. Compreendeu? - O garoto assentiu. - timo. Podemos comear, ento?
       -  Podemos.
       -  Vamos retomar do ponto em que paramos na audincia passada. - Ele consultou os autos e interrogou: - Voc disse que o senhor Romero entrou em seu quarto 
naquela noite, no foi?
       -  Foi.
       -  O que aconteceu?
       -  Ele... - soluos -  fez coisas comigo.
       -  Entendo, Eric. No precisa dizer que coisas foram. O que eu gostaria de saber  se voc tem certeza de que foi mesmo o senhor Romero que entrou em seu 
quarto naquela noite.
       -  Foi...
       -  Voc viu o senhor Romero com nitidez? No estava escuro?
       -  Estava.
       -  E como voc tem certeza de que foi o senhor Romero?
       -  Eu o conheo.
       -  S por isso? - Silncio. - O senhor Romero no lhe disse nada?
       Ouvir o nome de Romero repetidas vezes, sendo acusado de algo que, absolutamente, no havia cometido, causou imenso mal-estar em Eric.  medida que o juiz 
ia falando, ele via e revia aquela cena, lembrando-se de tudo que Rafael havia feito com ele. Olhou discretamente para o pai, que lhe deu um sorriso encorajador, 
e respondeu.
       -  No, senhor. Ele no me disse nada.
       -  O senhor Romero chegou a lhe mostrar o presente que lhe levara?
       -  No.
       -  No entanto, ele o deixou cair no cho de seu quarto.
       -  Foi.
       -  Voc viu quando a miniatura caiu?
       -  No.
       -  Como voc se sente, Eric, tendo sido violentado pelo homem que, depois de seu pai, voc acreditava ser seu melhor amigo?
       A pergunta foi dura e de efeito. Eric no resistiu mais. Agarrou-se ao pai e desatou a chorar convulsivamente.
       -  Excelncia - protestou Antero -, est claro que o menino no tem condies de prosseguir. Peo que ele seja dispensado. Ele j contou essa histria inmeras 
vezes. O depoimento que deu  polcia est nos autos. No vejo necessidade de submet-lo a esse sofrimento de novo.
       O juiz olhou para Maria da Glria, que contestou veemente:
       -  No posso concordar, excelncia. O depoimento do menino  fundamental para que descubramos a verdade. Lembre-se de que  a vida de um homem que est em 
jogo, um homem inocente que est prestes a pagar por um crime que no cometeu.
       -  Como no cometeu? - irritou-se o advogado. - Est mais do que provado que foi ele!
       -  Se estivesse to bem provado assim, ele j teria sido condenado. Mas, que eu saiba, o juiz ainda no proferiu a sentena.
       O juiz Vitorio fez um gesto com as mos, e ambos os advogados se calaram.
       -  Senhores, vou fazer apenas mais uma pergunta ao menino. Se ele no conseguir se controlar, e se eu perceber que essa audincia est causando efeitos danosos 
 sua mente, encerrarei a sesso e no o convocarei mais. Est certo? - Ambos assentiram. - Muito bem, Eric. Acha que pode responder apenas a mais uma pergunta?
       -  Por favor, Eric - sussurrou Plnio em seu ouvido -, conte a verdade. Se algum lhe fez alguma ameaa, no precisa temer. Ningum vai lhe fazer mal algum, 
eu prometo. E, depois, voc no quer ser o responsvel pela desgraa de seu amigo, quer?
       Eric enxugou os olhos e olhou bem fundo nos olhos do pai. Virou-se para o juiz e respondeu, ainda soluando um pouco:
       -  Est certo, senhor juiz. Pode perguntar.
       -  Muito bem. Quero que voc me diga apenas uma coisa. Voc est absolutamente certo de que foi mesmo o senhor Romero que entrou em seu quarto, imobilizou-o 
 fora e o violentou naquela noite?
       Eric engoliu em seco, lembrando-se das mos do tio sobre seu corpo, machucando-o, e respondeu hesitante:
       -  Foi...
       -  Tem certeza?
       -  Te... tenho... - comeou a soluar novamente e, num rompante, acabou explodindo: - No! No foi ele! No foi Romero. Foi meu tio! Tio Rafael! Ele entrou 
em meu quarto, estava escuro... fez carinho em meu rosto... depois saltou sobre mim e tapou a minha boca com a mo. Foi horrvel! Eu no conseguia respirar. A ele 
me virou de bruos, encostou minha boca no travesseiro e... e... me forou a fazer aquilo... Como doeu! Doeu muito!
       -  Excelncia, protesto! - berrou Antero. - O menino est visivelmente transtornado. Est claro que s est fazendo isso porque tem medo do querelado.
       -  O querelado no tem acesso  vtima - apressou-se Maria da Glria em dizer. - Ao contrrio de seu tio, que mora na mesma casa em que ele.
       -  Isso  um disparate! O senhor Rafael  um homem decente. No est sendo acusado aqui.
       -  Mas foi ele! - gritou Eric novamente, bastante nervoso e vermelho. - Foi ele. E ainda me ameaou. Disse que, se eu contasse a verdade, ele me mataria e 
mataria Romero. E eu menti. Estava com medo e menti. No queria que ele machucasse Romero, no queria! Romero  meu amigo. Nunca fez mal a ningum.
       O juiz deu-se por satisfeito. Aps certificar-se de que Eric estava bem, a audincia foi encerrada, e o juiz Vitorio marcou uma nova, onde pretendia ouvir 
Rafael. Plnio voltou para casa com Eric, sob os protestos de Antero, que no se conformava com o depoimento. Maria da Glria tambm saiu, levando Romero. Ainda 
no era hora de seu cliente falar com o menino.
       No caminho para casa, Plnio e Eric iam conversando.
       -  Sente-se melhor? - perguntou amoroso, e o menino assentai. - Voc foi muito corajoso, Eric. Estou orgulhoso de voc.
       -  O que vai acontecer agora, papai? E se tio Rafael nos matar?
       -  Voc j ouviu falar no ditado de que co que latira no morde?
       -  J.
       -  Pois . Seu tio Rafael  um covarde. Tinha medo de que voc falasse porque sabia que estaria encrencado. E o ameaou porque voc  uma criana, e  muito 
fcil assustar as crianas. Mas estou certo de que no lhes far mal, nem a voc, nem a Romero. Falta-lhe coragem para isso. E, depois, eu estou aqui para proteg-lo. 
Eric sorriu e apertou a mo do pai, sobre o volante.
       -  Eu sinto tanto por tudo isso! Espero que Romero consiga me perdoar.
       -   claro que o perdoar. Voc no teve culpa.
       Quando chegaram  casa, Antero j havia telefonado para Lavnia, que desmaiara sobre o sof, tendo sido acudida imediatamente pelos criados. Rafael nem precisou 
perguntar o que havia acontecido. J sabia. Rodou nos calcanhares e ganhou a rua. Precisava sumir.
       Plnio correu para Lavnia, preocupado. Ela havia acabado de desmaiar, e os empregados andavam de um lado para o outro, sem saber bem o que fazer. Rapidamente, 
Plnio foi a seu quarto e apanhou sua maleta de mdico. Deu  mulher algo para cheirar, e ela acordou tossindo. Olhou para o marido, depois para o filho e comeou 
a chorar:
       -  No pode ser. Isso no pode estar acontecendo. Diga que no  verdade, Plnio, diga.  um pesadelo. Meu irmo, no!
       -  Temo ser verdade, sim, Lavnia. Como vocs souberam?
       -  O Dr. Antero telefonou ainda agora. Que desgraa! Meu prprio irmo! Eric! Voc tem certeza do que disse, meu filho? No estava com medo de Romero? Foi 
isso? Se foi, pode dizer. Mame perdoa voc.
       -  No foi isso, me - rebateu ele com uma vozinha mida. - Eu estava com medo era do tio Rafael.
       -  Mas por qu? Ele  seu tio, tem seu sangue. Ah! meu Deus, por que ele foi fazer isso? Por qu?
       -  Onde ele est? - indagou Plnio.
       Os criados menearam a cabea. Ningum sabia onde ele estava. Plnio mandou que fossem a seu quarto, mas ele estava vazio. Na piscina, ele tambm no estava. 
Vasculharam a casa toda, mas Rafael no foi encontrado.
       -  Ele sumiu - continuou Plnio. - Quer maior prova de sua culpa?
       -  No pode ser. Ele no faria isso... faria?
       -  Ele fez, Lavnia. Eric contou tudo. O menino estava apavorado com as ameaas de Rafael. Por isso acusou Romero.
       -  No ter sido o contrrio? Ainda acho que ele temia uma reao de Romero.
       - J disse que no, me! - protestou Eric com raiva. - Tio Rafael me obrigou a mentir. Foi ele quem me violentou.  horrvel, ningum acha mais horrvel do 
que eu. Ser violentado pelo prprio tio... Mas foi ele, e eu no posso mais continuar mentindo para encobrir seu crime!
       -  Mas Romero  que  o homossexual.
       -  E Rafael  pior - atacou Plnio. -  pedfilo, aquele canalha!
       Lavnia silenciou. S agora compreendia o quanto havia sido cega. Rafael sempre tivera um comportamento distorcido e vivia cercando Eric pela casa. O medo 
nos olhos do menino era bastante visvel. S ela que no enxergava, porque amava o irmo e no queria acreditar que ele fosse capaz de um ato to abominvel. Se 
ele tivesse violentado outro garoto qualquer, Lavnia o teria repreendido severamente. Teria at contratado um psiquiatra para cuidar desse desvio. Mas, com seu 
filho... no podia perdoar. Amava muito o irmo. Mas o amor pelo filho superava qualquer outro.
       Por causa do irmo, ela levantara as mais infundadas suspeitas sobre o marido. Acusara-o de manter um caso esprio com Romero, porque se deixara envolver 
pelas insinuaes maldosas de Rafael, acreditando que havia uma paixo camuflada na relao entre Plnio e Romero. Mas no havia. Ela agora sabia disso. E o marido? 
Poderia perdo-la?
       -  Vou para meu quarto - falou aflita. Precisava pensar.
       -  E Rafael?
       -  No sei. E no sei se quero saber disso no momento. - Abraou o filho e perguntou com angstia: - Pode me perdoar, Eric?
       -  Perdoar o qu, me?
       -  Por no ter percebido nada.
       -  Voc no teve culpa. Tio Rafael a enganou.
       Ela balanou a cabea tristemente e subiu as escadas. Estava arrasada, com vontade de dormir e acordar em outro lugar, longe de todos aqueles problemas. Foi 
para seu quarto e recostou-se na cama. Queria esvaziar a mente e no pensar em nada, mas a imagem do irmo no saa de seus pensamentos. Rafael perdera os pais ainda 
menino, e ela fora para ele a nica me que conhecera. Criara-o com mimos exagerados, fingindo no perceber a falha que se ia abrindo em seu carter. Plnio tentara 
alert-la, mas ela nunca lhe dera ouvidos. E, agora, ele se tornara um homem sem virtude nem dignidade.
       Ainda assim, era seu irmo, e ela no podia deixar de sentir-se um pouco responsvel pelo que ele se tornara. Deveria ter tido mais pulso com ele, ao invs 
de deix-lo fazer o que bem entendesse. Sempre arranjara uma desculpa para seus atos negligentes e suas palavras desrespeitosas, justificando para si mesma que Rafael 
s era assim porque era um coitadinho e sentia a falta dos pais.
       Suspirou dolorosamente e olhou para o lado, no exato instante em que a porta se abriu. Plnio entrou cauteloso e foi para o armrio, afrouxando a gravata. 
Trocou de roupa em silncio e s depois se voltou para a mulher.
       -  Como est se sentindo? - indagou.
       -  Como voc esperava que eu me sentisse? Estou pssima.
       -  Posso imaginar.
       -  Custa-me crer que isso seja verdade. Jamais gostaria de ter tido um desgosto desses.
       -  Preferia que no tivesse lhe contado nada?
       -  Em absoluto! Como poderia viver enganada a respeito de uma coisa dessas? Rafael  meu irmo, e eu o amo muito. Sinto-me responsvel por ele. Mas Eric  
meu filho. Nada no mundo poder superar o amor que tenho por ele.
       -  Voc no deve se sentir responsvel. Cada um age conforme seus prprios instintos e tendncias.
       -  Mas Rafael ficou a meus cuidados. Tinha para com ele os mesmos deveres de me que tenho para com Eric, porque fui sua me depois que meus pais morreram. 
No era minha obrigao educ-lo e orient-lo?
       -  Um erro no justifica o outro. Ainda que voc o tenha criado com liberdade excessiva, isso no serve de escusa para o que ele fez.  uma questo de tendncia, 
de carter.
       Ela suspirou desanimada e perguntou com cautela:
       -  E agora, Plnio, o que faremos?
       -  No sei. Nem sei as conseqncias jurdicas desse caso. Preciso antes conversar com o doutor Antero.
       -  Apesar de tudo, eu no gostaria que meu irmo fosse parar na cadeia.
       -  Mas no se importou quando Romero foi acusado e preso.
       -  Romero no tem meu sangue.
       -  Mas  um inocente. Ia ser preso por um crime que no cometeu.
       -  Eu sei, Plnio, eu sei. Lamento muito pelo que houve a Romero. Ainda assim, no gostaria de ver meu irmo atrs das grades.
       -  E Eric? No se importa com o que aconteceu a ele? Vai permitir que Rafael faa a outros o que fez a nosso filho?
       -   claro que me importo. S no acredito que Rafael v fazer isso novamente. Foi uma loucura que ele cometeu, mas deve ter aprendido a lio.
       -  Pode at ser... S o tempo nos dir.
       Ela se aproximou dele e abraou-o em lgrimas.
       -  Ainda bem que tenho voc.
       Gentilmente, Plnio desvencilhou-se de seu abrao e encarou-a com desgosto.
       -  O que h? - indagou ela, entre receosa e confusa. - Por que me evita?
       -  Ainda pergunta? - tornou ele angustiado, tentando evitar que ela o tocasse novamente. - Ser que j se esqueceu de tudo que me disse?
       -  Eu estava com raiva... - justificou-se insegura, torcendo as mos nervosamente. - Falei sem pensar.
       -  O caso  que voc no me ama e no me respeita. Do contrrio, jamais teria dado ouvidos a Rafael.
       -  Eu estava com raiva, acreditando que Romero era o culpado. No conseguia entender por que voc o defendia tanto. E Rafael trouxe argumentos que me pareceram 
viveis. A princpio, no quis acreditar. Ralhei com ele, mandei que no repetisse mais aquilo. Mas depois, vendo voc sempre defendendo Romero, comecei a duvidar. 
Que motivos teria para tentar desesperadamente inocent-lo?
       -  A justia, Lavnia. S a justia. Nunca ouviu falar nisso? No pode imaginar o que deve ser para algum pagar por um crime que no cometeu?
       -  Eu no acreditava nisso! No acreditava em Romero! Para mim, ele era o culpado e estaria respondendo por seu prprio crime!
       -  Devia ter acreditado em mim.
       -  Eu acredito, Plnio. Agora sei que voc estava com a razo.
       -  Agora voc sabe, no ? Pois deveria ter sabido antes. Eu lhe disse, Lavnia, e voc deveria conhecer melhor o homem com quem se casou. Posso ter muitos 
defeitos, mas a desonestidade no  um deles. Sempre fui um homem leal e sincero. Jamais trairia meus princpios ou os seus.
       - Mas eu acredito em voc agora. Isso no conta?
       - Voc no acredita em mim. Acredita nas provas irrefutveis que apontam seu irmo como o nico culpado.
       Ela se aproximou novamente e comeou a chorar.
       -  Ser que voc  to duro que no pode me perdoar? Eu estava confusa, arrasada.
       -  E eu, no? S que eu busquei a verdade, enquanto voc se contentou com aquela que estava mais de acordo com o que voc queria acreditar como verdade.
       -  No seja injusto, Plnio. Rafael  meu irmo.
       -  E eu sou seu marido. Voc s se lembra de que tem um irmo e um filho. E marido, no tem? O que sou para voc?
       -   meu marido, jamais me esqueci disso... E eu o amo... - Baixou os olhos, confusa, as lgrimas correndo abundantes. - Voc se diz um homem justo e compreensivo, 
sempre em busca da verdade. Mas agora sou eu quem lhe pergunta: ser que sua noo de verdade e de justia sufocou a do perdo? E, mais, a do amor? Ser que voc 
no  capaz de compreender minha dor de me, minha posio de irm, minha desconfiana de um estranho? O que voc queria? Que eu no desse ouvidos s acusaes de 
meu filho, que apontavam um estranho como o agressor, e fosse acreditar que o malfeitor era justamente meu irmo? Ponha-se em meu lugar, Plnio, e responda-me sinceramente. 
O que voc faria se Rafael fosse seu irmo?
       Plnio deixou cair os braos ao longo do corpo e fitou-a com um quase desespero. Jamais havia pensado nisso. Rafael no era seu irmo e eles nunca se haviam 
dado bem. No que sentisse prazer em acusar o rapaz. Todavia, no fora difcil reconhecer-lhe a culpa, porque a antipatia mtua que sentiam facilitava isso. Mas, 
se Rafael fosse seu irmo querido, teria agido da mesma forma?
       Durante alguns minutos, Plnio ficou refletindo no que Lavnia lhe dissera. Sentou-se na cama e afundou o rosto entre as mos. No sabia o que pensar. No 
nutria bons sentimentos por Rafael e, por isso, no conseguia colocar-se no lugar da mulher. Estavam em plos opostos. Ambos amavam Eric, no tinha dvida. Mas cada 
um viu a verdade nos olhos daquele que mais amava. Lavnia acreditou em Rafael movida pelo seu amor de irm. Assim como ele acreditara em Romero porque nutria um 
forte afeto pelo rapaz. Com quem estaria a razo? Como tachar os sentimentos de certos ou errados? Por que  certo amar algum e seria errado amar outro algum? 
O amor no faz escolhas. Lavnia acreditou no que queria porque estava mais de acordo com o que ela sentia por Rafael. Por isso ficara cega e no conseguira enxergar. 
Mas no poderia ter sido o contrrio? No poderia ter sido Plnio a se enganar com Romero? Por mais que o conhecesse e seu corao lhe dissesse que o rapaz era inocente, 
no poderia ele tambm estar se enganando, tentando, de forma inconsciente, transferir para o desafeto a culpa que jogavam sobre seu ente querido?
       Com imenso desgosto, Plnio fitou a mulher, afundada numa poltrona, as faces plidas, os lbios trmulos. Nos olhos brilhantes de lgrimas, um mundo de medos 
e expectativas. Naquele momento, Plnio sentiu sua fragilidade e pde ler em seu olhar a verdade do amor. Lavnia amava-o, no podia duvidar. Seu sentimento era 
quase palpvel, e ele se sentiu invadido pela onda de amor que emanava dela. Junto, um forte arrependimento, a dor imensurvel da culpa misturada  fraqueza do apego 
que ela confundia com amor.
       Sentiu-se tomado por uma emoo indescritvel. Lavnia surpreendera-o e revelara-se, mostrando-se uma mulher preconceituosa, precipitada em seus julgamentos 
e vingativa. Fora injusta com Romero e com ele. Acusara-os de uma indignidade que ambos jamais seriam capazes de cometer. Mas quem era ele para julgar seus motivos? 
S porque a razo estava com ele no significava que Lavnia estivesse errada. A sua maneira, ela procedera de forma correta. Fizera aquilo em que acreditava, e 
no era culpa sua no haver enxergado o equvoco. No era culpa de ningum. Era apenas a obra da vida, levando a cada um seu quinho de experincias.
       De repente, tudo lhe pareceu mais claro, mais leve. Ningum havia cometido erro algum. Nem Rafael. Era imaturo e mimado, mas talvez ainda tivesse chance de 
recuperar-se. Quem sabe Lavnia no tivesse razo, e s o que ele necessitasse fosse de um pouco de amor e compreenso? E quando  que Plnio fora compreensivo com 
Rafael? Nunca. O rapaz sempre fora rebelde, e Plnio tentara corrigi-lo chamando-lhe a ateno. Mesmo nas vezes em que tentara conversar com ele, sentia-se, por 
detrs de suas palavras, o tom intencional da repreenso. Jamais lhe dera um beijo ou um abrao. No teria isso tambm contado?
       Bem l no fundo de seu corao, uma voz interna lhe dizia: perdoar  tarefa divina que ao homem cabe por obrigao; eis que a ningum  dado ser juiz de seus 
semelhantes, porque no h no mundo alma que jamais tenha falhado no convvio com seu irmo. Aquele pensamento, vindo no sabia de onde, eclodiu espontneo em sua 
mente, e Plnio foi capaz de enxergar, naquelas palavras, uma pequenina manifestao da divindade, que lhe alertava a conscincia para que no incidisse na tentao 
do orgulho de se julgar dono do direito de no perdoar.
       Ainda fitando a mulher, sentiu os olhos umedecidos. De um salto, ajoelhou-se diante dela e estreitou-a com ardor, sentindo que tambm a amava. Ficara magoado 
com suas palavras, mas nem a mgoa, nem a raiva eram sentimentos capazes de destruir o amor. No respondeu  sua pergunta. Ao invs disso, pousou-lhe caloroso beijo 
nos lbios e sussurrou emocionado:
       - S o amor  capaz de compreender e perdoar. E de curar nossas feridas...
       Calou-se, a voz embargada, e Lavnia agarrou-se a ele, certa tambm de que ele a amava. J no sentia mais medo. Ao contrrio, sentia-se agora mais confiante 
e mais lcida para agir com equilbrio e discernimento. Estavam agora integrados nas malhas do amor, compreendendo sua mais verdadeira e genuna feio. Abraados, 
ambos agradeciam a Deus, cada um a seu modo, por terem conseguido manter-se unidos e fortalecidos. Em suas oraes silenciosas, nem perceberam a presena dos amigos 
invisveis que lhes faziam intuir as verdades do esprito, que cada qual ia absorvendo e depositando em seus coraes.
       Felizes com mais uma etapa da tarefa cumprida, Judite e Fbio deram-se as mos e partiram.
       Ao fugir da casa da irm, Rafael comeou a vagar sem rumo. Estava sem roupas de reserva e deixara a carteira em casa. Para onde iria fugir? Eric, o idiota, 
acabara contando tudo. Devia ter imaginado que aquilo acabaria acontecendo, e tolo fora ele de ficar esperando. Seria melhor se tivesse aprontado as malas, apanhado 
algum dinheiro com a irm e fugido, talvez para a Europa ou os Estados Unidos. Agora, porm, no havia mais jeito. Estava sem o passaporte e no tinha dinheiro para 
comprar a passagem. O que poderia fazer?
       Acabou passando a noite na casa de um amigo, mas, no dia seguinte, teve de ir embora. Contara-lhe o que havia feito, e o amigo acabou pedindo delicadamente 
que se retirasse. No queria se envolver. Ningum queria. S ento percebera que no tinha amigos. As pessoas com quem se relacionava eram como ele: interesseiras 
e oportunistas. Sua amizade era boa por causa das festas que dava  beira da piscina, dos presentes que ofertava s mulheres.
       Foi vagando a esmo, pensando em quem deveria procurar. No havia ningum. O tal amigo deveria ter dado alguns telefonemas, e todo mundo parecia fugir dele. 
Amigos, namoradas, todos inventavam uma desculpa para no o receber. Parou numa banca de jornal, colheu do bolso algumas moedas esquecidas e comprou fichas de telefone. 
Procurou um orelho prximo e discou para a casa da irm. No tinha escolha. Quem atendeu foi um dos criados, e ele disfarou a voz, pedindo para falar com Lavnia. 
Ela atendeu. Algo no ntimo dela dizia-lhe que era o irmo.
       -  Al! - falou apressada. - Quem fala?
       -  Lavnia? Sou eu, Rafael.
       -  O que voc fez foi imperdovel, Rafael - atacou ela. - Jamais poderia esperar uma coisa dessas de voc.
       -  Eu sei, Lavnia, perdoe-me. Foi um ato de loucura. No sei o que me deu.
       -  Onde voc est?
       -  Na rua.
       -  Venha para casa.
       -  No posso. Estou com medo.
       -  Venha para casa e veremos o que fazer. Caso contrrio, no conte comigo para mais nada.
       Desligou bruscamente, e Rafael ficou parado na rua, segurando o fone na mo. O que deveria fazer? Lavnia dissera-lhe para voltar para casa, mas Plnio no 
concordaria. E se lhe desse uma surra? Se o levasse at a polcia e ele fosse preso? Sabia como eram tratados os criminosos sexuais na cadeia. Todo mundo sabia. 
Violentara Rafael, mas no era homossexual. Aquilo era apenas uma preferncia que ele descobrira com o sobrinho. Nem sabia que era assim. Nunca havia se deitado 
com nenhum outro homem nem sentia atrao por rapazes. S gostava de certas particularidades que as mulheres, em geral, no gostavam de lhe oferecer. No era culpa 
sua se no conseguia controlar seu desejo e seu mpeto.
       Mas ningum iria entender. Ele seria trancafiado, e os outros presos, atendendo a seu cdigo de honra distorcido, fariam dele a mulherzinha da cadeia. No 
era como Romero. Romero conseguira suportar. Mas ele, no. Acabaria degolado ou enlouqueceria de tanto sofrer abusos.
       Resolveu voltar para casa. No tinha mesmo para onde ir. Quando chegou, Antero, o advogado, estava sentado na sala, conversando com Plnio e Lavnia. Eric 
estava na casa de um amiguinho. No precisava ter de enfrentar o tio novamente.
       Lavnia olhou para ele e no disse nada, e Plnio encarou-o com ar indecifrvel. Rafael entrou cabisbaixo e foi recebido por Antero, que faria o papel de 
mediador. O principal, naquele momento, era manter a cabea fria e evitar as brigas.
       -  Entre, Rafael - disse o advogado, puxando-o pelo brao. - E sente-se.
       Rafael sentou-se acabrunhado, evitando encarar a irm e o cunhado. Sentia certa hostilidade no ambiente e acomodou-se todo encolhido.
       -  Espero que tenha conhecimento dos graves atos que voc cometeu - prosseguiu Antero.
       Rafael balanou a cabea e respondeu com voz quase inaudvel:
       -  Sim, senhor.
       -  Muito bem. Pois, ento, deixe-me esclarec-lo. Voc pode ser acusado, no mnimo, de quatro crimes diferentes...
       -  O qu? - indignou-se o rapaz.
       -  Deixe-me terminar, por favor. Em primeiro lugar, voc  o autor do atentado violento ao pudor contra seu sobrinho. Em segundo, fez-lhe graves ameaas, 
o que constituiu outro crime. Como se isso no bastasse, acusou falsamente um homem sabidamente inocente, causando a abertura de processo criminal indevido, o que 
se chama denunciao caluniosa.  o de conseqncias mais graves para voc, no momento. Isso sem falar no crime de calnia de que Romero poder acusar voc.
       Rafael sentiu o rosto arder. Nem ele sabia que havia cometido tantos crimes ao mesmo tempo. Estava apavorado, com muito medo do que poderia lhe acontecer.
       -  Por favor, Lavnia - apelou para a irm, com voz chorosa.
       - Tente me perdoar...
       -  O que voc fez no tem perdo... - rebateu ela, mais por mgoa do que por convico.
       -  A princpio, Rafael - interps Plnio, com medo de Lavnia se descontrolar -, pensamos mesmo que voc no seria digno de perdo. Voc tem conscincia do 
mal que fez a meu filho? Em todos os sentidos? O menino anda apavorado, tem pesadelos  noite, sente-se humilhado diante dos colegas. Foi brutalmente ferido, no 
s em seu corpo, mas em sua honra. E ainda foi obrigado a tolerar suas ameaas, apavorando-se cada vez que o via despontar no porto. No, Rafael, decididamente, 
talvez voc no merea perdo. Contudo... - olhou para Lavnia, que chorava discretamente - voc  meu cunhado...
       -  E isso deve contar, no deve? - falou Rafael, esperanoso.
       - Voc no vai querer ver seu cunhado na cadeia, vai? De que vai adiantar querer se vingar de mim? O que os outros vo dizer?
       -  No quero vingana nem estou preocupado com o que os outros vo dizer. Preocupo-me apenas com o bem-estar de meu filho e com a segurana de outros meninos 
que possam se ver na mesma situao. O que Eric passou, no desejo a mais ningum. Sem contar ainda o que voc fez a Romero.
       -  Pelo amor de Deus, Plnio, no me mande para a cadeia! - Virou-se para o advogado e suplicou: - Doutor, no deixe. O senhor  advogado da famlia h anos. 
H de dar um jeito.
       -  Sua irm e seu cunhado esto dispostos a perdoar o que voc fez a Eric...
       -  Oh! - desabafou Rafael. - Graas a Deus!
       -  Entretanto - prosseguiu Plnio -, no o quero mais em nossa casa. Voc ter de apanhar suas coisas e partir.  o mnimo que devemos a Eric.
       Sem contestar, Rafael engoliu em seco e levantou-se para apanhar suas coisas, mas a voz de Antero o deteve:
       -  Gostaria de esclarecer mais algumas coisas. Seu cunhado pretende abandonar a causa, o que vai acabar com o processo contra Romero. Isso facilitar as coisas 
para voc. Com um pouco de sorte, o juiz, ou o promotor, no mandar instaurar inqurito para apurar a denunciao caluniosa, e as ameaas que voc fez a Eric tambm 
no sero levadas em conta. Amanh mesmo pedirei para falar pessoalmente com o juiz e tentarei convenc-lo a terminar tudo por ali. Mas falta Romero. Se ele quiser 
mover outra ao contra voc, por crime de calnia, no haver nada que possamos fazer. Se ele fizer isso, pode reavivar os fatos, e a denunciao caluniosa vir 
 tona outra vez. Talvez voc venha a ser processado, julgado e condenado.
       -  O que devo fazer? - rogou Rafael.
       -  V falar com Romero - sugeriu Plnio. - Pea-lhe que o perdoe.
       -  No posso fazer isso - desabafou Rafael.
       -  No pode por qu?
       -  No me atreveria. Ele vai me humilhar, me escorraar.
       -  Voc no teve coragem de ameaar um menino de onze anos, dizendo que ia fazer e acontecer? Por que agora se acovarda diante do homem que voc jurou matar?
       -  No falei srio.
       -  Sabemos que no. Sua covardia no permitiria que passasse da ameaa para a ao.
       Rafael baixou a cabea, humilhado, sem saber o que dizer. Estava sendo obrigado a ouvir aquelas barbaridades, que nada tinham de mentiras, s para no ser 
acusado e preso. No era inteno de Plnio, mas Rafael sentia-se humilhado pelo cunhado. Teria de humilhar-se tambm diante de Romero? Era demais. Contudo, se precisasse, 
ele o faria. Tentaria qualquer coisa para no ser preso.
       -  V aprontar suas coisas, Rafael - ordenou Plnio. - No temos mais o que conversar, por ora. Mais tarde, telefone, informando-nos onde est, e no momento 
oportuno, o doutor Antero ir procur-lo.
       Rafael foi saindo da sala, arrasado, vencido, humilhado. Parou e olhou para a irm, que permanecia quieta, fumando um cigarro atrs do outro.
       -  No diz nada, Lavnia? - perguntou, cheio de esperana. Ela apagou o cigarro no cinzeiro e olhou para ele com desgosto.
       -  O que voc quer que eu diga? Estou arrasada, Rafael. Pode imaginar como me sinto? Saber que meu irmo, de quem cuidei como um filho, teve coragem de fazer 
o que fez ao prprio sobrinho? No est sendo nada fcil para mim. Contudo, voc  meu irmo, e no quero v-lo preso. Mas concordo com Plnio. No temos mais condies 
de mant-lo aqui conosco. No confiamos mais em voc. E Eric... pode imaginar como seria penoso para ele tambm. Meu filho no merece isso. Merece um pouco de paz.
       No havia mais o que argumentar. A palavra final j havia sido dada, e ele mesmo concordava que tinha de ser assim. Comeava a lamentar o que fizera, no 
sabia se por medo ou arrependimento. S o que sabia era que no podia continuar ali. Iria embora, procuraria um lugar para ficar. Afinal, tinha seu prprio escritrio 
de arquitetura. Dali em diante, porm, teria de ser responsvel e comparecer mais vezes ao trabalho. Havia perdido a boa vida e agora teria de cuidar de si mesmo. 
Mas no era to ruim assim. Tinha como sobreviver.
       A nica coisa que o preocupava era Romero. Como faria para falar com ele? Ou seria melhor esperar para ver se ele iria mesmo dar incio a alguma ao penal? 
Ser que ele faria mesmo isso? Romero sempre lhe parecera tmido e retrado. Ser que o acusaria formalmente? Essa dvida o assolava. Rafael tinha horror  cadeia. 
Tanto, que no conseguiria simplesmente sentar e esperar para ver o que viria em seguida. No conseguiria esperar para ver se seria acusado ou no. Enquanto aprontava 
suas coisas, lembrou-se de Eric. O sobrinho no estava em casa, e ele bem entendia por qu. Sentiu certa angstia e engoliu em seco. O que fizera fora grave. S 
agora conseguia vislumbrar a gravidade de seus atos. Estava arrependido, sentia vontade de desculpar-se com o sobrinho tambm. Mas sentia medo. Medo e vergonha. 
Eric era apenas uma criana e jamais gostara dele. Um dia, se tivesse a oportunidade, talvez o procurasse para que se entendessem. Mas aquele no era o momento. 
Nem Plnio iria deixar. Estava protegendo Eric de todas as formas, o que era natural.
       Era isso mesmo o que Plnio pensava. Quem sabe, um dia, Eric e Rafael no tivessem a oportunidade de conversar? Mas, naquele momento, no achava apropriado. 
O filho s tinha onze anos, embora fosse muito maduro para sua idade, ainda mais depois do que lhe acontecera. Mas ele ainda sentia medo do tio e no queria v-lo, 
e Plnio iria respeitar seu desejo. Era o melhor a fazer, naquele momento: esperar que Eric digerisse e amadurecesse bem tudo por que passara. S ento estaria pronto 
para conversar com o tio, de igual para igual, sem medo e sem repulsa.
       
     Captulo 27
       
       Ao receber a notcia de que Eric havia falado a verdade, Nomia quase pulou de contentamento. O filho no mentira, afinal. Era mesmo inocente naquela histria.
       Desligou o telefone assim que ouviu rudos na porta. Era Silas, que vinha chegando do trabalho. Mas no era prudente que ele recebesse a notcia. Ainda.
       -  Com quem estava falando? - indagou carrancudo.
       -  Com minha irm - respondeu Nomia, apressada, e saiu para a cozinha.
       Silas no se convenceu e saiu atrs dela.
       -  Voc est mentindo - acusou. - Aposto que falava com seu filho.
       -  Que filho? No foi voc mesmo quem disse que no temos mais filho nenhum?
       -  No se faa de tola, Nomia. Sei que voc tem se encontrado com Romero.
       Por um instante, sentiu-se tentada a falar a verdade. Ele no podia mesmo proibi-la, mas ela ainda no se sentia segura o suficiente para enfrent-lo.
       - Tudo isso por causa de Romero, no ? - indagou Silas com desdm.
       -  Romero  meu filho... - defendeu-se, afinal.
       -  Se ,  s seu, porque eu no tenho filho algum.
       -  Ento, por que pergunta?
       -  Porque quero saber com quem voc anda falando. No a quero envolvida com aquele sem-vergonha.
       -  Ele no  sem-vergonha.  nosso filho...
       - J disse que no tenho mais filho! - gritou irado.
       -  Mas eu tenho - retrucou ela calmamente, lutando para conter o nervosismo. - S lamento ter permitido que voc tivesse me afastado dele por tanto tempo.
       -  Voc o tem visto, no ? Tem visto aquele vagabundo.
       -  Ele no  vagabundo. Est no ltimo ano de medicina.
       -  Est? - Silas espantou-se. Jamais poderia imaginar que Romero fizesse uma faculdade. .
       -  Est. Vai se formar e ser algum na vida.
       -  Como voc sabe disso?
       -  Ouvi falar.
       Silas calou-se novamente. No queria nem saber como ela ouvira falar. Se descobrisse que ela e Romero andavam mesmo se encontrando, nem queria pensar na briga 
que iriam ter. Desde que Romero se fora, nunca mais tivera notcias dele. O mximo que soubera era que o mdico o acolhera, porque fora o prprio doutor quem fora 
at sua casa buscar suas coisas. Mas que Romero estava estudando para ser mdico era uma novidade e tanto. No sentiu mais vontade de prosseguir com aquela discusso 
e voltou para a sala.
       Talvez tivesse sido muito rigoroso com o rapaz. Ele dera um mau passo na vida, tudo por causa do atentado que sofrer. Fora aquele canalha do Jnior quem 
o viciara. E, depois, Mozart completara o servio. Se ele no tivesse se envolvido com Mozart, talvez no tivesse ficado daquele jeito. Sim, a culpa no fora dele. 
Fora de Jnior e de Mozart. Foram eles que levaram o filho para o mau caminho, ensinando-lhe coisas que jamais teria aprendido na convivncia com a famlia, porque 
eram uma famlia decente, e Romero no teria aqueles exemplos ali.
       Ficou imaginando como andaria o processo em que se envolvera. Teria mesmo sido capaz de violentar aquele garoto? Pelo que conhecia de Romero, ele jamais teria 
cometido um ato infame daquele. Mas o filho tornara-se homossexual, e tudo era possvel. Deixara de lado os princpios que Silas lhe ensinara para se entregar a 
uma vida transviada, interessando-se por homens. No teria mesmo violentado o menino? Era um pederasta...
       Deixou de lado esses pensamentos e foi at a caixa de correio. Fazia j algum tempo que o banco deixara de lhe enviar os extratos de sua caderneta de poupana. 
Ele perguntara a Nomia se ela no os recebera, mas ela dissera que nenhum havia chegado. A caixa de correio estava vazia. Nomia j havia recolhido a correspondncia, 
e nada dos extratos. Precisava dar um pulo na agncia para reclamar.
       - Por que ser que a Caixa no manda mais os extratos? - indagou, sentando-se  mesa para tomar um caf.
       Da beira do fogo, Nomia teve um sobressalto. Cada vez que Silas perguntava pelos extratos, ela ficava apreensiva. Se ele descobrisse que ela estava tirando 
dinheiro para dar ao filho, teriam uma briga como nunca antes haviam tido. Eram suas economias, e ela as estava desviando para ajudar Romero. Por isso no chegavam 
os extratos. Toda vez que o carteiro passava, ela corria a apanhar as cartas e subtraa os extratos, queimando-os no fogo. Fazia isso havia alguns meses, e Silas 
no desconfiara, a princpio. S que, nos ltimos dias, vinha insistentemente perguntando pelos extratos.
       -  Devem estar se extraviando - tentou disfarar Nomia. - Mas, se voc quiser, vou l amanh e procuro saber o que est acontecendo.
       -  Faa isso.
       Silas nem desconfiava da mulher. Jamais poderia imaginar que ela estivesse sacando dinheiro da conta. Seria mesmo uma boa idia que ela fosse  agncia reclamar. 
Isso lhe pouparia o trabalho de ter de sair mais cedo da escola s para ir at o banco.
       No dia seguinte, l foi Nomia para a Caixa Econmica. No sabia como resolver aquilo. Precisava evitar ao mximo que Silas descobrisse que ela estava retirando 
o dinheiro. Entrou na fila do caixa e, na sua vez, pediu que lhe informassem o saldo. A moa do caixa consultou as listagens e anotou o valor num papelzinho, entregando-o 
a Nomia. Foi assim que teve uma idia que poderia enganar Silas, ao menos por enquanto, at que Romero fosse inocentado e voltasse a trabalhar, quando ento reporia 
o dinheiro que tirara.
       Aproximou-se de um rapaz que estava no balco preenchendo uma ficha de depsito e pediu a ele que anotasse num outro papel a quantia que ela lhe ditara. O 
rapaz, julgando-a meio cegueta, fez como ela lhe pediu, e Nomia saiu dali satisfeita. Quando Silas chegou  casa no fim da tarde, ela lhe mostrou o papelzinho que 
ela pedira ao rapaz para escrever, com um valor mais elevado.
       -  Tem certeza de que  s isso? - indagou ele, preocupado. - Pensei que tivssemos mais.
       Ela tomou um susto. Achara que havia chutado uma importncia suficiente, mas, pelo que Silas dizia, equivocara-se. Nunca fora muito boa mesmo nas contas. 
Ainda assim, conseguiu se controlar e esclareceu:
       -   s isso, sim. Foi o saldo que a moa do caixa me deu.
       -  Por que no tirou um extrato na mquina?
       -  Ora, Silas, voc sabe que no sei mexer com essas mquinas modernas. Fico toda enrolada.
       -  Podia ter pedido a algum para ajudar.
       -  Meu Deus, ser que no serve o papel que a moa deu? Vai desconfiar do banco agora, vai?
       -  No... Mas e os extratos? Por que no tm chegado?
       -  O gerente disse que nosso endereo estava errado. Est providenciando a correo.
       Silas no se deu por satisfeito, mas no disse nada. Aquilo tudo era muito estranho, e ele agora comeava a desconfiar. Por mais que Nomia no soubesse lidar 
com aquelas novas mquinas, sempre havia uma mocinha disposto a ajudar. Ela estava escondendo algo, e ele iria descobrir. Na primeira oportunidade, iria, ele mesmo, 
 agncia para saber o que estava acontecendo.
       Nomia, por sua vez, sentiu o corao apertar-se. Se o marido descobrisse, ficaria uma fera, e a, sim,  que jamais perdoaria Romero. Precisava falar com 
o filho para repor o dinheiro o mais rpido possvel.
       Na segunda-feira, ao visitar o filho, encontrou-o em companhia de Mozart.
       -  Bom dia, Dona Nomia - cumprimentou o rapaz.
       -  Bom dia, Mozart. - Aproximou-se de Romero e beijou-o no rosto. - E voc, meu filho? Como est?
       -  Bem, me. Feliz.
       -  Tambm estou. Aliviada. Queria vir aqui antes, mas seu pai est ficando desconfiado.
       -  No quero lhe causar problemas.
       -  Seu pai e eu temos muito que nos entender, e isso j no me assusta tanto. No  com isso que estou preocupada.
       -  Com o que , ento?
       -  Seu pai est ficando desconfiado, porque os extratos do banco no chegam mais. Eu os separo do restante da correspondncia e os queimo.
       -  Extratos do banco? - estranhou Mozart.
       -  Mame vem fazendo saques na poupana que tem com papai, para me ajudar.
       -  E agora ele est desconfiando. Mas eu no podia deix-lo ver os extratos. Ia descobrir tudo.
       -  Por que no me avisou, Romero? - tornou Mozart. - Eu poderia t-lo ajudado.
       -  No  justo. No quero seu dinheiro.
       -  Isso no  hora para orgulho. Se seu pai descobrir, vai brigar com sua me.
       -  Ele no pode descobrir - falou Romero.
       -  E por isso que preciso lhe pedir um favor - retrucou Nomia. - Assim que isso terminar, arranje um emprego e reponha o dinheiro. No sei se poderei enganar 
seu pai por muito mais tempo.
       -  E claro que no vai poder! - avaliou Mozart. - Quanto tempo acham que vai demorar at que ele descubra tudo? Mais um ms ou dois, no mximo.
       -  Estou tentando fazer com que ele acredite que os extratos se extraviaram. Acho que o convenci.
       -  No se iluda, Dona Nomia. Seu Silas  um homem esperto demais. Em breve, vai descobrir tudo.
       -  No posso nem pensar numa coisa dessas - afirmou Romero. - Meu pai vai fazer um escndalo.
       -  Por isso, aceite minha oferta. Deixe-me emprestar-lhe o dinheiro. Quando voltar a trabalhar, voc me paga.
       -  Talvez voc deva aceitar - sugeriu Nomia. - No quero mais encrencas com seu pai. E o que voc nos deve, pode ficar devendo a Mozart.
       -   isso mesmo - concordou Mozart. - Quanto antes repusermos a importncia que sua me tirou, melhor. Vai evitar muitos aborrecimentos.
       -  Est certo, ento - concordou Romero. - Mas  apenas um emprstimo. Quando eu for absolvido, vou terminar a faculdade e arranjar um bom emprego. A, pago-lhe 
tudo. Quanto foi que voc j sacou, me?
       Nomia abriu a bolsa e retirou as guias de retirada. Rapidamente, Romero fez as contas e calculou mais ou menos os juros que perderam, apresentando o total 
a Mozart.
       -  Muito bem. Amanh mesmo vou trazer o dinheiro.
       -  Que bom que voc vai ajudar, Mozart - agradeceu Nomia. - Essa situao j estava me afligindo.
       -  No precisa agradecer. Ser que a senhora pode voltar amanh, para apanhar o dinheiro?
       -  Darei um jeito. Silas sai cedo para o trabalho e no perceber minha ausncia.
       Era o que esperava. No dia seguinte, daria um jeito de tornar a aparecer, apanhar o dinheiro e correr para a Caixa Econmica, para fazer o depsito. Depois, 
pediria um saldo, j contando o depsito, e levaria o valor a Silas. Diria que a moa se enganara na outra vez, dando-lhe o saldo da conta de outra pessoa. E ele 
no teria motivos para desconfiar.
       Assim que Silas saiu para o trabalho, Nomia apanhou a bolsa e partiu ao encontro de Mozart. Haviam marcado na prpria penso em que Romero vivia, e ela no 
queria se demorar. Precisava fazer o depsito o mais cedo possvel. Quando chegou  penso, Mozart j estava l e rapidamente lhe passou o dinheiro. Ela agradeceu 
e dirigiu-se ao banco.
       Antes de a agncia abrir, Silas j estava na fila para entrar. Aquela histria de saldos no caixa no o havia convencido. Nomia no era nada estpida e no 
iria convenc-lo de que no sabia tirar um extrato na mquina. Foi logo um dos primeiros a chegar  mquina e digitou pausada e corretamente os nmeros correspondentes. 
Em poucos segundos, retirou o extrato. No foi nem preciso conferir atentamente para saber que algo estava muito errado. Logo no topo avistou a anotao de uma retirada; 
um pouco mais abaixo, outra. Por fim, o saldo bastante reduzido, bem inferior quele que Nomia lhe fornecera.
       Pediu para falar com o gerente e solicitou que lhe mostrasse um extrato completo. No havia como imprimir um naquele momento, mas o gerente consultou as anotaes 
na ficha de Silas e informou as datas e os valores de todas as retiradas, o que o deixou estarrecido. No disse nada, porm. Apanhou os papis, agradeceu e foi embora. 
Nomia tinha muito o que lhe explicar.
       Quando Nomia chegou para fazer o depsito, Silas j havia partido. Sem de nada desconfiar, depositou a importncia que Mozart lhe dera e pediu novo saldo 
no caixa. Devia servir para convencer o marido. Foi para casa.
       Ao chegar, estranhou que Silas a estivesse aguardando no sof da sala. Aquilo no era comum. O marido nunca chegava  casa antes das seis horas. Por que voltara 
to cedo?
       -  Silas? - alarmou-se. - O que houve? Por que est em casa to cedo? Est doente?
       Ele se levantou bruscamente e estendeu os papis diante dela, quase esfregando-os em seu nariz.
       -  O que houve?! - esbravejou. - Eu  que lhe pergunto: o que  isso aqui?
       Aturdida, Nomia apanhou os papis das mos de Silas e examinou-os, imediatamente reconhecendo as anotaes e o extrato bancrio relatando, minuciosamente, 
cada retirada efetuada ao longo daqueles meses.
       -  Silas... - comeou a balbuciar. - No fique bravo... Posso explicar...
       -  Acho bom mesmo! Para onde foi nosso dinheiro, hein? O dinheiro que juntei com tanto sacrifcio, para nossa velhice, Nomia, para que voc no tenha mais 
de forar a vista costurando para fora. E agora, o que temos? Nada. Foi-se quase tudo.
       -  No  bem assim...
       -  No? Pois, ento, o que  isto?No sobrou nem a quarta parte do que tnhamos. Por qu? O que voc fez com nosso dinheiro?
       -  Precisei dele.
       -  Aposto que sei para qu. Para ajudar aquele pederasta do seu filho, no  ? Por qu? Ele queria fazer uma operao de mudana de sexo?
       -  Silas! - objetou chocada. - Como pode falar assim de nosso filho?
       - J disse que no tenho filho!
       -  Mas eu tenho.
       -  Pois ele  s seu filho. No  meu.
       -  E uma pena que voc pense assim. Romero  um bom rapaz e est estudando para ser mdico.
       -  Imagino que belo mdico no vai ser - ironizou. - Vai dar em cima de todos os pacientes homens.
       -  Isso  um absurdo! Romero  um rapaz decente. S agora pude perceber isso.
       -  No quero retomar essa discusso, Nomia. O que quero saber  o destino que voc deu ao nosso dinheiro.
       -  Quer mesmo saber? Pois dei a Romero, sim. Ele estava precisando, e eu no podia deixar meu filho passando necessidade por causa de sua mesquinharia.
       -  Mesquinharia? E errado no querer distribuir o que economizei para a velhice?
       -  No distribu nada. Dei a meu filho porque ele estava precisando. E, se voc no gostou, lamento.
       -  Ele a convenceu, no  mesmo? Aposto como fez um draminha qualquer, e voc logo ficou com pena.
       -  Ele est sendo processado por um crime que no cometeu.
       -  Quem garante? Ele  um veadinho declarado. Quem garante que no fez mal quele garoto?
       -  O prprio menino! Ele revelou a verdade. Contou que no foi Romero!
       -  E da? - disse Silas, com certa hesitao. - O dinheiro  nosso; voc no poderia t-lo dado a ningum sem me consultar.
       -  Voc disse bem, Silas. O dinheiro  nosso, no seu.
       -  Mas fui eu que ganhei. Com o suor do meu trabalho.
       -  E do meu tambm. Ou voc se esquece quanto venho trabalhando esses anos todos, dentro desta casa, sem pedir nada, sem reclamar de nada, aceitando tudo 
que voc me impe? Ser que voc seria o que  hoje sem minha ajuda? Teria conseguido juntar algum dinheiro se no tivesse uma escrava dentro de casa, lavando, passando 
e cozinhando de graa para voc? Sem falar em minhas costuras!
       -  No precisa exagerar, Nomia. Eu nunca lhe exigi nada. E sempre valorizei seu servio. Temos vivido bem at ento.
       -  No. Voc tem vivido bem. Eu sofro calada a falta que meus filhos me fazem.
       -  No tive culpa pelo que aconteceu a Judite. Eu tambm sofri. Se h algum culpado,  Romero. Foi por causa de sua esquisitice que nossa filha foi assassinada.
       -  Foi por causa de sua intolerncia e de seu preconceito. Voc espancou Romero, colocou-o para fora de casa e impediu sua volta. Foi por sua causa que ela 
morreu, Silas, no dele. Se voc tivesse feito esforo para compreender seu filho, nada disso teria acontecido. Ele jamais teria ido parar naquele hospital, e Judite 
no precisaria ter ido tir-lo de l. Ambos estariam em casa, sob nossa proteo, e talvez hoje pudssemos todos estar vivendo felizes.
       -  Por que relembrar esses momentos to difceis agora? J no basta tudo que aconteceu?
       -  Basta. E foi por isso que quis ajudar Romero. Basta de indiferena com ele, de fingir que ele no existe e no  meu filho. Ele  meu filho, eu o amo e 
vou ajud-lo enquanto puder, quer voc queira, quer no.
       Silas olhou-a espantado. Nos ltimos tempos, Nomia estava muito mudada. Talvez ele no devesse ter sido to duro com Romero. Talvez devesse ter permitido 
que ela o visitasse, que mantivesse contato com ele, embora no o quisesse mais em sua casa. Afinal, era me, e as mulheres tinham uma tendncia a ser excessivamente 
protecionistas com os filhos e a desculpar todos os seus erros. Devia ter entendido isso.
       -  Muito bem, Nomia - tornou cauteloso. - Quer ajudar seu filho, v l, ajude. Mas precisava gastar todo o nosso dinheiro? Romero  jovem, est estudando 
medicina, como voc mesma disse, tem um futuro, sua vida est comeando. Mas e ns? J estamos no fim da vida. No quero contar s com o dinheirinho da aposentadoria. 
Queria algo melhor para ns.
       -  Ele no teria futuro nenhum se fosse condenado por um crime que no cometeu.
       -  Muitos anos se passaram. As pessoas mudam. Romero deve ter tido muitas experincias. Como garantir que ele no tenha se desvirtuado para esse vcio tambm?
       -  Isso  um disparate! Ningum muda o carter. Romero sempre foi uma pessoa decente. Por mais que goste de homens, jamais se aproveitaria de uma criana! 
E, depois, o menino j falou a verdade.
       -  E voc acha isso certo? Acha certo que seu filho ande por a se deitando com outros homens?
       - J no sei mais o que  certo ou errado. S o que sei  que o amor est acima dessas coisas. Posso no entender muito bem o caminho que Romero escolheu, 
mas ele  meu filho, e vou tentar compreend-lo e aceit-lo da melhor forma que puder.
       -  No acredito que voc v compactuar com uma imoralidade dessas!
       -  No estou compactuando com nada. A vida de Romero, s a ele interessa. Quanto a mim, no que me diz respeito,  meu papel de me. J falhei com ele uma 
vez, Silas; no quero falhar de novo.
       Silas calou-se pensativo. No sabia mais o que dizer. Depois de todos aqueles anos, ainda guardava dentro de si enorme mgoa pelo que Romero lhe fizera. Mas 
o que Romero lhe fizera? No lhe roubara nada, no o trara, no matara ningum. Por que ento sentia tanta raiva? Porque Romero lhe frustrara as expectativas. Porque 
se tornara exatamente o oposto do que ele esperava que ele fosse. Silas construra para si a imagem do filho perfeito, macho e viril. Como depois aceitar que Romero 
no se transformaria em nada disso? Que era homossexual mesmo, no porque fora violentado ou porque Mozart o iniciara naquela vida, mas porque estava em seu sangue, 
era parte dele, fora para aquilo que nascera. Era uma coisa difcil.
       Fitou a mulher com desgosto e ainda tentou rebater, embora sem muito nimo:
       - Mas e nosso dinheiro? Como faremos para nos manter na velhice? Romero, na certa, no vai nos sustentar.
       -  Se  s nisso que est interessado, no precisa mais se preocupar. Hoje mesmo depositei a quantia que saquei. Com juros e correo.
       Abriu a bolsa e retirou o canhoto da guia de depsito e o papelzinho do saldo, estendendo-os para o marido. Silas apanhou-os e conferiu, indagando com visvel 
assombro:
       -  Onde conseguiu esse dinheiro?
       -  No importa. O que interessa  que o dinheiro foi depositado, e voc no tem mais com o que se preocupar. Vai ter dinheiro em sua velhice, embora fique 
sem o principal, que so o amor e a amizade de um filho.
       Virou as costas e foi para dentro. J no tinha mais o que conversar. Dissera tudo que Silas precisava ouvir e no estava mais disposta a ficar se repetindo. 
Daquele dia em diante, visitaria o filho quando quisesse, sem se esconder. Se Silas gostasse, muito bem. Se no, era problema dele. No deixaria mais que ele a conduzisse 
nem que mandasse nela.
       Silas, por sua vez, desabou no sof, as ltimas palavras da mulher ainda ecoando em sua mente: Vai ter dinheiro em sua velhice, embora fique sem o principal, 
que so o amor e a amizade de um filho. O amor e a amizade de um filho... de um filho... um filho... Aquilo no lhe saa da cabea. No fundo, Nomia tinha razo. 
De que adiantava levar uma vida relativamente tranqila, sem se preocupar com dinheiro, mas extremamente solitria? No tinham netos e jamais os teriam. Judite estava 
morta, e Romero era homossexual. Qualquer esperana de um neto estava perdida.
       Como seria quando ele e Nomia estivessem bem velhinhos e no pudessem mais trabalhar? Como se sentiriam, vivendo sozinhos naquela casa, que se tornara um 
casaro, vazia que ficara, de filhos e de crianas? Ser que conseguiriam suportar a solido? Ser que valia a pena continuar teimando em no aceitar Romero do jeito 
que ele era? Afinal, Nomia tinha razo. Ele sempre fora um bom rapaz. Quando garoto, era estudioso e educado, e no havia quem no o admirasse. Por que agora tinha 
de ser diferente? S porque era homossexual, havia perdido todos os seus valores e passara a ser um marginal? No. Seu filho no era um marginal. Continuava estudando, 
fazia at faculdade, tinha um ideal. Queria ser mdico. Ia salvar vidas. Haveria coisa mais bonita do que salvar vidas? Mas ser que ele, Silas, conseguiria salvar 
a prpria vida?
       
     Captulo 28
       
       Durante os trinta dias seguintes, o advogado de Plnio deixou de dar andamento ao processo, acarretando o abandono da causa. Antero fora procurar Maria da 
Glria e dissera-lhe o que pretendia. Reconhecia que o rapaz no fora o autor do crime e no queria mais prosseguir com aquela ao. S o que pedia era que o caso 
morresse ali mesmo.
       -  Isso vai depender de meu cliente - informou ela secamente. - E da deciso do promotor. O senhor sabe que o que Rafael fez foi muito grave. Denunciao 
caluniosa d cadeia. E calnia tambm d.
       -  Eu sei, doutora, e no me cabe questionar a atitude do promotor ou de Romero. Todavia, j falei com o promotor e com o juiz, e eles me disseram que, se 
Romero no insistir, daro por encerrado o caso e no faro presso quanto  denunciao caluniosa. Plnio, por sua vez, resolveu deixar de lado o atentado violento 
ao pudor e no vai ingressar mais com nenhuma queixa-crime. O destino de Rafael est agora nas mos de Romero.
       -  Vou marcar um encontro com Romero. E, o senhor, traga seus clientes.
       O encontro ficou marcado para dali a trs dias, no gabinete de Maria da Glria, na defensoria pblica. Romero chegou logo cedo, ansioso para falar com Plnio. 
Esperava no um pedido de desculpas, mas uma reconciliao com o mdico, que, mais do que um amigo, fora seu pai por vrios anos.
       Plnio tambm estava ansioso. Queria poder falar com Romero e pedir-lhe desculpas. Gostaria de convid-lo a morar com eles, mesmo contra a vontade de Lavnia. 
Era o mnimo que lhes deviam, e era o desejo de Eric tambm.
       Rafael, que alugara um apartamento, chegou cabisbaixo, nada satisfeito com a humilhao a que estava prestes a se expor. Teria de se desculpar com aquele 
sujeitinho de quem no gostava e ainda implorar para que ele no o processasse. E teria de manter a calma, porque seu futuro dependia nica e exclusivamente de Romero.
       -  Boa tarde a todos - disse Maria da Glria, introduzindo-os em sua sala.
       Todos entraram e se sentaram, e Plnio foi o primeiro a fitar Romero nos olhos. O rosto do rapaz estava sereno, embora ele se sentisse um tanto constrangido.
       -  Romero - disse Plnio, no conseguindo aguardar a hora de se manifestar. - Como esperei por este dia! Estou to envergonhado.
       Romero engoliu em seco e fitou-o com olhos midos.
       -  O senhor no tem do que se envergonhar. No teve culpa de nada.
       -  Devia ter acreditado em voc.
       -  Acreditou na palavra de seu filho. At eu teria acreditado.
       -  No comeo, acreditei mesmo. Mas, depois, comecei a achar que Eric estava sendo pressionado para mentir. E fiz de tudo para provar sua inocncia.
       Pelo canto do olho, Romero fitou Rafael, que se mantinha de olhos baixos, evitando olhar para quem quer que fosse.
       -  Posso imaginar... - prosseguiu Romero. - E s tenho a agradecer.
       -  Voc no tem de me agradecer coisa alguma. No fiz mais do que minha obrigao. Desconfiava de sua inocncia e no podia permanecer inerte, vendo-o ser 
acusado de um crime que no cometeu.
       Romero deu um sorriso sem graa e perguntou:
       -  E Eric? Como est?
       -  Aliviado. Sentia-se muito mal por estar acusando voc. Mais tarde, voc poder encontr-lo.
       -  Sim, isso mesmo - interveio Maria da Glria. - Deixemos essas coisas para mais tarde. Vocs tero muito tempo para acertar suas mgoas. Por ora, vamos 
ao que interessa.
       Todos se empertigaram e olharam para Antero, que pigarreou e comeou a falar:
       -  Bem, Romero, voc sabe por que estamos aqui, no sabe? - Romero balanou a cabea. - Estive conversando com a doutora Maria da Glria e ela sugeriu que 
falssemos com voc. Bom, o que queremos saber ... que providncias pretende tomar contra Rafael?
       -  Providncias? - indignou-se Romero. - Como assim?
       -  Como lhe expliquei - esclareceu Maria da Glria -, Rafael pode ser acusado de vrios crimes, em especial de denunciao caluniosa e de calnia. No se 
lembra do que lhe disse antes?
       -  Lembro-me. Mas o que posso fazer?
       -  Bem - continuou Antero -, conforme falei com sua defensora, o juiz e, principalmente, o promotor pblico no vo insistir num processo de denunciao caluniosa, 
desde que voc no oferea uma queixa por calnia.
       -  Por qu?
       -  Porque, se voc fizer isso, toda a histria ter de ser revolvida, e o promotor no vai poder fingir que no tomou conhecimento da prtica do crime de 
denunciao caluniosa. Vou tentar explicar de forma simples: a calnia que Rafael cometeu  um crime cuja ao pertence ao ofendido, no caso, voc. S voc pode 
decidir se vai ou no process-lo, mais ningum. J na denunciao caluniosa, que foi a falsa acusao que Rafael fez a voc, a ao pertence ao Estado, ou seja, 
ao promotor pblico. Se o promotor tiver notcia do crime, vai ter de pedir a abertura de inqurito para, posteriormente, instaurar a ao. A notcia do crime, no 
caso, ser voc quem ir dar, caso venha a oferecer queixa por calnia. E o promotor no vai poder fazer como voc, isto , pensar se vai ou no processar Rafael. 
Est obrigado, por lei, a faz-lo.
       -  Entendo...
       -  O destino de Rafael est em suas mos, Romero. A voc cabe decidir se oferece ou no a queixa.
       Pela primeira vez, Romero encarou Rafael. Via diante de si o homem que fora a causa de tantos infortnios, e estava tendo a chance de vingar-se dele. Por 
um momento, quase cedeu  tentao. Mas a imagem de Judite surgiu de repente em sua mente, e era como se ele a ouvisse dizer:
       -  No faa isso, Romero. No por vingana.
       -  Mas ele vai continuar fazendo isso com outras crianas - respondeu ele em pensamento, sem saber que conversava com o esprito da irm.
       - Voc est camuflando seus sentimentos. No fundo, sente raiva de Rafael, o que  natural. Permita-se sentir essa raiva, porque ela foi provocada. Mas acusar 
Rafael no vai tirar essa raiva de dentro de voc. Ao contrrio, vai amargur-lo ainda mais. Quando voc se der conta de que um homem foi preso por iniciativa sua, 
vai se culpar, embora, no fundo, voc no seja realmente culpado de nada. Mas, se voc tem a chance de perdoar, faa isso. Jamais desperdice a oportunidade do perdo.
       -   verdade - continuava Romero, pensando que falava consigo mesmo. - Estou num dilema. Tenho duas opes: ou me vingo ou perdo.
       -  Perdoe.
       -  Mas ele merece ser punido. Precisa pagar pelo seu crime.
       -  Rafael apenas reagiu a uma ao do passado. No o faa pagar por isso. Se voc o perdoar, ter mais tarde um amigo. Mas, se o acusar, continuar alimentando 
esse crculo de dio que se estabeleceu entre vocs.
       -  Eu no o odeio...
       -  Ento prove. Perdoe-o e procure ajud-lo.
       -  Mas seu castigo...
       -  O maior castigo para o crime de um homem  a dor de sua conscincia. Deixe que ela se encarregue de determinar o destino de Rafael.
       -  No quero que ele torne a fazer isso a mais ningum. Ele precisa de correo.
       -  No se engane, Romero. Seu desejo no  de corrigi-lo.  de vingana. E vingana no combina com voc.
       Romero ia conversando com o invisvel sem se dar conta de que falava com o esprito de Judite. Julgava ouvir a voz de sua prpria conscincia. E sua conscincia 
tinha razo. Ele no era um homem mau nem vingativo. Se acusasse Rafael, acabaria se arrependendo mais tarde. J experimentara a vida na priso e no desejava isso 
a mais ningum. Nem mesmo ao homem que havia desgraado sua vida e a de Eric.
       -  Por que no deixamos Rafael falar? - contraps Plnio, interrompendo os pensamentos de Romero. - Afinal,  ele o maior interessado.
       Todas as atenes se voltaram para Rafael, que, rosto ardendo, coberto de vergonha, comeou a gaguejar:
       -  Eu... no sei o que dizer... Sinto muito, Romero... Sei que o prejudiquei...
       -  Prejudicou? - tornou Maria da Glria. - Voc arruinou a vida dele!
       -  Sim, eu sei... Talvez no merea perdo... Mas j estou sofrendo as conseqncias do que fiz. No espero que voc me perdoe, Romero... - Calou-se, a voz 
embargada.
       -  Vamos logo com isso - prosseguiu Plnio. - Deixe de fazer rodeios e v direto ao ponto.
       Cada vez mais envergonhado, Rafael continuou:
       -  A questo, Romero,  que no sou forte como voc. Se eu for para a priso, sei que vou morrer...
       -  No se faa de coitadinho, Rafael! - exasperou-se Plnio. - No foi para isso que veio aqui. No para despertar piedade.
       -  O que voc quer que eu diga, Plnio? Que sinto muito? Pois bem. Romero, eu sinto muito. Peo que voc me perdoe. Fui um cafajeste, um canalha... No devia 
ter feito o que fiz. Nem a Eric, nem a voc. Mas agora  um pouco tarde para desfazer o que fiz. S o que posso esperar  que vocs me perdoem. Voc e Eric... - 
Calou-se novamente, engolindo o pranto.
       - No v fazer cenas agora - repreendeu Plnio.
       -  Deixe, doutor - interveio Romero. - No precisa mais brigar com ele. Ele tem razo. O que fez est feito e no h mais como voltar atrs. S o que lhe 
resta, neste momento,  conviver com sua conscincia. E no serei eu que irei determinar como ele deve se entender com ela.
       -  O que quer dizer com isso? - perguntou Rafael.
       -  Que voc no tem de se preocupar comigo. No lhe cobrei nada nem lhe cobrarei.
       -  Quer dizer que no vai me acusar?
       -  No. No pretendo acus-lo. Acho que voc, sozinho, j deve estar se acusando o bastante. S espero que compreenda a gravidade do que fez, principalmente 
a Eric, e nunca mais torne a fazer isso. Com mais ningum.
       Rafael baixou os olhos e chorou baixinho, respondendo entre contidos soluos:
       -  Obrigado.
       Maria da Glria deu por encerrada a reunio. Estava satisfeita; fizera um bom trabalho. O juiz j havia proferido a extino da punibilidade, e Romero estava 
livre. Embora ela lamentasse o fato de que Rafael continuasse solto, no se manifestou. No lhe cabia mais influenciar a cabea de Romero.
       Apertaram-se as mos e saram. Do lado de fora, Rafael tornou a agradecer, nitidamente pouco  vontade, e pediu licena para se retirar. Precisava cuidar 
de seu escritrio de arquitetura, que, entregue aos empregados, estava quase indo  falncia. Antero tambm se despediu. S ficaram Plnio e Romero.
       O jovem, meio sem jeito, estendeu a mo para Plnio e falou:
       -  Bom, doutor, s tenho a lhe agradecer.
       Com profunda emoo, Plnio apanhou a mo que ele lhe estendia e puxou-o para si, envolvendo-o num abrao afetuoso e amigo.
       -  No v embora - pediu. - Volte para casa comigo.
       -  No posso. No depois de tudo que aconteceu.
       -  Ser que no vai poder me perdoar?
       -  No  isso. No tenho nem do que o perdoar. Mas acho que Dona Lavnia no se sentiria  vontade. E, depois, vou viver com outro algum.
       -  Mozart?
       -  Ele mesmo.
       Plnio suspirou e deu-lhe um tapinha no ombro.
       -  Se  para sua felicidade, ento est certo. Mas no me guarde rancor nem mgoa.
       - Jamais poderia guardar mgoa ou rancor do senhor. Sempre foi meu amigo. Agora, contudo, quero viver minha vida. Reencontrei o nico homem a quem realmente 
amei e no pretendo perd-lo novamente.
       Plnio sorriu e afagou-lhe o rosto, acrescentando em tom paternal:
       -  Faz bem. No deixe o amor escapar. E o que h de mais valioso em nossa vida. No entanto, vou lhe pedir uma coisa.
       -  O qu?
       -  No deixe de me visitar. Venha nos ver de vez em quando. Eric iria gostar.
       -  Certamente.
       -  Eric ainda no teve oportunidade de se desculpar.
       -  Nem precisa.
       -  Mas ele quer. Por favor, respeite isso. Vai fazer bem a ele.
       -  Se  assim, farei como ele deseja.
       -  Pode me dar o telefone de onde vai estar? Gostaria de ligar para voc.
       -  Ainda no sei onde vou morar. Mas pode deixar, que telefonarei e darei meu endereo.
       -  Est bem. S lhe peo que no se demore muito. Eric est ansioso para v-lo.
       -  No. Irei procur-lo bem antes disso.
       Abraaram-se comovidos e separaram-se. Tudo estava terminado, e Romero sentia-se feliz consigo mesmo. Tivera uma dupla vitria. Vencera a adversidade que 
a vida lhe impusera e vencera a si mesmo. Conseguira perdoar.
       O encontro com Eric fora marcado ao ar livre, numa praa alegre e ensolarada. Plnio queria evitar lugares tristes e constrangedores. Queria que Eric percebesse 
quanto a vida podia continuar sendo normal. O menino chegou bastante cabisbaixo, evitando encarar Romero. Sentia-se culpado pelo que lhe acontecera e temia no conseguir 
se desculpar.
       -  Vou deix-los sozinhos - avisou Plnio. - Acho que vocs tm muito o que conversar e no quero que se sintam constrangidos com minha presena.
       Beijou o filho no rosto e foi sentar-se em outro banco, distraindo -se com as crianas que brincavam no parquinho.
       Romero tomou a mo de Eric e perguntou carinhosamente:
       -  No vai me dar um beijo, como sempre fazia?
       Eric, desconcertado, deu-lhe um beijo rpido na face e tornou a baixar os olhos.
       -  No est com raiva de mim? - sondou Eric, baixinho.
       -  O que voc acha? Pareo uma pessoa que est com raiva de algum? - Eric meneou a cabea, ainda sem encar-lo. - Ento, por que age como se estivesse com 
medo de mim, como se eu fosse mord-lo?
       Gentilmente, Romero segurou o queixo de Eric e levantou sua cabea, fitando-o bem dentro dos olhos. O menino tentou fugir com o olhar, mas Romero acompanhou-o, 
seguindo-o com um sorriso, at que o menino acabou se descontraindo e riu tambm. Pararam e olharam-se, e Eric deu vazo ao sentimento e abraou o amigo.
       -  Perdoe-me, Romero, eu no queria! - desabafou aos prantos. - Foi o tio Rafael... tive tanto medo dele!
       -  Est bem, no precisa mais falar sobre isso. J sei de tudo que aconteceu e como aconteceu. Voc no teve culpa de nada.
       -  Gosto de voc. Gosto de verdade. Mas no quero ser como voc.
       -  Quem disse que tem de ser?
       -  Tio Rafael. Falou que vou virar veado s por causa do que me aconteceu.
       -  E voc acredita nisso?
       -  Agora no. Meu palme explicou tudo. Mas  que me sinto to culpado...
       -  Culpado de qu?
       -  De gostar de voc, de entender o jeito como voc , mas no querer ser igual a voc. Quero namorar s as meninas.
       -  E precisa se sentir culpado por causa disso?
       -  Tenho medo de que voc pense que no vou gostar mais de voc s porque no sou igual a voc.
       -  Ningum precisa ser igual a ningum para gostar. Seu pai e eu, por exemplo, somos muito diferentes, e gosto dele como se fosse meu pai tambm. Ele nada 
tem de homossexual e gosta de mim do jeito que eu sou.
       -  No vai achar que eu o estou discriminando s porque no quero ser como voc? Mesmo depois do que me aconteceu?
       -   claro que no, Eric! Que bobagem! O que lhe aconteceu foi uma crueldade. Sei porque j passei por isso.
       -  Mas voc no gostou?
       -  Pelo amor de Deus, no! Preferia que as coisas tivessem acontecido de outra maneira.
       -  Foi depois disso que voc descobriu que era homossexual, no foi?
       -  Isso  outra coisa. O que aquele homem fez comigo despertou sentimentos e instintos que eu j possua dentro de mim, embora os desconhecesse ou no os 
quisesse aceitar. O que no significa que tenha de ser assim com todo mundo.
       -  Pensei que voc fosse se decepcionar comigo. Que fosse achar que eu o estava criticando s porque no senti a mesma coisa que voc.
       -  E claro que no. E, se quer saber, fico at feliz que voc no seja como eu.
       -  Por qu! ? Tem preconceito de voc mesmo?
       -  No, exatamente.  muito difcil aceitar que somos diferentes da maioria das pessoas. Ningum quer ser colocado  margem. Por isso, tenho medo. Medo de 
no ser aceito, de ser incompreendido, de ser discriminado.
       - Tem vergonha do que voc ?
       -  Durante algum tempo, tive, sim. Mas depois conheci pessoas boas, que me ensinaram a ver outros valores.
       -  Que pessoas?
       -  Seu pai foi uma delas. Voc no tem idia de quanto ele foi importante para mim. Foi ele quem me mostrou que ser homossexual no  nenhum crime e que eu 
no deveria me sentir inferior a ningum s por causa de minha orientao sexual. Mostrou-me que ser digno no  ser viril, mas ser honesto consigo mesmo e com os 
outros. Ajudou-me a crer em mim mesmo, em minha capacidade, em meu direito de conquistar um lugar no mundo. Foi graas a ele que consegui ingressar na faculdade. 
No fosse pelo seu pai, eu teria acreditado no que todo mundo diz, que veado no tem vergonha, que no  digno de conviver com pessoas de bem, e hoje eu seria um 
joo-ningum, jogado na marginalidade pela minha prpria fraqueza. Hoje, sei que sou uma pessoa de bem, porque pessoas de bem so todas aquelas que tm amor no corao.
       Eric prestava imensa ateno ao que ele dizia, acompanhando cada palavra sua com os olhos midos.
       -  Voc  mesmo uma pessoa de bem, Romero. Porque nunca conheci ningum que tivesse mais amor no corao do que voc. S o que fez pelo meu tio Rafael...
       -  Seu tio  digno de pena, porque ainda no conseguiu encontrar seu valor no mundo. A prpria vida vai lhe ensinar quais so os verdadeiros valores que devem 
ser cultivados pelo homem.
       Eric abraou-o novamente e tornou a indagar:
       -  Quem foram as outras pessoas importantes para voc?
       -  Minha irm, Judite.
       -  Ela j morreu, no  mesmo? Meu pai falou algo a respeito, mas muito por alto.
       -  Ela foi assassinada. Judite era uma pessoa maravilhosa. Se havia algum no mundo com o corao bom, esse algum era Judite. No sei se existe vida alm 
da morte, mas, se existir, minha irm deve estar em um lugar muito bonito. E duvido que Judite esteja alimentando dio por aquele que a matou. Se duvidar, ainda 
vai ajud-lo algum dia.
       -  Voc gostava muito dela, no gostava?
       -  Eu a amava mais do que tudo no mundo. Foi um choque para mim quando ela morreu. Mais uma vez, se no fosse seu pai, eu no teria sobrevivido. Teria me 
atirado na vadiagem, carregando uma culpa que no tive. Ningum teve. Hoje Judite permanece viva em minha saudade. Penso nela com freqncia e sempre me lembro de 
seu sorriso, de sua coragem, de sua determinao.
       Nesse momento, Judite aproximou-se, atrada pelos pensamentos saudosos do irmo. Abraou-o comovida, e ele sentiu sua presena, embora no soubesse distinguir 
o que sentia. Nada conhecia sobre espiritismo ou fenmenos medinicos, e no encontrou justificativa para aquela sensao, apenas um imenso bem-estar, que era o 
que sempre sentia quando pensava na irm.
       -  Tambm o amo, Romero - soprou ela em seu ouvido. - Vibro felicidade em seu corao, j to combalido pelas agruras da vida. Mas jamais se deixe desesperar. 
Confie sempre e voc ver quanto sair glorioso dos reveses que a vida lhe impe.
       Pousou as mos de leve sobre o peito de Romero, que teve um leve estremecimento e desatou num choro convulso e sentido.
       -  Ficou triste, Romero? - perguntou Eric, preocupado.
       -  No foi nada. Foi s a saudade. s vezes, parece que Judite ainda est neste mundo, e sinto-a viva ao meu lado.
       -  Eu estou viva - confirmou Judite. - Jamais sairei de seu lado. Deu-lhe novo passe, reequilibrando suas energias, e Romero acalmou o pranto. Enxugou os 
olhos e alisou o rosto do menino.
       -  Estou bem - prosseguiu Romero. - Srio. Foi s a emoo do momento.
       -  Tem certeza?
       -  Tenho. No se preocupe. Do que  que estvamos falando, mesmo?
       -  Falvamos de pessoas que foram importantes em sua vida.
       -  Ah! Tem razo. H mais uma que no posso esquecer.
       -  Quem?
       -  No adivinha?
       -  No.
       -  Voc, seu bobinho. Voc  muito importante para mim. Gosto de voc como se fosse meu filho, embora eu talvez jamais tenha um. E, creia-me, eu nunca lhe 
faria algum mal. A voc ou a qualquer outra criana. Adoro crianas e quero ser pediatra.
       -  Voc vai ser. Tenho certeza.
       Romero no queria discutir com ele sobre as dificuldades que encontraria para concretizar aquele sonho. Mesmo no tendo sido condenado, a sombra da desconfiana 
ainda o perseguiria por muito tempo.
       -  Vai voltar para nossa casa? - foi a nova pergunta de Eric.
       -  No posso. J conversei sobre isso com seu pai.
       -  Eu gostaria tanto!
       -  Sei disso. Mas, depois de tudo que aconteceu, no me sentiria  vontade em sua casa. Sua me pode no gostar. Afinal, Rafael  irmo dela. Sei como deve 
estar se sentindo com relao a ele.
       -  Meu tio Rafael foi quem errou!
       -  Sua me ama seu tio, porque  irmo dela. Pode no concordar com o que ele fez e at recrimin-lo, mas no vai deixar de am-lo por causa disso. Ver a 
mim em sua casa, e o irmo longe, pode ser muito sofrido para ela.
       -  Voc tem razo...
       -  E, depois, h outro motivo.
       -  Que motivo?
       -  Reencontrei uma pessoa que eu no via h anos.
       -  Ela tambm foi importante para voc?
       -  Das mais importantes.
       -   homem ou mulher?
       -  Homem.
       -  Vai ser seu namorado?
       -  Bem... - gracejou - Digamos que sim.
       Eric parou por uns momentos, pensando no que Romero lhe dizia, at que retrucou:
       -  Vai ficar feliz com essa pessoa?
       -  Muito feliz.
       -  Ento, ficarei feliz tambm. Desde que voc no se esquea de mim.
       -   claro que no. Amigos no se esquecem de amigos. Mais tarde, depois que tudo isso acalmar, vou apresent-lo a voc. Vai gostar dele.  msico, uma pessoa 
muito especial.
       -  Como  seu nome?
       -  Mozart.
       -  No, o nome de seu namorado.
       -  Pois ,  Mozart.
       Eric achou muito engraado algum ter o nome de um compositor famoso, ainda mais sendo msico tambm. A conversa acabou se descontraindo, e Plnio, percebendo 
que j no havia mais motivo para continuar afastado, foi at uma carrocinha de sorvete e comprou picols para todos. Voltou para onde os dois estavam e ofereceu 
os sorvetes.
       -  E ento? - perguntou bem-humorado. - Pelo visto, correu tudo bem.
       -  Melhor, impossvel - respondeu Romero.
       -  Voltamos a ser amigos, papai - avisou Eric, todo feliz.
       -  Voltamos, no - corrigiu Romero. - Nunca deixamos de ser. Plnio sentou-se junto deles e participou de sua alegria. Eram
       almas afins, embora no soubessem disso. Estavam ligados desde um passado remoto, mas que estabelecera entre eles fortes vnculos de amor e amizade. E o amor, 
por mais que os anos passem, jamais se consegue esquecer ou apagar.
       
     Captulo 29
       
       No mundo espiritual, Judite abraava Fbio, comovida e feliz.
       -  Conseguimos, no foi, Fbio? O amor se imps sobre o dio e a vingana.
       -  Sim, Judite. Nada como a honestidade de princpios para fazer com que o amor prevalea.
       -  Esses trs... - Apontou para Romero, Plnio e Eric com o queixo. - Que mistrio os une?
       -  O amor, Judite. Isso no  mistrio algum.
       -  Sim, mas como foi que eles conquistaram esse amor?
       -  Voc no se lembra porque no participou dessa parte da vida de Romero, que foi muito importante para seu crescimento.
       -  Mas o que aconteceu? Posso saber?
       -  Vamos voltar para a colnia. L eu lhe revelarei toda a verdade.
       De volta  colnia, Fbio sentou-se com Judite perto de uma bonita fonte e comeou a narrativa. Aos pouquinhos, as imagens daqueles tempos remotos foram aparecendo 
na tela mental de Judite, que, como espectadora, viu e ouviu tudo que acontecera ento.
       Novamente, viu Romero em sua ltima encarnao. Alguns anos haviam se passado desde o incidente com Jnior, quando ele fora morto pelas mos de Judite. Ela 
e Fbio tambm j haviam desencarnado, e Romero contava agora cerca de sessenta anos.
       Era um homem atormentado. Com a chegada da velhice, comeou a questionar seus atos. Quantas e quantas crianas no havia seviciado s para satisfazer seus 
instintos? Meninos e meninas, todos eram vtimas de sua cupidez. Mas algo dentro dele o martelava e o fazia refletir. Por que tivera de se envolver com tanta sordidez? 
Tudo por causa da me. Se ela no o tivesse trocado por aquele falso efeminado, nada daquilo teria acontecido.
       Olhou as mos trmulas e sentiu uma dor aguda no peito. A cela em que se encontrava recendia a ervas perfumadas, que haviam sido queimadas por padre Hiplito 
para purificar o ambiente. A cela era pequena e muito simples. Apenas um catre de ferro coberto por um colcho de palha, um pequeno ba com suas roupas, uma mesinha 
e uma cadeira. Acima de sua cama, uma pequenina janela dava passagem aos raios de sol e ao vento.
       Romero ouviu batidas leves e fixou o olhar na pesada porta de madeira que se abria vagarosamente. Padre Hiplito entrou com seu habitual sorriso e foi sentar-se 
junto a ele, na cama.
       - No quer sair? - indagou. - Est um dia muito bonito l fora.
       -  No, padre, obrigado. Prefiro ficar aqui dentro.
       -  No acha que j est na hora de esquecer o que aconteceu?
       -  No posso. Sou um pecador condenado. No existe perdo para meus crimes.
       -  Sempre existe perdo para Deus, meu filho.
       -  No para mim.
       Padre Hiplito suspirou profundamente e rebateu:
       -  Est na hora da missa das seis. Voc no vem?
       -  Amanh.
       Depois que o padre saiu, Romero foi se debruar na janela e ficou olhando o entardecer. Pouco depois, o sol sumiu por detrs das montanhas, e Romero voltou 
para dentro, fechando os olhos para no rever aquela maldita cena, tapando os ouvidos para no ouvir seu grito angustiado.
       Sua mente se recusava a retroceder, e as lembranas se atropelavam pelos seus pensamentos aos borbotes. No queria mais pensar naquilo, mas sua conscincia 
no permitia que ele se esquecesse. Todos os dias, aquela mesma viso. A viso de algo aterrador que ele mesmo havia cometido. Muitos anos atrs...
       Depois que o carrilho do salo principal de sua manso acabara de dar as seis badaladas, Llio subiu as escadas, levando pela mo uma menina morena e muito 
bonita, que no devia ter mais que doze anos, recm-entrada na puberdade. Chegou  porta do quarto de seu amo, bateu e esperou. Pouco depois, Romero veio abrir. 
Ele vestia apenas um robe de chambre de veludo vermelho e sorriu para a menina.
       -  Vamos entrando, criana. Venha ver o que o titio comprou para voc.
       O criado afastou-se sem dizer uma palavra, e Romero levou a menina para dentro. Sentou-a em seu colo e mostrou-lhe uma boneca linda de porcelana, trajada 
num maravilhoso vestido de noiva, todo bordado com fios de prata, e a menina abriu a boca, extasiada. Jamais havia visto uma boneca to bonita.
       -  E ento? - indagou ele. - Gostou?
       Ela apenas fez que sim com a cabea, alisando os cabelos da boneca. Enquanto a menina se distraa com o brinquedo, Romero comeou a acarici-la. A jovem teve 
um sobressalto e encolheu-se toda, mas lembrou-se das palavras da me e no disse nada. Eram muito pobres, e a me lhe dissera que, se soubesse se comportar direitinho, 
ganharia bonitos presentes do senhor daquela casa. Se no, teria de agentar as pancadas que ela iria lhe dar.
       Com medo da surra da me, a menina aquietou-se e respondeu humildemente quando Romero perguntou seu nome:
       -  Janina, senhor.
       -  timo, Janina. Seja boazinha, e no vou machuc-la.
       Fez com que ela largasse a boneca e continuou a apalp-la, para desespero de Janina. Ela estava apavorada, sentindo as mos daquele bruto sobre sua pele, 
sem entender direito o que estava acontecendo. A me apenas lhe dissera que fizesse tudo que aquele homem mandasse, sem gritar ou se queixar. Mas ele a estava machucando.
       Romero deitou-a sobre a cama e comeou a despi-la, e Janina comeou a chorar. Queria protestar, pedir que ele parasse com aquilo, mas no tinha coragem. Lembrava-se 
apenas das ameaas da me, o que era motivo mais que suficiente para no abrir a boca. Sabia o quanto a me podia machuc-la tambm, e era melhor obedecer.
       Em silncio, suportou tudo que Romero fez com ela, engolindo o pranto e a dor quando ele a deflorou. Nem sabia que aquilo podia existir e comeou a chorar 
baixinho, sentindo-se toda dolorida, por dentro e por fora. Ao final, ele enxugou seu rosto e colocou a boneca em seus braos.
       - J terminamos - avisou friamente. - Pode se vestir e ir embora. E no se esquea de levar a boneca. Foi um presente que voc mereceu.
       Toda dorida, Janina vestiu-se e apanhou a boneca. Nem queria mais lev-la, mas o homem dissera que a levasse. Se desobedecesse, ele podia se zangar e contar 
 me, e ela levaria outra surra. Saiu a passos trpegos, arrastando a boneca, e foi para a cozinha, onde Clorinde, a me, esperava-a com ansiedade.
       -  E ento? - indagou com rispidez. - Como foi?
       Sem saber o que responder, Janina deu de ombros e exibiu a boneca.
       -  Muito bem - prosseguiu a mulher. - Agora v me esperar l fora. Quando eu chamar, voc entra de novo.
       Janina obedeceu e saiu para o ar frio da noite, encolhendo-se perto da porta. Alguns minutos depois, Llio apareceu, com uma bolsinha de dinheiro, e colocou-a 
nas mos da mulher.
       -  Isso  tudo - falou secamente. - J pode ir.
       -  Ainda no - rebateu Clorinde, com ousadia. - Preciso falar com seu patro.
       -  Meu senhor no se envolve com esses assuntos. Se tem algo a dizer, diga a mim, que eu transmitirei o recado.
       -  Tenho algo a dizer, sim. Mas s direi a ele.
       -  Pois, ento, guarde para si o seu segredo. Meu patro no est interessado.
       Comeou a enxot-la com impacincia, at que a mulher agarrou-lhe o brao e falou com dio:
       -  Pergunte-lhe quanto est disposto a pagar pelo meu silncio, por ter dormido com a prpria filha.
       O criado largou-a aterrado e revidou incrdulo:
       -  O que est dizendo? Isso  mentira. Meu senhor no tem filhos.
       -  Pois eu afirmo que Janina  filha dele. E posso provar. V cham-lo imediatamente.
       Pelo sim, pelo no, era melhor chamar Romero. A menina at que era mesmo bem parecida com ele, mas tambm podia ser impresso. Romero levou um susto quando 
o criado lhe contou aquela histria fantstica mas no impossvel. Vestiu-se s pressas e foi ao encontro de Clorinde.
       -  Como ousa me chantagear com uma histria absurda dessas? - esbravejou, logo que entrou na cozinha.
       - No  absurda. Janina  sua filha, e posso provar.
       -  Mas isso  um disparate! Como pretende provar um absurdo desses?
       Ela deu um sorriso sarcstico para Romero e gritou para fora:
       - Janina! Venha aqui imediatamente!
       A menina entrou assustada, apavorando-se ainda mais ao ver Romero ali presente. Achava que havia feito algo errado e agora iria apanhar.
       - Tire a roupa, Janina - ordenou a me, com voz glacial.
       -  O qu?
       - Tire a roupa, vamos!
       -  Pare com isso, mulher! - protestou Romero. - J vi o que tinha de ver da menina.
       -  Faa como eu digo, Janina. Tire a roupa!
       Janina obedeceu. No entendia o porqu de tudo aquilo, mas no ousou contestar. Rapidamente, largou a boneca em cima da mesa e, ajudada pela me, soltou o 
vestido e depois a fina combinao. Rpida e bruscamente, a mulher virou-a e, apontando para um sinal nas costas da criana, em forma de meia-lua, disse eufrica:
       -  Veja!  o mesmo sinal que o senhor tem! Igualzinho. Ou vai negar?
       Romero engoliu em seco. Efetivamente, possua um sinal idntico, de nascena. Janina comeou a chorar e vestiu-se novamente, evitando encar-lo, sem entender 
o que estava se passando.
       -  Ela  sua filha! - vociferou a mulher. - No v a semelhana?
       Apertou o queixo de Janina, forando-a a olhar para cima, e Romero sentiu uma pontada no corao. Como no havia percebido? Ela se parecia mesmo com ele. 
Os mesmos olhos, o mesmo formato do rosto, os mesmos lbios grossos e carnudos.
       -  Saia daqui! - esbravejou ele. - E leve essa criana com voc. Nunca mais quero v-las.
       -  Ah! Agora quer nos expulsar, no  mesmo? H treze anos, quando eu era uma menina e voc me estuprou, no pensava assim, no ? E agora faz o mesmo com 
sua filha, sangue do seu sangue, que bem pode, neste momento, estar tambm carregando um filho seu!
       Janina no entendia nada do que estava acontecendo. Jamais conhecera o pai, e a me vivia acusando-a de ser fruto de uma relao pecaminosa, de um porco imundo 
que a estuprara e depois sumira. E agora aparecia ali aquele homem, a quem fora forada a se entregar, e a me lhe dizia que ele era seu pai? Janina apavorou-se. 
Ter um filho do prprio pai era um pecado terrvel, to terrvel que ela desmaiou, sendo amparada pelo prprio Romero.
       -  Que espcie de me  voc, mulher? - redargiu Romero, perplexo. - Que me, seno um verdadeiro monstro das trevas, seria capaz de empurrar a prpria filha 
para tamanho pecado?
       -  E que pai seria capaz de se deitar com a prpria filha inocente? Uma criana!
       -  Eu no sabia! Como poderia saber?
       -  Poderia saber, sim. Voc a teve em seus braos, alisou seu corpo. Mas estava to envolvido pela luxria que nem se deu conta dessas semelhanas todas. 
Pergunto-lhe, senhor: quantas vezes no acariciou esse sinal, o sinal que o senhor mesmo lhe legou ao colocar dentro de mim a semente que a fez nascer? Vamos, responda!
       Romero sentiu a vista turva e pensou que fosse desmaiar tambm. Aquilo no podia estar acontecendo; no com ele. Sempre fora cuidadoso, no aceitava dormir 
com crianas filhas de mulheres com quem j havia se deitado anteriormente. Como aquilo fora acontecer?
       -  Deixe-me em paz, demnio! - fremiu ele. - Saia daqui! Desaparea!
       -  Se me mandar embora, todos conhecero sua histria. Sabero que Janina  sua filha.
       -  Ningum vai acreditar.
       -  Ah! todos vo acreditar, sim. Tenho provas robustas.
       -  O que voc quer? O que quer para me deixar em paz?
       -  Dinheiro. No  justo que sua filha continue a viver na pobreza em que hoje vive. A filha de um nobre merece coisa melhor.
       -  Quanto? Quanto quer pelo seu silncio?
       -  Ouro. Muito ouro. E jias. Diamantes, esmeraldas. O que tiver para me dar.
       Romero deixou-se cair na cadeira. Estava apavorado, com medo do que poderia lhe acontecer. Mesmo naqueles dias, estuprar a prpria filha era um crime hediondo. 
Olhou para a mulher com desgosto, depois para a filha, desmaiada sobre a mesa, e levantou-se, caminhando com passos arrastados.
       -  Cuide dessa infeliz - falou para o criado. - Vou providenciar o que ela me pediu.
       Com ar pesaroso, foi para seu gabinete particular, retirar ouro e jias do cofre. Demorou cerca de dez minutos. Quando voltou, levou tremendo susto. A mulher 
jazia morta no cho frio da cozinha, o pescoo quebrado, enquanto Llio, debruado sobre Janina, apertava seu pescoo tambm.
       -  Por Deus, Llio! - gritou Romero, enquanto corria para ele e retirava suas mos do pescoo da menina. - O que est fazendo? Ficou louco?
       -  Pensei que tivesse me mandado cuidar delas.
       -  Mas no mandei que as matasse!
       -  No posso permitir que elas estraguem sua vida, patro. Llio era muito fiel. Estava com Romero havia muitos anos e
       era quem "comprava" as crianas para ele. Contudo, Romero no podia permitir que ele matasse sua filha. A me, ainda podia fechar os olhos e fingir que no 
via. Mas Janina era uma criana. E era sua filha. Algo dentro dele despertou sua conscincia, e ele sentiu o peso daquela responsabilidade.
       Cada no cho, Janina chorava ao lado da me morta, esfregando a garganta e tossindo com vigor. Aquele homem quase a sufocara, tentara mat-la, assim como 
matara a me. Comeou a chorar descontrolada, apavorada com sua sorte. Mas nada aconteceu. Romero afastou Llio de seu caminho e ergueu a criana.
       -  No tenha medo - tranqilizou. - Nada ir lhe acontecer.
       -  Mas minha me... est morta! - horrorizou-se. - Foi um acidente, Janina. Isso foi um acidente.
       O acidente no passou despercebido pelas autoridades, e Llio, surpreendido quando tentava se livrar do- corpo, foi preso em flagrante e acabou se suicidando 
na cadeia. Romero negara qualquer envolvimento com o ocorrido, e Llio recebeu sozinho todas as acusaes.
       Janina, grvida, permaneceu na casa de Romero, at que deu  luz um menino, nove meses depois. O parto foi complicadssimo, e ela no resistiu, morrendo logo 
em seguida, sem nem ver o rostinho do filho. Coube a Romero, ento, criar sozinho a criana. Entretanto, atormentado pela culpa, isolou-se da cidade. Vendeu tudo 
que tinha e saiu pelo mundo com o filho nos braos, at que foi recolhido no mosteiro de padre Hiplito, uma alma boa, que vivia para a caridade e o auxlio aos 
pobres.
       E era ali que Romero vivia desde ento, juntamente com o filho incestuoso, agora aos cuidados dos bondosos padres.
       Quando Fbio terminou a narrativa, Judite estava chorando.
       -  Que coisa triste - falou emocionada.
       -  Sim, Judite. O drama pessoal de Romero  dos mais tristes. No entanto, naquela vida mesma, ele comeou a tomar conscincia de seus atos e se arrependeu.
       -  Quem eram aquelas pessoas? No vivi com ele naquela poca, no as conheo muito bem.
       -   verdade. Voc as conheceu somente no astral. Padre Hiplito, alma generosa e amiga, reencarnou nessa vida como o bom doutor Plnio, que tem sido um pai 
para Romero. A seu lado, Eric, que foi o filho incestuoso de Romero, hoje aos cuidados paternos de Plnio.
       -  E aquelas mulheres? Quem so elas?
       -  Clorinde, ambiciosa e venal, capaz de levar a prpria filha ao leito incestuoso, voltou como Rafael, com todo o seu dio acumulado e mal resolvido.
       -  O qu? No acredito.
       -  Pois  a mais pura verdade. Rafael, ou Clorinde, jamais conseguiu perdoar Romero, ainda mais depois de desencarnado, julgando-o culpado pelo seu assassinato.
       -  A resolveu trocar de sexo. Por qu?
       -  H muitas vidas, Rafael vem nascendo na pele de mulheres sensuais e egostas, sempre se utilizando do sexo para satisfazer seus desejos.
       -  Por isso voltou como homem?
       -  Tambm por isso. Para Rafael, assim como para Mozart, foi uma forma de tentar acalmar a sexualidade desenfreada e experimentar um pouco do universo masculino, 
que nunca soube respeitar.
       -  Rafael tambm  homossexual?
       -  No. O que ele fez a Eric foi apenas a resposta ao dio que sentiu por ter sofrido o que sofreu nas mos de Romero. Em outras palavras, quis pagar na mesma 
moeda.
       -  S por isso?
       -  No. Eram inimigos de outras vidas, porque Eric j o havia estuprado quando fora mulher.
       -  O que ser dele?
       -  Tambm est aprendendo. Se tudo correr bem, com o auxlio dos amigos espirituais, vai conhecer a moa certa, casar-se e receber como filho o homem que 
o matou.
       -  O criado?
       -  Esse mesmo. O plano espiritual encadeia as coisas de forma a que se restabelea o equilbrio perdido. Depois da morte de Rafael, a menina, Janina, permaneceu 
aos cuidados de Romero, sem, contudo, perdo-lo pelo abominvel incesto a que fora submetida. Ainda mais porque carregava no ventre o fruto de seu pecado. Essa mesma 
menina reencarnou como Lavnia, que, apesar de ter sido maltratada por Rafael em outra vida, assumiu o compromisso de orient-lo, porque j estava mais bem preparada 
para tanto. Por isso, conseguiu am-lo e cri-lo da melhor forma que pde. Tentou perdoar Romero e at que foi mais bem-sucedida nesse intento, embora, por vezes, 
os velhos ressentimentos voltassem, o que fez com que ela se virasse contra ele na primeira oportunidade que teve de acus-lo. - Fbio fez uma pausa e prosseguiu: 
- E ainda h Eric. Como filho de Romero naquela vida, foi verdadeiramente amado pelo pai, amor que perdura at hoje. Da mesma forma, Plnio, que ajudou em sua criao, 
tambm desenvolveu por ele forte afeto. E Lavnia, se no tivesse desencarnado, t-lo-ia amado imensamente, despertando dentro dela a beleza do amor materno. Apenas 
Rafael no conseguiria alcanar esse amor e tentaria utilizar-se do neto para extorquir ainda mais dinheiro de Romero.
       -  Creio que Romero j deu sua quota de sofrimento. Foi o nico que foi preso e acusado injustamente. Por qu?
       -  Porque se sentiu culpado pela morte de Llio, o criado, que se suicidou na cadeia.
       -  Mas Romero no havia matado ningum!
       -  No. Mas em seu ntimo sentiu-se aliviado ao ver a mulher morta. E mais ainda quando todas as acusaes recaram sobre Llio, sem que Romero dissesse uma 
palavra em sua defesa. Negou at que conhecia a vtima.
       -  Talvez ele tenha exagerado nessa culpa. No precisava ter passado por tudo que passou.
       -  Ningum passa pelo que no precisa. Se ele passou, foi porque julgou importante.
       -  De todos, ainda acho que Romero foi quem mais sofreu.
       -  No h como se medir o sofrimento, porque sua intensidade depende do que cada um j consegue suportar. Mas, no caso de Romero, essa foi a forma que ele 
encontrou de se ajustar com a vida.
       -  Ser que todo mundo que troca de sexo vira homossexual?
       -  Em absoluto! Isso ocorre muitas vezes porque o esprito ainda est muito apegado a determinado sexo e no consegue se adaptar  mudana que ele mesmo se 
imps. No consegue compreender que a felicidade no est ligada  forma fsica ditada pelo sexo, no aceita perder o masculino ou o feminino. Muitas vezes, sente-se 
um estranho em seu prprio corpo, como se o veculo carnal que ocupa no lhe pertencesse, como se fosse prisioneiro de um corpo fsico que est em desacordo com 
seu desejo. Pensa que s nascendo como homem ou mulher  que se sentir completo e inteiro, e no quer mudar. No se conforma em experienciar coisas diversas, porque 
no quer se desapegar da situao de homem ou mulher que, um dia, foi a fonte de seus maiores prazeres.  como se a materialidade do sexo se embrenhasse em seu ser 
a tal ponto que ele no conseguisse perceber a sutileza do esprito, despertando a conscincia apenas para o que  carnal. Mas isso no  uma regra, e cada um vive 
aquilo que precisa viver. H vrios motivos por que os espritos escolhem nascer homossexuais. H pessoas que s vm viver o preconceito; h pessoas que abusaram 
do sexo, seu e de outros; h pessoas at que j mataram em nome da chamada virilidade. Veja Romero, por exemplo. Ele vem reencarnando como homem heterossexual h 
muitas vidas, mas somente nesta se tornou homossexual. Foi a forma que escolheu para tentar se libertar de tantas culpas, principalmente da pedofilia e do apego 
excessivo a voc. Cada caso  um caso, Judite, e no h como estabelecer uma regra.
       -  E nada disso  errado?
       - Tudo est certo na criao de Deus, e todas as coisas que existem no mundo trabalham em favor de nosso crescimento. A vida dispe de muitos mtodos para 
nos auxiliar, cabendo a ns optar por aqueles que mais se adaptam a nossos propsitos.
       - No poderamos chamar o homossexualismo de doena?
       -  No  uma doena.  claro que h um redirecionamento na energia que gera o desejo sexual, e a causa desse redirecionamento est associada s experincias 
que cada um precisa viver. Homens e mulheres so seres de dupla polaridade, onde vai predominar, energeticamente, o plo que  prprio de seu sexo, permanecendo 
o outro em estado latente e germinal. Mas ningum  s masculino ou s feminino. Todos nascemos dotados dessa duplicidade de foras, e  preciso que elas estejam 
em harmonia. Tudo em ns, como no universo, se manifesta em dualidade. Se temos um ponto masculino, havemos de possuir o contraponto feminino, e vice-versa, o que 
 nosso equilbrio e nos auxilia na utilizao saudvel dessas duas foras. H homens heterossexuais que so extremamente femininos, assim como h homossexuais de 
atitudes pronunciadamente masculinas. E da? Ambas as energias esto l, na mesma proporo, embora vibrando em intensidades diferentes em cada um. A vida coloca 
diante de ns situaes que desafiam nosso feminino e nosso masculino, e o desejo sexual  uma delas. Se um homem se sente atrado por outro homem,  claro que algo 
de seu feminino vibra mais nesse momento, porque ele tem essa polaridade dentro dele, s que no to latente. Por outro lado, na relao em famlia, por exemplo, 
pode ser o sustento do lar, no s financeira como emocionalmente, "segurando a barra" de todo mundo, como se diz por a. Nesse momento, o feminino, que vibra com 
mais intensidade no desejo sexual, cede lugar ao masculino, que precisa se sobrepor para garantir a subsistncia. - Fbio fez breve pausa e concluiu: - Mas o que 
conta verdadeiramente para o esprito  a forma como o ser humano se conduz diante da vida, porque s aqueles que j aprenderam a abrir o corao para o amor  que 
so capazes de vivenciar todas essas experincias com dignidade e respeito.
       Judite calou-se por uns instantes, refletindo nas palavras de Fbio.
       - Tudo isso  muito confuso, Fbio. Para mim, o que importa mesmo  o amor.
       -  Tem razo. O amor transcende essas coisas todas e no faz qualquer distino entre as pessoas. Pode at se revelar de formas diferentes, mas ser sempre 
um s.
       -   verdade...
       -  Por falar nisso, como vai indo seu coraozinho com relao a Jnior?
       -  Tenho orado muito por ele. Todas as manhs, aproveitando a fora de renascimento do sol, aproveito para enviar-lhe vibraes de amor e de perdo, conforme 
voc me orientou.
       -  E tem feito isso muito bem, com muita sinceridade. Tanta, que Jnior j comea a ver as coisas com mais clareza. Est se cansando de ser escravo e no 
se satisfaz mais com as drogas.
       -  O que isso quer dizer, exatamente?
       -  Quer dizer que, em breve, poderemos resgat-lo. Seu corao anseia pela libertao, e ele tem pensado muito em voc e em Romero. Est muito arrependido 
do que fez, principalmente a voc. As vibraes de perdo que voc est lhe enviando tm servido para que ele consiga ao menos pensar em perdoar-se a si mesmo.
       -  Por que no vamos tir-lo de l agora, ento?
       -  Ainda no. Precisamos esperar que ele nos chame. Quando ele quiser mesmo sair de l, vai se voltar para Deus e pedir ajuda.
       -  Ser que vo deix-lo partir? Quero dizer, sei que os espritos das trevas adoram escravizar os ignorantes, como Jnior.
       -  Quando Jnior desejar alcanar a luz, no haver esprito das trevas que o impea. Se tentar, esse esprito poder at vir junto.
       -  Ser? Acho-os to empedernidos...
       -  Muitos so mesmo, porque o poder das trevas  algo inebriante. Mas nada se compara ao bem-estar e  felicidade que emanam da luz, e muitos espritos se 
vem tentados a acompanh-la, tamanho seu poder de conforto e atrao.
       Judite calou-se novamente, impressionada com as palavras de Fbio. No fundo, ansiava pelo momento em que iriam resgatar Jnior. J no lhe tinha mais dio. 
Ao contrrio, comeava mesmo a am-lo. Porque conseguira compreender.
       
     Captulo 30
       
       Romero acabou mudando-se para o hotel em que Mozart estava hospedado, e os dois, sentados na saleta, faziam planos para o futuro. Romero havia conseguido 
destrancar a matrcula e concluiria o curso de medicina no fim do semestre.
       Conversavam animados, quando o telefone tocou. Mozart foi atender e, com uma das mos sobre o bocal do fone, disse para Romero:
       -   sua me. Est l embaixo, pedindo para falar-lhe.
       -  O hotel permite que ela suba?
       -  Claro que sim.
       Mozart deu ordens para que a deixassem subir, e ela apareceu poucos minutos depois. Aps cumpriment-la, Mozart pediu licena e foi para o quarto.
       -  Mame! - exclamou Romero, abraando-a com efuso. - Vencemos! Eu no lhe disse que era inocente?
       -  Eu sabia, meu filho. No fundo, sempre soube que voc no era nenhum marginal.
       -  Obrigado. Sua compreenso e sua ajuda foram fundamentais para que eu continuasse a lutar. No fosse por voc, no sei o que teria sido de mim.
       Nomia enxugou discretas lgrimas e afagou as faces do filho.
       -  E o que pretende fazer? - perguntou, disfarando a emoo.
       -  Mozart e eu estvamos combinando. Ele vai esperar at que eu termine a faculdade, e ento vamos viajar para a Europa.
       - No! Voc no pode me deixar agora!
       -  Lamento, mas  a nica sada. Mozart tem vida feita l.  msico consagrado, integra a filarmnica de Salzburgo. No pode deixar tudo isso de lado. E eu, 
o que tenho? Nada. Minha vida mal comeou e j est destruda.
       -  No diga isso.
       -  E verdade. Que pais levariam os filhos a meu consultrio depois de descobrirem do que fui acusado?
       -  Mas voc  inocente! A Justia provou isso.
       - Na verdade, o doutor Plnio abandonou a causa. No fui propriamente absolvido. Sempre restar uma dvida no corao das pessoas, e, pelo sim, pelo no, 
ningum confiar os filhos a mim.
       -  E voc acha que na Europa vai ser diferente?
       -  Mozart vai me ajudar. Tem muitos conhecidos e vai me arranjar residncia num hospital. Depois, vou fazer ps-graduao por l mesmo. Quem sabe, at um 
mestrado ou doutorado?
       -  Vou sentir sua falta... - choramingou.
       -  Sei disso. Tambm vou sentir a sua. Mas no h outro jeito. No posso pedir a Mozart que abandone tudo que conquistou e no estou disposto a me expor ainda 
mais ao preconceito. Considero-me quite com a sociedade por ser homossexual.
       Com a voz embargada, Nomia indagou:
       -  Quando vo partir?
       -  Se tudo correr bem, no final de julho.
       -  To cedo assim?
       -  No posso esperar mais. J sou um homem. Perdi tudo que tinha, no tenho mais estgio nem emprego. O que espera que eu faa? Que viva  custa de Mozart?
       -  Gostaria que voc ficasse perto de mim. J perdi tanto tempo... Gostaria de participar do resto de sua vida.
       -  Lamento, mas no posso ficar. No me faa sentir culpado por querer viver minha vida.
       -  No se trata disso.  que vou sentir sua falta.
       -  Vou escrever para voc. Virei visit-la nas frias, e quem sabe voc tambm no possa ir  ustria? Dizem que  lindo por l.
       Nomia deu um suspiro de decepo. No esperava que ele partisse. Pensava t-lo junto de si pelo resto da vida, se no em sua casa,
       ao menos por perto. Mas compreendia a deciso dele. Ela e Silas haviam-no ignorado durante todos aqueles anos, perderam sua juventude, e agora ela no tinha 
o direito de lhe cobrar nada. Seria egosmo de sua parte exigir que ele pensasse nela e ficasse. No tinha esse direito. Ainda que ele houvesse vivido sob seu teto 
durante todo aquele tempo, no teria o direito de lhe pedir aquilo. Romero tinha sua vida, e era direito seu viv-la como e onde quisesse. A ela, s caberia respeitar.
       -  Voc est certo, meu filho - concordou ela a contragosto. - Sou eu que estou sendo egosta. No tenho esse direito.
       -  No se trata disso.
       -  Sei que no. Trata-se de sua vida, e vou respeitar o que voc decidir. Mas no posso dizer que no sentirei sua falta. Voc  tudo que me restou...
       -  Voc tem papai. Tm um ao outro.
       -  Seu pai  um homem duro, Romero. No sei como ser nossa vida daqui para a frente.
       -  Porque diz isso?
       -  No lhe contei que ele descobriu sobre o dinheiro?
       -  No.
       -  Pois descobriu. E ficou uma fera.
       -  Lamento muito. No queria que as coisas acontecessem assim.
       -  Mas consegui me impor. Dessa vez, consegui. Disse a ele que voc  meu filho e que vou v-lo a hora que quiser.
       -  Voc fez isso?
       -  Fiz. De que outro jeito estaria aqui hoje, conversando com voc sem preocupaes?
       -  Talvez tenha sido bom. Para voc e para ele. Papai precisava mesmo de algum que o enfrentasse. Quando Judite estava viva, fazia bem isso.
       - Judite era filha dele e, de certa forma, devia-lhe obedincia. Eu no.
       -  Tem razo. Fico feliz que tenha conseguido se impor.  muito ruim viver sob o domnio de algum.
       -  Isso j no acontece mais comigo. Continuo a respeitar seu pai, mas no mais o obedeo cegamente. No sou propriedade dele.
       Conversaram por mais algum tempo, aliviados de tantas culpas e dissabores.
       No mundo invisvel, Judite acompanhava tudo com satisfao. O que mais queria, no momento, era reconciliar a famlia.
       -  Pena que meu pai seja to cabea-dura - queixou-se a Fbio.
       -  Por enquanto.
       -  Acha que ele vai amolecer?
       -  Tenho certeza. Espere e ver.
       -  Minha me est feliz. Reconquistou o filho, que nunca lhe saiu do corao.
       -  Sua me deu um grande passo em sua jornada. J no  mais a mulher submissa de outrora. Conseguiu impor sua vontade sem brigas nem dios. Simplesmente 
aprendeu que precisa se fazer respeitar. Do contrrio, ningum mais a respeitar. V como agora seu pai a respeita muito mais do que antes?
       -   verdade.
       -  Agora venha. Temos algo importante a fazer.
       -  O qu?
       - Lembra-se de quando lhe disse que deveramos esperar at que Jnior nos chamasse? - Ela assentiu. - Pois chegou o momento.
       Emocionada, Judite acompanhou Fbio at o astral inferior, onde Jnior vivia, cercado de espritos pouco esclarecidos, envolvido com drogas. Ao se aproximarem, 
Jnior sentiu algo estranho no ar e levantou a cabea, olhando na direo em que Fbio e Judite se encontravam, sem v-los, contudo.
       -  Quem est a? - indagou com voz pastosa, apontando para o invisvel. - Vamos, aparea!
       Aos poucos, a viso de Jnior foi se desanuviando, e a imagem de Judite e Fbio foi se tornando visvel. A princpio, Jnior no a reconheceu, tamanho o estado 
de perturbao em que se encontrava, fruto da essncia das drogas que absorvia.
       -  Quem so vocs? - tornou a perguntar, tapando parcialmente os olhos ofuscados. - No consigo v-los direito.
       -  Sossegue - acalmou Fbio. - Viemos ajud-lo.
       -  Vocs no so daqui, so? Nunca os vi por essas paradas.
       -  No moramos aqui, se quer saber. Viemos de longe s para v-lo.
       -  Por qu? Quem os enviou?
       -  Suas preces.
       -  Minhas preces? No estou entendendo.
       -  Voc no tem rezado e pedido ajuda a Deus? - Jnior fez que sim, completamente confuso. - Pois, ento? A ajuda veio.
       -  Vocs no se parecem nada com Deus.
       -  Somos seus enviados.
       -  Pensei que seus enviados fossem anjos.
       -  Podemos ser o que voc quiser.
       Jnior fitou-os desconfiado, primeiro Fbio, depois Judite. Ao fitar o esprito da moa, seus olhos se detiveram, e ele a olhou mais atentamente.
       -  Voc... - hesitou. - No a conheo?
       -  Creio que j nos encontramos.
       -  Onde? Onde foi que j vi seu rosto?
       -  Foi h muitos anos. Isso no importa mais.
       -  Importa, sim. Quero saber quem  voc. No me lembro muito bem, mas sinto que voc foi muito importante em minha vida... - Calou-se aterrado, recuando 
at o fundo da caverna. - Agora me lembro! Voc ... voc ...
       - Judite. Sim, sou Judite.
       -  Meu Deus! O que est fazendo aqui? Veio se vingar?
       -  Ela parece algum que quer se vingar? - interveio Fbio. - Olhe bem para ela e diga: Judite parece ter vindo at aqui, depois de tantos anos, para se vingar 
de voc?
       -  Mas eu... eu a matei... Ela deve me odiar.
       -  No odeio voc - falou Judite com convico. - Do contrrio, no teria vindo at aqui. Se vim, foi porque voc pediu ajuda e eu estava em condies de 
ajudar.
       -  No pedi ajuda a voc...
       -  Pediu, sim - rebateu Fbio. - Quantas e quantas vezes sua alma no pediu perdo a Judite pelo que lhe fez em vida? No  verdade?
       -  Isso  outra coisa. Estou arrependido. No devia ter feito o que fiz. Eu estava enlouquecido pela raiva. No raciocinava direito. Mas no pedi a ela que 
me ajudasse. Jamais faria isso.
       -  Por que no? 
       -  Porque... porque no mereo. Imagine se um assassino como eu vai merecer o auxlio justamente de sua vtima? Eu no teria esse atrevimento.
       -  Pois no  atrevimento nenhum - esclareceu Judite. -  arrependimento sincero, primeiro passo para o perdo, preparao para o amor.
       -  Amor? Isso  demais para mim.
       -  O amor no  demais para ningum.
       -  Por que no vem conosco? - convidou Fbio. - Vai se sentir melhor.
       -  No posso. No mereo.
       -  Se no merecesse, a ajuda no teria chegado at voc.
       -  Tem certeza de que vocs esto aqui para ajudar?
       -  Por que no paga para ver?
       -  Tenho medo.
       -  O que tem a perder? Nada pode ser pior do que a vida que leva aqui.
       -  Isso no  vida.  apenas a continuao da morte.
       -  Que seja. Acha que pode existir um lugar pior que este? Ou ser que prefere continuar executando os servicinhos sujos de que o incumbem, em troca de um 
pouco de droga?
       -  A droga me d a sensao de vida.
       -  Como voc mesmo disse,  apenas uma sensao. Voc est morto, no tem mais um corpo de carne. Tudo que vem da matria fsica, neste momento,  ilusrio 
para voc. So coisas que voc plasma ou cria com sua mente.  tudo parte de uma realidade reconstituda. No  natural.
       -  Venha conosco - incentivou Judite. - Garanto que no ir se arrepender.
       -  H drogas nesse lugar?
       -  No. H conforto.
       -  E se eu sentir falta da droga?
       -  H pessoas encarregadas de ajud-lo nesse processo de desintoxicao. Iro ajud-lo, voc ver.
       -  E se eu no suportar?
       -  Vai ter de se esforar. Se voc quiser mesmo mudar, libertar-se do vcio, vai precisar fazer uma forcinha. Mas ser melhor do que esse torpor em que voc 
est vivendo. Mais um pouco, e j no ter nem mais um corpo fludico para lhe garantir a forma humana. Quer virar uma massa disforme de energia, sem conscincia 
nem vontade?
       - No!
       -  Pois, ento, por que no se liberta desse jugo antes que isso acontea?
       -  Vou ser bem tratado l? No serei obrigado a fazer nenhum tipo de servio degradante?
       -  No. Mais tarde, se voc quiser, poder trabalhar em prol de seu crescimento e de seus semelhantes.
       - Tem certeza?
       -  Absoluta.
       Jnior pensou por alguns instantes, at que se decidiu:
       -  Vou com vocs. O que mais quero agora  readquirir um pouco da dignidade perdida. Chega de ser tratado feito um bicho, drogado feito um demente. Quero 
voltar a sentir a brisa da manh em meu rosto.
       -  D-nos a mo, ento - pediu Fbio, estendendo para ele uma das mos.
       A seu lado, Judite estendeu a outra. Jnior ainda titubeou por uns instantes, mas acabou colocando-se entre ambos e segurando suas mos. Na mesma hora, viu-se 
transportado a um mundo completamente diferente daquele em que estava. Tudo ali era muito branco, fresco e ensolarado. Inspirou profundamente, sentindo o ar penetrar 
em seus pulmes, aliviado e contente. Sentia-se agora mais confiante. Sabia que no fora enganado. Fizera um grande mal a Judite, mas ela falara a verdade quando 
lhe dissera que no lhe guardava raiva. Queria mesmo ajud-lo.
       Alguns enfermeiros vieram ajud-lo e conduziram-no a um quarto muito limpo e perfumado. Deitaram-no na cama e ministraram-lhe passes calmantes. A seu lado, 
Judite fitava-o com compaixo. Jnior estendeu a mo para ela, e Judite apertou-a. Ele sentiu-se seguro novamente, fechou os olhos e, enfim, adormeceu.
       
     eplogo
       
       Lavinia vinha chegando das comprar e encontrou Plnio e Eric prontos para sair, o marido dando o ltimo retoque no penteado. Eric, sentado na cama dos pais, 
aguardava pacientemente at que ele terminasse.
       -  Vo a algum lugar? - perguntou ela, curiosa.
       -  Vamos nos despedir de Romero - respondeu Eric. -  hoje que ele vai para a Europa.
       -  Ah... Digam-lhe que mandei lembranas.
       No conseguia dizer mais. Desde que Eric acusara Rafael, no se atrevera a encontrar-se com Romero. Ser-lhe-ia extremamente penoso se ele continuasse vivendo 
em sua casa. No lhe guardava rancor, porm. Sabia que o que Rafael fizera fora muito srio, no apenas para Romero mas, principalmente, para o filho.
       Rafael saiu de casa, e ela raramente o via. Estava magoada e ferida, trada em sua confiana. Confiara cegamente no irmo, e ele lhe aprontara aquela perfdia. 
Mais tarde, soube por intermdio de amigas que ele conseguira reerguer sua firma de arquitetura graas a dinheiro emprestado ao banco utilizando-se do nome e do 
prestgio de Plnio. Disseram que ele estava mais interessado no trabalho, mais responsvel e menos irrequieto. Conhecera at uma moa direita, com quem andava saindo 
e falava at em namoro srio.
       Mesmo com Rafael longe, Lavnia no conseguia encarar Romero. Sentia-se envergonhada pelo que dissera e no se atrevia a pedir-lhe desculpas. Fora preconceituosa 
e mesquinha, mas o orgulho ainda era um entrave para ela. Por mais que tentasse, no tinha foras para olh-lo de frente. Por isso, preferia no se encontrar pessoalmente 
com ele. As poucas vezes em que ele fora  sua casa, visitar o marido e o filho, levando aquele amigo, ela dera uma desculpa e sara, permanecendo na rua at que 
eles se fossem. Tinha vergonha de si mesma.
       Eric, por sua vez, dera-se muito bem com Mozart. Uma simpatia mtua e genuna logo fluiu entre eles, e os dois conversaram como se j fossem velhos conhecidos.
       S que, agora, Romero ia partir. Plnio e Eric iam ao aeroporto despedir-se, mas Lavnia, no. Quando os dois estavam prontos, ela lhes deu um beijo e pediu 
novamente que transmitissem a Romero seus votos de uma boa viagem. Ainda era cedo, mas eles no queriam atrasar-se e perder a oportunidade de abraar o amigo pela 
ltima vez.
       Entrementes, Nomia tambm se preparava para sair. J havia terminado de se aprontar e verificava as coisas na cozinha.
       -  Aonde voc vai toda arrumada desse jeito? - quis saber Silas, fitando-a com ar desconfiado.
       -  Vou me despedir de meu filho no aeroporto.
       -   hoje que ele vai embora?
       -  , sim, e fiquei de ir ao embarque. Mas no se preocupe. Deixei o jantar pronto nas panelas.  s esquentar.
       -  A que horas parte o vo?
       -  s onze da noite.
       -  To tarde!
       -  Vo internacional  assim mesmo. Os horrios so todos trocados. Deve ser por causa do fuso.
       -  Por que voc vai agora, ento?
       - J so oito horas. No quero chegar l e descobrir que ele j entrou na sala de embarque.
       Voltou para o quarto e apanhou a bolsa. Conferiu o dinheiro e deu um beijo de leve no rosto do marido.
       -  At mais tarde. No se preocupe comigo.
       -  Vai voltar sozinha?
       -  O que posso fazer? Tomo um txi no aeroporto mesmo. Dizem que os txis de l so seguros. Bom, agora chega de conversa. No quero me atrasar.
       Beijou-o novamente e saiu, deixando Silas aparvalhado, parado no umbral da porta.
       No aeroporto, o movimento era intenso. Nomia seguiu as instrues que Mozart lhe dera, pediu algumas informaes e encontrou a rea de embarque dos vos 
internacionais. Romero e Mozart estavam no balco da companhia area, fazendo o check in, e ela parou do lado de fora, esperando at que eles terminassem.
       -  Mame! - exclamou ele, vendo-a parada perto de uma pilastra. - Pensei que no viesse.
       -  Ora, Romero, como pde pensar uma coisa dessas? No disse que vinha?
       -  Romero ficaria desapontadssimo se a senhora no aparecesse - informou Mozart.
       -  No podia deixar de vir me despedir de meu filho. E de voc tambm, Mozart, que j considero como um filho tambm. Afinal, vo ser... - calou-se, confusa 
e envergonhada, e os dois riram do rubor que lhe subia s faces.
       -  No tem importncia, me. Mozart e eu, acima de tudo, somos amigos.
       -   isso mesmo, Dona Nomia. A senhora no precisa ficar constrangida.
       Olhando por cima do ombro da me, Romero avistou Plnio chegando com Eric. O menino foi quem primeiro o viu e correu para ele, atirando-se em seus braos. 
Romero rodou com ele no ar e estalou-lhe um beijo na bochecha.
       -  Que bom que vieram tambm. Vou sentir muito sua falta, Eric.
       -  E eu, a sua.
       Plnio aproximou-se tambm e enlaou-o num abrao carinhoso e paternal, e Romero encostou o rosto em seu ombro, enxugando duas discretas lgrimas.
       -  No sinta vergonha de chorar por aqueles que ama - falou Plnio. - So as lgrimas mais merecidas.
       Romero no agentou e desabou num pranto sentido e emocionado. Chorava, no de tristeza, mas de pura emoo. Via-se cercado de amigos que realmente o amavam, 
que se importavam com ele, o que o deixou bastante sensibilizado. Plnio puxou-o gentilmente pelo brao, e foram juntar-se ao resto do grupo. Ficaram conversando, 
at que Mozart apontou para a frente e anunciou:
       -  Olhe s quem vem vindo l.
       -  No! - disse Romero, olhando atnito para a figura que se aproximava. - A senhora era a ltima pessoa que esperava ver aqui.
       - No podia deixar de me despedir. Voc foi um caso muito interessante, Romero.
       Maria da Glria abraou-o efusivamente, e ele correspondeu com alegria. Contudo, no deixou de sentir uma pontada de tristeza. No estava sendo sincero quando 
dissera que ela era a ltima pessoa que ele esperava ver. Na verdade, s no contava com a presena do pai.
       -  A que horas parte o vo? - indagou Maria da Glria.
       - s onze horas.
       -   direto?
       -  No. Faremos uma conexo em Paris, para Viena. De l, iremos de trem at Salzburgo.
       -  Que maravilha! Desejo-lhes toda a felicidade do mundo.
       -  Obrigado.
       As horas iam avanando. O grupo foi junto tomar um caf, at que chegou a hora do embarque.
       - J so dez horas - avisou Mozart. - Est na hora de ir.
       - J? - lamentou Nomia. - Que pena.
       - No fique triste, Dona Nomia - confortou Mozart. - Voltaremos no ano que vem.
       -  Quem sabe, me, voc no poder nos visitar um dia? - sonhou Romero.
       -  Quem me dera... Mas no creio que isso seja possvel.
       -  No diga isso - objetou Plnio. - Quando a gente acredita, consegue.
       Chegaram ao porto de embarque, e Romero abraou a todos novamente, demorando-se um pouco mais nos braos de Plnio. Aquele era o pai que jamais tivera. Soltou-o 
com lgrimas nos olhos e virou-se para dentro, dirigindo-se para o porto. Antes de entrar, porm, escutou algum gritar seu nome e voltou-se abruptamente. Correndo 
pelo corredor do aeroporto, todo esbaforido, vinha Silas, vermelho e agitando as mos, gritando feito um louco:
       -  Romero! Romero! Espere, meu filho, no v ainda!
       O rapaz estacou onde estava, e Mozart teve de segur-lo para no cair. A ltima pessoa no mundo que esperava ver ali aparecera subitamente, contrariando todas 
as suas expectativas... mas no sua esperana. Todos pararam para ver a cena. Silas chegou suado e ofegante, quase sem conseguir falar.
       -  Pai... - balbuciou Romero. - Voc veio...
       -  Quase no vim. Mas na ltima hora me decidi. No podia perder a oportunidade de rev-lo, ainda que pela ltima vez. J estou velho... sabe-se l se o verei 
de novo algum dia...
       - No diga isso. Voc ainda  um homem forte.
       -  Sou um homem tolo, isso sim. Perdi os melhores anos de sua vida, e sabe por qu? Porque fui orgulhoso. Porque esperava de voc algo que voc jamais poderia 
me dar. Queria que voc seguisse meu exemplo de virtude, aquilo que eu achava que era bom. Mas voc no quis, e eu o condenei por isso. No consegui compreend-lo 
e acho que ainda no compreendo. Mas vou me esforar. Vou fazer o possvel e o impossvel para entender por que voc  assim. Os motivos que levaram voc a escolher 
esse tipo de vida ainda so muito confusos para mim. Mas de uma coisa, agora, tenho certeza: voc  e sempre ser o meu filho. No importa o que voc faa.
       -  Pai...
       Sem conseguir dizer nada, Romero abraou-o. E chorou, muito mais do que j havia chorado em toda a sua vida.
       -  Pode me perdoar? - continuou Silas, tambm em lgrimas. - Pode perdoar um velho idiota e cabea-dura, que s agora entendeu o que  amar?
       - No h o que perdoar, pai. Voc agiu conforme suas crenas. No se culpe por isso.
       - Voc  um bom filho - acrescentou emocionado, dando-lhe tapinhas na face. - Depois de tudo que fiz, ainda quer me justificar.
       Abraou-se a Romero novamente, chorando em seu ombro feito uma criana. Como se arrependia do que fizera! Se pudesse, voltaria no tempo e faria tudo diferente. 
Mas o tempo no voltava atrs, e era preciso aguardar at que nova oportunidade surgisse.
       Ouviram uma voz metlica soar pelo alto-falante, anunciando o vo de Romero.
       -  Venha, Silas - chamou Nomia, tambm chorando. - Ele precisa partir.
       Silas soltou-se dele e beijou-o nas duas faces. Enxugou os olhos e virou-se para Mozart, estendendo-lhe a mo, que o outro apertou, em sinal de amizade.
       -  Cuide bem de meu filho, rapaz - ordenou, com um misto de gracejo e tristeza. - Se no, vai se entender com o pai dele depois.
       Todos riram, e Mozart respondeu com bom humor:
       -  Pode deixar, seu Silas, que cuidarei dele dreitinho.
       Foi um custo para que Romero conseguisse desvencilhar-se da famlia e dos amigos. Uma parte de seu corao queria partir e outra queria ficar. Tinha vontade 
de aproveitar a onda de afeto que os atingira, mas sabia que no poderia viver sem Mozart. Seu lugar era ao lado dele, e era com ele que iria ficar. Deu um ltimo 
adeus e entrou.
       Depois que eles sumiram na sala de embarque, todos se dirigiram ao terrao para ver o avio partir. Em alguns minutos, viram o avio movimentar-se e taxiar 
pela pista. A aeronave foi ganhando velocidade, avanando at elevar o nariz e erguer-se no ar. Romero partia para o novo e o desconhecido.
       Uma lgrima brilhou nos olhos de cada um dos presentes, enquanto o avio subia cada vez mais alto, suas luzes piscantes de encontro s estrelas. Num ltimo 
gesto de prematura saudade, ergueram as mos ao mesmo tempo e lhe acenaram adeus.
       
Fim


















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